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CAPÍTULO 67

UM PECADO

Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. Ao
cabo de cinco dias, minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminário. Em vão tio Cosme:

- Mana Glória, você assusta-se sem motivo, a febre passa...

- Não! não! mandem buscá-lo! Posso morrer, e a minha alma não se salva,
se Bentinho não estiver ao pé de mim.

- Vamos assustá-lo.

- Pois não lhe digam nada, mas vão buscá-lo, já, já, não se demorem.

Cuidaram fosse delírio- mas, não custando nada trazer-me, José Dias foi
incumbido do recado. Entrou tão atordoado que me assustou. Contou
particularmente ao reitor o que havia, e recebi licença para ir a casa.

Na rua, íamos calados, ele não alterando o passo do costume,- a premissa
antes da conseqüência, a conseqüência antes da conclusão,- mas
cabisbaixo e suspirando, eu temendo ler no rosto dele alguma notícia
dura e definitiva.

Só me falara na doença, como negócio simples; mas o
chamado, o silêncio, os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. O
coração batia-me com força, as pernas bambeavam-me, mais de uma vez cuidei cair...

O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a
saber. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto, me
envolvia, me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto mais andava
aquela Rua dos Barbonos, mais me aterrava a idéia de chegar a casa, de
entrar, de ouvir os prantos, de ver um corpo defunto...

Oh! eu não poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos. A rua, por mais que José Dias andasse superlativamente devagar, parecia fugir-me debaixo dos pés, as casas voavam de um e outro lado, e uma corneta que nessa ocasião tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final.

Fui, cheguei aos Arcos, entrei na Rua de Mata-cavalos. A casa não era
logo ali, mas muito além da dos inválidos, perto da do Senado. Três ou
quatro vezes, quisera interrogar o meu companheiro, sem ousar abrir a
boca; mas agora, já nem tinha tal desejo.

Ia só andando, aceitando o pior, como um gesto do destino, como uma necessidade da obra humana, e foi então que a Esperança, para combater o Terror, me segredou ao coração, não estas palavras, pois nada articulou parecido com palavras, mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: "Mamãe defunta, acaba o seminário".

Leitor, foi um relâmpago. Tão depressa alumiou a noite, como se esvaiu,
e a escuridão fez-se mais cerrada, pelo efeito do remorso que me ficou.
Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo. A piedade filial desmaiou um
instante, com a perspectiva da liberdade certa, pelo desaparecimento da
dívida e do devedor; foi um instante, menos que um instante, o centésimo
de um instante, ainda assim o suficiente para complicar a minha aflição
com um remorso.

José Dias suspirava. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me
pareceu haver-me adivinhado, e eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a
ninguém, que eu ia castigar-me, etc. Mas a pena trazia tanto amor, que
não podia ser pesar do meu pecado; mas então era sempre a morte de minha mãe... Senti uma angústia grande, um nó na garganta, e não pude mais, chorei de uma vez.

- Que é, Bentinho?

- Mamãe...?

- Não! não! Que idéia é essa? O estado dela é gravíssimo, mas não é mal
de morte, e Deus pode tudo. Enxugue os olhos, que é feio um mocinho da
sua idade andar chorando na rua. Não há de ser nada, uma febre... As
febres, assim como dão com força, assim também se vão embora... Com os.dedos, não; onde está o lenço?

Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras de José Dias uma só me
ficasse no coração; foi aquele gravíssimo. Vi depois que ele só queria
dizer grave, mas o uso do superlativo faz a boca longa, e, por amor do
período, José Dias fez crescer a minha tristeza se achares neste livro
algum caso da mesma família, avisa-me, leitor para que o emende na
segunda edição; nada há mais feio que dal pernas longuíssimas a idéias
brevíssimas. Enxuguei os olhos, repito, e fui andando, ansioso agora por
chegar a casa, e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive.

Enfim, chegamos, entramos, subi trêmulo os seis degraus da escada, e daí
a pouco, debruçado sobre a cama, ouvia as palavras ternas de minha mãe
que me apertava muito as mãos, chamando-me seu filho. Estava queimando
os olhos ardiam nos meus, toda ela parecia consumida por um vulcão
interno. Ajoelhei-me ao pé do leito, mas como este era alto, fiquei
longe das suas carícias:

- Não, meu filho, levanta, levanta!

Capitu, que estava na alcova, gostou de ver a minha entrada, os meus
gestos, palavras e lágrimas, segundo me disse depois; mas não suspeitou
naturalmente todas as causas da minha aflição. Entrando no meu quarto,
pensei em dizer tudo a minha mãe, logo que ela ficasse boa, mas esta
idéia não me mordia, era uma veleidade pura, uma ação que eu não faria
nunca, por mais que o pecado me doesse.

Então levado do remorso, usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais, e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe, e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos. Padre que me lês, perdoa este recurso; foi a última vez que o empreguei. A crise em que me achava, não menos que o costume e a fé, explica tudo.

Eram mais dois mil; onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária,- ainda que o devedor as não pague, valem a soma que dizem.

CAPÍTULO 68

ADIEMOS A VIRTUDE

Poucos teriam animo de confessar aquele meu pensamento da Rua de
Mata-cavalos. Eu confessarei tudo o que importar à minha história.
Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j'escris, c'est
moi, c'est mon essence. Ora, há só um modo de escrever a própria.essência, é contá-la toda, o bem e o mal. Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convidando à construção ou reconstrução de mim mesmo.

Por exemplo, agora que contei um pecado, diria com muito gosto alguma
bela ação contemporânea, se me lembrasse, mas não me lembra; fica
transferida a melhor oportunidade.

Nem perderás em esperar, meu amigo; ao contrário, acode-me agora que...
Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião como são também
possíveis e prováveis, pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes,
não menos simples que clara. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com
certo número deles e delas, aliados por matrimônio para se compensarem
na vida.

Quando um de tais cônjuges é mais forte que o outro, ele só guia o indivíduo, sem que este, por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado se possa dizer isento de um ou de outro; mas a regra é dar-se a prática simultânea dos dois, com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos; falta-me tempo.

Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns daqueles casais, e
naturalmente ainda os possuo. Já me sucedeu, aqui no Engenho Novo, por
estar uma noite com muita dor de cabeça, desejar que o trem da Central
estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas
horas, ainda que morresse alguém; e no dia seguinte perdi o trem da
mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia
bordão. Voilà mes gestes, voilà mon essence.

CAPÍTULO 69

A MISSA

Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. Antônio dos Pobres. O
agregado quis ir comigo, e principiou a vestir-se, mas era tão lento nos
suspensórios e nas presilhas, que não pude esperar por ele.

Demais, eu queria estar só. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia, e era reconciliar-me com Deus, depois do que se passou no Capítulo LXVII.

Nem era só pedir-lhe perdão do pecado, era também agradecer o estabelecimento de minha mãe, e, visto que digo tudo, fazê-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. Jeová, posto que divino, ou por isso mesmo, é um Rothschild.muito mais humano, e não faz moratórias, perdoa as dívidas integralmente, uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. Ora, eu não queria outra coisa; dali em diante não faria mais promessas que não pudesse pagar, e pagaria logo as que
fizesse.

Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida e saúde de minha mãe;
depois pedi perdão do pecado e revelação da dívida, e recebi a bênção
final do oficiante como um ato solene de reconciliação. No fim,
lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório
seguro, e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste
de contas morais entre o homem e Deus.

Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa; receei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo.
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