Bernardo
Guimarães
A Escrava Isaura
Capítulo XIX
- Olha como arranjas
isso, Rosa; esta rapariga é mesmo uma
estouvada; não tem jeito para nada. Bem mostras que não
nasceste
para a sala; o teu lugar é na cozinha.
- Ora vejam lá a figura de quem quer me dar regras!... quem te
chamou aqui, intrometido? O teu lugar também não é
aqui, é lá na
estrebaria. Vai lá governar os teus cavalos, André, e não
te intrometas
no que não te importa.
- Cala-te dai, toleirona; - replicou André mudando de lugar
algumas cadeiras. - O que sabes é só tagarelar. Não
é aqui o lugar
destas cadeiras... Olha como estão estes jarros!... ainda nem alimpaste
os espelhos!... forte desajeitada e preguiçosa que és!...
No tempo de
Isaura andava tudo isto aqui que era um mimo; fazia gosto entrar-se
nesta sala. Agora, é isto. Está claro que não és
para estas coisas.
- Essa agora é bem lembrada! - retorquiu Rosa, altamente
despeitada. - Se tens saudades do tempo de Isaura, vai lá tirá-la
do
quarto escuro do tronco, onde ela está morando. Esse decerto ela
não
há de ter gosto para enfeitá-lo de flores.
- Cala a boca, Rosa; olha que tu também lá podes ir parar.
- Eu não, que não sou fujona.
- Por que não achas quem te carregue, se não fugirias até
com o
diabo. Coitada da Isaura! uma rapariga tão boa e tão mimosa,
tratada
como uma negra da cozinha! e não tens pena dela, Rosa?
- Pena por que, agora?... quem mandou ela fazer das suas?
- Pois olha, Rosa, eu estava pronto a agüentar a metade do castigo
que ela está sofrendo, mas na companhia dela, está entendido.
- Isso pouco custa, André; é fazer o que ela fez. Vai, como
ela,
tomar ares em Pernambuco, que infalivelmente vais para a companhia
de Isaura.
- Quem dera!... se soubesse que me prendiam com ela, isso é
que era um fugir. Mas o diabo é que a pobre Isaura agora vai deixar
a
nós todos para sempre. Que falta não vai fazer nesta casa!...
- Deixar como?
- Você verá.
- Foi vendida?...
- Qual vendida!
- Alheada?
- Nem isso
- Está forra?...
- Que abelhuda!... Espera, Rosa; tem paciência um pouco, que
hoje mesmo talvez você venha a saber tudo.
- Ora ponha-se com mistérios... então o que você sabe
os outros
não podem saber?...
- Não é mistério, Rosa; é desconfiança
minha. Aqui em casa não
tarda a haver novidade grossa; vai escutando.
- Ah! ah! - respondeu Rosa galhofando. - Você mesmo está
com cara de novidade.
- Psiu!... bico calado, Rosa!... ai vem nhonhô.
Pelo diálogo acima o leitor bem vê, que nos achamos de novo
na
fazenda de Leôncio, no município de Campos, e na mesma sala,
em
que no começo desta história encontramos Isaura entoando
sua canção
favorita.
Cerca de dois meses são decorridos depois que Leôncio fora
ao
Recife apreender sua escrava. Leôncio e Malvina tinham-se reconciliado,
e vindos da corte tinham chegado à fazenda na véspera. Alguns
escravos,
entre os quais se acham Rosa e André, estão asseando o soalho,
arranjando e espanando os móveis daquele rico salão, testemunha
impassível
dos mistérios da família, de tantas cenas ora tocantes e
enlevadoras, ora
vergonhosas e sinistras, e que durante a ausência de Malvina se
conservara
sempre fechado.
Qual é, porém, a sorte de Isaura e de Miguel, desde que
deixaram
Pernambuco? que destino deu Leôncio ou pretende dar àquela?...
por
que maneira se reconciliou com sua mulher?
Eis o que passamos a explicar ao leitor, antes de prosseguirmos
nesta narrativa.
