ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO CX / QUE VOA
Assim como o
carro veio voando do cemitério, assim voará este capítulo
destinado a dizer primeiro que a mãe dos gêmeos conseguiu
levá-los para Petrópolis. Já não alegaram
a clínica da Santa Casa nem os documentos da Biblioteca Nacional.
Clínica e documentos repousam agora na cova n... Não
ponho o número, para que algum curioso, se achar este livro
na dita Biblioteca, se dê ao trabalho de investigar e completar
o texto. Basta o nome da defunta, que lá ficou dito e redito.
Voe este capítulo, como o trem de Mauá, serra acima,
até à cidade do repouso, do luxo e da galanteria.
Vá Natividade com os filhos, e Aires com os três. Em
cima, à noite, voltando este à casa do barão,
pôde ver os efeitos da paz jurada, a conciliação
final. Não sabia nada do pacto dos dois moços. Pai
nem mãe sabiam coisa nenhuma. Foi um segredo guardado no
silêncio e no desejo sincero de comemorar uma criatura que
os ligara, morrendo.
Natividade vivia agora enamorada dos filhos. Levava-os a toda parte,
ou guardava-os para si, a fim de os gostar mais deliciosamente,
de os aprovar por atos, de auxiliar a obra corretiva do tempo. Notícias
e boatos do Rio de Janeiro eram objeto de conversação
nas casas a que estes iam, sem os convidar a sair da abstenção
voluntária. As recreações pouco a pouco os
tomaram, algum passeio de carro ou a cavalo, e outras diversões
os traziam unidos.
Assim chegaram ao tempo em que a família Santos desceu, ainda
que a contragosto de Natividade. Ela temia que, mais perto do governo,
a discórdia política acabasse com a recente harmonia
dos filhos, mas não podia lá ficar. A outra gente
vinha descendo. Santos queria os seus velhos hábitos, e deu
algumas razões boas, que Natividade ouviu depois ao próprio
Aires. Podia ser um encontro de idéias, mas se estas eram
boas, deviam ser aceitas.
Natividade confiava ao tempo a perfeição da obra.
Cria no tempo. Eu, em menino, sempre o vi pintado como um velho
de barbas brancas e foice na mão, que me metia medo. Quanto
a ti, amigo meu, ou amiga minha, segundo for o sexo da pessoa que
me lê, se não forem duas, e os sexos ambos, - um casal
de noivos, por exemplo, - curiosos de saber como é que Pedro
e Paulo puderam estar no mesmo credo... Não falemos desse
mistério... Contenta-te de saber que eles tinham em mente
cumprir o juramento daquele lugar e ocasião. O tempo trouxe
o fim da estação, como nos outros anos, e Petrópolis
deixou Petrópolis.
CAPÍTULO
CXI / UM RESUMO DE ESPERANÇAS
"Quando
um não quer, dois não brigam" tal é o
velho provérbio que ouvi em rapaz, a melhor idade para ouvir
provérbios. Na idade madura eles devem já fazer parte
da bagagem da vida, frutos da experiência antiga e comum.
Eu cria neste; mas não foi ele que me deu a resolução
de não brigar nunca. Foi por achá-lo em mim que lhe
dei crédito. Ainda que não existisse, era a mesma
coisa. Quanto ao modo de não querer, não respondo,
não sei. Ninguém me constrangia. Todos os temperamentos
iam comigo; poucas divergências tive, e perdi só uma
ou duas amizades, tão pacificamente aliás, que os
amigos perdidos não deixaram de me tirar o chapéu.
Um deles pediu-me perdão no testamento.
No caso dos gêmeos eram ambos que não queriam; parecia-lhes
ouvir uma voz de fora ou do alto que lhes pedia constantemente a
paz. Força maior, portanto, e troca de fórmula: "Se
nenhum quer, nenhum briga."
Naturalmente os atos do governo eram aprovados e desaprovados, mas
a certeza de que podia acender-lhes novamente os ódios fazia
com que as opiniões de Pedro e de Paulo ficassem entre os
seus amigos pessoais. Não pensavam nada à vista um
do outro. Divergências de teatro ou de rua, eram sopitadas
logo, por mais que lhes doesse o silêncio. Não doeria
tanto a Pedro, como a Paulo, mas sempre era padecer alguma coisa.
Mudando de pensamento, esqueciam de todo, e o riso da mãe
era a paga de ambos.
