ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO LII / UM SEGREDO
Eis agora a
matéria da conspiração. Na rua, ao virem de
S. Clemente, foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta
e o jantar, pôde revelar à moça um segredo:
- Titia disse lá em casa que D. Cláudia lhe contara
em segredo (não diga nada) que seu pai vai ser nomeado presidente
de província.
- Não sei nada disso, mas não creio, porque papai
é conservador.
- D. Cláudia disse a titia que ele é liberal, quase
radical. Parece que a presidência é certa; ela pediu
segredo, e titia, quando nos contou, também pediu segredo.
Eu também lhe peço que não diga nada, mas é
verdade.
- Verdade como? Papai não vai com liberais; o senhor não
sabe como papai é conservador. Se ele defende os liberais
é porque é tolerante.
- Se a província fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria,
porque não era preciso ir morar na Praia Grande, e se ele
fosse, a viagem é só de meia hora, eu podia ir lá
todos os dias.
- Era capaz?
- Apostemos.
Flora, depois de um instante:
- Para que, se não há presidência?
- Suponha que há.
- É preciso supor muito, - que há presidência
e que a província é a do Rio. Não, não
há nada.
- Então suponha só metade, - que há presidência
e que é Mato Grosso.
Flora teve um calefrio. Sem admitir a nomeação, tremeu
ao nome da província. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Pará,
Piauí... Era o infinito, mormente se o pai fizesse boa administração,
porque não voltaria tão cedo. Já agora a moça
resistia menos, achava possível e abominável, mas
dizia isto para si, dentro do coração. De repente,
Pedro, quase estacando o passo:
- Se ele for, eu peço ao governo o lugar de secretário
e vou também.
A luz intermitente das lojas refletindo no rosto da moça,
à medida que eles iam passando por elas, ajudava a dos lampiões
da rua, e mostrava a emoção daquela promessa. Sentia-se
que o coração de Flora devia estar batendo muito.
Em breve, porém, começou ela a pensar em outra coisa.
Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante...
Não podia ser. Pensou em algum escândalo. Que ele fugisse,
embarcasse, fosse atrás dela...
Tudo isto era visto ou pensado em silêncio. Flora não
se admirava de pensar tanto e tão atrevidamente; era como
o peso do corpo, que não sentia: andava, pensava, como transpirava.
Não calculou sequer o tempo que ia gastando em imaginar e
desfazer idéias. Que isto lhe desse mais prazer que desprazer,
é certo. Ao pé dela, Pedro ia naturalmente cuidando,
com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não
sabia que dissesse no meio de tão longo silêncio. Entretanto,
a solução parecia-lhe única. Já não
pensava na presidência do Rio. Queria-se com ela, no ponto
mais remoto do império, sem o irmão. A esperança
de se desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim,
Paulo não iria também, a mãe não se
deixaria ficar desamparada. Que perdesse um filho, vá; mas
ambos...
A quem quer que este final de monólogo pareça egoísta,
peço-lhe pelas almas dos seus parentes e amigos, que estão
no céu, peço-lhe que considere bem as causas. Considere
o estado da alma do rapaz, a contiguidade da moça, as raízes
e as flores da paixão, a própria idade de Pedro, o
mal da terra, o bem da mesma terra. Considere tudo, idade de Pedro,
o mal da Terra, o bem da mesma Terra. Considere mais a vontade do
Céu, que vela por todas as criaturas que se querem, salvo
se uma só é que quer a outra, porque então
o Céu é um abismo de iniqüidades, e não
lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando
só e contando mal o que se passou naquele curto trânsito
entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de boca.
Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assunto
da presidência voltou. Flora notou então a cautelosa
insistência com que Aires olhava para eles, como se buscasse
adivinhar a matéria da conversação. Sentia
que não estivesse ali também, ouvindo e falando, finalmente
prometendo fazer alguma coisa por ela. Aires podia, sim, - era seu
amigo e todos o tinham em grande conta, - podia intervir e destruir
o projeto da presidência.
Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata.
Retirava-os, mas eles iam de si mesmos repetir o monólogo,
e acaso perguntar alguma coisa que Aires não percebia e devia
ser interessante. Pode ser que refletissem a angústia ou
o que quer que era que lhe doía dentro. Pode ser; a verdade
é que Aires começou a ficar curioso, e tão
depressa Pedro deixou o lugar para acudir ao chamado da mãe,
deixou ele Natividade para ir falar à moça.
Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras,
dessas que se não podem interromper sem dor ou prurido, ao
menos. Aires perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.
- Não, senhor.
- Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.
Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar,
respondeu-lhe que só adivinhara metade.
- A outra é?...
- A outra é pedir-lhe um obséquio de amizade.
- Peça.
- Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe
e papai estão fazendo as despedidas. Só se for na
rua. Quer vir conosco a S. Clemente?
