
CAPÍTULO 145
 |
 |
O REGRESSO
Ora, foi já nesta casa que um dia. estando
a vestir-me para almoçar,
recebi um cartão com este nome:
EZEQUIEL A. DE SANTIAGO
- A pessoa está aí? perguntei ao criado.
- Sim senhor, ficou esperando.
Não fui logo, logo; fi-lo esperar uns dez ou
quinze minutos na sala. Só
depois é que me lembrou que cumpria ter certo
alvoroço e correr,
abraçá-lo, falar-lhe na mãe.
A mãe,- creio que ainda não disse que
estava morta e enterrada. Estava; lá repousa
na velha Suíça.
Acabei de vestir-me às pressas. Quando saí
do quarto, com ares de pai, um pai entre manso e crespo,
metade Dom Casmurro Ao entrar na sala, dei com um
rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado
na parede.
Vim cauteloso, e não fiz rumor Não obstante,
ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conhece-me
pelos retratos e correu para mim. Não me mexi;
era nem mas nem menos o meu antigo c jovem companheiro
do seminário de José, um pouco mais
baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores que
eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo.
Trajava à moderna naturalmente, e as maneiras
eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a
pessoa morta..Era o próprio, o exato, o verdadeiro
Escobar. Era o meu comborço; era o filho de
seu pai. Vestia de luto pela mãe; eu também
estava de preto. Sentamo-nos.
- Papai não faz diferença dos últimos
retratos, disse-me ele
A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado.
Expliquei-lhe
que realmente pouco diferia do que era, e comecei
um interrogatório para
ter menos que falar e dominar assim a minha emoção.
Mas isto mesmo dava animação à
cara dele, e o meu colega do seminário ia ressurgindo
cada vez mais do cemitério.
Ei-lo aqui diante de mim, com igual riso e maior respeito;
total, o mesmo obséquio e a mesma graça.
Ansiava por ver-me. A mãe falava muito em mim,
louvando-me extraordinariamente, como o homem mais
puro do mundo, o mais digno de ser querido.
- Morreu bonita, concluiu.
- Vamos almoçar.
Se pensas que o almoço foi amargo, enganas-te.
Teve seus minutos de
aborrecimento, é verdade; a princípio
doeu-me que Ezequiel não fosse
realmente meu filho, que me não completasse
e continuasse. Se o rapaz
tem saído à mãe, eu acabava crendo
tudo, tanto mais facilmente quando
que ele parecia haver-me deixado na véspera
evocava a meninice, cenas e
palavras, a ida para o colégio...
- Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio?
perguntou rindo.
- Pois não hei de lembrar-me?
- Era na Lapa; eu ia desesperado, e papai não
parava, dava-me cada
puxão, e eu com as perninhas... Sim, senhor,
aceito.
Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia, bebeu
um gole, e continuou
a comer. Escobar comia assim também, com a
cara metida no prato.
Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente
os de
arqueologia, que era a sua paixão.
Falava da antiguidade com amor, contava o Egito e
os seus milhares de séculos, sem se perder
nos algarismos; tinha a cabeça aritmética
do pai. Eu, posto que a idéia da paternidade
do outro me estivesse já familiar, não
gostava da ressurreição. Às vezes,
fechava os olhos para não ver gestos nem nada,
mas o diabrete falava e ria, e o defunto falava e
ria por ele.
Não havendo remédio senão ficar
com ele, fiz-me pai deveras. A idéia de
que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar,
que Capitu por
descuido levasse consigo, não me acudiu, nem
se acudisse, persistiria.
Ezequiel cria em mim como na mãe.
Se fosse vivo José Dias, acharia nele a minha
própria pessoa. Prima Justina quis vê-lo,
mas estando enferma, pediu-me que o levasse lá.
Conhecia aquela parenta. Creio que o desejo.de ver
Ezequiel era para o fim de verificar no moço
o debuxo que porventura houvesse achado no menino.
Seria um regalo último; atalhei-o a tempo.
- Está muito mal, disse eu a Ezequiel que queria
ir vê-la, qualquer
emoção pode trazer-lhe a morte. Iremos
vê-la, quando ficar melhor.
Não fomos; a morte levou-a dentro de poucos
dias. Ela descansa no Senhor
ou como quer que seja. Ezequiel viu-lhe a cara no
caixão e não a conheceu, nem podia,
tão outra a fizeram os anos e a morte. No caminho
para o cemitério, iam-lhe lembrando uma porção
de coisas, alguma rua, alguma torre, um trecho de
praia, e era todo alegria.
