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CAPÍTULO 52
O VELHO PÁDUA
Já agora conto também os adeuses do velho
Pádua. Logo cedo veio à nossa.casa. Minha
mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.
- Dá licença? perguntou metendo a cabeça
pela porta.
Fui apertar-lhe a mão; ele abraçou-me
com ternura.
- Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente
creia que ficam
muitas saudades. Todos nós estimamos muito ao
senhor, como merece. Se lhe disserem outra coisa, não
acredite. São intrigas. Também eu, quando
me casei, fui vítima de intrigas; desfizeram-se.
Deus é grande e
descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe
e seu tio,- coisa que
eu, por esta luz que me alumia, não desejo, porque
são boas pessoas,
excelentes pessoas, e eu sou grato às finezas
recebidas...
Não, eu não sou como outros, certos parasitas,
vindos de fora para desunião das famílias,
aduladores baixos, não- eu sou de outra espécie;
não vivo papando os jantares nem morando em casa
alheia... Enfim, são os mais felizes!
"Por que falará assim? pensei. Naturalmente
sabe que José Dias diz mal
dele."
- Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus
parentes, pode
contar com a nossa companhia. Não é suficiente
em importância, mas a
afeição é imensa, creia. Padre
que seja, a nossa casa está às suas
ordens. Quero só que me não esqueça;
não esqueça o velho Pádua...
Suspirou e continuou:
- Não esqueça o seu velho Pádua,
e, se tem algum trapinho que me deixe
em lembrança, um caderno latino, qualquer coisa,
um botão de colete,
coisa que já lhe não preste para nada.
O valor é a lembrança. Tive um
sobressalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos
meus cabelos, tão grandes e tão bonitos,
cortados na véspera. A intenção
era levá-los a
Capitu, ao sair; mas tive idéia de dá-lo
ao pai, a filha saberia tomá-lo
e guardá-lo. Peguei do embrulho e dei-lho.
- Aqui está, guarde.
- Um cachinho dos seus cabelos! exclamou Pádua
abrindo e fechando o
embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha
gente! Vou dá-lo à
velha, para guardá-lo, ou à pequena, que
é mais cuidadosa que a mãe. Que
lindos que são! Como é que se corta uma
beleza destas? Dê cá um abraço!
outro! mais outro! adeus!
Tinha os olhos úmidos deveras; levava a cara
dos desenganados, como
quem empregou em um só bilhete todas as suas
economias de esperanças, e vê sair branco
o maldito número,- um número tão
bonito!.
CAPÍTULO 53
A CAMINHO!
Fui para o seminário. Poupa-me as outras despedidas.
Minha mãe
apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez
chorasse mal ou
nada. Há pessoas a quem as lágrimas não
acodem logo nem nunca, diz-se
que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava
naturalmente os
seus padecimentos íntimos, emendando os descuidos
de minha mãe,
fazendo-me recomendações, dando ordens.
Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em despedida,
disse-me rindo:
- Anda lá, rapaz, volta-me papa!
José Dias, composto e grave, não dizia
nada a princípio; tínhamos falado
na véspera, no quarto dele, onde fui ver se era
ainda possível evitar o
seminário. Já não era, mas deu-me
esperanças e principalmente animou-me muito.
Antes de um ano estaríamos a bordo. Como eu achasse
muito breve, explicou-se.
- Dizem que não é bom tempo de atravessar
o Atlântico, vou indagar; se
não for, iremos em março ou abril.
- Posso estudar medicina aqui mesmo.
José Dias correu os dedos pelos suspensórios
com um gesto de
impaciência, apertou os beiços, até
que formalmente rejeitou o alvitre.
- Não duvidaria aprovar a idéia, disse
ele, se na Escola de Medicina não
ensinassem, exclusivamente, a podridão alopata.
A alopatia é o erro dos
séculos, e vai morrer; é o assassinato,
é a mentira, é a ilusão. Se lhe
disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela
parte da ciência
comum a todos os sistemas, é verdade; a alopatia
é erro na terapêutica.
Fisiologia, anatomia, patologia, não são
alopáticas nem homeopáticas,
mas é melhor aprender logo tudo de uma vez, por
livros e por língua de
homens cultores da verdade...
Assim falara na véspera e no quarto. Agora não
dizia nada, ou proferia
algum aforismo sobre a religião e a família;
lembro-me deste: "Dividi-lo
com Deus é ainda possuí-lo". Quando
minha mãe me deu o último beijo:
"Quadro amantíssimo!" suspirou ele.
Era manhã de um lindo dia. Os
moleques cochichavam; as escravas tomam a bênção:
"Bênção, nhô
Bentinho! não se esqueça de sua Joana!
Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!"
Na rua José Dias insistiu nas esperanças:
- Agüente um ano; até lá tudo estará
arranjado.
CAPÍTULO 54
PANEGÍRICO DE SANTA MÔNICA
No Seminário... Ah! não vou contar o seminário,
nem me bastaria a isso
um Capítulo. Não, senhor meu amigo; algum
dia. sim, é possível que
componha um abreviado do que ali vi e vivi, das pessoas
que tratei, dos
costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando
pega aos
cinqüenta anos, não despega mais.
Na mocidade é possível curar-se um homem
dela; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminário
tive um companheiro que compôs versos, à
maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de frade-poeta
era recente. Ordenou-se anos depois encontrei-o no coro
de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.
- Que versos? perguntou meio espantado.
- Os seus. Pois não se lembra que no seminário...
- Ah! sorriu ele.
Sorriu, e continuando a procurar num livro aberto a
hora em que tinha de
cantar no dia seguinte, confessou-me que não
fizera mais versos depois
de ordenado. Foram cócegas da mocidade; coçou-se,
passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade
de coisas do dia. a vida cara, um
sermão do padre X..., uma vigairaria mineira...
Contrário a isso foi um seminarista que não
seguiu a carreira.
Chamava-se... Não é preciso dizer o nome;
baste o caso. Tinha composto
um Panegírico de Santa Mônica, elogiado
por algumas pessoas e então lido
entre os seminaristas. Alcançou licença
de imprimi-lo, e dedicou-o a
Santo Agostinho.
Tudo isso é história velha; o que é
mais moço é que um dia em 1882, indo ver
certo negócio em repartição de
marinha, ali dei com este meu colega, feito chefe de
uma seção administrativa. Deixara seminário,
deixara letras, casara e esquecera tudo, menos o Panegírico
de Santa Mônica, umas vinte e nove páginas,
que veio distribuindo pela vida fora.
Como eu precisasse de algumas informações,
fui pedir-lhas, e
seria impossível achar melhor nem mais pronta
vontade; deu-me tudo,
claro, certo, copioso Naturalmente conversamos do passado,
memórias
pessoais, casos de estudo, incidentes de nada, um livro,
um verbo, um
mote, toda a velha palhada saiu cá fora, e rimos
juntos, e suspiramos de
companhia. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário.
Ou porque eram dele, ou porque éramos então
moços, as recordações traziam tal
poder de.felicidade que, se alguma sombra contrária
houve então, não apareceu agora. Ele confessou-me
que perdera de vista todos os companheiros do seminário.
- Também eu, quase todos; uma vez ordenados,
voltaram naturalmente às
suas províncias, e os daqui tomaram vigairarias
fora.
- Bom tempo! suspirou ele.
E, após alguma reflexão, fitando em mim
uns olhos murchos e teimosos,
perguntou-me:
- Conservou o meu Panegírico?
Não achei que dizer; tentei mover os beiços,
mas não tinha palavra,
afinal perguntei:
- Panegírico? Que panegírico?
- O meu Panegírico de Santa Mônica.
Não me lembrou logo, mas a explicação
devia bastar; e depois de alguns
instantes de pesquisa mental, respondi que por muito
tempo o conservara,
mas as mudanças, as viagens...
- Hei de levar-lhe um exemplar.
Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa,
com o folheto, um
velho folheto de vinte e seis anos, encardido, manchado
do tempo, mas
sem lacuna, e com uma dedicatória manuscrita
e respeitosa.
- É o penúltimo exemplar, disse-me; agora
só me resta um, que não posso
dar a ninguém.
E como me visse folhear o opúsculo:
- Veja se lhe lembra algum pedaço, disse-me.
Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades
mais estreitas e
assíduas, mas era cortesia, era quase caridade
recordar alguma lauda; li
uma delas, acentuando certas frases para lhe dar a impressão
de que
achavam eco em minha memória. Concordou que fossem
belas, mas preferia outras, e apontou-as.
- Recorda-se bem?
- Perfeitamente. Panegírico de Santa Mônica!
Como isto me faz remontar
os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário,
creia. Os anos passam, os acontecimentos vêm uns
sobre outros, e as sensações também,
e vieram amizades novas que também se foram depois,
como é lei da vida...
Pois, meu caro colega, nada fez apagar aquele tempo
da nossa
convivência, os padres, as lições,
os recreios... os nossos recreios,
lembra-se? o Padre Lopes, oh! o Padre Lopes...
Ele, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente
ouvia, mas
só me disse uma palavra, e ainda assim depois
de algum tempo de.silêncio, recolhendo os olhos
e um suspiro!
- Tem agradado muito este meu Panegírico! |
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