ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO LXXXV / TRÊS CONSTITUIÇÕES
- Você
crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntara
Pedro a Paulo, antes da queda do império.
- Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro-ministro.
Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu
como o irmão, emendando o resto:
- Não sei; você pode vir a ser presidente da República.
Já lá iam dois anos. Agora pensavam mais em Flora
que na subida. A boa moral pede que ponhamos a coisa pública
acima das pessoas, mas os moços nisto se parecem com velhos
e varões de outra idade, que muita vez pensam mais em si
que em todos. Há exceções, nobres algumas,
outras nobilíssimas. A história guarda muitas delas,
e os poetas, épicos e trágicos, estão cheios
de casos e modelos de abnegação.
Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem
mais da Constituição de 24 de fevereiro que da moça
Batista. Pensavam em ambas, é verdade, e a primeira já
dera lugar a alguma troca de palavras acerbas. A Constituição,
se fosse gente viva e estivesse ao pé deles, ouviria os ditos
mais contrários deste mundo, porque Pedro ia ao ponto de
a achar um poço de iniqüidades, e Paulo a própria
Minerva nascida da cabeça de Jove. Falo por metáfora
para não descair do estilo. Em verdade, eles empregavam palavras
menos nobres e mais enfáticas, e acabavam trocando as primeiras
entre si. Na rua, onde o encontro de manifestações
políticas era comum, e as notícias à porta
dos jornais freqüentes, tudo era ocasião de debate.
Quando, porém, a imagem de Flora aparecia entre eles por
imaginação, o debate esmorecia, mas as injúrias
continuavam e até cresciam, sem confissão do novo
motivo, que era ainda maior que o primeiro. Efetivamente, eles iam
chegando ao ponto em que dariam as duas constituições,
a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça,
se tanto fosse exigido. Cada um faria com ela a sua Constituição,
melhor que outra qualquer deste mundo.
CAPÍTULO
LXXXVI / ANTES QUE ME ESQUEÇA
Uma coisa é
preciso dizer antes que me esqueça. Sabes que os dois gêmeos
eram belos e continuavam parecidos; por esse lado não supunham
ter motivo de inveja entre si. Ao contrário, um e outro achavam
em si qualquer coisa que acentuava, se não melhorava, as
graças comuns. Não era verdade, mas não é
a verdade que vence, é a convicção. Convence-te
de uma idéia, e morrerás por ela, escreveu Aires por
esse tempo no Memorial, e acrescentou: "Nem é outra
a grandeza dos sacrifícios, mas se a verdade acerta com a
convicção, então nasce o sublime, e atrás
dele o útil..." Não acabou ou não explicou
esta frase.
CAPÍTULO
LXXXVII / ENTRE AIRES E FLORA
Aquela citação
do velho Aires faz-me lembrar um ponto em que ele e a moça
Flora divergiam ainda mais que na idade. Já contei que ela,
antes da comissão do pai, defendia Pedro e Paulo, conforme
estes diziam mal um do outro. Naturalmente fazia agora a mesma coisa,
mas a mudança do regímen trouxe ocasião de
defender também monarquistas e republicanos, segundo ouvia
as opiniões de Paulo ou de Pedro. Espírito de conciliação
ou de justiça, aplacava a ira ou o desdém do interlocutor:
"Não diga isso... São patriotas também...
Convém desculpar algum excesso..." Eram só frases,
sem ímpeto de paixão nem estímulo de princípios;
e o interlocutor concluía sempre:
- A senhora é boa.
Ora, o costume de Aires era o oposto dessa contradição
benigna. Hás de lembrar-te que ele usava sempre concordar
com o interlocutor, não por desdém da pessoa, mas
para não dissentir nem brigar. Tinha observado que as convicções,
quando contrariadas, descompõem o rosto à gente, e
não queria ver a cara dos outros assim, nem dar à
sua um aspecto abominável. Se lucrasse alguma coisa, vá;
mas, não lucrando nada, preferia ficar em paz com Deus e
os homens. Daí o arranjo de gestos e frases afirmativas que
deixavam os partidos quietos, e mais quieto a si mesmo.
Um dia como ele estivesse com Flora, falou daquele costume dela,
dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era inclinação
natural defender os ausentes, que não podiam responder por
nada; demais, aplacava assim um dos gêmeos com que falasse,
e depois o outro.
- Também concordo.
- E por que há de o senhor concordar sempre? perguntou ela
sorrindo.
- Posso concordar com a senhora, porque é uma delícia
ir com as suas opiniões, e seria mau gosto rebatê-las,
mas, em verdade, não há cálculo. Com os mais,
se concordo, é porque eles só dizem o que eu penso.
- Já o tenho achado em contradição.
- Pode ser. A vida e o mundo não são outra coisa.
A senhora não saberá isto bem, porque é moça,
e ingênua, mas creia que a vantagem é toda sua. A ingenuidade
é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá
desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessário.
- Não se acuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não
creio nada contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a própria
contradição que lhe acho é agradável.
- Também concordo.
- Concorda com tudo.
- Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro?