A carreira diferente ia separá-los depressa, conquanto a
residência comum os trouxesse unidos. Tudo se podia combinar;
os interesses do ofício serviriam a este efeito, as relações
pessoais também, e afinal o uso, que vale por muito. Vou
aqui resumindo, como posso, as esperanças de Natividade.
Outras havia a que chamarei conjugais; os rapazes, porém,
não pareciam inclinados a elas, e a mãe, quem lhe
apalpasse o coração sentiria já um antecipado
ciúme das noras.
CAPÍTULO
CXII / O PRIMEIRO MÊS
Na véspera
do dia em que se completou o primeiro mês da morte de Flora,
Pedro teve uma idéia, que não comunicou ao irmão.
Não perderia nada em fazê-lo, porque Paulo teve a mesma
idéia, e também a calou. Dela nasce este capítulo.
A pretexto de ir visitar um doente, Pedro saiu de casa, antes das
sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem pretexto algum. Pia leitora,
adivinhas que ambos foram ao cemitério; não adivinhas,
nem é fácil adivinhar que cada um deles levava uma
grinalda. Não digo que fossem das mesmas flores, não
só para respeitar a verdade, senão também para
afastar qualquer idéia intencional de simetria na ação
e no acaso. Uma era de miosótis, outra creio que de perpétuas.
Qual fosse a de um, qual a do outro, não se sabe nem interessa
à narração. Nenhuma tinha letreiro.
Quando Paulo chegou ao cemitério, e viu de longe o irmão,
teve a sensação de pessoa roubada. Cuidava ser único
e era último. A presunção, porém, de
que Pedro não levara nada, uma folha sequer, consolou-o da
antecipação da visita. Esperou alguns instantes; advertindo
que podia ser visto, desviou-se do caminho, meteu-se por entre as
sepulturas, até ir colocar-se atrás daquela. Aí
esperou cerca de um quarto de hora. Pedro não, se queria
arrancar dali; parecia falar e escutar. Enfim, despediu-se e desceu.
Paulo, vagarosamente, caminhou para a sepultura. Indo a depositar
a grinalda, viu ali outra posta de fresco, e entendendo que era
do irmão, teve ímpeto de ir atrás dele e pedir-lhe
contas da lembrança e da visita. Não lhe leves a mal
o ímpeto; passou imediatamente. O que ele fez foi colocar
a coroa que levava no lado correspondente aos pés da defunta,
para não a irmanar com a outra, que estava do lado da cabeça.
Não viu, não adivinhou sequer que Pedro naturalmente
pararia um instante, para voltar a cara e mandar um derradeiro olhar
à moça enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu
com o irmão, no mesmo lugar que ele, os olhos no chão,
teve também o seu impulso de ir buscá-lo e trazê-lo
daquela cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os gestos
de piedade, quaisquer que fossem, ele os deu primeiro à querida
comum. Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora, falar-lhe, ouvi-la,
gemer com ela a separação eterna. Viera adiante do
outro; lembrara-se dela mais cedo.
Assim consolado, podia seguir caminho; Paulo, se saísse atrás
dele, e o visse, entenderia que fizera a sua visita em segundo lugar,
e receberia um golpe grande. Deu alguns passos na direção
do portão, estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria
ver os gestos dele, ver se rezava, se se benzia, para desmenti-lo
quando lhe ouvisse mofar das cerimônias eclesiásticas.
Logo sentiu que era um erro; não iria confessar a ninguém
que o vira rezando ao pé da cova de Flora. Ao contrário,
era capaz de o desmentir, - ou, quando menos, fazer um gesto de
incredulidade...
Enquanto estas imaginações lhe passavam pela cabeça,
desfazendo-se umas às outras, discursando sem palavras, aceitando,
repelindo, esperando, os olhos não se retiravam do irmão,
nem este da sepultura. Paulo não fazia gesto, não
mexia os lábios, tinha os braços cruzados. O chapéu
na mão. Não obstante, podia estar rezando. Também
podia ficar calado, para a sombra ou para a memória da defunta.
A verdade é que não saiu do lugar. Então Pedro
viu que a conversação, evocação, adoração,
o que quer que fosse que atava Paulo à sepultura, vinha sendo
muito mais demorado que as suas orações. Não
marcara o seu tempo, mas evidentemente o de Paulo era já
maior. Descontando a impaciência, que sempre faz crescer os
minutos, ainda assim parecia certo que Paulo gastava mais saudades
que ele. Deste modo. ganhava na extensão da visita o que
perdera na chegada ao cemitério. Pedro, à sua vez,
achou-se roubado.
