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CAPÍTULO 28

NA RUA

José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves, como era à rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de
tudo, fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz
de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças, recitava monólogos em
verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu aluguéis de casa;
para si comprou um vigésimo de loteria.

Afinal, o homem teso rendeu o flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e entrei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no ônibus.

CAPÍTULO 29

O IMPERADOR

Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros
desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse.

Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir
ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. "Sua Majestade pedindo, mamãe cede",
pensei comigo.

Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que
sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E
logo me achei em casa, à esperar até que ouvi os batedores e o piquete
de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda a gente chegava as
janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa
porta, o Imperador apeava-se e entrava.

Grande alvoroço na vizinhança:."O Imperador entrou em casa de Dona Glória! Que será? Que não será?" A nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, - não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,- pedia a minha mãe que me não fizesse padre, - e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.

- A medicina, por que lhe não manda ensinar medicina?

- Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade..

- Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui
bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos
médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias; combatê-las, vencê-las...

A senhora mesma há de ter visto milagres Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira: mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?

- Mamãe querendo.

- Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de
todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de
assombro: o Imperador entrava no coche. inclinava-se e fazia um gesto de
adeus, dizendo ainda: "A medicina, a nossa Escola." E o coche partia
entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que
a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais
que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos,
até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus
companheiros.

CAPÍTULO 30

O SANTÍSSlMO

Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de
Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito
tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu..

- Parece que vai sair o Santíssimo, disse alguém no ônibus.

Ouço um sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, senhor recebedor!

O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do
cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas
rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos
também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis
àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia.

Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a
princípio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade
do serviço que por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido, era o meu vizinho Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Deu conosco, veio cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe
respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre que lavava as mãos.

Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles;
eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava do sacristão uma das varas do
pálio. José Dias pediu uma para si.

- Há só uma disponível, disse o sacristão.

- Pois essa, disse José Dias.

- Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Pádua.

- Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá
estava. Leve uma tocha.

Pádua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo
isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a
rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que
cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias.

Assim fez, mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, "jovem seminarista", a quem esta distinção cabia mais diretamente. Pádua ficou pálido, como as tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que me conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso se eu era deveras seminarista.

- Ainda não, mais vai sê-lo, respondeu José Dias piscando o olho
esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.

- Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.

Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava
acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos levando uma tocha,
mas que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento; para tocha qualquer
pessoa servia.

Foi ele mesmo que me contou e explicou isto, cheio de uma
glória pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na
igreja; era a segunda vez do pálio, tanto que cuidou logo de ir pedi-lo.
E nada! E tornava à tocha comum, outra vez a interinidade interrompida;
o administrador regressava ao antigo cargo... Quis ceder-lhe a vara; o
agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacristão que
nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a
marcha do pálio.

Opas enfiadas, tochas distribuídas e acesas, padre e cibório prontos, o
sacristão de hissope e campainha nas mãos, saiu o préstito à rua. Quando
me vi com uma das varas, passando pelos fiéis, que se ajoelhavam. fiquei
comovido. Pádua roía a tocha amargamente.

É uma metáfora, não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a
humilhação do meu vizinho. De resto, não pude mirá-lo por muito tempo,
nem ao agregado, que, paralelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de
ser ele próprio o Deus dos exércitos. Com pouco, senti-me me cansado; os
braços caíam-me, felizmente a casa era perto, na Rua do Senado.

A enferma era uma senhora viúva, tísica, tinha uma filha de quinze ou
dezesseis anos que estava chorando à porta do quarto. A moça não era
formosa, talvez nem tivesse graça, os cabelos caíam despenteados, e as
lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não obstante o total falava e
cativava o coração.

O vigário confessou a doente, deu-lhe a comunhão e os santos óleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma complicada da lembrança de minha mãe, doeu-me mais, e, quando enfim pensei em Capitu, senti um ímpeto de soluçar também, enfiei pelo corredor, e ouvi alguém dizer-me:

- Não chore assim!

A imagem de Capitu ia comigo, e a minha imaginação, assim como lhe
atribuíra lágrimas, há pouco, assim lhe encheu a boca de riso agora;
vi-a escrever no muro, falar-me, andar à volta, com os braços no ar;
ouvi distintamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a voz
era dela.

As tochas acesas, tão lúgubres na ocasião tinham-me ares de um
lustre nupcial... Que era lustre nupcial Não sei; era alguma coisa
contrária à morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta nova sensação
me dominou tanto que José Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz
baixa:

- Não ria assim!.Fiquei sério depressa. Era o momento da saída. Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distancia, e agora voltávamos para a igreja, o que fazia a distancia menor, - o peso da vara era mui pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua, os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem, tudo me enchia a alma de lepidez nova.

Pádua, ao contrário, ia mais humilhado. Apesar de substituído por mim,
não acabava de se consolar da tocha, da miserável tocha. E contudo havia
outros que também traziam tocha, e apenas mostravam a compostura do ato; não iam garridos, mas também não iam tristes. Via-se que caminhavam com honra.
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