Esqueceu-me dizer que esta conversação era à
porta de uma loja de fazendas e modas, Rua do Ouvidor. Aires ia
na direção do Largo de S. Francisco de Paula e viu
a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher um tecido. Entrou,
cumprimentou-as, e veio à porta com a filha. O chamado de
D. Cláudia interrompeu a conversação por alguns
instantes. Aires ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam
mulheres de todas as classes, homens de todos os ofícios,
sem contar as pessoas paradas de ambos os lados e no centro. Não
havia burburinho grande, nem sossego puro, um meio-termo.
Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Aires e o cumprimentassem;
mas este tinha a alma tão metida em si mesma que, se falou
a uma ou duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça
para dentro, onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia
as palavras trocadas ainda agora. Sentia-se curioso de saber se
finalmente a moça escolhia a um dos gêmeos, e qual
destes. Vá tudo; tinha já pesar que não fosse
algum posto, não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo.
Quisera vê-la feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz
o marido, sem embargo da exclusão; o excluído seria
consolado. Agora, se era por amor deles, se dela, é o que
propriamente se não pode dizer com verdade. Quando muito,
para levantar a ponta do véu, seria preciso entrar na alma
dele, ainda mais fundo que ele mesmo. Lá se descobriria acaso,
entre as ruínas de meio celibato, uma flor descorada e tardia
de paternidade, ou, mais propriamente, de saudade dela...
Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não
falaram mais de contradição, mas da rua, da gente
e do dia. Nenhuma palavra acerca de Pedro ou Paulo.
CAPÍTULO
LXXXVIII / NÃO, NÃO, NÃO
Eles, onde quer
que estivessem naquele momento, podiam falar ou não. A verdade
é que, se nenhum consentia em deixar a moça, também
nenhum contava obtê-la, por mais que a achassem inclinada.
Tinham já combinado que o rejeitado aceitaria a sorte, e
deixaria o campo ao vencedor. Não chegando a vitória,
não sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria o mais
fácil, se a paixão não crescesse, mas a paixão
crescia.
Talvez não fosse exatamente paixão, se dermos a esta
palavra o sentido de violência; mas, se lhe reconhecermos
uma forte inclinação de amor, um amor adolescente
ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a mão da
pequena, se houvessem de consultar só a razão, e mais
de uma vez estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para
logo desaparecia. A ausência era já insofrível,
a presença necessária. Se não fora o que aconteceu
e se contará por essas páginas adiante, haveria matéria
para não acabar mais o livro; era só dizer que sim
e que não, e o que estes pensaram e sentiram, e o que ela
sentiu e pensou, até que o editor dissesse: basta! Seria
um livro de moral e de verdade, mas a história começada
ficaria sem fim. Não, não, não... Força
é continuá-la e acabá-la. Comecemos por dizer
o que os dois gêmeos ajustaram entre si, poucos dias depois
daquele sonho ou delírio da moça Flora, à noite,
no quarto.
CAPÍTULO
LXXXIX / O DRAGÃO
Vejamos o que
é que estes ajustaram. Vinham de estar com Aires no teatro,
uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a
gente lhe tem dado os mais fundos golpes que pode, ele esperneia,
expira e renasce. Assim se fez naquela noite. Não sei que
teatro foi, nem que peça, nem que gênero; fosse o que
fosse, a questão era matar o tempo, e os três o deixaram
estirado no chão.
Foram dali a um restaurant. Aires disse-lhes que, antigamente, em
rapaz, acabava a noite com amigos da mesma idade. Era o tempo de
Offenbach e da opereta. Contou anedotas, disse as peças,
descreveu as damas e os partidos, quase deu por si repetindo um
trecho, música e palavras. Pedro e Paulo ouviam com atenção,
mas não sentiam nada do que espertava os ecos da alma do
diplomata. Ao contrário, tinham vontade de rir. Que lhes
importava a notícia de um velho café da Rua Uruguaiana,
trocado depois em teatro, agora em nada, uma gente que viveu e brilhou,
passou e acabou antes que eles viessem ao mundo? O mundo começou
vinte anos antes daquela noite, e não acabaria mais, como
um viveiro de moços eternos que era.
Aires sorriu, porquanto ele também assim cuidou, aos vinte
e dois anos de idade, e ainda se lembrava do sorriso do pai, já
velho, quando lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo
adquirido do tempo a noção idealista que ora possuía,
compreendeu que tal dragão era juntamente vivo e defunto,
e tanto valia matá-lo como nutri-lo. Não obstante,
as recordações eram doces, e muitas delas viviam ainda
frescas, como se viessem da véspera.
A diferença da idade era grande, não podia entrar
em pormenores com eles. Ficou só em lembranças, e
cuidou de outra coisa. Pedro e Paulo, entretanto, receosos de que
os adivinhasse e compreendesse o desprezo que lhes inspiravam as
saudades de tempos remotos e estranhos, pediram-lhe informações,
e ele deu as que podia, sem intimidade.
Ao cabo, a conversação valeu mais que este resumo,
e a separação não custou pouco. Paulo ainda
lhe pediu Offenbach, Pedro uma descrição das paradas
de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de
saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma
bela criatura. Os olhos de ambos concordaram que era belíssima.