- Com o maior prazer.
CAPÍTULO
LIII / DE CONFIDÊNCIAS
Entenda-se que
não. Não era com prazer maior nem menor. Era imposição
de sociedade, desde que Flora o pedira, não sei se discretamente.
Que a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum segredo, não
serei eu que o negue, nem tu, nem ele mesmo. Ao cabo de alguns instantes,
Aires ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas,
falhadas ou não nascidas, vozes de pai. Os gêmeos não
lhe deram um dia a mesma sensação, senão porque
eram filhos de Natividade. Aqui não era a mãe, era
a mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e porventura a sua fatalidade.
- Mas quer-me parecer que desta vez ela está presa; escolheu
enfim, pensou Aires.
Flora falou-lhe da presidência, mas não lhe pediu segredo,
como as outras pessoas; confessou-lhe que não queria ir daqui,
fosse para onde fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mãos
deles. Só ele podia despersuadir o pai de aceitar a presidência.
Aires achou tão absurdo este pedido que esteve quase a rir,
mas susteve-se bem. A palavra de Flora era grave e triste. Aires
respondeu, com brandura, que não podia nada.
- Pode muito, todos atendem ao seus conselhos.
- Mas eu não dou conselhos a ninguém, acudiu Aires.
Conselheiro é um título que o imperador me conferiu,
por achar que o merecia, mas não obriga a dar conselhos;
a ele mesmo só lhos darei, se mos pedir. Imagine agora se
eu vou à casa de um homem ou mando chamá-lo à
minha para lhe dizer que não seja presidente de província.
Que razão lhe daria?
Não tinha razões a moça; tinha necessidade.
Apelou para os talentos do ex-ministro, que acharia uma razão
boa. Nem se precisavam razões, bastava o falar dele, a arte
que Deus lhe dera de agradar a toda a gente, de a arrastar, de influir,
de obter o que quisesse. Aires viu que ela exagerava para o atrair,
e não lhe pareceu mal. Não obstante, contestou tais
méritos e virtudes. Deus não lhe dera arte nenhuma,
disse ele, mas a moça ia sempre afirmando, em tal maneira
que Aires suspendeu a contestação, e fez uma promessa.
- Vou pensar; amanhã ou depois, se achar algum recurso, tentarei
o negócio.
Era um paliativo. Era também um modo de fazer cessar a conversação,
estando a casa próxima. Não contava com o pai de Flora,
que à fina força lhe quis mostrar, àquela hora,
uma novidade, aliás uma velharia, um documento de valor diplomático.
"Venha, suba, cinco minutos apenas, conselheiro."
Aires suspirou em segredo, e curvou a cabeça ao Destino.
Não se luta contra ele, dirás tu; o melhor é
deixar que pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira
alçar-nos ou despenhar-nos. Batista nem lhe deu tempo de
refletir; era todo desculpas.
- Cinco minutos e está livre de mim, mas verá que
lhe pago o sacrifício.
O gabinete era pequeno; poucos livros e bons, os móveis graves,
um retrato de Batista com a farda de presidente, um almanaque sobre
a mesa, um mapa na parede, algumas lembranças do governo
da província. Enquanto Aires circulava os olhos, Batista
foi buscar o documento. Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu
a pasta, tirou o documento, que não estava só, mas
com outros. Conhecia-se logo por ser um papel velho, amarelo, em
partes roído. Era uma carta do Conde de Oeiras, escrita ao
ministro de Portugal na Holanda.
- É o dia das antigüidades, pensou Aires; a tabuleta,
o tinteiro, este autógrafo...
- A carta é importante, mas longa, disse Batista, não
podemos lê-la agora. Quer levá-la?
Não lhe deu tempo de responder; pegou de uma sobrecarta grande
e meteu dentro o manuscrito, com esta nota por fora: "Ao meu
excelentíssimo amigo Conselheiro Aires." Enquanto ele
fazia isto, Aires passava os olhos pela lombada de alguns livros.
Entre eles havia dois Relatórios da presidência de
Batista, ricamente encadernados.
- Não me atribua esse luxo, acudiu o ex-presidente; foi um
mimo da secretaria do governo que nunca fez isto a ninguém.
Era um pessoal muito distinto.
E foi à estante e tirou um dos relatórios para ser
melhor visto. Aberto, mostrou a impressão e as vinhetas;
lido, podia mostrar o estilo por um lado, e, por outro, a prosperidade
das finanças. Batista limitou-se aos algarismos totais: despesa,
mil duzentos e noventa e quatro contos, setecentos e noventa mil-réis;
receita, mil quinhentos e quarenta e quatro contos, duzentos e nove
mil-réis; saldo, duzentos e quarenta e nove contos, quatrocentos
e dezenove mil-réis. Verbalmente, explicou o saldo, que alcançou
pela modificação de alguns serviços, e por
um pequeno aumento de impostos. Reduziu a dívida provincial,
que achou em trezentos e oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos
e cinqüenta contos. Fez obras novas e consertos importantes;
iniciou uma ponte...