Quis sair; mas, uma força, que ele não sabia explicar,
não lhe consentia levantar os pés, nem tirar os olhos
do gêmeo. A custo, pôde enfim trazer a estes e fazê-los
andar de volta pelas outras campas, onde leu alguns epitáfios.
Um de 1865 não se podia ler bem se era tributo de amor filial
ou conjugal, maternal ou paternal, por estar já apagado o
adjetivo. Tributo era, tinha a fórmula adotada pelos marmoristas,
para poupar estilo aos fregueses. Notando que o adjetivo estava
comido do tempo, Pedro disse consigo que o seu amor é que
era um substantivo perpétuo, não precisando mais nada
para se definir.
Pensou outras coisas com que foi disfarçando a humilhação.
Fizera tudo às carreiras. Se se demorasse mais, era o outro
que estaria agora à espreita. O tempo andava, o sol batia
no rosto do irmão, e este não arredava pé.
Enfim, deu mostras de deixar a cova, mas foi para rodeá-la,
e deter-se em todos os quatro lados, como se buscasse o melhor lugar
de ver ou evocar a pessoa guardada no fundo.
Tudo feito, Paulo arredou-se, desceu e saiu, levando as maldições
de Pedro. Este teve uma idéia que desprezou logo, e tu farias
o mesmo, amigo leitor; foi tornar à sepultura e emendar ao
tempo gasto anteriormente outro pedaço maior. Desprezada
a idéia, vagou alguns minutos, até que saiu, sem achar
sombra de Paulo.
CAPÍTULO
CXIII / UMA BEATRIZ PARA DOIS
Flora, se visse
os gestos de ambos, é provável que descesse do céu,
e buscasse maneira de os ouvir perpetuamente, uma Beatriz para dois.
Mas não viu ou não lhe pareceu bem descer. Talvez
não achasse necessidade de tornar cá, para servir
de madrinha a um duelo que deixara em meio.
Quanto a este, se ia continuar, não era pela mesma injúria.
Não esqueças que foi ao pé daquela mesma campa
que os dois fizeram as pazes eternas, e, posto não lhas desfizesse
a campa, é certo que acendeu um pouco da ira antiga. Dir-me-ás,
e com aparência de razão, que, se enterrada ainda os
separava, mais os separaria se ali descesse em espírito!
Puro engano amigo. No começo, ao menos, eles jurariam o que
ela mandasse.
CAPÍTULO
CXIV / CONSULTÓRIO E BANCA
Meses depois,
Pedro abria consultório médico, aonde iam pessoas
doentes, Paulo banca de advogado, que procuravam os carecidos de
justiça. Um prometia saúde, outro ganho de causa,
e acertavam muita vez, porque não lhes faltava talento nem
fortuna. Demais, não trabalhavam sós, mas cada qual
com um colega de nomeada e prático.
No meio dos sucessos do tempo, entre os quais avultavam a rebelião
da esquadra e os combates do Sul, a fuzilaria contra a cidade, os
discursos inflamados, prisões, músicas e outros rumores,
não lhes faltava campo em que divergissem. Nem era preciso
política. Cresciam agora mais em número as ocasiões
e as matérias. Ainda quando combinassem de acaso e de aparência,
era para discordar logo e de vez, não deliberadamente, mas
por não poder ser de outro modo.
Tinham perdido o acordo, feito pela razão, jurado pelo amor
em honra da moça defunta e da mãe viva. Mal se podiam
ver, mal ou pior ouvir. Cuidaram de evitar tudo o que o lugar e
a ocasião ajustassem para os separar mais. Desta maneira,
a profissão torceu-lhes o caminho e dividiu as relações
de ambos. Natividade apenas daria pela má vontade dos filhos,
desde que os dois pareciam apostados em lhe querer bem, mas dava
por ela, e tentava ligá-los apertadamente e de todo. Santos
folgava de se prolongar pela medicina e pela advocacia dos filhos.
Só receava que Paulo, dada a inclinacão partidária,
buscasse noiva jacobina. Não ousando dizer-lhe nada a tal
respeito, refugiava-se na religião, e não ouvia missa
que lhe não metesse uma oração particular e
secreta para obter a proteção do céu.
CAPÍTULO
CXV / TROCA DE OPINIÕES
Senão
quando, viu Natividade os primeiros sinais de uma troca de inclinação,
que mais parecia propósito que efeito natural. Entretanto,
era naturalíssimo. Paulo entrou a fazer oposição
ao governo, ao passo que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava
aceitando o regímen republicano, objeto de tantas desavenças.