Leôncio, tendo trazido Isaura para sua fazenda, a conservara na
mais completa e rigorosa reclusão. Não era isto só
com o fim de
castigá-la ou de cevar sua feroz vingança sobre a infeliz
cativa. Sabia quanto
era ardente e capaz de extremos o amor que o jovem pernambucano
concebera por Isaura; tinha ouvido as últimas palavras que Álvaro
lhe
dirigia - confia em Deus, e em meu amor; eu não te abandonarei.
- Era uma ameaça, e Álvaro, rico e audacioso como era, dispunha
de
grandes meios para pó-la em execução, quer por alguma
violência, quer
por meio de astúcias e insídias. Leôncio, portanto,
não só encarcerava
com todo o rigor a sua escrava, como também armou todos os seus
escravos, que daí em diante distraídos quase completamente
dos trabalhos
da lavoura, viviam em alerta dia e noite como soldados de guarnição
a
uma fortaleza.
Mas a alma ardente e feroz do jovem fazendeiro não desistia nunca
de seu louco amor, e nem perdia a esperança de vencer a isenção
de Isaura.
E já não era só o amor ou a sensualidade que o arrastava;
era um
capricho tirânico, um desejo feroz e satânico de vingar-se
dela e do rival
preferido. Queria gozá-la, fosse embora por um só dia, e
depois de
profanada e poluída, entregá-la desdenhosamente ao seu antagonista,
dizendo-lhe: - Venha comprar a sua amante; agora estou disposto a
vendê-la, e barato.
Encetou pois contra ela nova campanha de promessas, seduções
e
protestos, seguidos de ameaças, rigores e tiranias. Leôncio
só recuou
diante da tortura e da violência brutal, não porque lhe faltasse
ferocidade para tanto, mas porque conhecendo a têmpera heróica
da
virtude de Isaura, compreendeu que com tais meios só conseguiria
matá-la, e a morte de Isaura não satisfazia o seu sensualismo,
e nem
tampouco a sua vingança. Portanto tratou de meditar novos planos,
não só
para recalcar debaixo dos pés o que ele chamava o orgulho da escrava,
como de frustrar e escarnecer completamente as vistas generosas
de Álvaro, tomando assim de ambos a mais cabal vingança.
Além de tudo, Leôncio via-se na absoluta necessidade de
reconciliar-se com Malvina, não que o pundonor, a moral, e muito
menos
a afeição conjugal a isso o induzissem, mas por motivos
de interesse,
que em breve o leitor ficará sabendo. Com esse fim pois, Leôncio
foi à corte e procurou Malvina.
Além de todas as más qualidades que possuía, a mentira,
a calúnia,
o embuste eram armas que manejava com a habilidade do mais refinado
hipócrita. Mostrou-se envergonhado e arrependido do modo por
que a havia tratado, e jurou apagar com o seu futuro comportamento
até a lembrança de seus passados desvarios. Confessou, com
uma
sinceridade e candura de anjo, que por algum tempo se deixara enlevar
pelos atrativos de Isaura, mas que isso não passara de passageiro
desvario,
que nenhuma impressão lhe deixara na alma.
Além disso assacou mil aleives e calúnias por conta da pobre
Isaura. Alegou que ela, como refinada loureira que era, empregara
os mais sutis e ardilosos artifícios para seduzi-lo e provocá-lo,
no
intuito de obter a liberdade em troco de seus favores. Inventou mil outras
coisas, e por fim fez Malvina acreditar que Isaura fugira de casa seduzida
por um galã, que há muito tempo a reqüestava, sem que
eles o soubessem; que
fora este quem fornecera ao pai dela os meios de alforriá-la, e
que, não
o podendo conseguir, combinaram de mãos dadas e efetuaram o plano
de rapto; que chegando ao Recife, um moço que tanto tinha de rico,
como de extravagante e desmiolado, enamorando-se dela a tomara a
seu primeiro amante; que Isaura com seus artifícios, dando-se por
uma
senhora livre o tinha enleado e iludido por tal forma, que o pobre moço
estava a ponto de casar-se com ela, e mesmo depois de saber que era
cativa não queria largá-la, e praticando mil escândalos
e disparates estava
disposto a tudo para alforriá-la. Fora das mãos desse moço
que ele
a fora tomar no Recife.