- A encadernação corresponde à matéria,
disse Aires para concluir a visita.
Batista fechou o livro, e redargüiu que já agora não
iria sem lhe resolver uma consulta.
- Tudo às avessas, concluiu; eu de manhã resolvo consultas,
agora à noite sou eu que as faço.
Tal foi o intróito, mas do intróito ao Credo há
sempre um passo estirado, e o principal da missa para ele estava
no Credo. Não achando o texto do missal, explicou-lhe um
sinete, uma pena de ouro, um exemplar do Código Criminal.
O Código, posto que velho, valia por trinta novos, não
que tivesse melhor rosto, senão que trazia anotações
manuscritas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado longa parte
da vida no exterior, o conselheiro mal conhecera o autor das notas,
mas desde que ouviu chamar-lhe grande assumiu a expressão
adequada. Pegou do código com cuidado, leu algumas das notas
com veneração.
Durante esse tempo, Batista ia criando fôlego. Compôs
uma frase para iniciar a consulta, e só esperava que Aires
fechasse o livro para soltá-la; mas o outro ia demorando
o exame do código. Podia ser uma pontinha de malignidade,
mas não era. Os olhos de Aires tinham uma faculdade particular,
menos particular do que parece, porque outros a possuirão
calados. Vinha a ser que eles não saíam da página,
mas em verdade já lhe prestava menos atenção,
o tempo, a gente, a vida, coisas passadas, surdiam a espiá-lo
por detrás do livro com que tinham vivido, e Aires ia tornando
a ver um Rio de Janeiro que não era este, ou apenas o fazia
lembrado. Nem cuides que eram só réus e juízes,
era o passeio, a rua, a festa, velhos patuscos e mortos, rapazes
frescos e agora enferrujados como ele. Batista tossiu. Aires voltou
a si e leu alguma das notas que o outro devia trazer de cor, mas
eram tão profundas! Enfim, mirou a encadernação,
achou o livro bem conservado, fechou-o e restituiu-o à biblioteca.
Batista não perdeu um instante, correu imediato ao assunto,
com medo de o ver pegar em outro livro.
- Confesso-lhe que tenho o temperamento conservador.
- Também eu guardo presentes antigos.
- Não é isso; refiro-me ao temperamento político.
Verdadeiramente há opiniões e temperamentos. Um homem
pode muito bem ter o temperamento oposto às suas idéias.
As minhas idéias, se as cotejarmos com os programas políticos
do mundo, são antes liberais e algumas libérrimas.
O sufrágio universal, por exemplo, é para mim a pedra
angular de um bom regímen representativo. Ao contrário,
os liberais pediram e fizeram o voto censitário. Hoje estou
mais adiantado que eles; aceito o que está, por ora, mas
antes do fim do século é preciso rever alguns artigos
da Constituição, dois ou três.
Aires escondia o espanto... Convidado assim àquela hora...
Uma profissão de fé política... Batista insistia
na distinção do temperamento e das idéias.
Alguns amigos velhos, que conheciam esta dualidade moral e mental,
é que teimavam em querer que ele aceitasse uma presidência;
ele não queria. Francamente, que lhe parecia ao conselheiro?
- Francamente, acho que não tem razão.
- Que não tenho razão em quê?
- Em recusar.
- Propriamente, não recusei nada; há um grande trabalho
neste sentido, e o meu desejo, - acrescentou com mais clareza, -
é que os bons amigos sagazes me digam se tal coisa é
acertada; não me parece que seja...
- Eu penso que é.
- De maneira que, se o caso fosse com o senhor...
- Comigo não podia ser. Sabe que eu já não
sou deste mundo e politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia
tem este efeito que separa o funcionário dos partidos e o
deixa tão alheio a eles, que fica impossível de opinar
com verdade, ou, quando menos, com certeza.
- Mas não me disse que acha...
- Acho.
- ...Que posso aceitar uma presidência, se me oferecerem?
- Pode; uma presidência aceita-se.
- Pois então saiba tudo; é a única pessoa de
sociedade com quem me abro assim francamente. A presidência
foi-me oferecida.
- Aceite, aceite.
- Está aceita.
- Já?
- O decreto assina-se sábado.
- Então aceite também os meus parabéns.
- Propriamente, a lembrança não foi do ministério;
ao contrário, o ministério não se resolveu
antes de saber se efetivamente fiz uma eleição contra
os liberais, há anos; mas logo que soube que por não
os perseguir é que fui demitido, aceitou a indicação
de chefes políticos, e recebi pouco depois este bilhete.