Também louvou as qualidades morais, a finura do espírito,
tais dotes que Pedro e Paulo reconheceram também, e daí
a conversação, e por fim o ajuste a que me referi
no começo deste capítulo e pede outro.
CAPÍTULO
XC / O AJUSTE
- Quanto a mim,
um de vocês gosta dela, senão ambos, disse Aires.
Pedro mordeu os beiços, Paulo consultou o relógio;
iam já na rua. Aires concluiu o que sabia, que sim, que ambos,
e não trepidou em dizê-lo, acrescentando que a moça
não era como a República, que um podia defender o
outro atacar; cumpria ganhá-la ou perdê-la de vez.
Que fariam eles, dada a escolha? Ou já estava feita a escolha,
e o preterido teimava em a torcer para si?
Nenhum falou logo, posto que ambos sentissem necessidade de explicar
alguma coisa. Tinham que a escolha não era clara ou decisiva.
Outrossim, que lhes cabia o direito de esperar a preferência,
e fariam o diabo para alcançá-la. Tais e outras idéias
vagavam silenciosamente neles, sem sair cá fora. A razão
percebe-se, e devia ser mais de uma; - primeiro, a matéria
da conversação, - depois, a gravidade do interlocutor.
Por mais que Aires abrisse as portas à franqueza dos rapazes,
estes eram rapazes e ele velho. Mas o assunto em si era tão
sedutor, o coração, apesar de tudo, tão indiscreto,
que não houve remédio senão falar negando.
- Não me neguem, interrompeu Aires; a gente madura sabe as
manhas da gente nova, e adivinha com facilidade o que ela faz. Nem
é preciso adivinhar; basta ver e ouvir. Vocês gostam
dela.
Eles sorriam, mas já agora com tal amargor e acanhamento
que mostravam o desgosto da rivalidade, aliás sabida deles.
Tal rivalidade era também sabida de outros, devia sê-lo
de Flora, e a situação lhes parecia agora mais complicada
e fechada que dantes.
Tinham chegado ao Largo da Carioca, era uma hora da noite. Um vitória
da Santos esperava ali os rapazes, a conselho e por ordem da mãe,
que buscava todas as ocasiões e meios de os fazer andar juntos
e familiares. Teimava em emendar a natureza. Levava-os muita vez
a passeio, ao teatro, a visitas. Naquela noite, como soubesse que
iam ao teatro, mandou aprestar a vitória que os conduziu
para a cidade, e ficou à espera deles.
- Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro dá para três:
eu vou no banquinho da frente.
Entraram e partiram.
- Bem, continuou Aires, é certo que vocês gostam dela,
e igualmente certo que ela ainda não escolheu entre os dois.
Provavelmente, não sabe que faça. Um terceiro resolveria
a crise, porque vocês se consolariam depressa; também
eu me consolei rapaz. Não havendo terceiro, e não
se podendo prolongar a situação, por que é
que vocês não combinam alguma coisa?
- Combinar quê? Perguntou Pedro sorrindo.
- Qualquer coisa. Combinem um modo de cortar este nó górdio.
Cada um que siga a sua vocação. Você, Pedro,
tentará primeiro desatá-lo; se ele não puder,
Paulo, você pegue da espada de Alexandre, e dê-lhe o
golpe. Fica tudo feito e acabado. Então o destino, que os
espera, com duas belas criaturas, virá trazê-las pela
mão a um e a outro, e tudo se compõe na Terra como
no Céu.
Aires disse mais coisas antes de se apear à porta da casa.
Apeado, ainda lhes perguntou:
- Estamos de acordo?
Os dois responderam de cabeça afirmativamente, e, ficando
sós, não disseram nada. Que fossem pensando, é
natural, e porventura o tempo lhes pareceu curto entre o Catete
e Botafogo. Chegaram a casa, subiram a escada do jardim, falaram
da temperatura, que Pedro achava deliciosa e Paulo abominável,
mas não disseram assim para não irritar um ao outro.
A esperança do ajuste é que os levava à moderação
relativa e passageira. Vivam os frutos pendentes do dia seguinte!
Cá estava o quarto à espera deles, um brinco de arranjo
e graça, de comodidade e repouso. Era a mãe que dava
os últimos retoques todos os dias; ela cuidava das flores
que seriam postas nos vasinhos de porcelana, e ela mesma as ia tirar
à noite e pôr fora das janelas para que eles não
as respirassem dormindo. Cá estavam as velas ao pé
das duas camas, metidas nos seus castiçais de prata, um com
o nome de Pedro, outro com o de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas
mãos, laços dados por ela nos cortinados, finalmente
o retrato dela e o do marido pendurados à parede, entre as
duas camas, naquele mesmo lugar em que estiveram os de Luís
XVI e Robespierre, comprados na Rua da Carioca.
Ao pé de cada um dos castiçais acharam um bilhetinho
de Natividade. Aqui está o que ela dizia. "Algum de
vocês quer ir comigo à missa, amanhã? Faz anos
que seu avô morreu, e Perpétua está adoentada."
Natividade esquecera de lhes falar antes, e, aliás, andava
bem sem eles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter consigo.
Pedro e Paulo riram do convite e da forma, e um deles propôs
que, para agradar à mãe, fossem ambos à missa.
