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CAPÍTULO 64

UMA IDÉIA E UM ESCRÚPULO

Relendo o Capítulo passado, acode-me uma idéia e um escrúpulo. O
escrúpulo é justamente de escrever a idéia, não a havendo mais banal na
terra, posto que daquela banalidade do sol e da lua, que o céu nos dá
todos os dias e todos os meses.

Deixei o manuscrito, e olhei para as.paredes. Sabes que esta casa do Engenho Novo, nas dimensões, disposições e pinturas, é reprodução da minha antiga casa de Mata-cavalos.

Outrossim, como te disse no Capítulo II, o meu fim em imitar a outra foi
ligar as duas pontas da vida, o que aliás na alcancei. Pois o mesmo
sucedeu àquele sonho do seminário, por mais que tentasse dormir e
dormisse.

Donde concluo que um dos oficiais do homem é fechar e apertar
muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da
noite moça. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui e só
provisoriamente a escrevo.

Antes de concluir este Capítulo, fui à janela indagar da noite por que
razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor
abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais A noite não me
respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar
e o espaço morria de silêncio.

Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis.

Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.

Era uma alusão às Filipinas. Pois que não amo a política, e ainda menos
a política internacional, fechei a janela e vim acabar este capítulo
para ir dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos
da memória ou da digestão; basta-me um sono quieto e apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas.

CAPÍTULO 65

A DISSIMULAÇÃO

Chegou Sábado, chegaram outros sábados, e eu acabei afeiçoando me à vida nova. Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim, os rapazes também, e Escobar mais que os rapazes e os padres. No fim de cinco semanas estive quase a contar a este as minhas penas e esperanças; Capitu refreou-me.

- Escobar é muito meu amigo, Capitu!.- Mas não é meu amigo.

- Pode vir a ser; ele já me disse que há de vir cá para conhecer mamãe.
- Não importa; você não tem direito de contar um segredo que não é só
seu, mas também meu, e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa
nenhuma.

Era justo, calei-me e obedeci. Outra coisa em que obedeci às suas
reflexões foi, logo no primeiro sábado, quando eu fui à casa dela, e,
após alguns minutos de conversa, me aconselhou a ir embora.

- Hoje não fique aqui mais tempo; vá para casa, que eu lá vou logo. É
natural que Dona Glória queira estar com você muito tempo, ou todo, se
puder.

Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia
deixar de citar um terceiro exemplo, mas os exemplos não se fizeram
senão para ser citados, e este é tão bom que a omissão seria um crime.

Foi à minha terceira ou quarta vinda à casa. Minha mãe, depois que lhe
respondi às mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam, os estudos, as relações, a disciplina, e se me doía alguma coisa, e se
dormia bem, tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a
paciência de um filho, concluiu voltando-se para José Dias:

- senhor José Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?

- Excelentíssima...

- E você, Capitu, interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do
Pádua que estava na sala, com ela,- você não acha que o nosso Bentinho
dará um bom padre?

- Acho que sim, senhora, respondeu Capitu cheia de convicção.

Não gostei da convicção. Assim lhe disse, na manhã seguinte, no quintal
dela, recordando as palavras da véspera, e lançando-lhe em rosto, pela
primeira vez, a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no
seminário, quando eu vivia curtido de saudades.

Capitu fez-se muito séria, e perguntou-me como é que queria que se portasse, uma vez que suspeitavam de nós; também tivera noites desconsoladas, e os dias, em casa dela, foram tão tristes como os meus; podia indagá-lo do pai e da mãe. A mãe chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que não pensasse mais em mim.

- Com Dona Glória e Dona Justina mostro-me naturalmente alegre, para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse, elas tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem não me recebendo...

Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com
outro..Era isto mesmo, devíamos dissimular para matar qualquer suspeita, e ao mesmo tempo gozar toda a liberdade anterior, e construir tranqüilos o
nosso futuro.

Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte, ao almoço; minha mãe, dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa, contou que, dias antes, estando a falar de moças que se casam cedo, Capitu lhe dissera: "Pois a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho, eu espero que ele se ordene!"

Tio Cosme riu da graça, José Dias não dessorriu, só prima Justina é que
franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. Eu, que havia
olhado para todos, não pude resistir ao gesto da prima, e tratei de
comer. Mas comi mal, estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada, e, logo que almocei, corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. Capitu sorriu de agradecida.

- Você tem razão, Capitu, concluí eu; vamos enganar toda esta gente.

- Não é? disse ela com ingenuidade.

CAPÍTULO 66

INTIMIDADE

Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe. Viviam o mais do tempo
juntas, falando de mim, a propósito do sol e da chuva, ou de nada;
Capitu ia lá coser, às manhãs; alguma vez ficava para jantar.

Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas finezas, mas não
tratava de todo mal a minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal
que sentia de alguém, e não sentia bem de pessoa alguma. Talvez do
marido, mas o marido era morto; em todo caso, não existiria homem capaz
de competir com ele na afeição, no trabalho e na honestidade, nas
maneiras e na agudeza de espírito.

Esta opinião, segundo tio Cosme, era póstuma, pois em vida andavam às brigas, e os últimos seis meses acabaram separados. Tanto melhor para a justiça dela; o louvor dos mortos é um modo de orar por eles. Também gostaria de minha mãe, ou se algum mal pensou dela foi entre si e o travesseiro.

Compreende-se que, de aparência, lhe desse a estima devida. Não penso que ela aspirasse a algum legado- as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturais, fazem-se mais risonhas, mais assíduas, multiplicam os cuidados, precedem os fâmulos. Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina, feita de azedume e de implicância. Como vivesse de favor na casa, explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos, ou só.dissesse mal dela a Deus e ao Diabo.

Caso tivesse ressentimentos de minha mãe, não era uma razão mais para
detestar Capitu, nem ela precisava de razões suplementares. Contudo, a
intimidade de Capitu fê-la mais aborrecível à minha parenta. Se a
princípio não a tratava mal, com o tempo trocou de maneiras e acabou
fugindo-lhe. Capitu, atenta, desde que a não via, indagava dela e ia
procurá-la.

Prima Justina tolerava esses cuidados. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. Demais, Capitu usava certa magia que cativa, prima Justina acabava sorrindo, inda que azedo mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina.

Como minha mãe adoecesse de uma febre, que a pôs às portas da morte,
quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. Prima Justina, posto que
isto a aliviasse de cuidados penosos, não perdoou à minha amiga a
intervenção. Um dia perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa, outro
dia. rindo, soltou-lhe este epigrama: "Não precisa correr tanto; o que
tiver de ser seu às mãos lhe há de ir".
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