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CAPÍTULO 124

O DISCURSO

- Vamos, são horas...

Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. Fechamo-lo, e eu
peguei numa das argolas; rompeu o alarido final. Palavra que, quando
cheguei à porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as cabeças
descobertas, tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à
execução: foi atirar à rua caixão, defunto e tudo. No carro disse a José
Dias que se calasse. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa,
desatar as correias, e ajudar a levar o féretro à cova. O que isto me custou imagina.

Descido o cadáver à cova, trouxeram a cal e a pá; sabes disto, terás ido a mais de um enterro, mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos, leitor, ou qualquer outro estranho, é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim, os pés quietos, as orelhas atentas, e, ao cabo de alguns instantes de total silêncio, um sussurro vago, algumas vozes interrogativas, sinais, e alguém, José Dias, que me dizia ao ouvido:

- Então, fale.

Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus ao discurso anunciado.
Maquinalmente, meti a mão no bolso, saquei o papel e li-o aos
trambolhões, não todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me entrar
cm vez de sair, as mãos tremiam-me.

Não era só a emoção nova que me fazia assim, era o próprio texto, as memórias do amigo, as saudades confessadas, os louvores à pessoa e aos seus méritos; tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. Ao mesmo tempo, temendo que me adivinhassem a verdade, forcejava por escondê-la bem. Creio que poucos me ouviram, mas o gesto geral foi de compreensão c de aprovação.

As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade; alguns diziam: "Muito bonito! muito bem! magnífico!" José Dias achou que a eloqüência estivera na altura da piedade. Um homem, que me pareceu jornalista, pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. Só a minha grande turvação
recusaria um obséquio tão simples.

CAPÍTULO 125

UMA COMPARAÇÃO

Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que
lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor, não
obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso, e até mau
verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar
as virtudes do homem que recebera, defunto, aqueles olhos...

É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor
efeito, ou quando menos igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela
causa apontada em Camões; não, senhor, faltam-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se as têm, são enxugadas atrás da porta, para que as caras apareçam limpas e serenas, os discursos são antes de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.

CAPÍTULO 126

CISMANDO
Pouco depois de sair do cemitério, rasguei o discurso e deitei os
pedaços pela portinhola fora, sem embargo dos esforços de José Dias para
impedi-lo.

- Não presta para nada, disse-lhe eu, e como posso ter a tentação de
dá-lo a imprimir, fica já destruído de uma vez. Não presta, não vale
nada.

José Dias demonstrou longamente o contrário, depois elogiou o enterro, e
por último fez o panegírico do morto, uma grande alma, espírito ativo,
coração reto, amigo, bom amigo, digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera...

Neste ponto do discurso, deixei-o falar sozinho e peguei a cismar
comigo. O que cismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar
pé. No Catete mandei parar o carro, disse a José Dias que fosse buscar
as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa; eu iria a pé.

- Mas...

- Vou fazer uma visita.

A razão disto era acabar de cismar, e escolher uma resolução que fosse
adequada ao momento. O carro andaria mais depressa que as pernas- estas
iriam pausadas ou não, podia afrouxar o passo. parar, arrepiar caminho,
e deixar que a cabeça cismasse à vontade. Fui andando e cismando. Tinha
já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia;
eram inconciliáveis. A viúva era realmente amantíssima. Assim se
desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade.

Não seria o mesmo caso de Capitu. Cuidei de recompor-lhe os olhos, a posição em que a vi, o ajuntamento de pessoas que devia natural mente impor-lhe a dissimulação, se houvesse algo que dissimular. O que aqui vai por ordem lógica e dedutiva, tinha sido antes uma barafunda de idéias e sensações, graças aos solavancos do carro e às interrupções de José Dias.

Agora, porém, raciocinava e evocava claro e bem. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre. Quando cheguei a esta conclusão final, chegava também à porta de casa, mas voltei para trás, e subi outra vez a Rua do Catete.

Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas; andei largo espaço, até que me.senti sossegar, e endireitei para casa. Batiam oito horas numa padaria.