Malvina, moça ingênua e crédula, com um coração
sempre
propenso à ternura e ao perdão, deu pleno crédito
a tudo quanto aprouve
a Leôncio inventar não só para justificar suas faltas
passadas, como para
predispor o comportamento que dai em diante pretendia seguir.
Na qualidade de esposa ofendida irritara-se outrora contra Isaura,
quando surpreendera seu marido dirigindo-lhe falas amorosas; mas o
seu rancor ia-se amainando, e se desvaneceria de todo, se Leôncio
não
viesse com falsas e aleivosas informações atribuir-lhe os
mais torpes
procedimentos. Malvina começou a sentir por Isaura desde esse momento,
não ódio, mas certo afastamento e desprezo, mesclado de
compaixão, tal
qual sentiria por outra qualquer escrava atrevida e mal comportada.
Era quanto bastava a Leôncio para associá-la ao plano de
castigo e
vingança, que projetava contra a desditosa escrava. Bem sabia que
Malvina
com a sua alma branda e compassiva jamais consentiria em castigos cruéis;
o que meditava, porém, nada tinha de bárbaro na aparência,
se bem que fosse
o mais humilhante e doloroso flagício imposto ao coração
de uma mulher, que
tinha consciência de sua beleza, e da nobreza e elevação
de seu espírito.
- E o que pretendes fazer de Isaura? perguntou Malvina.
- Dar-lhe um marido e carta de liberdade.
- E já achaste esse marido?
- Pois faltam maridos?... para achá-lo não precisei sair
de casa.
- Algum escravo, Leôncio?... oh!... isso não.
- E que tinha isso, uma vez que eu também forrasse o marido?
era cré com cré, lé com lé. Bem me lembrei
do André, que bebe os
ares por ela; mas por isso mesmo não a quero dar àquele
maroto.
Tenho para ela peça muito melhor.
- Quem, Leôncio?
- Ora quem!... o Belchior.
- O Belchior!... exclamou Malvina rindo-se muito. Estás caçoando;
fala sério, quem é?...
- O Belchior, senhora; falo sério.
- Mas esperas acaso, que Isaura queira casar-se com aquele
monstrengo?
- Se não quiser, pior para ela; não lhe dou a liberdade,
e há de
passar a vida enclausurada e em ferros.
- Oh!... mas isso é demasiada crueldade, Leôncio. De que
serve
dar-lhe a liberdade em tudo, se não lhe deixas a de escolher um
marido?...
Dá-lhe a liberdade, Leôncio, e deixa ela casar-se com quem
quiser.
- Ela não se casará com ninguém: irá voando
direitinho para
Pernambuco, e lá ficará muito lampeira nos braços
de seu insolente
taful, escarnecendo de mim...
- E que te importa isso, Leôncio? - perguntou Malvina com
certo ar desconfiado.
- Que tenho!... - replicou Leôncio um pouco perturbado com a
pergunta. - Ora que tenho!... é o mesmo que perguntar-me se tenho
brio nas faces. Se soubesses como aquele papalvo provocou-me
atirando-me insultos atrozes!... Como desafiou-me com mil bravatas e
ameaças, protestando que havia de arrancar Isaura ao meu poder...
Se não fosse por tua causa, e também por satisfazer os votos
de minha
mãe, eu nunca daria a liberdade a essa escrava, embora nenhum serviço
me
prestasse, e tivesse de tratá-la como uma princesa, só para
quebrar a
proa e castigar a audácia e petulância desse impudente rufião.
- Pois bem, Leôncio; mas eu entendo que Isaura mais facilmente
se deixará queimar viva, do que casar-se com Belchior.
- Não te dê isso cuidado, minha querida; havemos de catequizá-la
convenientemente. Tenho cá forjado o meu plano, com o qual espero
reduzi-la
a casar-se com ele de muito boa vontade.
- Se ela consentir, não tenho motivo para me opor a esse arranjo.
Leôncio de feito havia habilmente preparado o seu plano atroz.
Tendo trazido do Recife a Miguel debaixo de prisão, juntamente
com
Isaura, ao chegar em Campos fê-lo encerrar na cadeia, e condenar
a
pagar todas as despesas e prejuízos que tivera com a fuga de Isaura,
as
quais fizera orçar em uma soma exorbitante. Ficou, portanto, o
pobre
homem exausto dos últimos recursos que lhe restavam, e ainda por
sobrecarga devendo uma soma enorme, que só longos anos de trabalho
poderiam pagar. Como Leôncio era rico, amigo dos ministros e tinha
grande influência no lugar, as autoridades locais prestaram-se de
boa
mente a todas estas perseguições.