Assim acontecia sempre que voltava para casa, ao fim
do dia; contava-me as recordações que
ia recebendo das ruas e das casas. Admirava-se que
muitas destas fossem as mesmas que ele deixara, como
se as casas morressem meninas.
Ao cabo de seis meses, Ezequiel falou-me em uma viagem
à Grécia, ao
Egito, e à Palestina, viagem científica,
promessa feita a alguns amigos.
- De que sexo? perguntei rindo.
Sorria vexado, e respondeu-me que as mulheres eram
criaturas tão da moda
e do dia que nunca haviam de entender uma ruína
de trinta séculos. Eram
dois colegas da universidade. Prometi-lhe recursos,
e dei-lhe logo os
primeiros dinheiros precisos. Como disse que uma das
conseqüências dos
amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias
do filho; antes lhe
pagasse a lepra...
Quando esta idéia me atravessou o cérebro,
senti-me tão cruel e perverso que peguei no
rapaz e quis apertá-lo ao coração,
mas recuei; encarei-o depois, como se faz a um filho
de verdade; os olhos que ele me deitou foram ternos
e agradecidos.
CAPÍTULO 146
NÃO HOUVE LEPRA
Não houve lepra, mas há febres por todas
essas terras humanas, sejam
velhas ou novas. Onze meses depois, Ezequiel morreu
de uma febre
tifóide, e foi enterrado nas imediações
de Jerusalém, onde os dois
amigos da universidade lhe levantaram um túmulo
com esta inscrição,
tirada do profeta Ezequiel, em grego: "Tu eras
perfeito nos teus
caminhos."
Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho
da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro
que ele levava; pagaria o triplo para não tornar
a vê-lo.
Como quisesse verificar o texto, consultei a minha
Vulgata, achei que era exato, mas tinha ainda um complemento:
"Tu eras perfeito nos teus
caminhos, desde o dia da tua criação."
Parei e perguntei calado: "Quando
seria o dia da criação de Ezequiel?"
Ninguém me respondeu. Eis aí mais
um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo.
Apesar de tudo, jantei
bem e fui ao teatro.
CAPÍTULO 147
A EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA
Já sabes que a minha alma, por mais lacerada
que tenha sido, não ficou
aí para um canto como uma flor lívida
e solitária. Não lhe dei essa cor
ou descor. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem
amigas que me
consolassem da primeira. Caprichos de pouca dura,
é verdade.
Elas é que me deixavam como pessoas que assistem
a uma exposição retrospectiva, e, ou
se fartam de vê-la, ou a luz da sala esmorece.
Uma só dessas visitas tinha carro à
porta e cocheiro de libré. As outras iam modestamente,
calcante pede, e, se chovia, eu é que ia buscar
um carro de praça, e as metia dentro, com grandes
despedidas, e maiores recomendações.
- Levas o catálogo?
- Levo; até amanhã.
- Até amanhã.
Não voltavam mais. Eu ficava à porta,
esperando, ia até à esquina,
espiava, consultava o relógio, e não
via nada nem ninguém. Então, se
aparecia outra visita, dava-lhe o braço, entrávamos,
mostrava-lhe as
paisagens, os quadros históricos ou de gênero,
uma aquarela, um pastel,
uma gouache, e também esta cansava, e ia embora
com o catálogo na mão...
CAPÍTULO 148
E BEM, E O RESTO?
Agora , por que é que nenhuma dessas caprichosas
me fez esquecer a
primeira amada do meu coração? Talvez
porque nenhuma tinha os olhos de
ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada.
Mas não é este
propriamente o resto do livro.
O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória
já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se
esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.
Jesus, filho de Sirach, se.soubesse dos meus primeiros
ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. 9 , versículo
1: "Não tenhas ciúmes de tua mulher
para que ela não se meta a enganar-te com a
malícia que aprender de ti".
Mas eu creio que não, e tu concordarás
comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás
de reconhecer que uma estava dentro da outra, como
a fruta dentro da casca.
E bem, qualquer que seja a solução,
uma coisa fica, e é a suma das
sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha
primeira amiga e o
meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão
queridos também, quis o destino que acabassem
juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve!
Vamos à "História dos Subúrbios".
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento nacional do Livro
|