Error processing SSI file
 

 


CAPÍTULO 88

UM PRETEXTO HONESTO

Não, a idéia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas
doçuras. A origem era outra: era porque, acompanhando o enterro no dia
seguinte, não iria ao seminário, e podia fazer outra visita a Capitu, um
tanto mais demorada. Bis aí o que era.

A lembrança do carro podia vir acessoriamente depois, mas a principal e imediata foi aquela. Voltaria à Rua dos Inválidos, a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. Contava que tudo me saísse como naquele dia. Gurgel aflito, Capitu comigo no canapé, as mãos presas, o penteado...

- Vou pedir a mamãe.

Abri a cancela. Antes de transpô-la, assim como ouvira da memória a
palavra do pai do morto, ouvi agora a da mãe, e repeti a meia voz:

- Coitado de Manduca!

CAPÍTULO 89

A RECUSA

Minha Mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.

- Perder um dia de seminário

Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha, e depois era gente
pobre... Tudo o que me lembrou dizer, disse. Prima Justina opinou pela
negativa.

- Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe..- Acho que não.

Que amizade é essa que eu nunca vi?

Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao agregado, este sol riu, e
disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao
enterro "o lustre da minha pessoa". Fosse o que fosse, fiquei amuado; no
dia seguinte, pensando no motivo, não me desagradou; mais tarde
achei-lhe um sabor particular.

CAPÍTULO 90

A POLÊMICA

No dia seguinte, passei pela casa do defunto, sem entrar nem parar - ou,
se parei, foi só um instante, ainda mais breve que este em que vo-lo
digo. Se me não engano, andei até mais depressa, receando que me
chamassem como na véspera. Uma vez que não ia ao enterro antes longe que próximo. Fui andando e pensando no pobre-diabo.

Não éramos amigos, nem nos conhecíamos de muito. Intimidade que
intimidade podia haver entre a doença dele e a minha saúde? Tivemos
relações breves e distantes. Fui pensando nelas, recordando algumas.
Reduziam-se todas a uma polêmica, entre nós, dois anos antes, a
propósito... Mal podeis crer a que propósito foi. Foi a guerra da
Criméia.

Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por desfastio.
Ao domingo, sobre a tarde, o pai enfiava-lhe uma camisola escura, e
trazia-o para o fundo da loja, donde ele espiava um palmo da rua e a
gente que passava.

Era todo o seu recreio. Foi ali que o vi uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não atraía decerto. Tinha eu de treze para quatorze anos. Da segunda vez que o vi ali, como falássemos da guerra da Criméia, que então ardia e andava nos jornais, Manduca disse que os aliados haviam de vencer, e eu respondi que não.

- Pois veremos, tornou ele. Só se a justiça não vencer neste mundo, o
que é impossível, e a justiça está com os aliados.

- Não, senhor, a razão é dos russos.

Naturalmente, íamos com o que nos diziam os jornais da cidade
transcrevendo os de fora, mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas idéias.

Defendi o direito da Rússia, Manduca fez o mesmo ao dos aliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto..Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito, e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos aliados, e da integridade da Turquia, concluindo por esta frase profética:

"Os russos não hão de entrar em Constantinopla!"

Li-a e meti-me a refutá-la. Não me recorda um só dos argumentos que
empreguei, nem talvez interesse conhecê-los, agora que o século está a
expirar; mas a idéia que me ficou deles é que eram irrespondíveis. Fui
eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde ele
jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos.

Ou gosto da polêmica ou qualquer outra causa que não alcanço, não me deixou sentir toda a repugnância que saía da cama e do doente, e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela sua parte, por mais
nojosa que tivesse então a cara, o sorriso que a acendeu dissimulou o
mal físico.

A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e
responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de
todo e com verdade; não era exaltada, não era ruidosa, não tinha gestos,
nem a moléstia os permitiria, era simples, grande, profunda, um gozo
infinito de vitória, antes de saber os meus argumentos.

Tinha já papel, pena e tinta ao pé da cama. Dias depois recebi a réplica; não me lembra se trazia coisas novas ou não; o calor é que crescia, e o final era o mesmo:

"Os russos não hão de entrar em Constantinopla!"

Trepliquei, e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente, em que
nenhum de nós cedia, defendendo cada um os seus clientes com força e
brio. Manduca era mais longo e pronto que eu. Naturalmente a mim
sobravam mil coisas que distraíam, o estudo, os recreios, a família, e a
própria saúde, que me chamava a outros exercícios.

Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha só esta guerra, assunto da cidade e do mundo, mas que ninguém ia tratar com ele. O acaso dera-lhe em mim um adversário; ele, que tinha gosto à escrita, deitou-se ao
debate, como a um remédio novo e radical. As horas tristes e compridas
eram agora breves e alegres; os olhos desaprenderam de chorar, se
porventura choravam antes. Senti esta mudança dele nas próprias maneiras
do pai e da mãe.

- Não imagina como ele anda agora, depois que o senhor lhe escreve
aqueles papéis, dizia-me o dono da loja, uma vez, à porta da rua. Fala e
ri muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papéis dele, entra a
indagar da resposta, e se demorará muito, e que pergunte ao moleque, quando passar. Enquanto espera, relê jornais e toma notas. Mas também, apenas recebe os seus papéis, atira-se a lê-los, e começa logo a
escrever a resposta. Há ocasiões em que não come ou come mal; tanto que
eu queria pedir-lhe uma coisa, é que não os mande à hora do almoço ou de
jantar...

Fui eu que cansei primeiro. Comecei a demorar as respostas, até que não
dei mais nenhuma- ele ainda teimou duas ou três vezes depois do meu
silêncio, mas não recebendo contestação alguma, por fadiga também ou por
não aborrecer, acabou de todo com as suas apologias. A última como a
primeira, como todas, afirmava a mesma predição eterna:

"Os russos não hão de entrar em Constantinopla!"

Não entraram, efetivamente, nem então, nem depois, nem até agora. Mas a
predição será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil.

O próprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou três anos de
dissolução, tão certo é que a natureza, como a história, não se faz
brincando. A vida dele resistiu como a Turquia se afinal cedeu foi
porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa, não se podendo
considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia.

Morreu afinal, como os Estados morrem; em nosso caso particular, a questão é saber, não se a Turquia morre porque a morte não poupa a ninguém, mas se os russos entrara algum dia em Constantinopla; essa era a questão para o meu vizinho leproso, debaixo da triste, rota e infecta colcha de
retalhos...
1 a 3
4 a 6
7 a 9
10 a 12
13 a 15
16 a 18
19 a 21
22 a 24
25 a 27
28 a 30
31 a 33
34 a 36
37 a 39
40 a 42
43 a 45
46 a 48
49 a 51
52 a 54
55 a 57
58 a 60
61 a 63
64 a 66
67 a 69
70 a 72
73 a 75
76 a 78
79 a 81
82 a 84
85 a 87
88 a 90
91 a 93
94 a 96
97 a 99
100 a 102
103 a 105
106 a 108
109 a 111
112 a 114
115 a 117
118 a 120
121 a 123
124 a 126
127 a 129
130 a 132
133 a 135
136 a 138
139 a 141
142 a 144
145 a 148