A aceitação da proposta veio pronta; já não
era harmonia, era uma espécie de diálogo na mesma
pessoa. O céu parecia escrever o tratado de paz que ambos
teriam de assinar; ou, se preferes, a natureza corrigia as índoles,
e os dois rixosos começavam a ajustar o ser e o parecer.
Também não juro isto, digo o que se pode crer só
pelo aspecto das coisas.
- Vamos à missa, repetiram.
Seguiu-se um grande silêncio. Cada um ruminava o ajuste e
o modo de o propor. Enfim, de cama a cama, disseram o que lhes parecia
melhor, propuseram, discutiram, emendaram e concluíram sem
escritura de tabelião, apenas por aceitação
de palavra. Poucas cláusulas. Confessando que não
podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em esperar por
ela durante um prazo curto; três meses. Dada a escolha, o
rejeitado obrigava-se a não tentar mais nada. Como tivessem
a certeza final da escolha, o acordo era fácil; cada um não
faria mais que excluir o outro. Não obstante, se ao fim do
prazo, nenhuma escolha houvesse, cumpria adotar uma cláusula
última. A primeira que acudiu foi deixarem ambos o campo,
mas não os seduziu. Lembrou-lhes recorrer à sorte,
e aquele que fosse designado por ela, deixaria o campo ao rival.
Assim passou uma hora de conversação, após
a qual cuidaram de dormir.
CAPÍTULO
XCI / NEM SÓ A VERDADE SE DEVE ÀS MÃES
Às nove
horas da manhã seguinte, Natividade estava pronta para ir
à missa que mandava dizer na Matriz da Glória; nenhum
dos filhos se lhe apresentou.
- Parece que dormem.
E duas, três, quatro, cinco vezes, foi até à
porta do quarto a ver se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que
deixara. Nada. Concluiu que teriam entrado tarde. Só não
atinou que dormissem sobre o ajuste, nem que ajuste era. Uma vez
que o fizessem em cama fofa, tudo ia bem. Enfim, acabou de calçar
as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a igreja.
A missa era aniversária, como dizia o bilhete. Uso velho;
o pai tinha a sua missa, a mãe outra, os irmãos e
parentes outras. Não Ihe esqueciam datas obituárias,
como não lhe esqueciam natalícias, quaisquer que fossem,
amigas ou parentas; trazia-as todas de cor. Doce memória!
Há pessoas a quem não ajudas, e chegam a brigar consigo
e com outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses
sabem o que é 24 de março, 10 de agosto, 2 de abril,
7 e 31 de outubro, 10 de novembro, o ano todo, suas tristezas e
alegrias particulares.
Voltando a casa, viu Natividade os dois filhos no jardim, à
espera dela. Eles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e
depois de a apearem e lhe beijarem a mão, explicaram a falta.
Tinha resolvido ir ambos, mas o sono...
- O sono e a preguiça, concluiu a mãe rindo.
- Foi só o sono, disse Pedro.
- Acordamos agora mesmo, acabou Paulo.
Disputaram dar-lhe o braço; Natividade os satisfez dando
um braço a cada um. Em casa, ao mudar de roupa Natividade
refletiu que, se Flora lhes tivesse feito algum pedido, eles acordariam
cedo, por mais tarde que se deitassem; a memória serviria
de despertador Passou-lhe uma sombra rápida, mas depressa
se reconciliou com a diferença. Assim que, não foi
por ciúme, mas para os trazer a outras seduções
e separá-los da guerra ante a bela Flora, que a mãe
teimou em levar os filhos para Petrópolis. Subiriam na primeira
semana de janeiro. A estação seria excelente; anunciou
festas, citou nomes, notou-lhe que Petrópolis era a cidade
da paz. O governo pode mudar cá embaixo e nas províncias...
- Que províncias, mamãe? atalhou Paulo.
Natividade sorriu e emendou:
- Nos Estados. Vai desculpando os descuidos de tua mãe. Bem
sei que são Estados; não são como as províncias
antigas, não esperam que o presidente lhes vá aqui
da Corte...
- Que Corte, baronesa?
Agora os dois riram, mãe e filho. Passado o riso, Natividade
continuou:
- Petrópolis é a cidade da paz; é, como dizia
outro dia o Conselheiro Aires, é a cidade neutra, é
a cidade das nações. Se a capital do Estado fosse
ali, não haveria deposição de governo. Petrópolis,
- vejam vocês que o nome, apesar da origem, ficou e ficará,
- é de todos. A estação dizem que vai ser encantadora...
- Eu não sei se posso ir já, disse Paulo.
- Nem eu, acudiu Pedro.
Ainda uma vez estavam de acordo, mas aqui o acordo trazia provavelmente
o divórcio, refletiu a mãe, e o prazer que lhe deram
aquelas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razão
tinham para ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos
com o seu consultório médico e a sua banca de advogado,
era bem; mas, se nenhum deles começara ainda a carreira,
que fariam cá embaixo, quando ela e o marido...
- Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clínica na
Santa Casa, respondeu Pedro.
Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava
de consultar certos documentos do século XVIII na Biblioteca
Nacional; ia escrever uma história das terras possuídas.
Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer às
mães. Natividade ponderou que eles podiam fazer tudo entre
as duas barcas de Petrópolis; desciam, almoçavam,
trabalhavam, e às quatro horas subiriam, como a demais gente.
Em cima achariam visitas, música, bailes, mil coisas belas,
sem contar as manhãs, a temperatura e os domingos. Eles defenderam
o estudo, como sendo melhor por muitas horas seguidas.
Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que
os filhos acabassem os documentos da Biblioteca e a clínica
da Santa Casa. Esta idéia fê-la atentar para a necessidade
de ver estabelecidos o jovem médico e o jovem advogado. Trabalhariam
com outros profissionais de reputação e iriam adiante
e acima. Talvez a carreira científica lhes desse a grandeza
anunciada pela cabocla do Castelo, e não a política
ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a crítica
de si mesma, quando imaginou que Batista abriria a carreira política
de algum deles, sem advertir que o pai de Flora mal continuaria
a própria carreira, aliás obscura. Mas a idéia
do mando tornava a ocupar a cabeça da mãe, e cheios
dela os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.
Chegaram a acordo. Eles subiriam aos sábados e desceriam
às segundas; o mesmo por ocasião de dias santos e
festas de gala. Natividade contava com o costume e as atrações.
Na barca e em Petrópolis era objeto de conversação
a diferença entre os filhos, que só iam lá
uma vez por semana, e o pai, que trazia tantos negócios às
costas, e subia todas as tardes. Que fariam eles cá embaixo,
quando alguns olhos podiam atraí-los e agarrá-los
lá em cima? Natividade defendia os gêmeos, dizendo
que um ia à Santa Casa e outro à Biblioteca Nacional,
e estudavam muito, às noites. A explicação
era aceitável, mas, além de fazer perder um assunto
aos bonitos dentes do verão, podia ser invenção
dos rapazes; naturalmente, iriam às moças.
A verdade é que eles faziam rumor em Petrópolis, durante
as poucas horas que lá passavam. Além do mais, tinham
a semelhança e a graça. As mães diziam bonitas
coisas à mãe deles, e indagavam da razão verdadeira
que os prendia à capital, não assim como eu digo,
nu e cru, mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a
mãe insistia na Biblioteca e na Santa Casa. Deste jeito,
a mentira, já servida em primeira mão, era servida
em segunda, e nem por isso melhor aceita.
CAPÍTULO
XCII / SEGREDO ACORDADO
Enfim, que segredo
há que se não descubra? Sagacidade, boa vontade, curiosidade,
chama-lhe o que quiseres, há uma força que deita cá
para fora tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os próprios
segredos cansam de calar, - calar ou dormir; fiquemos com este outro
verbo, que serve melhor à imagem. Cansam, e ajudam a seu
modo aquilo que imputamos à indiscrição alheia.
Quando eles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um
raio de sol basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos
são pagãos) um quase nada de crepúsculo, aurora
ou tarde, posto que a aurora prometa dia, enquanto a tarde cai outra
vez na noite, mas tarde que seja, tudo é respirar claridade.
Que os segredos, amiga minha, também são gente; nascem,
vivem e morrem. Agora o que sucede, quando um olhar de sol penetra
na solidão deles, é que dificilmente sai mais, e geralmente
cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fora.
Vexados da grande luz, eles a princípio andam de ouvido em
ouvido, cochichados, alguma vez escritos em bilhetes, ainda que
tão vagamente e sem nomes, que mal se adivinhará quais
sejam. É o período da infância, que passa depressa;
a mocidade pula por cima da adolescência, e eles aparecem
fortes e derramados, sabidos como gazetas. Enfim, se a velhice chega,
e eles não se vexam dos cabelos brancos, tomam conta do mundo,
e acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram
na família do próprio sol, que quando nasce é
para todos, segundo dizia uma tabuleta da minha infância.
Tabuletas da minha infância, ai, tabuletas! Quisera acabar
por elas este capítulo, mas o assunto não teria nobreza
nem interesse, e ainda uma vez interromperíamos a nossa história.
Fiquemos no segredo divulgado; é quanto basta. Uma veranista
elegante não dissimulou o seu espanto ao saber que os dois
irmãos combinavam num ponto que faria romper os maiores amigos
deste mundo. Um secretário de legação insinuou
que podia ser brincadeira dos dois.
- Ou dos três, acrescentou outra veranista.
Iam de passeio à Quitandinha, a cavalo. Aires acompanhava-os,
e não dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita,
respondeu que sim, e falou da temperatura. A primeira veranista
perguntou-lhe se era capaz de suportar aquela situação.
Aires respirou, como quem vem de longe, e declarou que aos pés
de um padre seria obrigado a mentir, tais eram os seus pecados;
mas ali, na estrada, ao ar livre, entre senhoras, confessou que
matara mais de um rival. Que se lembrasse trazia sete mortes às
costas, com várias armas. As senhoras riam; ele falava soturno.
Só uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma anedota
napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, há muitos
anos, o melhor aço do mundo, foi obrigado a dá-lo
de presente a um bandido, seu amigo, quando lhe provou que completara
na véspera o seu vigésimo nono assassinato.
