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CAPÍTULO 58
O TRATADO
Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu para
o seminário, vi cair na rua uma senhora. O meu primeiro
gesto, em tal caso, devia ser de pena ou de riso; não
foi uma nem outra coisa, porquanto (e é isto que eu
quisera dizer em latim), porquanto a senhora tinha as
meias mui lavadas, e não as sujou, levava ligas de seda,
e não as perdeu.
Várias pessoas acudiram, mas não tiveram tempo de a
levantar; ela ergueu-se muito vexada, sacudiu-se, agradeceu,
e enfiou pela rua próxima.
- Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor,
dizia-me José Dias andando e comentando a queda, é evidentemente
um erro. As nossas moças devem andar como sempre andaram,
com seu vagar e paciência, e não este tique-tique afrancesado...
Eu mal podia ouvi-lo. As meias e as ligas da senhora
branqueavam e enroscavam-se diante de mim, e andavam,
caíam, erguiam-se e iam-se embora. Quando chegamos à
esquina, olhei para a outra rua, e vi, a distancia,
a nossa desastrada, que ia no mesmo passo, tique-tique,.tique-tique...
- Parece que não se machucou, disse eu. - Tanto melhor
para ela, mas é impossível que não tenha arranhado os
joelhos; aquela presteza é manha... Creio que foi "manha"
que ele disse; eu fiquei "nos joelhos arranhados".
Dali em diante, até o seminário, não vi mulher na rua,
a quem não desejasse uma queda, a algumas adivinhei
que traziam as meias esticadas e as ligas justas...
Tal haveria que nem levasse meias... Mas eu as via com
elas... Ou então... Também é possível...
Vou esgarçando isto com reticências para dar uma idéia
das minhas idéias, que eram assim difusas e confusas;
com certeza não dou nada. A cabeça ia-me quente, e o
andar não era seguro. No seminário, a primeira hora
foi insuportável.
As batinas traziam ar de saias, e lembravam-me a queda
da senhora. Já não era uma só que eu via cair; todas
as que eu encontrara na rua, mostravam-me agora de relance
as ligas azuis; eram azuis. De noite, sonhei com elas.
Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda
de mim, tique-tique...
Eram belas, umas finas, outras grossas, todas ágeis
como o diabo. Acordei, busquei afugentá-las com esconderijos
e outros métodos, mas tão depressa dormi como tornaram,
e, com as mãos presas em volta de mim, faziam um vasto
círculo de saias ou, trepadas no ar, choviam pés e pernas
sobre a minha cabeça.
Assim fui até madrugada. Não dormi mais; rezei padre-nossos,
ave-marias, e credos, e sendo este livro a verdade pura,
é força confessar que tive de interromper mais de uma
vez as minhas orações para acompanhar no escuro uma
figura ao longe, tique-tique, tique-tique...
Pegava depressa na oração, sempre no meio para concertá-la
bem, como se não tivesse havido interrupção, mas certamente
não unia a frase nova à antiga. Vindo o mal pela manhã
adiante, tentei vencê-lo, mas por um modo que o não
perdesse de todo. Sábios da Escritura, adivinhai o que
podia ser.
Foi isto. Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros,
recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha
imaginação. As visões femininas seriam de ora avante
consideradas como simples encarnações dos vícios, e
por isso mesmo contempláveis, como o melhor modo de
temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos
da vida.
Não formulei isto por palavras, nem foi preciso; o contrato
fez-se tacitamente, com alguma repugnância, mas fez-se.
E por alguns dias, era eu mesmo que evocava as visões
para fortalecer-me, e não as rejeitava, senão quando
elas mesmo de cansadas, se iam embora..
CAPÍTULO 59
CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA
Há dessas reminiscências que não descansam antes que
a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia arrenegar
de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais
convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova
de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir
agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é
comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias,
sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras
circunstancias. A quem passe a vida na mesma casa de
família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas
e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade
e repetição.
Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras
calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei
ontem Juro só que não eram amarelas porque execro essa
cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. E antes
seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda
bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos
livros omissos.
Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo
nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos
e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas
idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas!
Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas
lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as
suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das
espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam
as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma
alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho,
leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim
podes também preencher as minhas.
CAPÍTULO 60
QUERIDO OPÚSCULO
Assim fiz eu ao Panegírico de Santa Mônica, e fiz mais:
pus-lhe não só o que faltava da santa, mas ainda coisas
que não eram dela. Viste o soneto, as meias, as ligas,
o seminarista Escobar e vários outros. Vais agora ver
o mais que naquele dia me foi saindo das páginas amarelas
do opúsculo..
Querido opúsculo, tu não prestavas para nada, mas que
mais presta um velho par de chinelas? Entretanto, há
muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor
de dois pés. Gastas e rotas, não deixam de lembrar que
uma pessoa as calçava de manhã, ao erguer da cama, ou
as descalçava à noite, ao entrar ela.
E se a comparação não vale, porque as chinelas são ainda
uma parte da pessoa e tiveram o contato dos pés, aqui
estão outras lembranças, como a pedra da rua, a porta
da casa, um assobio particular, um pregão de quitanda,
como aquele das cocadas que contei no cap. 18. J
ustamente, quando contei o pregão das cocadas, fiquei
tão curtido de saudades que me lembrou fazê-lo escrever
por um amigo, mestre de música, e grudá-lo às pernas
do Capítulo. Se depois jarretei o Capítulo, foi porque
outro músico, a quem o mostrei, me confessou ingenuamente
não achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades.
Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionais
que porventura me lerem, melhor é poupar ao editor do
livro o trabalho e a despesa da gravura. Vês que não
pus nada, nem ponho.
Já agora creio que não basta que os pregões de rua,
como os opúsculos de seminário, encerrem casos, pessoas
e sensações; é preciso que a gente os tenha conhecido
e padecido no tempo, sem o que tudo é calado e incolor.
Mas, vamos ao mais que me foi saindo das páginas amarelas.
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