Depois que Leôncio, desanimado de poder vencer a obstinada
relutância de Isaura, mudou o seu plano de vingança, foi
ele em pessoa
procurar a Miguel.
- Senhor Miguel, - disse-lhe em tom formalizado, - tenho comiseração
do senhor e de sua filha, apesar dos incômodos e prejuízos
que me têm dado, e
venho propor-lhe um meio de acabarmos de uma vez para sempre com as desordens,
intrigas e transtornos com que sua filha tem perturbado minha casa e o
sossego
de minha vida.
- Estou pronto para qualquer arranjo, senhor Leóncio, - respondeu
respeitosamente Miguel, - uma vez que seja justo e honesto.
- Nada mais honesto, nem mais justo. Quero casar sua filha com
um homem de bem, e dar-lhe a liberdade; porém para esse fim preciso
muito de sua coadjuvação.
- Pois diga em que lhe posso servir.
- Sei que Isaura há de sentir alguma repugnância em casar-se
com a pessoa que lhe destino, em razão de tola e extravagante paixão,
que parece ainda ter por aquele infame peralvilho de Pernambuco, que
meteu-lhe mil caraminholas na cabeça, e encheu-a de idéias
extravagantes
e loucas esperanças.
- Creio que ela não deve lembrar-se desse moço senão
por grati-
dão...
- Qual gratidão!... pensa vossemecê que ele está fazendo
muito
caso dela?... tanto como do primeiro sapato que calçou. Aquilo
foi um
capricho de cabeça estonteada, uma fantasia de fidalgote endinheirado,
e a prova aqui está; leia esta carta... O patife tem a sem-cerimônia
de
escrever-me, como se entre nós nada houvesse, assim com ares de
amigo velho, participando-me que se acha casado!... que tal lhe parece
esta?... que tenho eu com seu casamento!... Mas isto ainda não
é tudo;
aproveitando a ocasião, pede-me com todo o desfaçamento
que em
todo e qualquer tempo, que eu me resolva a dispor de Isaura, nunca o
faça sem participar-lhe, porque muito deseja tê-la para mucama
de sua
senhora! até onde pode chegar o cinismo e a impudência!...
- Com efeito, senhor!... isto da parte do senhor Álvaro é
custoso
de acreditar!
- Pois capacite-se com seus próprios olhos; leia; não conhece
esta letra?...
E dizendo isto Leôncio apresentou a Miguel uma carta, cuja letra
imitava perfeitamente a de Álvaro.
- A letra é dele; não resta dúvida, - disse Miguel
pasmado do
que acabava de ler. - Há neste mundo infâmias que custa-se
a
compreender.
- E também lições cruéis, que é preciso
não desprezar, não é
assim, senhor Miguel?... Pois bem; guarde essa carta para mostrar à
sua
filha; é bom que ela saiba de tudo para não contar mais
com esse
homem, e varrer do espírito as fumaças que porventura ainda
lhe toldam
o juízo. Faça também vossemecê o que estiver
em seu possível a
fim de predispor sua filha para esse casamento, que é de muita
vantagem,
e eu não só lhe perdoarei tudo quanto me fica devendo, como
lhe
restituo o que já me deu, para vossemecê abrir um negócio
aqui em
Campos e viver tranqüilamente o resto de seus dias, em companhia
de
sua filha e de seu genro.
- Mas quem é esse genro? V. S.ª me não disse ainda.
- É verdade... esquecia-me. É o Belchior, o meu jardineiro;
não
conhece?...
- Muito!... oh! senhor!... com que miserável figura quer casar
minha filha!... pobre Isaura!... duvido muito que ela queira.
- Que importa a figura, se tem uma boa alma, e é honesto e
trabalhador?... Lá isso é verdade; o ponto é ela
querer.
- Estou certo que aconselhada e bem catequizada por vossemece
há de se resolver.
