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CAPÍTULO 130
UM DIA...
Por enquanto, um dia Capitu quis saber o que é
que me fazia andar calado
e aborrecido. E propôs-me a Europa, Minas, Petrópolis,
uma série de
bailes, mil desses remédios aconselhados aos
melancólicos. Eu não sabia
que lhe respondesse; recusei as diversões. Como
insistisses
repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal.
Capitu sorriu para animar-me. E que tinha que andassem
mal? Tornariam a andar bem, e até lá as
jóias, os objetos de algum valor seriam vendidos,
e iríamos residir em algum beco. Viveríamos
sossegados e esquecidos; depois tornaríamos à
tona da água.
A ternura com que me disse isto era de comover as pedras.
Pois nem assim. Respondi-lhe secamente que não
era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido.
Ela propôs-me jogar cartas ou.damas, um passeio
a pé, uma visita a Mata-cavalos; e, como eu não
aceitasse nada, foi para a sala, abriu o piano, e começou
a tocar; eu aproveitei a ausência, peguei do chapéu
e saí.
...Perdão, mas este capítulo devia ser
precedido de outro, em que
contasse um incidente, ocorrido poucas semanas antes,
dois meses depois
da partida de Sancha. Vou escrevê-lo; podia antepô-lo
a este antes de
mandar o livro ao prelo, mas custa muito alterar o número
das páginas;
vai assim mesmo, depois a narração seguirá
direita até o fim. Demais, é
curto.
CAPÍTULO 131
ANTERIOR AO ANTERIOR
Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e plácida,
a banca do
advogado rendia-me bastante, Capitu estava mais bela,
Ezequiel ia
crescendo. Começava o ano de 1872.
- Você já reparou que Ezequiel tem nos
olhos uma expressão esquisita?
perguntou-me Capitu. Só vi duas pessoas assim,
um amigo de papai e o
defunto Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim,
vira para o lado de
papai, não precisa revirar os olhos, assim, assim...
Era depois de jantar, estávamos ainda à
mesa, Capitu brincava com o
filho, ou ele com ela, ou um com outro, porque, em verdade,
queriam-se
muito, mas é também certo que ele me queria
ainda mais a mim.
Aproximei-me de Ezequiel, achei que Capitu tinha razão;
eram os olhos de
Escobar, mas não me pareceram esquisitos por
isso. Afinal não haveria
mais que meia dúzia de expressões no mundo,
e muitas semelhanças se
dariam naturalmente. Ezequiel não entendeu nada,
olhou espantado para
ela e para mim, e afinal saltou-me ao colo:
- Vamos passear, papai?
- Logo, meu filho.
Capitu, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da
mesa; mas,
dizendo-lhe eu que, na beleza, os olhos de Ezequiel
saíam aos da mãe,
Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que
nunca achei em mulher
alguma, provavelmente porque não gostei tanto
das outras.
As pessoas valem o que vale a afeição
da gente, e é daí que mestre Povo tirou
aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe
parece. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos
na terra. Aquele entrou-me pela alma dentro.
Assim fica explicado que eu corresse à minha
esposa e amiga e lhe.enchesse a cara de beijos; mas
este outro incidente não é radicalmente
necessário à compreensão do capítulo
passado e dos futuros; fiquemos nos
olhos de Ezequiel.
CAPÍTULO 132
O DEBUXO E O COLORIDO
Nem só os olhos, mas as restantes feições,
a cara, o corpo, a pessoa
inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo
primitivo que
o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura
entra a ver,
sorrir, palpitar, falar quase, até que a família
pêndula o quadro na
parede, em memória do que foi e já não
pode ser. Aqui podia ser e era.
O costume valeu muito contra o efeito da mudança;
mas a mudança fez-se,
não à maneira de teatro, fez-se como a
manhã que aponta vagarosa,
primeiro que se possa ler uma carta, depois lê-se
a carta na rua, em
casa, no gabinete, sem abrir as janelas; a luz coada
pelas persianas
basta a distinguir as letras.
