Error processing SSI file
|
 |
|
|
CAPÍTULO 4
UM DEVER AMARÍSSIMO!
José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar
feição monumental às idéias; não as havendo, servia
a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o
gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito
à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas,
presilhas, rodaque e gravata de mola.
Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro,
e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que
lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto,
com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço;
era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e
leve, parecia nele uma casaca de cerimônia.
Era magro, chupado, com um princípio de calva; teria
os seus cinqüenta e cinco anos. Levantou-se com o passo
vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado se era
dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido,
um silogismo completo, a premissa antes da conseqüência,
a conseqüência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!.
CAPÍTULO 5
O AGREGADO
Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também
se descompunha em acionados, era muita vez rápido e
lépido nos movimentos, tão natural nesta como naquela
maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um
grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto
ás bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda
a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances
graves, gravíssimo.
Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda
estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de
nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata;
levava um Manual e uma botica. Havia então um andaço
de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e
não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai
propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado.
José Dias recusou, dizendo que era justo levar a saúde
à casa de sapé do pobre.
- Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser,
mas fique morando conosco.
- Voltarei daqui a três meses.
Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem
outro estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas.
Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio
de Janeiro com a família, ele veio também, e teve o
seu quarto ao fundo da chácara.
Um dia, reinando outra vez febres em Itaguaí, disse-lhe
meu pai que fosse ver a nossa escravatura. José Dias
deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando
que não era médico. Tomara este título para ajudar a
propaganda da nova escola, e não o fez sem estudar muito
e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar
mais doentes.
- Mas, você curou das outras vezes.
- Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que
foram os remédios indicados nos livros. Eles, sim, eles,
abaixo de Deus. Eu era um charlatão...
Não negue; os motivos do meu procedimento podiam ser
e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir
à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.
Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não
podia dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e
necessário; dava-se por falta dele,.como de pessoa da
família. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi
enorme, disseram-me; não me lembra. Minha mãe ficou-lhe
muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto
da chácara; ao sétimo dia. depois da missa, ele foi
despedir-se dela.
- Fique, José Dias.
- Obedeço, minha senhora. Teve um pequeno legado no
testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor.
Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no
quarto, por cima da cama. "Esta é a melhor apólice",
dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade
na família, certa audiência, ao menos; não abusava,
e sabia opinar obedecendo.
Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é
ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna;
as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que
da índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário das
pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele
trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de
uma elegância pobre e modesta.
Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir
ao serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno,
falar dos efeitos do calor e do frio, dos pólos e de
Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera
à Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria
voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa
família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.
- Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.
- Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração. E minha
mãe, que era religiosa, gostou de ver que ele punha
Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. José Dias
agradeceu de cabeça. Minha mãe dava-lhe de quando em
quando alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe
a cópia de papéis de autos.
CAPÍTULO 6
TIO COSME
Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ela enviuvou.
Já então era viúvo, como prima Justina; era a casa dos
três viúvos. A fortuna troca muita vez as mãos à natureza.
Formado para as serenas funções do capitalismo, tio
Cosme não enriquecia no foro: ia comendo.
Tinha o escritório na antiga Rua das Violas, perto do
júri, que era no extinto Aljube. Trabalhava no crime.
José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme.
Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos.cumprimentos
no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por
mais modesto que quisesse ser. sorria de persuasão.
Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos
dorminhocos.
Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar
todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que
o levava ao escritório. O preto que a tinha ido buscar
à cocheira segurava o freio, enquanto ele erguia o pé
e pousava no estribo - a isto seguia-se um minuto de
descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro,
o corpo ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso,
igual efeito.
Enfim, após alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava
todas as forças físicas e morais, dava o último surto
da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente
a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava
de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e
a besta partia a trote.
Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Posto
que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar
dos costumes do tempo, eu não sabia montar, e tinha
medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me
em cima da besta.
Quando me vi no alto (tinha nove anos), sozinho e desamparado,
o chão lá embaixo, entrei a gritar desesperadamente:
"Mamãe! mamãe!" Ela acudiu pálida e trêmula, cuidou
que me estivessem matando, pegou-me, afagou-me, enquanto
o irmão perguntava: - Mana Glória, pois um tamanhão
destes tem medo de besta mansa?
- Não está acostumado.
- Deve acostumar-se. Padre que seja, se for vigário
na roça, é preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo,
ainda não sendo padre, se quiser florear como os outros
rapazes, e não souber, há de queixar-se de você, mana
Glória.
- Pois que se queixe; tenho medo.
- Medo! Ora, medo! A verdade é que eu só vim a aprender
equitação mais tarde, menos por gosto que por vergonha
de dizer que não sabia montar. "Agora é que ele vai
namorar deveras", disseram quando eu comecei as lições.
Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era velho costume
e necessidade. Já não dava para namoros.
Contam que, em rapaz, foi aceito de muitas damas, além
de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais
do ardor político e sexual, e a gordura acabou com o
resto de idéias públicas e específicas. Agora só cumpria
as obrigações do ofício e sem amor. Nas horas de lazer
vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilhérias.
|
|
 |
 |
|
|
|