- Farei o que puder; mas tenho poucas esperanças.
- E se não quiser, pior para ela e para vossemecê: o dito
por não
dito; fica tudo como estava, - disse terminantemente Leôncio.
Miguel não era homem de têmpera a lutar contra a adversidade.
O
cativeiro e reclusão perene de sua filha, a miséria que
se lhe antolhava
acompanhada de mil angústias, eram para ele fantasmas hediondos,
cujo aspecto não podia encarar sem sentir mortal pavor e abatimento.
Não achou muito oneroso o preço pelo qual o desumano senhor,
livrando-o da miséria, concedia liberdade à sua filha, e
aceitou
o convênio.
Capítulo XX
Enquanto Rosa e André
espanejavam os móveis do salão, tagarelando
alegremente, uma cena bem triste e compungente se passava em um escuro
aposento atinente às senzalas, onde Isaura sentada sobre um cepo,
com
um dos alvos e mimosos artelhos preso por uma corrente cravada à
parede,
há dois meses se achava encarcerada.
Miguel ai tinha sido introduzido por ordem de Leôncio, para dar
parte à filha do projeto de seu senhor, e exortá-la a aceitar
o partido
que lhes propunha. Era pungente e desolador o quadro que apresentavam
aquelas duas míseras criaturas, pálidas, extenuadas e abatidas
pelo
infortúnio, encerrados em uma estreita e lôbrega espelunca.
Ao se
encontrarem depois de dois longos meses, mais oprimidos e desgraçados
que nunca, a primeira linguagem com que se saudaram não foi mais
do
que um coro de lágrimas e soluços de indizível angústia,
que abraçados
por largo tempo estiveram entornando no seio um do outro.
..........................................................
- Sim, minha filha;
é preciso que te resignes a esse sacrifício, que
é desgraçadamente o único recurso que nos deixam.
É com esta condição
que venho abrir-te as portas desta triste prisão, em que há
dois
meses vives encerrada. É, sem dúvida, um cruel sacrifício
para teu
coração; mas é sem comparação mais
suportável do que esse duro cativeiro,
com que pretendem matar-te.
- É verdade, meu pai; o meu carrasco dá-me a escolha entre
dois
jugos; mas eu ainda não sei qual dos dois será mais odioso
e insuportável.
Eu sou linda, dizem; fui educada como uma rica herdeira; inspiraram-me
uma alta estima de mim mesma com o sentimento do pudor e
da dignidade da mulher; sou uma escrava, que faz muita moça formosa
morder-se de inveja; tenho dotes incomparáveis do corpo e do espírito;
e tudo isto para quê, meu Deus!?... para ser dada de mimo a um mísero
idiota!... Pode-se dar mais cruel e pungente escárnio?!...
E uma risada convulsiva e sinistra desprendeu-se dos lábios
descorados de Isaura, e reboou pelo lúgubre aposento, como o estrídulo
ulular do mocho entre os sepulcros.
- Não é tanto como se te afigura na imaginação
abalada pelos
sofrimentos. O tempo pode muito, e com paciência e resignação
hás de
te acostumar a esse novo viver, sem dúvida muito mais suave do
que
este inferno de martírios, e poderemos ainda gozar dias se não
felizes,
ao menos mais tranqüilos e serenos.
- Para mim a tranqüilidade não pode existir senão na
sepultura,
meu pai. Entre os dois suplícios que me deixam escolher, eu vejo
ainda
alguma coisa, que me sorri como uma idéia consoladora, um recurso
extremo, que Deus reserva para os desgraçados, cujos males são
sem
remédio.
- É da resignação sem dúvida, que queres falar,
não é, minha
filha?... Ah! meu pai, quando a resignação não é
possível, só a morte...
- Cala-te, filha!... não digas blasfêmias e palavras loucas.
Eu quero,
eu preciso, que tu vivas. Terás ânimo de deixar teu pai neste
mundo
sozinho, velho e entregue à miséria e ao desamparo? Se me
faltares, o
que será de mim nas tristes conjunturas em que me deixas?...