A aceitação por parte deste não foi rápida
nem total; era, porém, bastante para sentir que não
havia entre ele e o novo governo um abismo. Naturalmente o tempo
e a reflexão consumaram este efeito no espírito de
Pedro, a não admitir que também nele vingasse a ambição
de um grande destino, esperança da mãe. Natividade,
com efeito, ficou deliciada. Também ela mudara, se havia
que mudar na simples alma materna, para quem todos os regimens valiam
pela glória dos filhos. Pedro, aliás, não se
dava todo, restringia alguma coisa às pessoas e ao sistema,
mas aceitava o princípio, e bastava; o resto viria com a
idade, dizia ela.
A oposição de Paulo não era ao princípio,
mas à execução. Não é esta a
república dos meus sonhos dizia ele, e dispunha-se a reformá-la
em três tempos, com a fina-flor das instituições
humanas, não presentes nem passadas, mas futuras. Quando
falava delas, via-se-lhe a convicção nos lábios
e nos olhos, estes alongados, como alma de profeta. Era outro ensejo
de se não entenderem os dois. D. Cláudia tinha que
era cálculo de ambos para se não juntarem nunca; -
opinião que Natividade aceitaria, finalmente, senão
fora a de Aires.
Também este notara a mudança, e estava prestes a aceitar
a explicação, por aquela razão de comodidade
que achava em concordar com as opiniões alheias; não
se cansava nem aborrecia. Tanto melhor, se o acordo se fazia com
um simples gesto. Desta vez, porém, valeu a pessoa.
- Não, baronesa, disse ele, não creia em propósitos.
- Mas que pode ser então?
Aires gastou algum tempo na escolha das palavras, a fim de lhe não
saírem pedantescas nem insignificantes; queria dizer o que
pensava. Às vezes, falar não custa menos que pensar.
Ao fim de três minutos, segredou a Natividade:
- A razão parece-me ser que o espírito de inquietação
reside em Paulo, e o de conservação em Pedro. Um já
se contenta do que está, outro acha que é pouco e
pouquíssimo, e quisera ir ao ponto a que não foram
homens. Em suma, não lhes importam formas de governo, contanto
que a sociedade fique firme ou se atire para diante. Se não
concorda comigo, concorde com D. Cláudia.
Aires não tinha aquele triste pecado dos opiniáticos;
não lhe importava ser ou não aceito. Não é
a primeira vez que o digo, mas provavelmente é a última.
Em verdade, a mãe dos gêmeos não quis outra
explicação. Nem por isso a discórdia morreria
entre eles, que apenas trocavam de armas para continuar o mesmo
duelo. Ouvindo esta conclusão, Aires fez um gesto afirmativo,
e chamou a atenção de Natividade para a cor do céu,
que era a mesma, antes e depois da chuva. Supondo que havia nisto
algo simbólico, ela entrou a procurá-lo, e o mesmo
farias tu, leitor, se lá estivesses; mas não havia
nada.
- Tenha confiança, baronesa, prosseguiu ele pouco depois.
Conte com as circunstâncias, que também são
fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma espécie
de deus avulso, ao qual é preciso dar algumas ações
de graças; pode ter voto decisivo na assembléia dos
acontecimentos. Suponha um déspota, uma corte, uma mensagem.
A corte discute a mensagem, a mensagem canoniza o déspota.
Cada cortesão toma a si definir uma das virtudes do déspota,
a mansidão, a piedade, a justiça, a modéstia...
Chega a vez da grandeza da alma; chega também a notícia
de que o déspota morreu de apoplexia, que um cidadão
assumiu o poder e a liberdade foi proclamada do alto do trono. A
mensagem é aprovada e copiada. Um amanuense basta para trocar
as mãos à História; tudo é que o nome
do novo chefe seja conhecido, e o contrário é impossível;
ninguém trepa ao sólio sem isso, nem a senhora sabe
o que é memória de amanuense. Como nas missas fúnebres,
só se troca o nome do encomendado - Petrus, Paulus...
- Oh! não agoure meus filhos! exclamou Natividade.
CAPÍTULO
CXVI / DE REGRESSO
- Então
foram eleitos deputados?
- Foram; tomam assento quinta-feira. Se não fossem meus filhos,
diria que os vem achar mais belos do que os deixou, há um
ano.