Li a carta, mal a princípio e não toda,
depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, é certo,
metia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me, não
abria as vidraças, chegava a fechar os olhos.
Quando novamente abria os olhos e a carta, a letra era
clara e a notícia claríssima.
Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário
e do Flamengo
para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada,
beijar-me no
gabinete de manhã, ou pedir-me à noite
a bênção do costume. Todas essas
ações eram repulsivas; eu tolerava-as
e praticava as, para me não
descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse
dissimular ao
mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia
mais perto de mim que ninguém.
Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu
desespero era grande, e eu jurava matá-los a
ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo
tempo da morte todos os minutos da vida embaçada
e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via
no alto da escada a criaturinha que me queria e
esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um
dia para outro.
O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios,
não se
notará aqui, por ser tão miúdo
e repetido, e já tão tarde que não
se
poderá dizê-lo sem falha nem canseira.
Mas o principal irá. E o
principal é que os nossos temporais eram agora
contínuos e terríveis.
Antes de descoberta aquela má terra da verdade,
tivemos outros de pouca.dura; não tardava que
o céu se fizesse azul, o sol claro e o mar chão,
por onde abríamos novamente as velas que nos
levavam às ilhas e costas
mais belas do universo, até que outro pé
de vento desbaratava tudo, e
nós, postos à capa, esperávamos
outra bonança, que não era tardia nem
dúbia, antes total, próxima e firme.
Releva-me estas metáforas; cheiram ao mar e à
maré que deram morte ao
meu amigo e comborço Escobar. Cheiram também
aos olhos de ressaca de
Capitu. Assim, posto sempre fosse homem de terra, conto
aquela parte da
minha vida, como um marujo contaria o seu naufrágio.
Já entre nós só faltava dizer a
palavra última; nós a líamos, porém,
nos
olhos um do outro, vibrante e decisiva, e sempre que
Ezequiel vinha para
nós não fazia mais que separar-nos. Capitu
propôs metê-lo em um colégio,
donde só viesse aos sábados; custou muito
ao menino aceitar esta
situação.
- Quero ir com papai! Papai há de ir comigo!
bradava ele.
Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã, uma
segunda-feira. Era no
antigo Largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a
pé, pela mão, como
levara o ataúde do outro. O pequeno ia chorando
e fazendo perguntas a
cada passo, se voltaria para casa, e quando, e se eu
iria vê-lo...
- Vou.
- Papai não vai!
- Vou sim.
- Jura, papai!
- Pois sim.
- Papai não diz que jura.
- Pois juro.
E lá o levei e deixei. A ausência temporária
não atalhou o mal, e toda a
arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar, ao menos,
foi como se não
fosse; eu sentia-me cada vez pior. A mesma situação
nova agravou a minha
paixão.
Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista; mas a
volta dele, ao fim das semanas, ou pelo descostume em
que eu ficava, ou porque o tempo fosse andando e completando
a semelhança, era a volta de Escobar mais vivo
e ruidoso. Até a voz, dentro de pouco, já
me parecia a mesma.
Aos sábados, buscava não andar em casa
e só entrar quando ele estivesse
dormindo; mas não escapava ao domingo, no gabinete,
quando eu me
achava entre jornais e autos. Ezequiel entrava turbulento,
expansivo, cheio de riso e de amor, porque o demo do
pequeno cada vez morria mais por mim.
Eu, a falar verdade, sentia agora uma aversão
que mal podia disfarçar,.tanto a ela como aos
outros. Não podendo encobrir inteiramente esta
disposição moral, cuidava de me não
fazer encontradiço com ele, ou só o
menos que pudesse; ora tinha trabalho que me obrigava
a fechar o
gabinete, ora saía ao domingo para ir passear
pela cidade e arrabaldes o
meu mal secreto. |
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