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CAPÍTULO 61
A VACA DE HOMERO
O mais foi muito. Vi saírem os primeiros dias
da separação, duros e
opacos, sem embargo das palavras de conforto que me
deram os padres e os seminaristas, e as de minha mãe
e tio Cosme, trazidas por José Dias ao seminário.
- Todos estão saudosos, disse-me este, mas a
maior saudade está
naturalmente no maior dos corações; e
qual é ele? perguntou escrevendo a
resposta nos olhos.
- Mamãe, acudi eu.
José Dias apertou-me as mãos com alvoroço,
e logo pintou a tristeza de
minha mãe, que falava de mim todos os dias, quase
a todas as horas.
Como a aprovasse sempre, e acrescentasse alguma palavra
relativamente aos dotes que Deus lhe dera, o desvanecimento
de minha mãe nessas ocasiões era indescritível;
e contava-me tudo isso cheio de uma admiração
lacrimosa. Tio Cosme também se enternecia muito..
- Ontem até se deu um caso interessante. Tendo
eu dito à Excelentíssima
que Deus lhe dera, não um filho, mas um anjo
do céu e doutor ficou tão
comovido que não achou outro modo de vencer o
choro senão fazendo-me
um daqueles elogios de galhofa que só ele sabe.
Não é preciso dizer que
Dona Glória enxugou furtivamente uma lágrima.
Ou ela não fosse mãe! Que
coração amantíssimo!
- Mas, senhor José Dias, e a minha saída
daqui?
- Isso é negócio meu. A viagem à
Europa é o que é preciso, mas pode
fazer-se daqui a um ou dois anos, em 1859 ou 1860.
- Tão tarde!
- Era melhor que fosse este mesmo ano, mas demos tempo
em tempo.
Tenha paciência, vá estudando, não
se perde nada em ir sabendo já daqui alguma coisa;
e, demais, ainda não acabando padre a vida do
seminário é útil, e vale sempre
entrar no mundo ungido com os santos óleos da
teologia...
Neste ponto,- lembra-me como se fosse hoje,- os olhos
de José Dias
fulguraram tão intensamente que me encheram de
espanto As pálpebras
caíram depois, e assim ficaram por alguns instantes,
até que novamente
se ergueram, e os olhos fixaram-se na parede do pátio,
como que
embebidos em alguma coisa, se não era em si mesmos,
depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo
pátio todo.
Podia compará-lo aqui à vaca de Homero;
andava e gemia em volta da cria que acabava de parir.
Não lhe perguntei o que é que tinha, já
por acanhamento, já porque dois lentes, um deles
de teologia, vinham caminhando na nossa direção.
Ao passarem por nós, o agregado, que os conhecia,
cortejou-os com as
deferências devidas, e pediu-lhes notícias
minhas.
- Por ora nada se pode afiançar, disse um deles,
mas parece que dará
conta da mão.
- O que eu lhe dizia agora mesmo, acudiu José
Dias. Conto ouvir-lhe a
missa nova; mas ainda que não chegue a ordenar-se,
no pode ter melhores
estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da existência,
concluiu
demorando mais as palavras, irá ungido com os
santos óleos da
teologia...
Desta vez a fulguração dos olhos foi menor,
as pálpebras não lhe caíram
nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores. Ao
contrário, todo ele
era atenção e interrogação;
quando muito, um sorriso claro e amigo lhe
errava nos lábios. O lente de teologia gostou
da metáfora, e disse-lho;
ele agradeceu, explicando que eram idéias que
lhe escapavam no correr da
conversação; não escrevia nem orava.
Eu é que não gostei nada; e logo.que os
lentes se foram, sacudi a cabeça:
- Não quero saber dos santos óleos da
teologia; desejo sair daqui o mais
cedo que puder, ou já...
- Já, meu anjo, não pode ser; mas pode
suceder que muito antes do que
imaginamos. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho
um plano feito, e penso já nas palavras com que
hei de expô-lo a Dona Glória; estou certo
que ela cederá e irá conosco.