- Diga, diga, baronesa; faça de conta que são meus
filhos.
Aires voltava de Europa, aonde fora com promessa de ficar seis meses
apenas. Enganou-se; gastou doze. Natividade é que lhe pôs
um ano para arredondar a ausência, que sentira deveras, como
D. Rita. O sangue em uma, o costume na outra, custou-lhes a suportar
a separação. Ele fora a pretexto de águas,
e, por mais que lhe recomendassem as do Brasil, não as quis
experimentar. Não estava acostumado às denominações
locais. Tinha esta impressão que as águas de Carlsbad
ou Vichy, sem estes nomes, não curariam tanto. D. Rita insinuou
que ele ia para ver como estavam as moças que deixou, e concluiu:
- Hão de estar tão velhas, como você.
- Quem sabe se mais? O ofício delas é envelhecer,
redargüiu o conselheiro.
Quis rir, mas não pôde ir além da ameaça.
Não era a lembrança da própria velhice, nem
da caducidade alheia, era a injustiça da sorte que lhe tomou
a vista interior. As moças ele sabia muito bem que cediam
ao tempo como as cidades e as instituições, e ainda
mais depressa que elas. Nem todas iriam logo cedo, a cumprir a sentença
que atribui ao amor dos deuses a morte prematura das pessoas; mas
viu algumas dessas, e agora lhe lembrou a meiga Flora, que lá
se fora com as suas graças finas... Não passou da
ameaça de riso.
Quiseram retê-lo as duas, Santos também, que perdia
nele uma figura certa das suas noites; mas o nosso homem resistiu,
embarcou e partiu. Como escrevia sempre à irmã e aos
amigos, dava a causa exata da demora, e não eram amores,
salvo se mentia, mas passara a idade de mentir. Afirmou, sim, que
recuperara algumas forças, e assim o pareceu quando desembarcou,
onze meses depois, no cais Pharoux. Trazia o mesmo ar de velho elegante,
fresco e bem posto.
- Mas estão eleitos?
- Eleitos; tomam assento quinta-feira.
CAPÍTULO
CXVII / POSSE DAS CADEIRAS
Quinta-feira,
quando os gêmeos tomaram assento na Câmara, Natividade
e Perpétua foram ver a cerimônia. Pedro ou Paulo arranjou-lhes
uma tribuna. A mãe desejou que Aires fosse também.
Quando este ali chegou, já as achou sentadas, Natividade
a fitar com a luneta o presidente e os deputados. Um destes falava
sobre a ata, e ninguém lhe prestava atenção.
Aires sentou-se um pouso mais dentro, e, após alguns minutos,
disse a Natividade:
- A senhora escreveu-me que eram candidatos de dois partidos contrários.
Natividade confirmou a notícia; foram eleitos em oposição
um ao outro. Ambos apoiavam a República, Mas Paulo queria
mais do que ela era, e Pedro achava que era bastante e sobeja. Mostravam-se
sinceros, ardentes, ambiciosos; eram bem aceitos dos amigos, estudiosos,
instruídos...
- Amam-se finalmente?
- Amam-se em mim, respondeu ela depois de formular essa frase na
cabeça.
- Pois basta esse terreno amigo.
- Amigo, mas caduco; amanhã posso faltar-lhes.
- Não falta; a senhora tem muitos e muitos anos de vida.
Faça uma viagem à Europa com eles, e verá que
regressa ainda mais robusta. Eu sinto-me duplicado, por mais que
me custe à modéstia mas a modéstia perdoa tudo.
E depois, quando os vir encarreirados e grandes homens...
- Por que é que a política os há de separar?
- Sim, podiam ser grandes na ciência, um grande médico,
um grande jurisconsulto...
Natividade não quis confessar que a ciência não
bastava. A glória científica parecia-lhe comparativamente
obscura; era calada, de gabinete, entendida de poucos. Política,
não. Quisera só a política, mas que não
brigassem, que se amassem, que subissem de mãos dadas...
Assim ia pensando consigo, enquanto Aires, abrindo mão da
ciência, acabou declarando que, sem amor, não se faria
nada.
- Paixão, disse ele, é meio caminho andado.
- A política é a paixão deles; paixão
e ambição. Talvez já pensem na Presidência
da República.
- Já?
- Não... isto é, sim; guarde segredo. Interroguei-os
separadamente; confessaram-me que este era o seu sonho imperial.
Resta saber o que fará um, se o outro subir primeiro.
