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CAPÍTULO 31
AS CURIOSIDADES DE CAPITU
Capitu preferia tudo ao seminário. Em vez de
ficar abatida com a ameaça
da larga separação, se vingasse a idéia
da Europa, mostrou se
satisfeita. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:
- Não, Bentinho, deixemos o Imperador sossegado,
replicou; fiquemos por
ora com a promessa de José Dias. Quando é
que ele disse que falaria a
sua mãe?
- Não marcou dia; prometeu que ia ver; que falaria
logo que pudesse, e
que me pegasse com Deus.
Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do
agregado, as
alterações do gesto e até a pirueta,
que apenas lhe contara. Pedia o som
das palavras. Era minuciosa e atenta; a narração
e o diálogo, tudo
parecia remoer consigo. Também se pode dizer
que conferia, rotulava e
pregava na memória a minha exposição.
Esta imagem é porventura melhor que a outra,
mas a ótima delas é nenhuma. Capitu era
Capitu, isto é, uma criatura mui particular,
mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não
disse, aí fica. Se disse, fica também.
Há conceitos que se devem incutir na alma do
leitor, à força de repetição.
Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu
dão para um Capítulo.
Eram de vária espécie, explicáveis
e inexplicáveis, assim úteis como
inúteis, umas graves, outras frívolas;
gostava de saber tudo. No colégio
onde, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever
e contar, francês,
doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por
exemplo, a fazer renda-.por isso mesmo, quis que prima
Justina lhe ensinasse.
Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque
o padre, depois de lhe propor gracejando, acabou dizendo
que latim não era língua de meninas. Capitu
confessou-me um dia que esta razão acendeu nela
o desejo de o saber.
Em compensação, quis aprender inglês
com um velho professor amigo do pai e parceiro deste
ao solo, mas não foi adiante. Tio Cosme ensinou-lhe
gamão.
- Anda apanhar um capotinho, Capitu, dizia-lhe ele.
Capitu obedecia e jogava com facilidade, com atenção,
não sei se diga
com amor. Um dia fui achá-la desenhando a lápis
um retrato; dava os
últimos rasgos, e pediu-me que esperasse para
ver se estava parecido.
Era o de meu pai, copiado da tela que minha mãe
tinha na sala e que
ainda agora está comigo. Perfeição
não era; ao contrário, os olhos
saíram esbugalhados, e os cabelos eram pequenos
círculos uns sobre
outros. Mas, não tendo ela rudimento algum de
arte, e havendo feito
aquilo de memória em poucos minutos, achei que
era obra de muito
merecimento- descontai-me a idade e a simpatia.
Ainda assim, estou que aprenderia facilmente pintura,
como aprendeu música mais tarde. Já então
namorava o piano da nossa casa, velho traste inútil,
apenas de estimação. Lia os nossos romances,
folheava os nossos livros de gravuras, querendo saber
das ruínas, das pessoas, das campanhas, o nome,
a história, o lugar. José Dias dava-lhe
essas notícias com certo orgulho de erudito.
A erudição deste não avultava muito
mais que a sua homeopatia de Cantagalo.
Um dia, Capitu quis saber o que eram as figuras da sala
de visitas. O
agregado disse-lho sumariamente, demorando-se um pouco
mais em César, com exclamações
em latim:
- César! Júlio César! Grande homem!
Tu quoque, Brute?
Capitu não achava bonito o perfil de César,
mas as ações citadas por
José Dias davam-lhe gestos de admiração.
Ficou muito tempo com a cara
virada para ele. Um homem que podia tudo! que fazia
tudo! Um homem que
dava a uma senhora uma pérola do valor de seis
milhões de sestércio!
- E quanto valia cada sestércio?
José Dias, não tendo presente o valor
do sestércio, respondeu
entusiasmado:
- É o maior homem da história!
A pérola de César acendia os olhos de
Capitu. Foi nessa ocasião que ela
perguntou a minha mãe por que é que já
não usava as jóias do retrato;
referia-se ao que estava na sala, com o de meu pai,
tinha um grande
colar, um diadema e brincos..
- São jóias viúvas, como eu, Capitu.
- Quando é que botou estas?
- Foi pelas festas da Coroação.
- Oh! conte-me as festas da Coroação!
Sabia já o que os pais lhe haviam dito, mas naturalmente
tinha para si
que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou
nas ruas.
Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial
e dos salões dos bailes.
Nascera muito depois daquelas festas célebres.
Ouvindo falar várias
vezes da Maioridade, teimou um dia em saber o que fora
este
acontecimento; disseram-lho, e achou que o Imperador
fizera muito bem em
querer subir ao trono aos quinze anos.
Tudo era matéria às curiosidades de Capitu,
mobílias antigas, alfaias velhas, costumes, notícias
de Itaguaí, a infância e a mocidade de
minha mãe, um dito daqui, uma lembrança
dali, um adágio dacolá...
CAPÍTULO 32
OLHOS DE RESSACA
Tudo era matéria às curiosidades de Capitu.
Caso houve, porém, no qual
não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas
as coisas, como eu. É o
que contarei no outro Capítulo. Neste direi somente
que, passados alguns
dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga;
eram dez horas da
manhã. Dona Fortunata, que estava no quintal
nem esperou que eu lhe
perguntasse pela filha.