O bilhete estava no bolso, dentro da carteira. Qualquer outro, alvoroçado
com a nomeação próxima, levaria tempo a achar
o bilhete no meio dos papéis; mas Batista possuía
o tacto dos textos. Tirou a carteira, abriu-a descansado e com os
dedos sacou o bilhete do ministro convidando-o a uma conversação.
Na conversação ficou tudo assentado.
CAPÍTULO
LIV / ENFIM, SÓ!
Enfim, só!
Quando Aires se achou na rua, só, livre, solto, entregue
a si mesmo, sem grilhões nem considerações,
respirou largo. Fez um monólogo, que daí a pouco interrompeu
por se lembrar de Flora. Tudo o que ela não quisera ia acontecer;
lá ia o pai a uma presidência, e ela com ele, e a recente
inclinação ao jovem Pedro vinha parar a meio caminho.
Entretanto, não se arrependia do que dissera e ainda menos
do que não dissera. Os dados estavam lançados. Agora
era cuidar de outra coisa.
CAPÍTULO
LV / "A MULHER É A DESOLAÇÃO DO HOMEM"
Ao desperdir-se,
fez Aires uma reflexão, que ponho aqui, para o caso de que
algum leitor a tenho feito também. A reflexão foi
obra de espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão
difícil em ceder às instigações da esposa
(Vai-te, Satanás, etc.; capítulo XLVII) deitou tão
facilmente o hábito às urtigas. Não achou explicação
nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde,
que os primeiros passos da conversão do homem foram dados
pela mulher. "A mulher é a desolação do
homem", dizia não sei que filósofo socialista,
creio que Proudhon. Foi ela, a viúva da presidência,
que por meios vários e secretos, tramou passar a segundas
núpcias. Quando ele soube do namoro, já os banhos
estavam corridos; não havia mais que consentir e casar também.
Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de
antemão os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe
de guia e amparo, e, com poucas horas, Batista viu claro e ficou
firme.
- Estamos à porta do terceiro reinado, ponderou D. Cláudia,
e certamente o Partido Liberal não deixa tão cedo
o poder. Os seus homens são válidos, a inclinação
dos tempos é para o liberalismo, e você mesmo...
- Sim, eu... suspirou Batista.
D. Cláudia não suspirou, cantou vitória; a
reticência do marido era a primeira figura de aquiescência.
Não lhe disse isto assim, nu e cru; também não
revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem da razão
fria e da vontade certa. Batista, sentindo-se apoiado, caminhou
para o abismo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça,
nem com ela. Posto que a vontade que trazia fosse de empréstimo,
não lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida
e alma. Daí a autoria de que se investiu e acabou confessando.
Tal foi a conclusão de Aires, segundo se lê no Memorial.
Tal será a do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui
lhe poupei o trabalho de Aires; não o obriguei a achar por
si o que, de outras vezes, é obrigado a fazer. O leitor atento,
verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro,
e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até
que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.
CAPÍTULO
LVI / O GOLPE
O dia seguinte
trouxe à menina Flora a grande novidade. Sábado seria
assinado o decreto, a presidência era no Norte. D. Cláudia
não lhe viu a palidez, nem sentiu as mãos frias, continuou
a falar do caso e do futuro, até que Flora, querendo sentar-se,
quase caiu. A mãe acudiu-lhe:
- Que é? Que tens?
- Nada mamãe, não é nada.
A mãe fê-la sentar-se.
- Foi uma tonteira, passou.
D. Cláudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe
os pulsos; Flora sorriu.
- Este sábado? perguntou.
- O decreto? Sim, este sábado. Mas não digas por ora
a ninguém; são segredos de gabinete. É coisa
certa; enfim, alguém nos fez justiça; provavelmente
o imperador. Amanhã irás comigo a algumas encomendas.
Fazer uma lista do que precisas.
Flora precisava não ir e só pensava nisso. Uma vez
que o decreto estava prestes a ser assinado, não havia já
desaconselhar a nomeação; restava-lhe a ela ficar.
Mas como? Todos os sonhos são próprios ao sono de
uma criança. Não era fácil, mas não
seria impossível. Flora cria tudo; não tirava o pensamento
de Aires, e já agora de Natividade também. Os dois
podiam fazê-lo, ou antes os três, se contardes também
o barão, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro
as cinco estrelas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e arcanjos,
virgens e mártires... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer
esta simples ação de impedir que Flora fosse para
a província. Tais eram as esperanças vagas, rápidas,
que corriam a substituir as tristezas do rosto da moça, enquanto
a mãe, atribuindo o efeito ao vinagre, ajustava a rolha de
vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador.
- Faze uma lista do que precisas, repetiu à filha.
- Não, mamãe, eu não preciso nada.
- Precisas, sim, eu sei o que precisas.