- Derrubá-lo-á, naturalmente.
- Não graceje, conselheiro.
- Não é gracejo, baronesa. A senhora cuida que a política
os desune; francamente, não. A política é um
incidente, como a moça Flora foi outro...
- Ainda se lembram dela.
- Ainda?
- Foram à missa aniversária, e desconfio que foram
também ao cemitério, não juntos, nem à
mesma hora. Se foram, é que verdadeiramente gostavam dela;
logo, não foi um incidente.
Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Aires não insistiu
na opinião, antes deu mais relevo à dela, corn o próprio
fato da visita ao cemitério.
- Não sei se foram, emendou Natividade; desconfio.
- Devem ter ido; eles gostavam realmente da pequena. Também
ela gostava deles; a diferença é que, não alcançando
unificá-los, como os via em si, preferiu fechar os olhos.
Não lhe importe o mistério. Há outros mais
escuros.
- Parece que vai entrar a cerimônia, disse Perpétua
que olhava para o recinto.
- Chegue-se para a frente, conselheiro.
A cerimônia era a do costume. Natividade cuidou que ia vê-los
entrar juntos e afirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam
assim como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar
separadamente. Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes
cá de cima repetir a fórmula com voz clara e segura.
A cerimônia foi curiosa para as galerias, graças à
semelhança dos dois; para a mãe foi comovedora.
- Estão legisladores, disse Aires no fim.
Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho
amigo que as acompanhasse à carruagem. No corredor acharam
os dois recentes deputados, que vinham ter com a mãe. Não
consta qual deles a beijou primeiro: não havendo regimento
interno nesta outra câmara, pode ser que fossem ambos a um
tempo, metendo-lhes ela a cara entre as bocas, uma face para cada
um. A verdade é que o fizeram com igual ternura. Depois voltaram
ao recinto.
CAPÍTULO
CXVIII / COISAS PASSADAS, COISAS FUTURAS
Indo a entrar
na carruagem, Natividade deu com a Igreja de S. José, ao
lado, e um pedaço do Morro do Castelo, a distância.
Estacou.
- Que é? perguntou Aires.
- Nada, respondeu ela entrando e estendendo-lhe a mão. Até
logo?
- Até logo.
A vista da igreja e do morro despertou nela todas as cenas e palavras
que lá ficaram transcritas nos dois ou três primeiros
capítulos. Não esqueceste que foi ao pé da
igreja, entre esta e a Câmara, que o coupé esperou
então por ela e pela irmã.
- Você lembra-se, Perpétua? disse Natividade, quando
o carro começou a andar.
- De quê?
- Não se lembra que foi ali que ficou o carro, quando fomos
à cabocla do Castelo?
Perpétua lembrava-se. Natividade advertiu que devia ser ali
perto a ladeira por onde subiram com dificuldade e curiosidade,
até à casa da cabocla, no meio da outra gente, que
descia ou subia também. A casa era à direita, tinha
a escada de pedra...
Descansa, amigo, não repito as páginas. Ela é
que não podia deixar de as evocar, nem impedir que viessem
de si mesmas. Tudo reaparecia com a frescura antiga. Não
esquecera a figurinha da cabocla, quando o pai a fez entrar na sala:
entra, Bárbara. A idéia de estar agora madura e longe,
restituída ao Estado, que deixou Província, rica onde
nasceu pobre, não acudiu à nossa amiga. Não,
toda ela voltou àquela manhã de 1871. A caboclinha
era esta mesma criatura leve e breve, com os cabelos atados no alto
da cabeça, olhando, falando, dançando... Coisas passadas.
Quando a carruagem ia a dobrar a Praia de Santa Luzia, ladeando
a Santa Casa, Natividade teve idéia, mas só idéia,
de voltar e ir ter à ladeira do Castelo, subir por ela, a
ver se achava a adivinha no mesmo lugar. Contar-lhe-ia que os dois
meninos de mama, que ela predisse seriam grandes, eram já
deputados e acabavam de tomar assento na Câmara. Quando cumpririam
eles o seu destino? Viveria o tempo de os ver grandes homens, ainda
que muito velha?
A Presidência da República não podia ser para
dois, mas um teria a vice-Presidência, e se este a achasse
pouco, trocariam mais tarde os cargos. Nem faltavam grandezas. Ainda
se lembrava das palavras que ouviu à cabocla, quando lhe
perguntou pela espécie de grandeza que caberia aos filhos.