- Perdoe-me, meu bom, meu querido pai; só em um caso
extremo eu me lembraria de morrer. Eu sei que devo viver para meu
pai, e é isso que eu quero; mas para isso será preciso que
eu me
case com um disforme?... oh! isto é escárnio e opróbrio
demais! Tenham-me
debaixo do mais rigoroso cativeiro, ponham-me na roça de enxada
na
mão, descalça e vestida de algodão, castiguem-me,
tratem-me enfim
como a mais vil das escravas, mas por caridade poupem-me este
ignominioso sacrifício!...
- Belchior não é tão disforme como te parece; e demais
o tempo
e o costume te farão familiarizar com ele. Há muito tempo
não o vês;
com a idade ele vai-se endireitando, que é ele ainda muito criança.
Agora o desconhecerás; já não tem aquele exterior
tão grosseiro e
desagradável, e tem tomado outras maneiras menos toscas. Toma ânimo,
minha filha; quando saíres deste triste calabouço, o ar
da liberdade te
restituirá a alegria e a tranqüilidade, e mesmo com o marido
que te dão
poderás viver feliz...
- Feliz! - exclamou Isaura com amargo sorriso: - nao me fale
em felicidade, meu pai. Se ao menos eu tivesse o coraçáo
livre como
outrora... se não amasse a ninguém. Oh!... não era
preciso que ele me
amasse, não; bastava que me quisesse para escrava, aquele anjo
de
bondade, que em vão empregou seus generosos esforços para
arrancar-me deste abismo. Quanto eu seria mais feliz do que sendo mulher
desse pobre homem, com quem me querem casar! Mas ai de mim!
devo eu pensar mais nele? pode ele, nobre e rico cavalheiro, lembrar-se
ainda da pobre e infeliz cativa!...
- Sim, minha filha, não penses mais nesse homem; varre da tua
idéia esse amor tresloucado; sou eu quem te peço e te aconselho.
- Por que, meu pai?... como poderei ser ingrata a esse moço?...
- Mas não deves contar mais com ele, e muito menos com o seu
amor.
- Por que motivo? porventura se terá ele esquecido de mim?...
- Tua humilde condição não permite que olhes com
amor para
tão alto personagem; um abismo te separa dele. O amor que lhe inspiraste,
não passou de um capricho de momento, de uma fantasia de fidalgo.
Bem me
pesa dizer-te isto, Isaura; mas é a pura verdade.
- Ah! meu pai! que está dizendo!... se soubesse que mal me fazem
essas terríveis palavras!... deixe-me ao menos a consolação
de acreditar que ele
me amava, que me ama ainda. Que interesse tinha ele em iludir uma pobre
escrava?...
- Eu bem quisera poupar-te ainda este desgosto; mas é preciso
que saibas tudo. Esse moço... ah! minha filha, prepara teu coração
para
mais um golpe bem cruel.
- Que tem esse moço?... perguntou Isaura trêmula e agitada.
Fale,
meu pai; acaso morreu?...
- Não, minha filha, mas... está casado.
- Casado!... Álvaro casado!... oh! não; não é
possível!... quem lhe
disse, meu pai?...
- Ele mesmo, Isaura; lê esta carta.
Isaura tomou a carta com mão trêmula e convulsa, e a percorreu
com olhos desvairados. Lida a carta, não articulou uma queixa,
não
soltou um soluço, não derramou uma lágrima, e ela,
pálida como um
cadáver, os olhos estatelados, a boca entreaberta, muda, imóvel,
hirta,
ali ficou por largo tempo na mesma posição; dir-se-ia que
fora petrificada
como a mulher de Ló, ao encarar as chamas em que ardia a cidade
maldita.
Enfim por um movimento rápido e convulso atirou-se ao seio de seu
pai,
e inundou-o de uma torrente de lágrimas.
Este pranto copioso aliviou-a; ergueu a cabeça, enxugou as lágrimas,
e pareceu ter recobrado a tranqüilidade, mas uma tranqüilidade
gélida, sinistra,
sepulcral. Parecia que sua alma se tinha aniquilado sob a violência
daquele golpe
esmagador, e que de Isaura só restava o fantasma.
- Estou morta, meu pai!... não sou mais que um cadáver...
façam
de mim o que quiserem...
Foram estas as últimas palavras que com voz fúnebre e sumida
proferiu naquele lôbrego recinto.
