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CAPÍTULO 19

SEM FALTA

Quando voltei casa era noite. Vim depressa, não tanto, porém, que não
pensasse nos termos em que falaria ao agregado. Formulei o pedido de
cabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom delas, entre seco e
benévolo.

Na chácara, antes de entrar em casa, repeti-as comigo, depois
em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: "Preciso falar-lhe, sem falta. Amanhã; escolha o lugar e diga-me".

Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavras sem
falta, como para sublinhá-las. Repeti-as ainda, e então achei-as secas
demais, quase ríspidas, e, francamente, impróprias de um criançola para
um homem maduro. Cuidei de escolher outras e parei.

Afinal disse comigo que as palavras podiam servir, tudo era dizê-las em
tom que não ofendesse. E a prova é que, repetindo-as novamente,
saíram-me quase súplices. Bastava não carregar tanto, nem adoçar muito,
um meio-termo.

"E Capitu tem razão, pensei, a casa é minha, ele é um
simples agregado... Jeitoso é, pode muito bem trabalhar por mim, e
desfazer o plano de mamãe."

CAPÍTULO 20

MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS

Levantei os olhos ao céu, que começava a embruscar-se, mas não foi para
vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu que eu erguia a minha
alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim:
"Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar
que eu não vá para o seminário".

A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não
cumpridas. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias,
se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Não choveu,
mas eu não rezei as orações.

Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores, mediante orações que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinqüenta.

Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade.divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a
preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela
vida! O céu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.
"Mil, mil", repeti comigo.

Realmente, a matéria do benefício era agora imensa, não menos que a
salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. Mil, mil, mil. Era
preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro...

Homem grave, é possível que estas agitações de menino te enfadem, se é
que não as achas ridículas. Sublimes não eram. Cogitei muito no modo de
resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante
a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha
consciência moral sem déficit.

Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma, ir à Terra Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito.

Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam empenhar-me outra vez a alma...

CAPÍTULO 21

PRIMA JUSTINA

Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veio ao
patamar e perguntou-me onde estivera.

- Estive aqui ao pé, conversando com Dona Fortunata, e distraí-me. É
tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?

- Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.

A mentira espantou-me, não menos que a franqueza da notícia. Não é que
prima Justina fosse de biocos, dizia francamente a Pedro o mal que
pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar que
mentira é que me pareceu novidade.

Era quadragenária, magra e pálida, boca fina e olhos curiosos. Vivia conosco por favor de minha mãe, e também por interesse; minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si, e antes parenta que estranha.

Passeamos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampião. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe, e
dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de.padre. Respondi esquivo:

- Vida de padre é muito bonita.

- Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre,
explicou rindo.

- Eu gosto do que mamãe quiser.

- Prima Glória deseja muito que você se ordene, mas ainda que não
desejasse, há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça.

- Quem é?

- Ora, quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu também não.

- José Dias? concluí.

- Naturalmente.

Enruguei a testa interrogativamente, como se não soubesse nada Prima
Justina completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias
lembrara a minha mãe a promessa antiga.

- Prima Glória pode ser que, em passando os dias, vá esquecendo a
promessa; mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos
ouvidos, zás que darás, falando do seminário? E os discursos que ele
faz, os elogios da Igreja, e que a vida de padre é isto e aquilo, tudo
com aquelas palavras que só ele conhece, e aquela afetação... Note que é
só para fazer mal, porque ele é tão religioso como este lampião.

- Pois é verdade, ainda hoje. Você não se dê por achado... Hoje de tarde
falou como você não imagina...

- Mas falou à toa? perguntei, a ver se ela contava a denúncia do meu
namoro com a vizinha.

Não contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não podia dizer. Novamente me recomendou que não me desse por achado, e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias e não era pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apesar da casca de polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:

- Prima Justina, a senhora era capaz de uma coisa?

- De quê?

- Era capaz de... Suponha que eu gostasse de ser padre... a senhora
podia pedir a mamãe...

- Isso não, atalhou prontamente; prima Glória tem este negócio firme na
cabeça, e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução; só o
tempo. Você ainda era pequenino, já ela contava isto a todas as pessoas
da nossa amizade, ou só conhecidas.

Lá avivar-lhe a memória, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas também, pedir outra coisa, não peço, Se ela me consultasse bem; se ela me dissesse: "Prima Justina, você que acha?", a minha resposta era: "Prima Glória, eu penso que, se ele gosta de ser padre, pode ir; mas, se não gosta, o melhor é ficar". É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, não faço.
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