- Está na sala penteando o cabelo, disse-me;
vá devagarzinho para lhe
pregar um susto.
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me.
Este pode ser que não
fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza),
comprado a um
mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão,
pendente da parede,
entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o
pé. Um ou outro, a verdade
é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos,
toda ela voou pelos ares,
e só lhe ouvi esta pergunta:
- Há alguma coisa?
- Não há nada, respondi; vim ver você
antes que o Padre Cabral chegue
para a lição. Como passou a noite?
- Eu bem. José Dias ainda não falou?
- Parece que não.
- Mas então quando fala?.- Disse-me que hoje
ou amanhã pretende tocar no assunto; não
vai logo de pancada, falará assim por alto e
por longe, um toque. Depois, entrará em matéria.
Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução
feita...
- Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se não
fosse preciso alguém para
vencer já, e de todo, não se lhe falaria.
Eu já nem sei se José Dias
poderá influir tanto; acho que fará tudo,
se sentir que você realmente
não quer ser padre, mas poderá alcançar?...
Ele é atendido; se, porém...
É um inferno isto! Você teime com ele,
Bentinho.
- Teimo. Hoje mesmo ele há de falar.
- Você jura?
- Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José
Dias dera deles, "olhos de cigana
oblíqua e dissimulada." Eu não sabia
o que era oblíqua, mas dissimulada
sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se
fitar e
examinar.
Só me perguntava o que era, se nunca os vira,
eu nada achei
extraordinário; a cor e a doçura eram
minhas conhecidas. A demora da
contemplação creio que lhe deu outra idéia
do meu intento; imaginou que
era um pretexto para mirá-los mais de perto,
com os meus olhos longos,
constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem
a ficar
crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão
que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação
exata e poética para dizer o que foram aqueles
olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de
dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles
foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de
ressaca.
É o que me dá idéia daquela feição
nova. Traziam não sei que fluido misterioso e
enérgico, uma força que arrastava para
dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias
de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me
às outras partes vizinhas, às orelhas,
aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros,
mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que
saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando
envolver-me, puxar-me e tragar-me.
Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os
relógios do céu terão marcado esse
tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas;
nem por não acabar nunca deixa de querer saber
a duração das felicidades e dos suplícios.
Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu
conhecer a soma dos
tormentos que já terão padecido no inferno
os seus inimigos; assim
também a quantidade das delícias que terão
gozado no céu os seus
desafetos aumentará as dores aos condenados do
inferno.
Este outro suplício escapou ao divino Dante;
mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou
para contar que, ao cabo de um tempo não marcado,
agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas
então com as mãos, e disse-lhe,- para
dizer alguma coisa, - que era capaz de os pentear, se
quisesse.
- Você?
- Eu mesmo.
- Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
- Se embaraçar, você desembaraça
depois.
- Vamos ver.
CAPÍTULO 33
O PENTEADO
E Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelho.
Peguei-lhe dos
cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los
com o pente, desde a testa
até as últimas pontas, que lhe desciam
à cintura. Em pé não dava jeito:
não esquecestes que ela era um nadinha mais alta
que eu, mas ainda que
fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
- Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro",
disse-me rindo. Continuei
a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os
em duas porções
iguais, para compor as duas tranças. Não
as fiz logo, nem assim
depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício,
mas devagar,
devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos,
que eram parte
dela.
O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo,
outras de
propósito para desfazer o feito e refazê-lo.
Os dedos roçavam na nuca da
pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e
a sensação era um deleite.
Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu
os quisesse
intermináveis.
Não pedi ao céu que eles fossem tão
longos como os da
Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade
que os velhos poetas me
apresentaram depois; mas, desejei penteá-los
por todos os séculos dos
séculos, tecer duas tranças que pudessem
envolver o infinito por um
número inominável de vezes.
Se isto vos parecer enfático, desgraçado
leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca
pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça
de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou mitológico.
Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca,
cheguei a escrever Tétis; risquei Tétis,
risquemos ninfa, digamos somente uma criatura amada,
palavra que envolve todas as potências cristãs
e pagãs.
Enfim acabei as duas tranças. Onde estava a fita
para atar-lhes as.pontas Em cima da mesa, um triste
pedaço de fita enxovalhada. Juntei as
pontas das tranças, uni-as por um laço,
retoquei a obra, alargando aqui,
achatando ali, até que exclamei:
- Pronto!
- Estará bom?
- Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu?
Não vos esqueçais
que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou
a cabeça, a tal
ponto que me foi preciso acudir com as mãos e
ampará-la; o espaldar da
cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela rosto
a rosto, mas
trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro.
Pedi-lhe que
levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar
o pescoço. Cheguei a
dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão
a moveu.
- Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça,
e ficamos assim a olhar um para o
outro, até que ela abrochou os lábios,
eu desci os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu
ergueu-se, rápida, eu recuei até
à parede com uma espécie de vertigem,
sem fala, os olhos escuros.
Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus
no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda
que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado,
não achava gesto nem ímpeto que me descolasse
da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas
e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos,
leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era
Des Grieux) não pensava ainda na diferença
dos sexos. |
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