CAPÍTULO
LVII / DAS ENCOMENDAS
Não escreveria
este capítulo, se ele fosse propriamente das encomendas,
mas não é. Tudo são instrumentos nas mãos
da Vida. As duas saíram de casa, uma lépida, a outra
melancólica, e lá foram a escolher uma quantidade
de objetos de viagem e de uso pessoal. D. Cláudia pensava
nos vestidos da primeira recepção e de visitas; também
ideou o do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas
gravatas. Os chapéus, entretanto, foram o principal artigo
da lista. Ao parecer de D. Cláudia, o chapéu da mulher
é que dava a nota verdadeira do gosto, das maneiras e da
cultura de uma sociedade. Não valia a pena aceitar uma presidência
para levar chapéus sem graça, dizia ela sem convicção,
porque intimamente pensava que a presidência dá graça
a tudo.
Estavam justamente na loja de chapéus, Rua do Ouvidor, sentadas,
os olhos fora e longe, quando a verdadeira matéria deste
capítulo apareceu. Era o gêmeo Paulo, que chegara pelo
trem noturno, e sabendo que elas andavam a compras, viera procurá-las.
- O senhor! exclamaram.
- Cheguei esta manhã.
Flora tinha-se levantado, com o alvoroço que lhe deu a vista
inesperada de Paulo. Ele correu a elas, apertou-lhes as mãos,
indagou da saúde e reconheceu que pareciam vender saúde
e alegria. A impressão era exata; Flora tinha agora uma agitação,
que contrastava com o abatimento daquela triste manhã, e
um riso que a fazia alegre.
- Tive sempre notícias das senhoras, que mamãe me
dava, e Pedro também, às vezes. Da senhora, continuou
ele falando a D. Cláudia, recebi duas cartas. Como vai o
doutor?
- Bem.
- Ora, enfim, cá estou!
E Paulo dividia os olhos com as duas, mas a melhor parte ia naturalmente
para a filha. Pouco depois era todo e pouco para esta. D. Cláudia
voltara à escolha dos chapéus, e Flora, que até
então opinava de cabeça, perdeu este último
gesto. Paulo sentou-se na cadeira que um empregado lhe trouxe, e
ficou a olhar para a moça; falavam de coisas mínimas,
alheias ou próprias, tudo o que bastasse para os reter disfarçadamente
na contemplação um do outro. Paulo viera o mesmo que
fora, o mesmo que Pedro, sempre com alguma nota particular, que
ela não podia achar claramente, menos ainda definir. Era
um mistério, Pedro teria o seu.
D. Cláudia interrompia-os, de vez em quando, a propósito
da escolha; mas, tudo acaba, até a escolha de chapéus.
Foram dali aos vestidos. Paulo, não sabendo da presidência,
estimou esta casualidade para as acompanhar de loja em loja. Contava
anedotas de S. Paulo, sem grande interesse para Flora; as notícias
que ela lhe dava acerca das amigas, eram mais ou menos dispensáveis.
Tudo valia pelos dois interlocutores. A rua ajudava aquela absorção
recíproca; as pessoas que iam ou vinham, damas ou cavalheiros,
parassem ou não, serviam de ponto de partida a alguma digressão.
As digressões entraram a dar as mãos ao silêncio,
e os dois seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta,
ele mais que ela, porque uma pontinha de melancolia começava
a espancar do rosto da moça a alegria da hora recente.
Na Rua Gonçalves Dias, indo para o Largo da Carioca, Paulo
viu dois ou três políticos de S. Paulo, republicanos,
parece que fazendeiros. Havendo-os deixado lá, admirou-se
de os ver aqui, sem advertir que a última vez que os vira
ia já a alguma distância.
- Conhecem? perguntou às duas.
Não, não os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes.
A mãe talvez fizesse alguma pergunta política, mas
deu por falta de um objeto, advertiu que o não comprara,
e propôs voltarem atrás. Tudo era aceito por ambos,
com docilidade, apesar do véu de tristeza, que se ia cerrando
mais no rosto da moça. Aquelas encomendas tinham já
um ar de bilhetes de passagem, não tardava o paquete, iam
correr às malas, aos arranjos, às despedidas, ao camarote
de bordo, ao enjôo de mar, e àquele outro de mar e
terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Daí o silêncio
crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e contudo
ela estava bem com ele, gostava de lhe ouvir dizer coisas soltas,
algumas novas, outras velhas, recordações anteriores
à partida daqui para S. Paulo.