Coisas futuras! respondeu a Pítia do Norte, com tal voz que
nunca lhe esqueceu. Agora mesmo parece-lhe que a ouve, mas é
ilusão. Quando muito, são as rodas do carro que vão
rolando e as patas dos cavalos que batem. Coisas futuras! coisas
futuras!
CAPÍTULO
CXIX / QUE ANUNCIA OS SEGUINTES
Todas as histórias,
se as cortam em fatias, acabam com um capítulo último
e outro penúltimo, mas nenhum autor os confessa tais; todos
preferem dar-lhes um título próprio. Eu adoto o método
oposto; escrevo no alto de cada um dos capítulos seguintes
os seus nomes de remate, e, sem dizer a matéria particular
de nenhum, indico o quilômetro em que estamos da linha. Isto
supondo que a história seja um trem de ferro. A minha não
é propriamente isso. Poderia ser uma canoa, se lhe tivesse
posto águas e ventos, mas tu viste que só andamos
por terra, a pé ou de carro, e mais cuidosos da gente que
do chão. Não é trem nem barco; é uma
história simples, acontecida e por acontecer; o que poderás
ver nos dois capítulos que faltam e são curtos.
CAPÍTULO
CXX / PENÚLTIMO
Este é
ainda um óbito. Já lá ficou defunta a jovem
Flora, aqui vai morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha, porque
li a certidão de batismo; mas, em verdade, nem os filhos
deputados, nem os cabelos brancos davam a esta senhora o aspecto
correspondente à idade. A elegância, que era o seu
sexto sentido, enganava os tempos de tal maneira que ela conservava,
não digo a frescura, mas a graça antiga.
Não morreu sem ter uma conferência particular com os
dois filhos, - tão particular, que nem o marido assistiu
a ela. Também não instou por isso. Verdade, verdade,
Santos andava a chorar pelos cantos; mal poderia reter as lágrimas,
se ouvisse a mulher fazer aos filhos os seus finais pedidos. Porquanto,
os médicos já a haviam desenganado. Se eu não
visse nesses oficiais da saúde os escrutadores da vida e
da morte, podia torcer a pena, e, contra a predição
científica, fazer escapar Natividade. Cometeria uma ação
fácil e reles, além de mentirosa. Não, senhor,
ela morreu sem falta, poucas semanas depois daquela sessão
da Câmara. Morreu de tifo.
Tão secreta foi a conferência dela e dos filhos que
estes não quiseram contá-la a ninguém, salvo
ao Conselheiro Aires, que a adivinhou em parte. Paulo e Pedro confessaram
a outra parte, pedindo-lhe silêncio.
- Não juraram calar?
- Positivamente, não, disse um.
- Juramos só o que ela nos pediu, explicou o outro.
- Pois então podem contá-lo a mim. Eu serei discreto
como um túmulo
Aires sabia que os túmulos não são discretos.
Se não dizem nada, é porque diriam sempre a mesma
história; daí a fama de discrição. Não
é virtude, é falta de novidade.
Ora, o que a mãe fez, quando eles entraram e fecharam a porta
do quarto, foi pedir-lhe que ficasse cada um do lado da cama e lhe
estendessem a destra. Juntou-as sem força e fechou-as nas
suas mãos ardentes. Depois, com as voz expirante e os olhos
acesos apenas de febre, pediu-lhes um favor grande e único.
Eles iam chorando e calando, porventura, adivinhando o favor.
- Um favor derradeiro, insistiu ela.
- Diga, mamãe.
- Vocês vão ser amigos. Sua mãe padecerá
no outro mundo, se os não vir amigos neste. Peço pouco;
a vossa vida custou-me muito, a criação também,
e a minha esperança era vê-los grandes homens. Deus
não quer, paciência. Eu é que quero saber que
não deixo dois ingratos. Anda, Pedro, anda, Paulo, jurem
que serão amigos.
Os moços choravam. Se não falavam, é porque
a voz não lhes queria sair da garganta. Quando pôde,
saiu trêmula, mas clara e forte:
- Juro, mamãe!
- Juro, mamãe!
- Amigos para todo sempre?
- Sim.
- Não quero outras saudades. Estas somente, a amizade verdadeira,
e que se não quebre nunca mais.
Natividade ainda conservou as mãos deles presas, sentiu-as
trêmulas de comoção, e esteve calada alguns
instantes.
- Posso morrer tranqüila.
- Não, mamãe não morre, interromperam ambos.