- Vamos, minha filha, disse Miguel beijando-a na fronte. Não te
entregues assim ao desalento; tenho esperança de que hás
de viver e
ser feliz.
Miguel, espírito acanhado e rasteiro, coração bom
e sensível,
mas inteiramente estranho às grandes paixões, não
podia compreender
todo o alcance do sacrifício que impunha à sua filha. Encarando
a
felicidade mais pelo lado dos interesses da vida positiva e material,
não
pelos gozos e exigências do coração, ousava conceber
sinceras
esperanças de mais felizes e tranqüilos dias para sua filha,
e não via que,
sujeitando-a a semelhante opróbrio, aviltando-lhe a alma, ia esmagar-lhe
o
coração. Queria que ela vivesse, e não via que aquele
ignominioso
consórcio, depois de tantas e tão acerbas torturas por que
passara, era o
golpe de compaixão, que, terminando-lhe a existência, vinha
abreviar-lhe
os sofrimentos.
Malvina achava-se no salão, e ali esperava o resultado da
conferência que Miguel fora ter com sua filha. Rosa e André,
de braços
cruzados junto à porta da entrada, também ali se achavam
às suas ordens.
Malvina sentiu um doloroso aperto de coração ao ver assomar
na
porta o vulto de Isaura, arrimada ao braço de Miguel, lívida
e desfigurada
como enferma em agonia, os cabelos em desalinho, e com passos
mal seguros penetrar, como um duende evocado do sepulcro, naquele
salão, onde não há muito tempo a vira tão
radiante de beleza e mocidade,
naquele salão, que parecia ainda repetir os últimos acentos
de sua
voz suave e melodiosa.
Mesmo assim ainda era bela a mísera cativa. A magreza fazendo
sobressaírem os contornos e ângulos faciais, realçava
a pureza ideal e a
severa energia daquele tipo antigo.
Os grandes olhos pretos cobertos de luz baça e melancólica
eram
como cirios funéreos sob a arcada sombria de uma capela tumular.
Os
cabelos entornados em volta do colo, faziam ondular por eles leves
sombras de maravilhoso efeito, como festões de hera a se debruçarem
pelo mármore vetusto de estátua empalidecida pelo tempo.
Naquela
miseranda situação, Isaura oferecia ao escultor um formoso
modelo da
Níobe antiga.
- Aquela é Isaura!... oh!... meu Deus! coitada! - murmurou
Malvina ao vê-la, e foi-lhe mister enxugar duas lágrimas,
que a seu pesar
umedeceram-lhe as pálpebras. Esteve a ponto de ir implorar clemência
a seu esposo em favor da pobrezinha, mas lembrou-se das perversas
inclinações e mau comportamento, que Leôncio aleivosamente
atribuíra
a Isaura, e assentou de revestir-se de toda a impassibilidade que lhe
fosse possível.
- Então, Isaura, - disse Malvina com brandura, - já tomaste
a
tua resolução?... estás decidida a casar com o marido
que te queremos
dar?
Isaura por única resposta abaixou a cabeça e fitou os olhos
no
chão.
- Sim, senhora, - respondeu Miguel por ela - Isaura está resolvida
a se conformar com a vontade de V. S.a.
- Faz muito bem. Não é possível que ela esteja a
sofrer por mais
tempo esse cruel tratamento, em que não posso consentir enquanto
estiver nesta casa. Não foi para esse fim que sua defunta senhora
criou-a com tanto mimo, e deu-lhe tão boa educação.
Isaura, apesar de
tua descaída, quero-te bem ainda, e não tolerarei mais semelhante
escândalo. Vamos dar-te ao mesmo tempo a liberdade e um excelente
marido.
- Excelente!... meu Deus! Que escárnio! - refleliu Isaura.
- Belchior é muito bom moço, inofensivo, pacífico
e trabalhador;
creio que hás de dar-te otimamente com ele. Demais para obter a
liberdade nenhum sacrifício é grande, não é
assim, Isaura?
- Sem dúvida, minha senhora; já que assim o quer, sujeito-me
humildemente ao meu destino. Arrancam-me da masmorra - (continuou
Isaura em seu pensamento), - para levarem-me ao suplício.