- Duvido que mamãe embarque.
- Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com
ela ou sem ela, tenho por certa a nossa ida, e não
haverá esforço que eu não empregue,
deixe estar.
Paciência é que é preciso. E não
faça aqui nada que dê lugar a censuras
ou queixas; muita docilidade e toda a aparente satisfação.
Não ouviu o
elogio do lente? É que você tem-se portado
bem. Pois continue.
- Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.
- Será este ano, replicou José Dias.
- Daqui a três meses?
- Ou seis.
- Não; três meses.
- Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor
que outro
qualquer. É combinar a ausência de vocação
eclesiástica e a necessidade
de mudar de ares. Você por que não tosse?
- Por que não tusso?
- Já, já, não, mas eu hei de avisar
você para tossir, quando for
preciso, aos poucos, uma tossezinha seca, e algum fastio;
eu irei
preparando a Excelentíssima... Oh! tudo isto
é em benefício dela. Uma
vez que o filho não pode servir a Igreja, como
deve ser servida, o
melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo
a outra coisa. O
mundo também é igreja para os bons...
Pareceu-me outra vez a vaca de Homero, como se este
"mundo também é
igreja para os bons", fosse outro bezerro, irmão
dos "santos óleos da
teologia." Mas não dei tempo à ternura
materna, e repliquei:
- Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar,
não é?
José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
- Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho,
eu há meses que
desconfio do seu peito. Você não anda bom
do peito. Em pequeno, teve
umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas há
dias em que está mais descorado. Não digo
que já seria o mal, mas o mal pode vir depressa.
Numa hora cai a casa. Por isso, se aquela santa senhora
não quiser ir
conosco,- ou para que vá mais depressa, acho
que uma boa tosse... Se a.tosse há de vir de
verdade, melhor é apressá-la... Deixe
estar, eu
aviso...
- Bem, mas em saindo daqui não há de ser
para embarcar logo; saio
primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque
é que pode ficar
para o ano. Não dizem que o melhor tempo é
abril ou Maio? Pois seja
maio. Primeiro deixo o seminário daqui a dois
meses...
E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta,
dei uma volta
rápida, e perguntei-lhe à queima-roupa:
- Capitu como vai?
CAPÍTULO 62
UMA PONTA DE IAGO
A pergunta era imprudente, na ocasião em que
eu cuidava de transferir o
embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal
ou único da minha
repulsa ao seminário era Capitu, e fazer crer
Improvável a viagem.
Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas
nem soube como,
nem ele me deu tempo.
- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha.
Aquilo enquanto não
pegar algum peralta da vizinhança, que case com
ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio
pelo corpo todo.
A notícia de que ela vivia alegre, quando eu
chorava todas as noites,
produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de
coração, tão
violento, que ainda agora cuido ouvi-lo.
Há alguma exageração nisto; mas
o discurso humano é assim mesmo, um composto
de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam,
ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência
aqui não é das orelhas, senão da
memória, chegaremos à exata verdade. A
minha memória ouve ainda agora as pancadas do
coração naquele instante.
Não esqueças que era a emoção
do primeiro amor. Estive quase a perguntar a José
Dias que me explicasse a alegria de Capitu, o que é
que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando,
mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não,- um sentimento cruel
e desconhecido, o pulo ciúme,
leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu,
ao repetir comigo
as palavras de José Dias: "Algum peralta
da vizinhança." Em verdade,
nunca pensara em tal desastre.
Vivia tão nela, dela e para ela, que a intervenção
de um peralta era como uma noção sem realidade;
nunca me.acudiu que havia peraltas na vizinhança,
vária idade e feitio, grandes passeadores das
tardes.
Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu,- e
tão senhor me sentia dela que era como se olhassem
para mim, um simples dever de admiração
e de inveja. Separados um do outro pelo espaço
e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não
só possível mas certo.
