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CAPÍTULO
34
SOU HOMEM!
Ouvimos passos no corredor; era Dona Fortunata. Capitu
compôs-se
depressa, tão depressa que, quando a mãe
apontou à porta, ela abanava a
cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contração
de acanhamento, um riso espontâneo e claro, que
ela explicou por estas palavras alegres:
- Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me
penteou; pediu-me para
acabar o penteado, e fez isto. Veja que tranças!
- Que tem? acudiu a mãe, transbordando de benevolência
. Está muito bem, ninguém dirá
que é de pessoa que não sabe pentear.
- O que, mamãe? Isto? redargüiu Capitu,
desfazendo as tranças. Ora, mamãe!
E com um enfadamento gracioso e voluntário que
às vezes tinha, pegou do.pente e alisou os cabelos
para renovar o penteado. Dona Fortunata
chamou-lhe tonta, e disse-me que não fizesse
caso, não era nada,
maluquices da filha.
Olhava com ternura para mim e para ela. Depois, parece-me
que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido à
parede, achou talvez que houvera entre nós algo
mais que penteado, e sorriu por dissimulação...
Como eu quisesse falar também para disfarçar
o meu estado, chamei
algumas palavras cá de dentro, e elas acudiram
de pronto, mas de
atropelo, e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma.
O beijo de Capitu fechava-me os lábios. Uma exclamação,
um simples artigo, por mais que investissem com força,
não logravam romper de dentro. E todas as
palavras recolheram-se ao coração, murmurando:
"Eis aqui um que não fará
grande carreira no mundo, por menos que as emoções
o dominem..."
Assim, apanhados pela mãe, éramos dois
e contrários, ela encobrindo com
a palavra o que eu publicava pelo silêncio. Dona
Fortunata tirou-me
daquela hesitação, dizendo que minha mãe
me mandara chamar para a lição de latim;
o Padre Cabral estava à minha espera. Era uma
saída;
despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que
a mãe censurava as
maneira da filha, mas a filha não dizia nada.
Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não
passei à sala da lição;
sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto.
Tinha estremeções,
tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência
de mim e das coisas
que me rodeavam, para viver não sei onde nem
como.
E tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros,
o chão, ouvia algum som de fora, vago, próximo
ou remoto, e logo perdia tudo para sentir somente os
beiços de Capitu Sentia-os estirados, embaixo
dos meus, igualmente esticados para os dela, e unindo-se
uns aos outros. De repente, sem querer, sem pensar,
saiu-me da boca esta palavra de orgulho:
- Sou homem!
Supus que me tivessem ouvido, porque a palavra saiu
em voz alta, e corri
à porta da alcova. Não havia ninguém
fora. Voltei para dentro, e,
baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o
eco aos meus
ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo
não o teve maior,
descobrindo a América, e perdoai a banalidade
em favo; do cabimento- com
efeito, há em cada adolescente um mundo encoberto,
um almirante e um sol de outubro. Fiz outros achados
mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto.
A denúncia de José Dias alvoroçara-me,
a lição do velho coqueiro também,
a vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal
deu-me grande
abalo, como vistes; nada disso valeu a sensação
do beijo. Podiam ser.mentira ou ilusão. Sendo
verdade, eram os ossos da verdade, não eram a
carne e o sangue dela. As próprias mãos
tocadas, apertadas, como que
fundidas, não podiam dizer tudo.
- Sou homem!
Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminário,
mas como se
pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo
extinto; todos
os meus nervos me disseram que homens não são
padres. O sangue era da mesma opinião. Outra
vez senti os beiços de Capitu. Talvez abuso um
pouco das reminiscências osculares, mas a saudade
é isto mesmo; é o
passar e repassar das memórias antigas.
Ora, de todas as daquele tempo creio que a mais doce
é esta, a mais nova, a mais compreensiva, a que
inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas
e numerosas, doces também, de vária espécie,
muitas intelectuais, igualmente intensas. Grande homem
que fosse, a recordação era menor que
esta.
CAPÍTULO 35
O PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO
Enfim, peguei dos livros e corri à lição.
Não corri precisamente; a meio
caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde,
e podiam ler-me no
semblante alguma coisa. Tive idéia de mentir,
alegar uma vertigem que me
houvesse deitado no chão, mas o susto que causaria
a minha mãe fez-me
rejeitá-la.
Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos;
tinha, porém, outra promessa em aberto e outro
favor pendente... Não, vamos ver; fui andando,
ouvi vozes alegres, conversavam ruidosamente. Quando
entrei na sala, ninguém ralhou comigo.
O Padre Cabral recebera na véspera um recado
do internúncio; foi ter com
ele, e soube que, por decreto pontifício, acabava
de ser nomeado
protonotário apostólico. Esta distinção
do papa dera-lhe grande
contentamento e a todos os nossos.
Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com
admiração- era a primeira vez que ele
soavaaos nossos ouvidos, acostumados a cônegos,
monsenhores, bispos, núncios, e internúncios;
mas que era protonotário apostólico? O
Padre Cabral explicou que não era propriamente
o cargo da cúria, mas as honras dele.
Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete,
e repetia:
- Protonotário apostólico!
E voltando-se para mim:
- Prepara-te, Bentinho, tu podes vir a ser protonotário
apostólico.Cabral ouvia com gosto a repetição
do título. Estava em pé, dava alguns
passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O
tamanho do título
como que lhe dobrava a magnificência, posto que,
para ligá-lo ao nome,
era demasiado comprido- esta segunda reflexão
foi tio Cosme que a fez.
Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo
todo, bastava que lhe
chamassem o protonotário Cabral. Subentendia-se
apostólico.
- Protonotário Cabral.
- Sim, tem razão; protonotário Cabral.
- Mas, senhor protonotário, - acudiu prima Justina
para se ir
acostumando ao uso do título,- isto o obriga
a ir a Roma?
- Não, Dona Justina.
- Não, são só as honras, observou
minha mãe.
- Agora, não impede,- disse Cabral, que continuava
a refletir, - não
impede que nos casos de maior formalidade, atos públicos,
cartas de
cerimônia, etc.; se empregue o título inteiro:
protonotário apostólico.
No uso comum, basta protonotário.
- Justamente, assentiram todos.
José Dias, que entrou pouco depois de mim, aplaudia
a distinção, e
recordou, a propósito, os primeiros atos políticos
de Pio IX, grandes
esperanças da Itália; mas ninguém
pegou do assunto; o principal da hora
e do lugar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando
a mim do
receio, entendi que devia cumprimentá-lo também,
e este aplauso não lhe
foi menos ao coração que os outros.
Bateu-me na bochecha paternalmente, e acabou dando-me
férias. Era muita felicidade para uma só
hora. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto
disse isto mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga,
chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:
- Não tem que festejar a vadiação;
o latim sempre lhe há de ser preciso,
ainda que não venha a ser padre.
Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a
semente lançada à
terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos
da família.
Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de
tristeza, mas respondeu
logo:
- Há de ser padre, e padre bonito.
- Não esqueça, mana Glória, e protonotário
também. Protonotário
apostólico.
- O protonotário Santiago, acentuou Cabral.
Se a intenção do meu mestre de latim era
ir acostumando ao uso do título
com o nome, não sei bem; o que sei é que
quando ouvi o meu nome ligado a.tal título, deu-me
vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi
antes uma idéia, uma idéia sem língua,
que se deixou ficar quieta e
muda, tal como daí a pouco outras idéias...
Aliás essas pedem um Capítulo especial.
Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum
tempo da minha ordenação eclesiástica,
ainda que sem grande interesse. Ele buscava um assunto
alheio para se mostrar esquecido da própria glória,
mas era esta que o deslumbrava na ocasião.
Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas.
Alguns defeitos tinha; o mais excelso deles era ser
guloso, não propriamente glutão; comia
pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha,
se era simples, era menos pobre que a dele.
Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse
jantar, a fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos
com que aceitou seriam de protonotário, mas não
eram apostólicos. E para agradar a minha mãe
novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico,
e queria saber se ia para o seminário agora,
no ano próximo, e oferecia-se a falar ao "senhor
bispo", tudo marchetado do "protonotário
Santiago."
CAPÍTULO 36
IDÉIA SEM PERNAS E IDÉIA SEM BRAÇOS
Deixe-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez
a pensar na aventura
da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim,
e até com latim. Ao
cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo à
casa vizinha, agarrar
Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las
e concluí-las daquela
maneira particular, boca sobre boca. E isto vamos é
isto... Idéia só!
idéia sem pernas! As outras pernas não
queriam correr nem andar. Muito
depois é que saíram vagarosamente e levaram-me
à casa de Capitu.
Quando ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala,
sentada na marquesa, almofada no regaço, cosendo
em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e
a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua
e
dissimulada.
As mãos pararam, depois de encravada a agulha
no pano. Eu, do lado oposto da mesa, não sabia
que fizesse e outra vez me fugiram as
palavras que trazia Assim gastamos alguns minutos compridos,
até que ela
deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me.
Fui ter com ela, e perguntei se a mãe havia dito
alguma coisa; respondeu-me que não A boca com
que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um
gesto de aproximação. Certo é que
Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la
e beijá-la... Idéia só! idéia
sem.braços! Os meus ficaram caídos e mortos.
Não conhecia nada da Escritura.
Se conhecesse, é provável que o espírito
de Satanás me fizesse dar à
língua mística do Cântico um sentido
direto e natural. Então obedeceria
ao primeiro versículo: "Aplique ele os lábios,
dando-me o ósculo da sua
boca".
E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes,
bastaria cumprir o versículo seis do capítulo
2: "A sua mão esquerda se pôs já
debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita
me abraçará depois". Vedes aí
a cronologia dos gestos. Era só executá-la;
mas ainda que eu conhecesse o texto, as atitudes de
Capitu eram agora tão retraídas, que não
sei se não continuaria parado. Foi ela, entretanto,
que me tirou daquela situação. |
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