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CAPÍTULO 40
UMA ÉGUA
Ficando só, refleti algum tempo, e tive uma fantasia.
Já conheceis as
minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos
a desta
casa de Engenho Novo, reproduzindo a de Mata-cavalos...
A imaginação foi.a companheira de toda
a minha existência, viva, rápida, inquieta,
alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais
delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo.
Creio haver lido em Tácito que as éguas
iberas concebiam pelo vento, se não foi nele,
foi noutro autor antigo, que entendeu guardar essa crendice
nos seus livros.
Neste particular, a minha imaginação era
uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava
um potro, que saía logo cavalo de Alexandre;
mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias
dos meus quinze anos. Digamos o caso
simplesmente. A fantasia daquela hora foi confessar
a minha mãe os meus
amores para lhe dizer que não tinha vocação
eclesiástica.
A conversa sobre vocação tornava-me agora
toda inteira. E, ao passo que me assustava, abria-me
uma porta de saída. "Sim, é isto,
pensei; vou dizer
a mamãe que não tenho vocação,
e confesso o nosso namoro; se ela
duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia. o penteado
e o resto..."
CAPÍTULO 41
A AUDIÊNCIA SECRETA
O resto fez-me ficar mais algum tempo, no corredor,
pensando. Vi entrar
o Doutor João da Costa, e preparou-se logo o
voltarete do costume. Minha
mãe saiu da sala, e, dando comigo, perguntou
se acompanhara Capitu.
- Não, senhora, ela foi só.
E quase investindo para ela:
- Mamãe, eu queria dizer-lhe uma coisa.
- Que é?
Toda assustada, quis saber o que é que me doía,
se a cabeça, se o peito,
se o estômago, e apalpava-me a testa para ver
se tinha febre.
- Não tenho nada não, senhora.
- Mas então que é?
- É uma coisa, mamãe... Mas, escute, olhe,
é melhor depois do chá;
logo... Não é nada mau; mamãe assusta-se
por tudo; não é coisa de cuidado.
- Não é moléstia?
- Não, senhora.
- É, isso é volta de constipação.
Disfarças para não tomar suadouro, mas
tu estás constipado; conhece-se pela voz.
Tentei rir, para mostrar que não tinha nada.
Nem por isso permitiu adiar
a confidência, pegou em mim, levou-me ao quarto
dela, acenda vela, e
ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu perguntei-lhe,
para.principiar, quando é que ia para o seminário.
- Agora só para o ano, depois das férias.
- Vou... para ficar?
- Como ficar?
- Não volto para casa?
- Voltas aos sábados e pelas férias; é
melhor. Quando te ordenares
padre, vens morar comigo.
Enxuguei os olhos e o nariz. Ela afagou-me, depois quis
repreender-me,
mas creio que a voz lhe tremia, e pareceu-me que tinha
os olhos úmidos.
Disse-lhe que também sentia a nossa separação.
Negou que fosse
separação; era só alguma ausência,
por causa dos estudos; só os
primeiros dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos
companheiros e aos mestres, e acabaria gostando de viver
com eles.
- Eu só gosto de mamãe.
Não houve cálculo nesta palavra, mas estimei
dizê-la, por fazer crer que
ela era a minha única afeição;
desviava as suspeitas de cima de Capitu.
Quantas intenções viciosas há assim
que embarcam, a meio caminho, numa frase inocente e
pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é
muita vez tão involuntária como a transpiração.
Por outro lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar
as suspeitas de cima de Capitu, quando havia chamado
minha mãe justamente para confirmá-las;
mas as contradições são deste mundo.
A verdade é que minha mãe era cândida
como a primeira aurora, anterior ao primeiro pecado;
nem por simples intuição era capaz de
deduzir uma coisa de outra, isto é, não
concluiria da minha repentina oposição
que eu andasse em segredinhos com Capitu, como lhe dissera
José Dias.
Calou-se durante alguns instantes; depois replicou-me
sem imposição nem autoridade, o que me
veio animando à resistência. Daí
o falar-lhe na vocação que se discutira
naquela tarde, e que eu confessei não sentir
em mim.
- Mas tu gostavas tanto de ser padre, disse ela; não
te lembras que até
pedias para ir ver sair os seminaristas de São
José, com as suas
batinas? Em casa, quando José Dias te chamava
Reverendíssimo, tu rias
com tanto gosto! Como é que agora?... Não
creio, não, Bentinho. E
depois... Vocação? Mas a vocação
vem com o costume, continuou repetindo as reflexões
que ouvira ao meu professor de latim.
Como eu buscasse contestá-la, repreendeu-me sem
aspereza, mas com
alguma força, e eu tornei ao filho submisso que
era. Depois, ainda falou
gravemente e longamente sobre a promessa que fizera;
não me disse as.circunstâncias nem a ocasião,
nem os motivos dela, coisas que só vim a saber
mais tarde. Afirmou o principal, isto é, que
a havia de cumprir,
em pagamento a Deus.
- Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua existência,
não lhe hei de
mentir nem faltar, Bentinho; são coisas que não
se fazem sem pecado, e
Deus que é grande e poderoso, não me deixaria
assim, não, Bentinho; eu
sei que seria castigada e bem castigada. Ser padre é
bom e santo; você
conhece muitos, como o Padre Cabral, que vive tão
feliz com a irmã; um
tio meu também foi padre, e escapou de ser bispo,
dizem... Deixa de
manha, Bentinho.
Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos
que ela emendou
logo a palavra; manha, não, não podia
ser manha, sabia muito bem que eu
era amigo dela, e não seria capaz de fingir um
sentimento que não
tivesse.
Moleza é o que queria dizer, que me deixas de
moleza, que me
fizesse homem e obedecesse ao que cumpria, em benefício
dela e para bem da minha alma. Todas essas coisas e
outras foram ditas um pouco
atropeladamente, e a voz não lhe saía
clara, mas velada e esganada. Vi
que a emoção dela era outra vez grande,
mas não recuava dos seus
propósitos, e aventurei-me a perguntar-lhe:
- E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse
da promessa?
- Não, não peço. Estás tonto,
Bentinho? E como havia de saber que Deus
me dispensava?
- Talvez em sonho; eu sonho às vezes com anjos
e santos.
- Também eu, meu filho; mas é inútil...
Vamos, é tarde; vamos para a
sala. Está entendido: no primeiro ou no segundo
mês do ano que vem, irás
para o seminário. O que eu quero é que
saibas bem os livros que estás
estudando; é bonito, não só para
ti, como para o Padre Cabral. No
seminário há interesse em conhecer-te,
porque o Padre Cabral fala de ti
com entusiasmo.
Caminhou para a porta, saímos ambos. Antes de
sair, voltou-se para mim,
e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que não
seria padre. Este era
já o seu desejo íntimo, à proporção
que se aproximava o tempo. Quisera
um modo de pagar a dívida contraída, outra
moeda, que valesse tanto ou
mais, e não achava nenhuma.
CAPÍTULO 42
CAPITU REFLETINDO.
No dia seguinte fui à casa vizinha, logo que
pude. Capitu despedia-se de
três amigas que tinham ido visitá-la, Paula
e Sancha, companheiras de
colégio, aquela de quinze, esta de dezessete
anos" primeira filha de um
médico, a segunda de um comerciante de objetos
americanos.
Estava abatida, trazia um lenço atado na cabeça;
a mãe contou-me que fora excesso de leitura na
véspera, antes e depois do chá, na sala
e na cama, até muito depois da meia-noite, e
com lamparina...
- Se eu acendesse vela, mamãe zangava-se. Já
estou boa.
E como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe
timidamente que era melhor
atá-lo, mas Capitu respondeu que não era
preciso, estava boa.
Ficamos sós na sala; Capitu confirmou a narração
da mãe, acrescentando
que passara mal por causa do que ouvira em minha casa.
Também eu lhe
contei o que se dera comigo, a entrevista com minha
mãe, as minhas
súplicas, as lágrimas dela, e por fim
as últimas respostas decisivas:
dentro de dois ou três meses iria para o seminário.
Que faríamos agora?
Capitu ouvia-me com atenção sôfrega,
depois sombria; quando acabei,
respirava a custo, como prestes a estalar de cólera,
mas conteve-se.
Há tanto tempo que isto sucedeu que não
posso dizer com segurança se
chorou deveras, ou se somente enxugou os olhos; cuido
que os enxugou
somente. Vendo-lhe o gesto peguei-lhe na mão
para animá-la, mas também
eu precisava ser animado. Caímos no canapé,
e ficamos a olhar para o ar.
Minto- ela olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo
que a vi assim...
Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma,
enquanto que eu
fitava deveras o chão, o roído das fendas,
duas moscas andando e um pé
de cadeira lascada. Era pouco, mas distraía-me
da aflição. Quando tornei
a olhar para Capitu, vi que não se mexia, e fiquei
com tal medo que a
sacudi brandamente.
Capitu tornou cá para fora e pediu-me que outra
vez lhe contasse o que se passara com minha mãe.
Satisfi-la, atenuando o texto desta vez, para não
amofiná-la. Não me chames dissimulado,
chama-me compassivo; é certo que receava perder
Capitu, se lhe morressem as esperanças todas,
mas doía-me vê-la padecer.
Agora, a verdade última, a verdade das verdades,
é que já me arrependia de haver falado
a minha mãe, antes de qualquer trabalho efetivo
por parte de José Dias; examinando bem, não
quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo,
ainda que demorado. Capitu refletia, refletia, refletia... |
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