- Aqui está para o trigésimo, disse-lhe entregando
a arma.
Poucos dias depois soube que o bandido, com aquele punhal, matara
o marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura.
- Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem.
As damas continuavam a rir; ele conseguiu assim desviar a conversação
de Flora e seus namorados.
CAPÍTULO
XCIII / NÃO ATA NEM DESATA
Enquanto indagavam
dela em Petrópolis, a situação moral de Flora
era a mesma, - o mesmo conflito de afinidades, o mesmo equilíbrio
de preferências. Cessado o conflito, roto o equilíbrio,
a solução viria de pronto, e, por mais que doesse
a um dos namorados, venceria o outro, a menos que interviesse o
punhal da anedota de Aires.
Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando
Aires vinha ao Rio de Janeiro, não deixava de ir vê-la
a S. Clemente, onde a achava qual era dantes, salvo um pouso de
silêncio em que a viu metida uma vez. No dia seguinte recebeu
uma carta de Flora, pedindo-lhe desculpa da desatenção,
se a houve, e mandando-lhe saudades. "Mamãe pede que
a recomende também ao senhor e à família da
baronesa." Esta recomendação exprimia o consentimento
obtido da mãe para que lhe escrevesse a carta. Quando ele
tornou ao Rio, correu a S. Clemente e Flora pagou-lhe com alegria
grande o silêncio daquela outra manhã. Todavia, não
era espontânea nem constante; tinha seus cochilos de melancolia.
Aires voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora aparecia-lhe
com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alteração
dos últimos dias.
Talvez a causa daquelas síncopes da conversação
fosse a viagem que o espírito da moça fazia à
casa da gente Santos. Uma das vezes, o espírito voltou para
dizer estas palavras ao coração: "Quem és
tu, que não atas nem desatas? Melhor é que os deixes
de vez. Não será difícil a ação,
porque a lembrança de um acabará por destruir a de
outro, e ambas se irão perder com o vento, que arrasta as
folhas velhas e novas, além das partículas de coisas,
tão leves e pequenas, que escapam ao olho humano. Anda, esquece-os;
se os não podes esquecer, faze por não os ver mais;
o tempo e a distancia farão o resto."
Tudo estava acabado. Era só escrever no coração
as palavras do espírito, para que lhe servissem de lembrança.
Flora escreveu-as, com a mão trêmula e a vista turva;
logo que acabou, viu que as palavras não combinavam, as letras
contundiam-se, depois iam morrendo, não todas, mas salteadamente,
até que o músculo as lançou de si. No valor
e no ímpeto podia comparar o coração ao gêmeo
Paulo; o espírito, pela arte e subtileza, seria o gêmeo
Pedro. Foi o que ela achou no fim de algum tempo, e com isso explicou
o inexplicável.
Apesar de tudo, não acabava de entender a situação,
e resolveu acabar com ela ou consigo. Todo esse dia foi inquieto
e complicado. Flora pensou em ir ao teatro para que os gêmeos
não a achassem à noite. Iria cedo, antes da hora da
visita. A mãe mandou comprar o camarote, e o pai aprovou
a diversão, quando veio jantar, mas a filha acabou com dor
de cabeça, e o camarote ficou perdido.
- Vou mandá-lo aos jovens Santos, insinuou Batista.
D. Cláudia opôs-se e guardou o camarote. A razão
era de mãe; posto lhe tardasse a escolha e o casamento, ela
queria vê-los ali consigo, falando, rindo, debatendo que fosse,
com os olhos pendentes da filha. Batista não entendeu logo
nem depois; mas para não desagradar à esposa, deixou
de obsequiar os rapazes. Uma ocasião tão boa! Não
era muito para eles que possuíam com que despender, e despendiam;
o obséquio estava na lembranças, e também na
cartinha que lhes escreveria, mandando o camarote. Chegou a redigi-la
de cabeça, apesar de já inútil. A mulher, ao
vê-lo calado e sério, cuidou que fosse zanga e quis
fazer as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mão.
Redigia a cartinha, punha no texto um gracejo sisudo, dobrava o
papel e lançava-lhe este sobrescrito gêmeo: "Aos
jovens apóstolos Pedro e Paulo." O trabalho intelectual
tornou mais dura a oposição de D. Cláudia.
Uma cartinha tão bonita!
CAPÍTULO
XCIV / GESTOS OPOSTOS
Como pode um
só teto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é
também este céu claro ou brusco, - outro teto vastíssimo
que os cobre com o mesmo zelo da galinha aos seus pintos... Nem
esqueça o próprio crânio do homem, que os cobre
igualmente, não só diversos, senão opostos.
Flora, no quarto, não cuidava então de bilhetes nem
camarotes; também não acudia à dor de cabeça,
que não tinha. Se falou nela foi por ser uma razão
próxima e aceitável, breve ou longa, conforme a necessidade
da ocasião. Não suponhas que está rezando,
embora tenha ali um oratório e um crucifixo. Não viria
pedir a Jesus que lhe livrasse a alma daquela inclinação
desencontrada. Posta à beira da cama, os olhos no chão,
pensava naturalmente em alguma coisa grave, se não era nada,
que também agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa.