- Muito bem, Isaura; mostras que és uma rapariga dócil e
de juízo.
André, vai chamar aqui o senhor Belchior. Quero eu mesma ter o
gosto de anunciar-lhe que vai enfim realizar o seu sonho querido de
tantos anos. Creio que o senhor Miguel também não ficará
mal satisfeito
com o arranjo que damos a sua filha; sempre é alguma coisa sair
do
cativeiro e casar-se com um homem branco e livre. Antes assim do que
fugir, e andar foragida por esse mundo. Isaura, para prova de quanto
desejo o teu bem, quero ser madrinha neste casamento, que vai pôr
termo a teus sofrimentos, e restabelecer nesta casa a paz e o contentamento,
que há muito tempo dela andavam arredados.
Ditas estas palavras, Malvina abriu um cofre de jóias, que estava
sobre uma mesa, e dele tirou um rico colar de ouro, que foi colocar no
pescoço de Isaura.
- Aceita isto, Isaura, - disse ela, - é o meu presente de noivado.
- Agradecida, minha
boa senhora, - disse Isaura, e acrescentou
em seu coração: - é a corda, que o carrasco vem lançar
ao pescoço da
vítima.
Neste momento vem entrando Belchior acompanhado por André.
Eis-me aqui, senhora minha, - diz ele, - o que deseja deste
seu menor criado?
- Dar-lhe os parabéns, senhor Belchior, - respondeu Malvina.
- Parabéns!... mas eu não sei por quê!...
- Pois eu lhe digo; fique sabendo que Isaura vai ser livre, e...
adivinhe o resto.
- E vai-se embora decerto... oh!... é uma desgraça!
- Já vejo que não é bom adivinhador. Isaura está
resolvida a
casar-se com o senhor.
- Que me diz, patroa!... perdão, não posso acreditar. Vossemecê
está zombando comigo.
Digo-lhe a verdade; ai está ela, que não me deixará
mentir.
Apronte-se, senhor Belchior, e quanto antes, que amanhã mesmo há
de
se fazer o casamento aqui mesmo em casa.
- Oh! senhora minha! divindade da Terra! - exclamou Belchior
indo-se atirar aos pés de Malvina e procurando beijá-los,
- deixe-me
beijar esses pés...
- Levante-se daí, senhor Belchior; não é a mim, é
a Isaura que
deve agradecer.
Belchior levanta-se e corre a prostrar-se aos pés de Isaura.
- Oh! princesa de meu coração! - exclamou ele atracando-se
ás
pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quase foi à terra
com
a força daquela furiosa e entusiástica atracação.
Era para fazer rebentar
de riso, a quem não soubesse quanto havia de trágico e doloroso
no
fundo daquela ímpia e ignóbil farsa.
- Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teus pés este
teu
menor cativo, Belchior!... olha para ele, para este teu adorador, que
hoje é mais do que um príncipe.., dá cá essa
mãozinha, deixa-me
comê-la de beijos...
- Meu Deus! que farsa hedionda obrigam-me a representar! -
murmurou Isaura consigo, e voltando a face abandonou a mão a
Belchior, que colando a ela a boca no transporte do entusiasmo, desatou
a
chorar como uma criança.
- Olha que palerma! - disse André para Rosa, que observava de
parte aquela cena tragicômica. - E venham cá dizer-me que
não é o
mel para a boca do asno!
- Eu antes queria que me casassem com um jacaré.
- Este meu sinhô moço tem idéias do diabo! quem havia
de
lembrar-se de casar uma sereia com um boto?
- Invejoso!... você é que queria ser o boto, por isso está
aí a
torcer o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era
que o nhonhô te desse de dote à Isaura.
- Isso queria eu!... aposto que Isaura não vai casar de livre
vontade! e depois... nós cá nos arranjaríamos...
havia de enfiar o
boto pelo fundo de uma agulha.
- Sai daí, tolo!... pensa que Isaura faz caso de você?...
- Não te arrebites, minha Rosa; já agora não há
remédio senão
contentar-me contigo, que em fim de contas também és bem
bonitinha,
e... tudo que cai no jequi, é peixe.
- É baixo!... agüente a sua tábua, e vá consolar-se
com quem
quiser, menos comigo.
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