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CAPÍTULO 94
IDÉIAS ARITMÉTICAS.
Não digo o mais, que foi muito. Nem ele sabia
só elogiar é pensar, sabia
também calcular depressa e bem. Era das cabeças
aritméticas de Holmes (2 + 2 = 4). Não
se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava
de cor.
A divisão que foi sempre uma das operações
difíceis para mim, era para ele como nada: cerrava
um pouco os olhos, voltados para cima, e sussurrava
as denominações dos algarismos: estava
pronto. Isto com sete, treze, vinte algarismos. A vocação
era tal que o fazia amar os próprios sinais das
somas, e tinha esta opinião que os algarismos,
sendo poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte
e cinco letras do alfabeto.
- Há letras inúteis e letras dispensáveis,
dizia ele. Que serviço diverso prestam o d e
o t? Têm quase o mesmo som. O mesmo digo do b
e do
p, o mesmo do s, do c e do z, o mesmo do k e do g, etc.
São trapalhices
caligráficas. Veja os algarismos: não
há dois que façam o mesmo ofício;
4 é 4, e 7 é 7. E admire a beleza com
que um 4 e um 7 formam esta coisa
que se exprime por 11. Agora dobre 11 e terá
22; multiplique por igual
número, dá 484, e assim por diante.
Mas onde a perfeição é maior é
no emprego do zero. O valor do zero é, em si
mesmo, nada; mas o ofício deste sinal negativo
é justamente aumentar. Um 5 sozinho é
um 5; ponha-lhe dois 00, é 500. Assim, o que
não vale nada faz valer muito, coisa que não
fazem as letras dobradas, pois eu tanto aprovo com um
p como com dois pp.
Criado na ortografia de meus pais, custava-me a ouvir
tais blasfêmias,
mas não ousava refutá-lo. Contudo, um
dia. proferi algumas palavras de
defesa, ao que ele respondeu que era um preconceito,
e acrescentou que
as idéias aritméticas podiam ir ao infinito,
com a vantagem que eram
mais fáceis de menear. Assim que, eu não
era capaz de resolver de
momento um problema filosófico ou lingüístico,
ao passo que ele podia
somar. em três minutos, quaisquer quantias.
- Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma
porção de números que eu não
saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o número
das casas de sua mãe e os aluguéis de
cada uma, e se eu não disser a soma total em
dois, em um minuto, enforque-me!
Aceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escritos
em um papel os
algarismos das casas e dos aluguéis. Escobar
pegou o papel, passou-os
pelos olhos a fim de os decorar. e enquanto eu fitava
o relógio, ele
erguia as pupilas, cerrava as pálpebras, e sussurrava...
Oh! o vento não
é mais rápido! Foi dito e feito; em meio
minuto bradava-me:
- Dá tudo 1:070$000 mensais.
.Fiquei pasmado. Considera que eram não menos
de nove casas, e que os aluguéis variavam de
uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois tudo
isto em que eu gastaria três ou quatro minutos,
- e havia de ser no papel,- fê-lo Escobar de cor,
brincando.
Olhava-me triunfalmente, e perguntava se não
era exato. Eu, só por lhe mostrar que sim, tirei
do bolso o papelinho que levava com a soma total, e
mostrei-lho; era aquilo mesmo, nem um erro: 1:070$000.
- Isto prova que as idéias aritméticas
são mais simples, e portanto mais
naturais. A natureza é simples. A arte é
atrapalhada.
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental
do meu amigo, que não
pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio;
outros seminaristas notaram a
nossa efusão; um padre que estava com eles não
gostou.
- A modéstia, disse-nos, não consente
esses gestos excessivos podem
estimar-se com moderação.
Escobar observou-me que os outros e o padre falavam
de inveja e
propôs-me viver separados. Interrompi-o dizendo
que não inveja, tanto
pior para eles.
- Quebremos-lhe a castanha na boca!
- Mas...
- Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.
Escobar apertou-me a mão às escondidas,
com tal força que ainda me doem os dedos. É
ilusão, decerto, se não é efeito
das longas horas que tenho estado a escrever sem parar.
Suspendamos a pena por alguns instantes...
CAPÍTULO 95
O PAPA
A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José
Dias não lhe
quis ficar atrás. Na primeira semana disse-me
este em casa:
- Agora é certo que você vai sair já
do seminário.
- Como?
- Espere até amanhã. Vou jogar com eles
que me chamaram, amanhã, lá no
quarto, no quintal, ou na rua, indo à missa,
conto-lhe o que há. A idéia
é tão santa que não está
mal no santuário. Amanha, Bentinho.
- Mas é coisa certa?
- Certíssima!
No dia seguinte revelou-me o mistério. Ao primeiro
aspecto confesso que
fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de
espiritualidade que.falava aos meus olhos de seminarista.
Era não menos que isto.
Minha mãe, ao parecer dele, estava arrependida
do que fizera, e desejaria ver-me cá fora, mas
entendia que o vínculo moral da promessa a prendia
indissoluvelmente. Cumpria rompê-lo, e para tanto
valia a Escritura, com
o poder de desligar dado aos apóstolos. Assim
que, ele e eu iríamos a
Roma pedir a absolvição do papa... Que
me parecia?
- Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos
de reflexão. Pode
ser um bom remédio.
- É o único, Bentinho, é o único!
Vou já hoje conversar com Dona Glória,
expondo-lhe tudo, e podemos partir daqui a dois meses,
ou antes...
- Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar
primeiro...
- Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. Pensar em quê?