E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela
vivia alegre
é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia
com os olhos na rua,
falar-lhe-ia à janela, às ave-marias,
trocariam flores e...
E... quê? Sabes o que é que trocariam mais-
se o não achas por ti mesmo,
escusado é ler o resto do Capítulo e do
livro, não acharás mais nada,
ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia.
Mas se o achaste,
compreenderás que eu, depois de estremecer, tivesse
um ímpeto de
atirar-me pelo portão fora, descer o resto dai
ladeira, correr, chegar à
casa do Pádua, agarrar Capitu e intimar-lhe que
me confessasse quantos,
quantos, quantos já lhe dera o peralta da vizinhança.
Não fiz nada. Os mesmos sonhos que ora conto
não tiveram, naqueles três ou quatro minutos,
esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram
soltos, emendados e mal emendados, com o desenho truncado
e torto, uma confusão, um turbilhão, que
me cegava e ensurdecia.
Quando tornei a mim, José Dias concluía
uma frase, cujo princípio não ouvi, e
o mesmo fim era vago: "A conta que dará
de si." Que conta e quem? Cuidei naturalmente que
falava ainda de Capitu, e quis perguntar-lho, mas a
vontade morreu ao nascer, como tantas outras gerações
delas. Limitei-me a inquirir do agregado quando é
que iria a casa ver minha mãe.
- Estou com saudades de mamãe. Posso ir já
esta semana?
- Vai sábado.
- Vai sábado.
- Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe
que me mande buscar sábado!
Sábado! Este sábado, não? Que me
mande buscar, sem falta.
CAPÍTULO 63
METADES DE UM SONHO
Fiquei ansioso pelo sábado. Até lá
os sonhos perseguiam-me, ainda
acordado, e não os digo aqui para não
alongar esta parte do livro. Um só
ponho, e no menor número de palavras, ou antes
porei dois, porque um
nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas
metades de um só.
Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa
é do vosso sexo, que
perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista.
Não fosse ele,
e este livro seria talvez uma simples prática
paroquial, se eu fosse
padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encíclica,
se papa, como me
recomendara tio Cosme: "Anda lá, meu rapaz,
volta-me papa!" Ah! por que
não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão,
tenente e imperador, todos
os destinos estão neste século.
Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os
peraltas da
vizinhança, vi um destes que conversava com a
minha amiga ao pé da
janela. Corri ao lugar, ele fugiu; avancei para Capitu,
mas não estava
só tinha o pai ao pé de si, enxugando
os olhos e mirando um triste
bilhete de loteria.
Não me parecendo isto claro, ia pedir a explicação,
quando ele de si mesmo a deu; o peralta fora levar-lhe
a lista dos
prêmios da loteria, e o bilhete saíra branco.
Tinha o número 4004.
Disse-me que esta simetria de algarismos era misteriosa
e bela, e
provavelmente a roda andara mal; era impossível
que não devesse ter a
sorte grande. Enquanto ele falava, Capitu dava-me com
os olhos todas as
sortes grandes e pequenas.
A maior destas devia ser dada com a boca. E aqui entra
a segunda parte do sonho. Pádua desapareceu,
como as suas esperanças do bilhete, Capitu inclinou-se
para fora, eu relancei os olhos pela rua, estava deserta.
Peguei-lhe nas mãos, resmunguei não sei
que palavras, e acordei sozinho no dormitório.
O interesse do que acabas de ler não está
na matéria do sonho, mas nos
esforços que fiz para ver se dormia novamente
e pegava nele outra vez.
Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação
que empreguei em fechar os olhos, apertá-los
bem, esquecer tudo para dormir, mas não
dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono até
à madrugada.
Sobre a madrugada, consegui conciliá-lo, mas
então nem peraltas, nem bilhetes de loterias,
nem sortes grandes ou pequenas,- nada dos nadas veio
ter comigo. Não sonhei mais aquela noite, e dei
mal as lições daquele dia. |
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