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CAPÍTULO 13
CAPITU
De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao
pé: E no quintal: - Mamãe! E outra vez na casa: - Vem
cá! Não me pude ter. As pernas desceram-me os três degraus
que davam para a chácara, e caminharam para o quintal
vizinho. Era costume delas, às tardes, e às manhãs também.
Que as pernas também são pessoas, apenas inferiores
aos braços, e valem de si mesma, quando a cabeça não
as rege por meio de idéias. As minhas chegaram ao pé
do muro. Havia ali uma porta de comunicação mandada
rasgar por minha mãe, quando Capitu e eu éramos pequenos.
A porta não tinha chave nem taramela- abria-se empurrando
de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso
de uma pedra pendente o uma corda. Era quase que exclusivamente
nossa. Em crianças, fazíamos visita batendo de um lado,
e sendo recebidos do outro com muitas mesuras.
Quando as bonecas de Capitu adoeciam, o médico era eu.
Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço,
para imitar o.bengalão do Doutor João da Costa, tomava
o pulso à doente e pedia-lhe que mostrasse a língua.
"É surda, coitada!", exclamava Capitu. Então eu coçava
o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar-lhe
umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica
habitual do médico.
- Capitu!
- Mamãe!
- Deixa de estar esburacando o muro - vem cá.
A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já
da porta dos fundos. Quis passar ao quintal, mas as
pernas, há pouco tão andarilhas, pareciam agora presas
ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, e
entrei. Capitu estava ao pé do muro fronteiro, voltada
para ele, riscando com um prego.
O rumor da porta fê-la olhar para trás; ao dar comigo,
encostou-se ao muro, como se quisesse esconder alguma
coisa. Caminhei para ela; naturalmente levava o gesto
mudado, porque ela veio a mim, e perguntou-me inquieta:
- Que é que você tem?
- Eu? Nada.
- Nada, não; você tem alguma coisa.
Quis insistir que nada, mas não achei língua. Todo eu
era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair,
com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos
daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia,
apertada em um vestido de chita, meio desbotado.
Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas
atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas
costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e
comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos,
a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com
amor, não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador,
mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula.
Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela
mesma dera alguns pontos.
- Que é que você tem? repetiu.
- Não é nada, balbuciei finalmente. E emendei logo.
- É uma notícia.
- Notícia de quê?
Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e
espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse
é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava.
Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido; senti que
não poderia falar claramente, tinha agora a vista não.sei
como...
- Então?
- Você sabe...
Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera
riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a
mãe. Vi uns riscos abertos e lembrou-me o gesto que
ela fizera para cobri-los. Então quis vê-los de perto,
e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer
que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira,
correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender
em mim o desejo de ler o que era.
CAPÍTULO 14
A INSCRIÇÃO
Tudo o que contei no fim do outro Capítulo foi obra
de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido.
Dei um pulo, e antes que ela raspasse o muro, li estes
dois nomes, abertos ao prego, e sim dispostos: BENTO
CAPITOLINA
Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os
logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro...
Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas,
mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada;
o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que
se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se,
apertando-se, fundindo-se.
Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la
marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma
noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia
que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença
entre o estudante e o adolescente.
Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do
amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas
ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se,
e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns
pelos outros...
Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar,
sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho.
A boca podia ser o cálix, os lábios a patena. Faltava
dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende
e é a língua.católica dos homens. Não me tenhas por
sacrilégio, leitora minha devota a limpeza da intenção
lava o que puder haver menos curial no estilo.
Estávamos ali com o céu em nossas mãos, unindo os nervos,
faziam das duas criaturas uma só, mm uma só criatura
seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas,
as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam
ao coração caladas como vinham...
CAPÍTULO 15
OUTRA VOZ REPENTINA
Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:
- Vocês estão jogando o siso? Era o pai de Capitu, que
estava à porta dos fundos, ao pé da mulher. Soltamos
as mãos depressa, e ficamos atrapalhados. Capitu foi
ao muro, e, com o prego, disfarçadamente, apagou os
nossos nomes escritos.
- Capitu!
- Papai!
- Não me estragues o reboco do muro.
Capitu riscava sobre o riscado, para apagar bem o escrito.
Pádua saiu ao quintal, a ver o que era, mas já a filha
tinha começado outra coisa, um perfil, que disse ser
o retrato dele, e tanto podia ser dele como da mãe -
fê-lo rir, era o essencial.
De resto, ele chegou sem cólera, todo meigo, apesar
do gesto duvidoso, ou menos que duvidoso em que nos
apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços
curtos, costas abauladas, donde lhe veio a alcunha de
Tartaruga, que José Dias lhe pôs. Ninguém lhe chamava
assim lá em casa; era só o agregado.
- Vocês estavam jogando o siso? perguntou. Olhei para
um pé de sabugueiro que ficava perto: Capitu respondeu
por ambos.
- Estávamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, não
agüenta.
- Quando eu cheguei à porta, não ria.
- Já tinha rido das outras vezes; não pode. Papai quer
ver?
E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo.
O susto é naturalmente sério - eu estava ainda sob a
ação do que trouxe, entrada de Pádua, e não fui capaz
de rir, por mais que devesse fazê-lo, para legitimar
a resposta de Capitu. Esta, cansada de esperar, desviou
o rosto, dizendo que eu não ria daquela vez por estar
ao pé do pai. E nem assim ri. Há coisas que só se aprendem
tarde é mister nascer com elas para fazê-las cedo. E
melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde.
Capitu, após duas voltas, foi ter com a mãe, que continuava
à porta da casa, deixando-nos a mim e ao pai encantados
dela; o pai, olhando para ela e para mim, dizia-me,
cheio de ternura:
- Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece
dezessete. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente
para mim.
- Está.
- Há muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de
dar um capote ao doutor, mas não tenho podido, ando
com trabalhos da repartição, em casa; escrevo todas
as noites que é um desespero; negócio de relatório.
Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. Ia agora
mesmo buscar a gaiola; ande ver.
Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem
ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. Meu desejo
era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que
nos esperava; mas o pai era o pai, e demais amava particularmente
os passarinhos. Tinha-os de vária espécie, cor e tamanho.
A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas
de canários, que faziam cantando um barulho de todos
os diabos. Trocava pássaros com outros amadores, comprava-os,
apanhava alguns, no próprio quintal, armando alçapões.
Também, se adoeciam, tratava deles como se fossem gente.
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