 |
|
|

CAPÍTULO 49
UMA VELA AOS SÁBADOS
Eis aqui como, após tantas canseiras, tocávamos
o porto a que nos
devíamos ter abrigado logo. Não nos censures,
piloto de má morte, não se
navegam corações como os outros mares
deste mundo. Estávamos
contentes, entramos a falar do futuro. Eu prometia à
minha esposa uma vida sossegada e bela, na roça
ou fora da cidade. Viríamos aqui uma vez por
ano. Se fosse em arrabalde, seria longe, onde, ninguém
nos fosse
aborrecer.
A casa, na minha opinião, não devia ser
grande nem pequena,
um meio-termo; plantei-lhe flores, escolhi móveis,
uma sege e um
oratório. Sim, havíamos de ter um oratório
bonito, alto, de jacarandá,
com a imagem de Nossa Senhora da Conceição.
Demorei-me mais nisto que no resto, em parte porque
éramos religiosos, em parte para compensar a
batina que eu ia deitar às urtigas- mas ainda
restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente
de captar a proteção do céu. Havíamos
de acender uma vela aos sábados...
CAPÍTULO 50.
UM MEIO-TERMO
Meses depois fui para o seminário de S. José.
Se eu pudesse contar as
lágrimas que chorei na véspera e na manhã,
somaria mais que todas as
vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma
exageração; mas é bom ser
enfático, uma ou outra vez, para compensar este
escrúpulo de exatidão
que me aflige.
Entretanto, se eu me ativer só à lembrança
da sensação, não fico longe da
verdade; aos quinze anos, tudo é infinito. Realmente,
por mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha
mãe também padeceu, mas sofria com alma
e coração; demais, o Padre Cabral achara
um meio-termo, experimentar-me a vocação;
se no fim de dois anos, eu não revelasse vocação
eclesiástica, seguiria outra carreira.
- As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer.
Suponha que
Nosso Senhor nega disposição a seu filho,
e que o costume do seminário não lhe dá
o gosto que me concedeu a mim, é que a vontade
divina é outra. A senhora não podia pôr
em seu filho, antes de nascido, uma vocação
que
Nosso Senhor lhe recusou...
Era uma concessão do padre. Dava a minha mãe
um perdão antecipado,
fazendo vir do credor a relevação da dívida.
Os olhos dela brilharam,
mas a boca disse que não. José Dias, não
tendo alcançado ir comigo para
a Europa, agarrou-se ao mais próximo, e apoiou
o "alvitre do senhor
protonotário"; só lhe parecia que
um ano era bastante.
- Estou certo, disse ele, piscando-me o olho, que dentro
de um ano a
vocação eclesiástica do nosso Bentinho
se manifesta clara e decisiva. Há
de ser um padre de mão-cheia. Também,
se não vier em um ano...
E a mim, mais tarde, em particular:
,
- Vá por um ano; um ano passa depressa. Se não
sentir gosto nenhum, é
que Deus não quer, como diz o padre, e nesse
caso, meu amiguinho, o
melhor remédio é a Europa.
Capitu deu-me igual conselho, quando minha mãe
lhe anunciou a minha ida
definitiva para o seminário:
-
Minha filha, você vai perder o seu companheiro
de criança...
Fez-lhe tão bem este tratamento de filha (era
a primeira vez que minha
mãe lhe dava), que nem teve tempo de ficar triste;
beijou-lhe a mão, e
disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Em
particular animou-me a
suportar tudo com paciência; no fim de um ano
as coisas estariam
mudadas, e um ano andava depressa. Não foi ainda
a nossa despedida; esta fez-se na véspera, por
um modo que pede Capítulo especial.
O que.unicamente digo aqui é que, ao passo que
nos prendíamos um ao outro, ela ia prendendo
minha mãe, fez-se mais assídua e terna,
vivia ao pé dela, com os olhos nela. Minha mãe
era de natural simpático, e igualmente
sensível; tanto se doía como se aprazia
de qualquer coisa. Entrou a
achar em Capitu uma porção de graças
novas, de dotes finos e raros;
deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias.
Não consentiu em fotografar-se, como a pequena
lhe pedia, para lhe dar um retrato; mas tinha uma miniatura,
feita aos vinte e cinco anos, e, depois de algumas hesitações,
resolveu dar-lha. Os olhos de Capitu, quando recebeu
o mimo, não se descrevem, não eram oblíquos,
nem de ressaca, eram direitos, claros, lúcidos.
Beijou o retrato com paixão, minha mãe
fez-lhe a mesma coisa a ela. Tudo isto me lembra a nossa
despedida.
CAPÍTULO 51
ENTRE LUZ E FUSCO
Entre luz e fusco, tudo há de ser breve como
esse instante. Nem durou
muito a nossa despedida, foi o mais que pôde,
em casa dela, na sala de
visitas, antes do acender das velas; aí é
que nos despedimos de uma vez.
Juramos novamente que havíamos de casar um com
outro, e não foi só o
aperto de mão que selou o contrato, como no quintal,
foi a conjunção das
nossas bocas amorosas...
Talvez risque isto na impressão, se até
lá não pensar de outra maneira; se pensar.
fica. E desde já fica, porque, em verdade, é
a nossa defesa. O que o mandamento divino quer é
que não juremos em vão pelo santo nome
de Deus. Eu não ia mentir ao seminário,
uma vez que levava um contrato feito no próprio
cartório do céu.
Quanto ao selo, Deus, como fez as mãos limpas,
assim fez os lábios limpos, e a malícia
está antes na tua cabeça perversa que
na daquele casal de adolescentes... Oh! minha doce companheira
da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei
na aula de S. José, a buscar de aparência
a investidura sacerdotal, e antes dela a vocação.
Mas a vocação eras tu, a investidura eras
tu. |
|
 |
 |
|