Assim se deixaram ir, guiados por D. Cláudia, quase esquecida
deles. No meio daquela conversação truncada, mais
entretida por ele que por ela, Paulo sentia ímpetos de lhe
perguntar, ao ouvido, na rua, se pensara nele, ou, ao menos, sonhara
com ele algumas noites. Ouvindo que não, daria expansão
à cólera, dizendo-lhe os últimos impropérios;
se ela corresse, correria também, até pegá-la
pelas fitas do chapéu ou pela manga do vestido, e, em vez
de a esganar, dançaria com ela uma valsa de Strauss ou uma
polca de ***. Logo depois, ria destes delírios, porque, a
despeito da melancolia da moça, os olhos que ela erguia para
ele eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida
de descobrir se é a mesma do sonho e do pensamento. Assim
lhe parecia ao estudante de Direito; pelo que, quando ele desviava
o rosto, era para repetir a experiência e tornar a ver-lhe
os olhos aguçados do mesmo espírito crítico
e de livre exame. Quanto ao tempo que os três gastaram nessa
agitação de compras e escolhas, visões e comparações,
não há memória, dele, nem necessidade. Tempo
é propriamente ofício de relógio, e nenhum
deles consultou o relógio que trazia.
CAPÍTULO
LVIII / MATAR SAUDADES
Ora bem, acabas
de ver como Flora recebeu o irmão de Pedro, tal qual recebia
o irmão de Paulo. Ambos eram apóstolos. Paulo achava-a
agora mais bonita que alguns meses antes, e disse-lho nessa mesma
tarde em S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:
- A senhora enfeitou muito.
Flora julgava a mesma coisa, relativamente ao estudante de Direito;
calou a impressão. Ou a tristeza que trazia, ou qualquer
outro sensação particular, fê-la acanhada, a
princípio. Não tardou, porém, que achasse outra
vez o gêmeo no gêmeo, e que ele e ela matassem saudades.
Como é que se matam saudades não é coisa que
se explique de um modo claro. Ele não há ferro nem
fogo, corda nem veneno, e todavia as saudades expiram, para a ressurreição,
alguma vez antes do terceiro dia. Há quem creia que, ainda
mortas, são doces, mais que doces. Esse ponto, no nosso caso,
não pode ser ventilado, nem eu quero desenvolvê-lo,
como aliás cumpria.
As saudades morreram, não todas, nem logo, logo, mas em parte
e tão vagarosamente que Paulo aceitou o convite de lá
jantar. Era o dia da chegada; Natividade quisera tê-lo consigo
à mesa, ao pé de Pedro, para cimentar a pacificação
começada pela distância. Paulo nem se deu ao trabalho
de lá mandar; deixou-se estar com a bela criatura, entre
o pai e a mãe que pensava em outra coisa, próxima
no tempo e remota no espaço. Sabendo o que era, Flora passava
do prazer ao tédio, e Paulo não entendia essa alternação
de sentimentos. De quando em quando, vendo a mãe agitada
e preocupada, mas com outra expressão, Paulo interrogava
a filha. Em vez de dar uma explicação qualquer, Flora
passou uma vez a mão pelos olhos e ficou alguns instantes
sem os descobrir. A ação do estudante de Direito,
devia ser arredar-lhe a mão, encará-la de perto, mais
perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um modo em que
a eloqüência do gesto dispensasse a fala. Se tal idéia
teve, não saiu cá fora. Nem ela lhe consentiu mais
tempo que o da pergunta:
- Que é que tem?
- Nada, respondeu Flora.
- Tem alguma coisa, insistiu ele querendo pegar-lhe na mão.
Não acabou o gesto, não o começou sequer; abriu
e fechou os dedos apenas, enquanto ela sorria para sacudir tristezas,
e deixou-se estar a matar saudades.
CAPÍTULO
LIX / NOITE DE 14
Tudo se explicou
à noite, em casa da família Santos. O ex-presidente
de província confessou as esperanças de uma investidura
nova; a esposa afirmou a eminência do ato. Daí a publicidade
da notícia, que pouco antes D. Cláudia só dizia
em segredo. Já não havia segredos que calar.
Paulo soube então tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares,
acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separação
próxima. A dor os fez amigos por instantes; é uma
das vantagens dessa grande e nobre sensação. Já
me não lembra quem afirmava, ao contrário, que um
ódio comum é o que mais liga duas pessoas. Creio que
sim, mas não descreio do meu postulado, por esta razão
que uma coisa não tolhe a outra, e ambas podem ser verdadeiras.
Demais, a dor não era ainda o desespero. Havia até
uma consolação para os dois gêmeos; é
que a moça ficaria longe de ambos. Nenhum deles teria o gozo
exclusivo ao pé da porta. Não há mal que não
traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil,
muita vez indispensável, alguma vez delicioso. Os dois quiseram
falar à amiguinha, em particular, para sondá-la acerca
daquela separação, já agora certa, mas nenhum
conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe falavam,
era sempre juntos, e de coisas familiares e ordinárias. O
gesto de Flora não traduzia o estado da alma; este podia
ser lépido, melancólico, ou indiferente, não
vinha cá fora. Em verdade, ela falava pouco. Os olhos também
não diziam muito. Mais de uma vez, Pedro deu com ela fitando
Paulo, e gemeu com a preferência, mas também ele era
preferido depois, e achava compensação; Paulo então
é que rangia os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue
à sua recepção, que era a última do
ano, não acompanhou de perto as agitações morais
daquele trio. Quando deu por elas, chegou a senti-las também.
Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. Não era muita,
e dominava a nota íntima. Quando a maioria saiu, ficou só
a porção mais íntima, três ou quatro
homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e anedotas.
Não conversavam de política, e aliás não
faltaria matéria. As moças, pela segunda ou terceira
vez, trocavam as impressões do grande baile recente. Também
falavam de músicas e teatros, das festas próximas
de Petrópolis, da gente que ia naquele ano, e da que só
iria em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que,
podendo ficar alguns instantes com Aires, confiara-lhe o seu receio
acerca do amor dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia
a esperança de uma longa separação de Flora.
O conselheiro não desdizia do receio, nem da esperança.
- É uma felicidade que o Batista seja nomeado e leve a filha
daqui, disse ela.
- Certamente, mas...
- Mas quê?
- Certamente a levará, mas a senhora pode não conhecer
bem aquela menina.
- Penso que é boa.
- Também eu penso assim. A bondade, porém, não
tem nada com o resto da pessoa. Flora é, como já lhe
disse há tempos, uma inexplicável. Agora é
tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão, depois
lhe direi. Note que gosto muito dela; acho-lhe um sabor particular
naquele contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão
fora do mundo, tão etérea e tão ambiciosa,
ao mesmo tempo, de uma ambição recôndita...
Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até
amanhã, concluiu ele, estendendo-lhe a mão. Amanhã
virei explicá-las.
- Explique-as agora, enquanto os outros parecem rir de algum dito
engraçado.
Efetivamente, os homens riam de algum dito ou trocadilho; Aires
quis falar, mas reteve a língua, e desculpou-se. A explicação
era longa e difícil, e não era urgente, disse ele.
- Eu mesmo não sei se me entendo, baronesa, nem se penso
a verdade; pode ser. Em todo caso, minha boa amiga, até amanhã
ou até Petrópolis. Quando espera subir?
- Lá para o fim do ano.
- Então ainda nos veremos algumas vezes.
- Sim, e se me não vir a mim, quero que veja os meus rapazes,
que os receba e estime. Eles o têm em grande conta; não
lhe fazem senão justiça. Pedro acha que o senhor é
o espírito mais fino, e Paulo o mais rijo da nossa terra...
- Veja como a senhora os educa, ensinando-lhes a pensar errado,
disse Aires sorrindo e fazendo um gesto de agradecimento. Eu rijo?
- O mais rijo e o mais fino.
Os últimos habituados da casa vieram dar boa noite à
dona. Dez minutos depois, Aires despedia-se do casal Santos.
A noite era clara e tranqüila. Aires recompôs uma parte
do serão para escrevê-la no Memorial. Poucas linhas,
mas interessantes, nas quais Flora era a principal figura:
"Que o Diabo a entenda, se puder, eu, que sou menos que ele,
não acerto de a entender nunca. Ontem parecia querer a um,
hoje quis ao outro; pouco antes das despedidas, queria a ambos.
Encontrei outrora desses sentimentos alternos e simultâneos;
eu mesmo fui uma e outra coisa, e sempre me entendi a mim. Mas aquela
menina e moça... A condição dos gêmeos
explicará esta inclinação dupla; pode ser também
que alguma qualidade falte a um que sobre a outro, e vice-versa,
e ela, pelo gosto de ambas, não acha de escolher de vez.
É fantástico, sei; menos fantástico é
se eles, destinados à inimizade, acharem nesta mesma criatura
um campo estreito de ódio, mas isto os explicaria a eles,
não a ela... seja o que for a nossa organização
política é útil; a presidência de província,
arredando Flora daqui, por algum tempo, tira esta moça da
situação em que se acha como a asna de Buridan. Quando
voltar, a água estará bebida e a cevada comida, um
decreto ajudará a natureza."
Isto feito, Aires meteu-se na cama, rezou uma ode do seu Horácio
e fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou então uma
página do seu Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente
os olhos, até que dormiu. Pouco foi; às cinco horas
e quarenta minutos estava de pé. Em novembro, sabes que é
dia.
CAPÍTULO LX / MANHÃ DE 15
Quando lhe acontecia
o que ficou contado, era costume de Aires sair cedo, a espairecer.
Nem sempre acertava. Desta vez foi ao Passeio Público. Chegou
às sete horas e meia, entrou, subiu ao terraço e olhou
para o mar. O mar estava crespo. Aires começou a passear
ao longo do terraço, ouvindo as ondas, e chegando-se à
borda, de quando em quando, para vê-las bater e recuar. Gostava
delas assim; achava-lhes uma espécie de alma forte, que as
movia para meter medo à terra. A água, enroscando-se
em si mesma, dava-lhe uma sensação, mais que de vida,
de pessoa também, a que não faltavam nervos nem músculos,
nem a voz que bradava as suas cóleras.