Parece que a mãe quis sorrir a esta palavra de confiança,
mas a boca não respondeu à intenção,
antes fez um trejeito que assustou os filhos. Paulo correu a pedir
socorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir
à esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. A agonia
começou logo, e durou algumas horas. Contadas todas as horas
de agonia que tem havido no mundo, quantos séculos farão?
Desses terão sido tenebrosos alguns, outros melancólicos,
muitos desesperados, raros enfadonhos. Enfim, a morte chega, por
muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silêncio.
CAPÍTULO
CXXI / ÚLTIMO
Castor e Pólux
foram os nomes que um deputado pôs aos dois gêmeos,
quando eles tornaram à Câmara, depois da missa do sétimo
dia. Tal era a união que parecia aposta. Entravam juntos,
andavam juntos, saíam juntos. Duas ou três vezes votaram
juntos, com grande escândalo dos respectivos amigos políticos.
Tinham sido eleitos para se baterem, e acabavam traindo os eleitores.
Ouviram nomes duros, repreensões acerbas. Quiseram renunciar
ao cargo; Pedro, entretanto, achou um meio conciliatório.
- O nosso dever político é votar com os amigos, disse
ele ao irmão. Votemos com eles. Mamãe só nos
pediu concórdia pessoal. Na tribuna, sim, ninguém
nos levará a atacar um ao outro; no debate e no voto podemos
e devemos dissentir.
- Apoiado; mas, se você um dia achar que deve vir para os
meus arraiais, venha. Você nem eu hipotecamos o juízo.
- Apoiado.
Pessoalmente, nem sempre havia este acordo. Os contrastes não
eram raros, nem os ímpetos, mas a lembrança da mãe
estava tão fresca, a morte tão próxima, que
eles sopitavam qualquer movimento, por mais que lhes custasse, e
viviam unidos. Na Câmara, o dissentimento político
e a fusão pessoal cada vez os fazia mais admiráveis.
A Câmara terminou os seus trabalhos em dezembro. Quando tornou
em maio seguinte, só Pedro lhe apareceu. Paulo tinha ido
a Minas, uns diziam que a ver noiva, outros que a catar diamantes,
mas parece que foi só a passeio. Pouco depois regressou,
entrando na Câmara sozinho, ao contrário do ano anterior
em que os dois irmãos subiam as escadas juntos, quase pegados.
O olho dos amigos não tardou em descobrir que não
viviam bem, pouco depois que se detestavam. Não faltou indiscreto
que lhes perguntasse a um e a outro o que houvera no intervalo das
duas sessões; nenhum respondia nada. O presidente da Câmara,
a conselho do líder, nomeou-os para a mesma comissão.
Pedro e Paulo, cada um por sua vez, foram pedir-lhe que os dispensasse.
- São outros, disse o presidente na sala do café.
- Totalmente outros, confirmaram os deputados presentes.
Aires soube daquela conclusão no dia seguinte, por um deputado,
seu amigo, que morava em uma das casas de pensão do Catete.
Tinha ido almoçar com ele, e, em conversação,
como o deputado soubesse das relações de Aires com
os dois colegas, contou-lhe o ano anterior e o presente, a mudança
radical e inexplicável. Contou também a opinião
da Câmara.
Nada era novidade para o conselheiro, que assistira à ligação
e desligação dos dois gêmeos. Enquanto o outro
falava, ele ia remontando os tempos e a vida deles, recompondo as
lutas, os contrastes, a aversão recíproca, apenas
disfarçada, apenas interrompida por algum motivo mais forte,
mas persistente no sangue, como necessidade virtual. Não
lhe esqueceram os pedidos da mãe, nem a ambição
desta em os ver grandes homens.
- O senhor que se dá com eles diga-me o que é que
os fez mudar, concluiu o amigo.
- Mudar? Não mudaram nada; são os mesmos.
- Os mesmos?
- Sim, são os mesmos.
- Não é possível.
Tinham acabado o almoço. O deputado subiu ao quarto para
se compor de todo. Aires foi esperá-lo à porta da
rua. Quando o deputado desceu, vinha com um achado nos olhos.
- Ora, espere, não será... Quem sabe se não
será a herança da mãe que os mudou? Pode ter
sido a herança, questões de inventário...
Aires sabia que não era a herança, mas não
quis repetir que eles eram os mesmos, desde o útero. Preferiu
aceitar a hipótese, para evitar debate, e saiu apalpando
a botoeira, onde viçava a mesma flor eterna.
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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