Você o que
quer... Digo? Não se amofina com o seu velho?
Você o que quer é
consultar a uma pessoa.
Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitu e Escobar,
mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar
ninguém. E que pessoa, o reitor? Não era
natural que lhe confiasse tal assunto. Não, nem
reitor, nem professor,
nem ninguém; era só o tempo de refletir,
uma semana, no domingo daria a
resposta, e desde já lhe dizia que a idéia
não me parecia má.
- Não?
- Pois resolvamos hoje mesmo.
- Não se vai a Roma brincando.
- Quem tem boca vai a Roma, e boca no nosso caso é
a moeda. Ora, você
pode muito bem gastar consigo... Comigo, não;
um par de calças, três
camisas e o pão diário, não preciso
mais. Serei como São Paulo, que
vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra
divina. Pois eu vou, não
pregá-la, mas buscá-la. Levaremos cartas
do internúncio e do bispo,
cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos...
Bem sei a objeção que se pode opor a esta
idéia; dirão que é dado pedir a
dispensa cá de longe; mas, além do mais
que não digo, basta refletir que é muito
mais solene e bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se
aos pés do papa o próprio objeto do favor,
o levita prometido, que vai pedir para sua mãe
terníssima e dulcíssima a dispensa de
Deus.
Considere o quadro, você beijando o pé
ao príncipe dos apóstolos; Sua Santidade,
com o sorriso evangélico, inclina-se, interroga,
ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam,
a Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos
os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos, e que
o que você amar na terra seja igualmente amado
no céu...
Não digo mais, porque é preciso acabar
o capítulo, e ele não acabou o.discurso.
Falou a todos os meus sentimentos de católico
e de namorado.
Vi a alma aliviada de minha mãe, vi a alma feliz
de Capitu, ambas em
casa, e eu com elas, e ele conosco, tudo mediante uma
pequena viagem a
Roma, que eu só geograficamente sabia onde ficava;
espiritualmente,
também, mas a distancia que estaria da vontade
de Capitu é que não. Eis
o ponto essencial. Se Capitu achasse longe, não
iria- mas era preciso
ouvi-la, e assim também a Escobar, que me daria
um bom conselho.
CAPÍTULO 96
UM SUBSTITUTO
Expus a Capitu a idéia de José Dias. Ouviu-me
atentamente. e acabou
triste.
- Você indo, disse ela, esquece-me inteiramente.
- Nunca!
- Esquece. A Europa dizem que é tão bonita,
e a Itália principalmente.
Não é de lá que vêm as cantoras?
Você esquece-me, Bentinho. E não haverá
outro meio? Dona Glória está morta para
que você saia do seminário.
- Sim, mas julga-se presa pela promessa.
Capitu não achava outra idéia, nem acabava
de adotar esta. De caminho,
pediu-me que, se acaso fosse a Roma, jurasse que no
fim de seis meses
estaria de volta.
- Juro.
- Por Deus?
- Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis meses
estarei de volta.
Mas se o papa não tiver ainda soltado a você?
Mando dizer isso mesmo.
E se você mentir?
Esta palavra doeu-me muito, e não achei logo
que lhe replicasse Capitu
meteu o negócio à bulha, rindo e chamando-me
disfarçado Depois, declarou
crer que eu cumpriria o juramento, mas ainda assim não
consentiu logo;
ia ver se não haveria outra coisa. e eu que visse
também por meu lado.
Quando voltei ao seminário, contei tudo ao meu
amigo Escobar que me
ouviu com igual atenção e acabou com a
mesma tristeza da outra. Os
olhos, de costume fugidios, quase me comeram de contemplação.
De
repente, vi-lhe no rosto um clarão, um reflexo
de idéia e ouvi-lhe dizer
com volubilidade:
- Não, Bentinho, não é preciso
isso. Há melhor, - não dizia melhor,
porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo,- mas
ha coisa que produz.o mesmo efeito.
- Que é?
- Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote
não é? Pois bem,
dê-lhe um sacerdote, que não seja você.
Ela pode muito bem tomar a si
algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar
à sua custa, está dado um padre ao
altar, sem que você...
- Entendo, entendo, é isso mesmo.
- Não acha? continuou ele. Consulte sobre isto
o protonotário: ele lhe
dirá se não é a mesma coisa, ou
eu mesmo consulto, se quer e se ele
hesitar, fala-se ao senhor bispo.
Eu, refletindo:
- Sim, parece que é isso; realmente, a promessa
cumpre-se, não se
perdendo o padre.
Escobar observou que, pelo lado econômico, a questão
era fácil minha mãe
gastaria o mesmo que comigo, e um órfão
não precisaria grandes
comodidades. Citou a soma dos aluguéis das casas,
... 1.070$000, além
dos escravos...
- Não há outra coisa, disse eu.
- E saímos juntos.
- Você também?
- Também eu. Vou melhorar o meu latim e saio;
nem dou teologia. O
próprio latim não é preciso; para
que no comércio?
- In hoc signo vinces, disse eu rindo.
Sentia-me pilhérico. Oh! como a esperança
alegra tudo. Escobar sorriu,
parecendo gostar da resposta. Depois ficamos a cuidar
de nós mesmos,
cada um com os seus olhos perdidos, provavelmente. Os
dele estavam
assim. quando tornei de longe, e agradeci de novo o
plano lembrado; não
podia havê-lo melhor. Escobar ouviu-me contentíssimo.
- Ainda uma vez, disse ele gravemente, a religião
c a liberdade fazem
boa companhia. |
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