Mordeu os beiços sem raiva; meteu a cabeça entre as
mãos, como se quisesse consertar os cabelos, mas os cabelos
estavam e ficavam como dantes.
Quando se levantou era totalmente noite, e acendeu uma vela. Não
queria gás. Queria uma claridade branda que desse pouca vida
ao quarto e aos seus móveis, que deixasse algumas partes
na meia escuridade. O espelho, se fosse a ele, não lhe repetiria
a beleza de todos os dias, com a vela posta em cima de uma papeleira
antiga, a distância. Mostrar-lhe-ia a nota de palidez e de
melancolia, é verdade, mas a nossa amiguinha não se
sabia pálida, nem se sentia melancólica. Tinha na
tristeza desvairada daquela ocasião uma pontinha de abatimento.
Como tudo isso se combinava, não sei, nem ela mesma. Ao contrário,
Flora parecia, às vezes, tomada de um espanto, outras de
uma inquietação vaga, e, se buscava o repouso de uma
cadeira de balanço, era para o deixar logo. Ouviu bater oito
horas. Daí a pouco, entrariam provavelmente Pedro e Paulo.
Teve lembrança de ir dizer à mãe que a não
mandasse chamar; estava de cama. Esta idéia não durou
o que me custa escrevê-la, e aliás já lá
vai na outra linha. Recuou a tempo.
- E um despropósito, disse consigo; basta não aparecer.
Mamãe dirá que estou adoentada, tanto que perdemos
o teatro, e, se vier aqui, digo-lhe que não posso aparecer...
As últimas palavras saíram-lhe de viva voz, para maior
firmeza da resolução. Projetou reclinar-se já
na cama; depois achou melhor fazê-lo quando ouvisse o passo
da mãe no corredor. Todas essas alternativas podiam vir de
si mesmas; entretanto, não é impossível que
fosse também um modo de sacudir quaisquer lembranças
aborrecíveis. A moça temia ir atrás delas.
CAPÍTULO
XCV / O TERCEIRO
Temendo ir atrás
delas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das janelas do quarto,
que dava para a rua, encostou-se à grade e enfiou os olhos
para baixo e para cima. Viu a noite sem estrelas, pouca gente que
passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com luzes,
uma com piano. Não viu certa figura de homem na calçada
oposta, parada, olhando para a casa de Batista. Nem a viu, nem lhe
importaria saber quem fosse. A figura é que tão depressa
a viu como estremeceu e não despegou mais os olhos dela,
nem os pés do chão.
Lembras-te daquela veranista de Petrópolis que atribuiu um
terceiro namorado à nossa amiguinha? "Um dos três",
disse ela. Pois aqui está o terceiro namorado, e pode ser
que ainda apareça outro. Este mundo é dos namorados.
Tudo se pode dispensar nele; dia virá em que se dispensem
até os governos, a anarquia se organizará de si mesma,
como nos primeiros dias do paraíso. Quanto à comida,
virá de Boston ou de Nova Iorque um processo para que a gente
se nutra com a simples respiração do ar. Os namorados
é que serão perpétuos.
Aquele era oficial de secretaria. Geralmente os empregados de secretaria
casam cedo. Gouveia era solteiro, andava às moças.
Um domingo, à missa, reparou na filha do ex-presidente, e
saiu da igreja tão apaixonado que não quis outra promoção.
Tinha gostado de muitas, acompanhou algumas, esta foi a primeira
que o feriu deveras. Pensava nela dia e noite. A Rua de S. Clemente
era o caminho que o levava e trazia da repartição.
Se a via, olhava muito para ela, detinha-se a distância, à
porta de uma casa, ou então fingia acompanhar com os olhos
um carro que passava, e tirava-os do carro para a moça.
Quando amanuense; fizera versos; nomeado oficial, perdeu o costume,
mas um dos efeitos da paixão foi restituir-lho. Consigo,
em casa da mãe, gastava papel e tinta a metrificar as esperanças.
Os versos escorriam da pena, a rima com eles, e as estrofes vinham
seguindo direitas e alinhadas, como companhias de batalhão;
o título seria o coronel, a epígrafe a música,
uma vez que regulava a marcha dos pensamentos. Bastaria essa força
à conquista? Gouveia imprimiu alguns em jornais, com esta
dedicatória: A alguém. Nem assim a praça se
rendia.
Uma vez deu-lhe na cabeça mandar uma declaração
de amor. Paixão concebe despropósitos. Escreveu duas
cartas, sem o mesmo estilo, antes contrário. A primeira era
de poeta; dava-lhe tu, como nos versos, adjetivava muito, chamava-lhe
deusa por alusão ao nome de Flora, e citava Musset e Casimiro
de Abreu. A segunda carta foi um desforço do oficial sobre
o amanuense. Saiu-lhe ao estilo das informações e
dos ofícios, grave, respeitoso, com Excelências. Comparando
as duas cartas, não acabou de escolher nenhuma. Não
foi só o texto diverso e contrário, foi principalmente
a falta de autorização que o levou a rasgar as cartas.
Flora não o conhecia; quando menos, fugia de o conhecer.