Enfim, cansou e desceu, foi-se ao lago, ao arvoredo, e passeou à
toa, revivendo homens e coisas, até que se sentou em um banco.
Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada,
como de costume, olhando à toa, lendo gazetas ou cochilando
a vigília de uma noite sem cama. Estava de pé, falando
entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação
sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu
umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campo, ministério,
etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para ele a ver se
lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha às
notícias. Não juro que assim fosse, porque o dia vai
longe, e as pessoas não eram conhecidas. O próprio
Aires, se tal coisa suspeitou, não a disse a ninguém;
também não afiou o ouvido para alcançar o resto.
Ao contrário, lembrando-lhe algo particular, escreveu a lápis
uma nota na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem,
não sem algum epíteto de louvor, uns ao governo, outros
ao exército: podia ser amigo de um ou de outro.
Quando Aires saiu do Passeio Público, suspeitava alguma coisa,
e seguiu até o Largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas,
gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas
nenhuma notícia clara nem completa. Na Rua do Ouvidor, soube
que os militares tinham feito uma revolução, ouviu
descrições da marcha e das pessoas, e notícias
desencontradas. Voltou ao largo, onde três tílburis
o disputaram; ele entrou no que lhe ficou mais à mão,
e mandou tocar para o Catete. Não perguntou nada ao cocheiro;
este é que lhe disse tudo e o resto. Falou de uma revolução,
de dois ministros mortos, um fugido, os demais presos. O imperador,
capturado em Petrópolis, vinha descendo a serra.
Aires olhava para o cocheiro, cuja palavra saía deliciosa
de novidade. Não lhe era desconhecida esta criatura. Já
a vira, sem o tílburi, na rua ou na sala, à missa
ou a bordo, nem sempre homem, alguma vez mulher, vestida de seda
ou de chita. Quis saber mais, mostrou-se interessado e curioso,
e acabou perguntando se realmente houvera o que dizia. O cocheiro
contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da Rua dos Inválidos
e levara ao Largo da Glória, por sinal que estava assombrado,
não podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria
o dobro; e pagou.
- Talvez fosse algum implicado no barulho, sugeriu Aires.
- Também pode ser, porque ele levava o chapéu derrubado,
e a princípio pensei que tinha sangue nos dedos, mas reparei
e vi que era barro; com certeza, vinha de descer algum muro. Mas,
pensando bem, creio que era sangue; barro não tem aquela
cor. A verdade é que ele pagou o dobro da viagem, e com razão,
porque a cidade não está segura, e a gente corre grande
risco levando pessoas de um lado para outro...
Chegavam justamente à porta de Aires; este mandou parar o
veículo, pagou pela tabela e desceu. Subindo a escada, ia
naturalmente pensando nos acontecimentos possíveis. No alto
achou o criado que sabia tudo, e lhe perguntou se era certo...
- O que é que não é certo, José? É
mais que certo.
- Que mataram três ministros?
- Não; há só um ferido.
- Eu ouvi que mais gente também, falaram em dez mortos...
- A morte é um fenômeno igual à vida; talvez
os mortos vivam. Em todo caso, não lhes rezes por almas,
porque não és bom católico, José.
CAPÍTULO
LXI / LENDO XENOFONTE
Como é
que, tendo ouvido falar da morte de dois e três ministros,
Aires afirmou apenas o ferimento de um, ao retificar a notícia
do criado? Só se pode explicar de dois modos, - ou por um
nobre sentimento de piedade, ou pela opinião de que toda
a notícia pública cresce de dois terços, ao
menos. Qualquer que fosse a causa, a versão do ferimento
era a única verdadeira. Pouco depois passava pela Rua do
Catete a padiola que levava um ministro, ferido. Sabendo que os
outros estavam vivos e sãos e o imperador era esperado de
Petrópolis, não acreditou na mudança de regímen
que ouvira ao cocheiro de tílburi e ao criado José.
Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança
de pessoal.
- Temos gabinete novo, disse consigo.
Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: "Considerava
eu um dia quantas repúblicas têm sido derribadas por
cidadãos que desejam outra espécie de governo, e quantas
monarquias e oligarquias são destruídas pela sublevação
dos povos; e de quantos sobem ao poder uns são depressa derribados,
outros, se duram, são admirados por hábeis e felizes..."
Sabes a conclusão do autor, em prol da tese de que o homem
é difícil de governar; mas logo depois a pessoa de
Ciro destrói aquela conclusão, mostrando um só
homem que regeu milhões de outros, os quais não só
o temiam, mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto
em grego, e com tal pausa que ele chegou ao fim do almoço,
sem chegar ao fim do primeiro capítulo.
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