Error processing SSI file
|
 |
|
|

CAPÍTULO 70
DEPOIS DA MISSA
Rezei anda, persignei-me, fechei o livro de missa e
caminhei para a
porta. A gente não era muita, mas a igreja também
não é grande, e não
pude sair logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres,
velhos e
moços, sedas e chitas, e provavelmente olhos
feios e belos, mas eu não
vi uns nem outros.
Ia na direção da porta, com a onda, ouvindo
as saudações e os cochichos. No adro,
onde se fez claro, parei e olhei para todos. Vi então
uma moça e um homem, que saíam da igreja
e pararam; e a moça olhava para mim falando ao
homem, e o homem olhava para mim, ouvindo a moça.
E chegaram-me estas palavras:
- Mas que queres?
- Queria saber dela; papai pergunte.
Era sinhazinha Sancha, a companheira de colégio
de Capitu que queria
notícias de minha mãe. O pai veio a mim;
disse-lhe que estava
restabelecida. Depois saímos, mostrou-me a casa
dele, e, como eu vinha
na mesma direção, viemos juntos.
Gurgel era homem de quarenta anos ou pouco mais, com
propensão a engrossar o ventre; era muito obsequioso;
chegando à porta da casa, quis por força
que eu fosse almoçar com ele.
- Obrigado; mamãe espera-me.
- Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica
almoçando, e ira mais tarde.
- Venho outro dia.
Sinhazinha Sancha, voltada para o pai, ouvia e esperava.
Não ela feia;.só se lhe podia notar a
semelhança do nariz, que também acabava
grosso,
mas há feições que tiram a graça
de uns para dá-la a outros. Vestia
simples. Gurgel era viúvo e morria pela filha.
Como eu recusasse o
almoço, quis que descansasse alguns minutos.
Não pude recusar e subi.
Quis saber a minha idade, os meus estudos, a minha fé,
e dava-me
conselhos para o caso de vir a ser padre; disse me o
número do armazém,
Rua da Quitanda. Enfim, despedi-me veio ao patamar da
escada; a filha
deu-me recomendações para Capitu e para
minha mãe. Da rua olhei para
cima; o pai estava à janela e fez-me um gesto
largo de despedida.
CAPÍTULO 71
VISITA DE ESCOBAR
Em casa, tinham já mentido dizendo a minha mãe
que eu voltara e estava
mudando de roupa.
"A missa das oito já há de ter acabado...
Bentinho devia está de
volta... Teria acontecido alguma coisa, mano Cosme?...
Mandem ver..."
Assim falava ela, de minuto a minuto, mas eu entrei
e comigo a
tranqüilidade.
Era o dia das boas sensações. Escobar
foi visitar-me e saber da saúde de
minha mãe. Nunca me visitara até ali,
nem as nossas relações estavam Já
tão estreitas, como vieram a ser depois- mas
sabendo a razão da minha
saída, três dias antes, aproveitou o domingo
para ir ter comigo e
perguntar se continuava o perigo ou não. Quando
lhe disse que não,
respirou.
- Tive receio, disse ele.
- Os outros souberam?
- Parece que sim: alguns souberam.
Tio Cosme e José Dias gostaram do moço;
o agregado disse-lhe que vira
uma vez o pai no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido
e, conquanto
falasse mais do que veio a falar depois ainda assim
não era tanto como
os rapazes da nossa idade; naquele dia achei-o um pouco
mais expansivo
que de costume. Tio Cosme quis que jantasse conosco.
Escobar refletiu um
instante e acabou dizendo que o correspondente do pai
esperava por ele.
Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:
- Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta
aqui, e irá depois.
- Tanto incômodo!
- Incômodo nenhum, interveio tio Cosme..Escobar
aceitou e jantou. Notei que os movimentos rápidos
que tinha e dominava na aula, também os dominava
agora, na sala como na mesa. A hora que passou comigo
foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros
que possuía. Gostou muito do retrato de meu pai;
depois de alguns instantes de contemplação,
virou-se e disse-me:
- Vê-se que era um coração puro!
Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram
dulcíssimos; assim os
definiu José Dias, depois que ele saiu, e mantenho
esta palavra, apesar
dos quarenta anos que traz em cima de si. Nisto não
houve exageração do
agrado.
A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa
é que era um pouso baixa, vindo a risca do cabelo
quase em cima da sobrancelha esquerda- mas tinha sempre
a altura necessária para não afrontar
as outras feições, nem diminuir a graça
delas.
Realmente, era interessante de rosto, a boca fina e
chocarreira, o nariz curvo e delgado. Tinha o sestro
de sacudir o ombro direito, de quando em quando e veio
a perdê-lo, desde que um de nós lhe notou
um dia no seminário; primeiro exemplo que vi
de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos
miúdos.
Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em
que os meus amigos
agradassem a todos. Em casa, ficaram querendo bem a
Escobar; a mesma
prima Justina achou que era um moço muito apreciável,
apesar... Apesar
de quê? perguntou-lhe José Dias, vendo
que ela não acabava a frase.
Não teve resposta, nem podia tê-la; prima
Justina provavelmente não viu
defeito claro ou importante no nosso hóspede;
o apesar era uma espécie
de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um
dia.; ou então foi
obra de uso velho, que levou a restringir, onde não
achara restrição.
Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui levá-lo
à porta, onde
esperamos a passagem de um ônibus. Disse-me que
o armazém do
correspondente era na Rua dos Pescadores, e ficava aberto
até às nove
horas: ele é que se não queria demorar
fora.
Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus,
ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me
à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para
trás, mas não olhou.
- Que amigo é esse tamanho? perguntou alguém
de uma janela ao pé.
Não é preciso dizer que era Capitu. São
coisas que se adivinham na vida,
como nos livros, sejam romances, sejam histórias
verdadeiras. Era
Capitu, que nos espreitara desde algum tempo, por dentro
da veneziana, e
agora abrira inteiramente a janela, e aparecera. Viu
as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas,
e quis saber quem era que me.merecia tanto.
- É o Escobar, disse eu indo pôr-me embaixo
da janela, a olhar para
cima.
CAPÍTULO 72
UMA REFORMA DRAMÁTICA
Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta
história
poderia responder mais, tão certo é que
o destino, como todos os
dramaturgos, não anuncia as peripécias
nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até
que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores
vão
dormir.
Nesse gênero há porventura alguma coisa
que reformar, e eu
proporia, como ensaio, que as peças começassem
pelo fim. Otelo mataria a
si e a Desdêmona no primeiro ato, os três
seguintes seriam dados à ação
lenta e decrescente do ciúme, e o último
ficaria só com as cenas
iniciais da ameaça dos turcos, as explicações
de Otelo e Desdêmona, e o
bom conselho do fino lago: "Mete dinheiro na bolsa."
Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no
teatro a charada habitual que os periódicos lhe
dão, por que os últimos atos explicam
o desfecho do primeiro, espécie de: conceito,
e, por outro lado, ia para a cama com uma boa impressão
de ternura e de amor:
Ela amou o que me afligira,
Eu amei a piedade dela. |
|
 |
 |
|
|
|