Os olhos dela, se encontravam os dele, retiravam-se logo indiferentes.
Uma só vez cuidou que traziam a intenção de
perdoar. Que esse breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da
esperança (começo a falar como a primeira carta) era
possível e até certo; tão certo que lhe fez
perder o ponto na repartição. Felizmente, era ótimo
empregado; o diretor ampliou o quarto de hora de tolerância,
e atendeu à dor de cabeça, causa de triste insônia.
- Dormi sobre a madrugada, acabou o oficial.
- Assine.
Senão quando, morre-lhe o padrinho ao Gouveia, e em testamento
deixou ao afilhado três contos de réis. Qualquer acharia
nisso um benefício, Gouveia achou dois; o legado e a ocasião
de travar relações com o pai de Flora. Correu a pedir-lhe
que aceitasse a procuração de legatário, ajustando
logo os honorários e as despesas. Com pouco, foi procurá-lo
à casa, e para que o advogado desse a notícia do constituinte
à família, empregou muitos ditos subtis e graciosos,
contou anedotas do padrinho, expôs conceitos filosóficos
e um programa de marido. Descreveu também a situação
administrativa, a promoção iminente, os louvores recebidos,
comissões e gratificações, tudo o que o distinguia
de outros companheiros. De resto, ninguém na repartição
lhe queria mal. Aqueles mesmos que se creram prejudicados, acabavam
confessando que era justa a preferência dada ao Gouveia. Não
seria tudo exato; ele o cria assim, ao menos, e, se não cria
tudo, não desmentiu nada. Perdeu tempo e trabalho. Flora
não soube da conversação.
Nem soube da conversação, nem deu agora pelo vulto,
como lá disse. Também disse que a noite era escura.
Acrescento que começou a pingar fino e a ventar fresco. Gouveia
trazia guarda-chuva e ia a abri-lo, mas recuou. O que se passou
na alma dele foi uma luta igual à dos dois textos da carta.
O oficial queria abrigar-se da chuva, o amanuense queria apanhá-la,
isto é, o poeta renascia contra as intempéries, sem
medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos da cavalaria.
Guarda-chuva era ridículo; poupar-se à constipação
desmentia a adoração. Tal foi a luta e o desfecho;
venceu o amanuense, enquanto a chuva ia pingando grosso, e outra
gente passava abrigada e depressa. Flora entrou e fechou a janela.
O amanuense esperou ainda algum tempo, até que o oficial
abriu o guarda-chuva e fez como os outros. Em casa achou a triste
consolação da mãe.
CAPÍTULO
XCVI / RETRAIMENTO
Aquela noite
acabou sem incidente. Os gêmeos vieram, Flora não apareceu,
e no dia seguinte duas cartinhas perguntavam a D. Cláudia
como passara a filha. A mãe respondeu que bem. Nem por isso
Flora os recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma coisa que
a fazia falar pouco. Pediram-lhe música, tocou; foi bom,
porque era um meio de se meter consigo. Não respondeu aos
apertos de mão, como eles supunham que fazia até há
pouco. Assim foi essa noite, assim foram as outras. Ora um, ora
outro chegava primeiro, imaginando que a presença do rival
é que tolhia a moça; mas a precedência não
valia nada.
CAPÍTULO
XCVII / UM CRISTO PARTICULAR
Tudo isso lhe
custava tanto, que ela acabou pedindo ao seu Cristo um lugar de
governador para o pai, - ou qualquer comissão fora daqui.
Jesus Cristo não distribui os governos deste mundo. O povo
é que os entrega a quem merece, por meio de cédulas
fechadas, metidas dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas,
lidas, somadas e multiplicadas. A comissão podia vir, isso
sim; a questão era saber se Jesus Cristo acudirá a
todos os que lhe pedem a mesma coisa. Os comissários seriam
infinitamente mais que as comissões. Esta objeção
foi logo expelida do espírito de Flora, porque ela pedia
ao seu Cristo, um de marfim velho, deixa da avó, um Cristo
que nunca lhe negou nada, e a quem as outras pessoas não
vinham importunar com súplicas. A própria mãe
tinha o seu particular, confidente de ambições, consolo
de desenganos; não recorria ao da filha. Tal era a fé
ingênua da moça.
Certamente, já lhe havia pedido que a livrasse daquela complicação
de sentimentos, que não acabavam de ceder um ao outro, daquela
hesitação cansativa, daquele empuxar para ambos os
lados. Não foi ouvida. A causa seria talvez por não
haver dado ao pedido a forma clara que aqui lhe ponho, com escândalo
do leitor. Efetivamente, não era fácil pedir assim
por palavras seguidas, faladas ou só pensadas; Flora não
formulou a súplica. Pôs os olhos na imagem e esqueceu-se
de si, para que a imagem lesse dentro dela o seu desejo. Era demais;
requerer o favor do céu e obrigá-lo a adivinhar o
que era... Assim cuidou Flora, e resolveu emendar a mão.
Não chegou lá; não ousou dizer a Jesus o que
não dizia a si mesma. Pensava nos dois, sem confessar a nenhum.
Sentia a contradição, sem ousar encará-la por
muito tempo.
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