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CAPÍTULO 121

A CATÁSTROFE

No melhor deles, ouvi passos precipitados na escada, a campainha soou,.soaram palmas, golpes na cancela, vozes, acudiram todos, acudi eu mesmo.

Era um escravo da casa de Sancha que me chamava

- Para ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.

Não disse mais nada, ou eu não lhe ouvi o resto. Vesti-me, deixei recado
a Capitu e corri ao Flamengo.

Em caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar meteu-se a nadar, como
usava fazer, arriscou-se um pouco mais fora que de costume, apesar do
mar bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram mal puderam
trazer-lhe o cadáver.

CAPÍTULO 122

O ENTERRO

A Viúva... Poupo-vos as lágrimas da viúva, as minhas, as da outra gente.
Saí de lá cerca de onze horas; Capitu e prima Justina esperavam-me, uma
com o parecer abatido e estúpido, outra enfastiada apenas.

- Vão fazer companhia à pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.

Assim fizemos. Quis que o enterro fosse pomposo, e a afluência dos
amigos foi numerosa. Praia, ruas, Praça da Glória, tudo eram carros,
muitos deles particulares. A casa não sendo grande, não podiam lá caber
todos, muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando o lugar
em que Escobar falecera, ouvindo referir a chegada do morto.

José Dias ouviu também falar dos negócios do finado, divergindo alguns na
avaliação dos bens, mas havendo acordo em que o passivo devia ser
pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar, um ou outro discutia o
recente gabinete Rio Branco- estávamos em março de 1871. Nunca me
esqueceu o mês nem o ano.

Como eu houvesse resolvido falar no cemitério, escrevi algumas linhas e
mostrei-as em casa a José Dias, que as achou realmente dignas do morto e
de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando as
palavras, e confirmou a primeira opinião; no Flamengo espalhou a
notícia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me:

- Então, vamos ouvi-lo?

- Quatro palavras.

Poucas mais seriam. Tinha-as escrito com receio de que a emoção me
impedisse de improvisar. No tílburi em que andei uma ou duas horas, não
fizera mais que recordar o tempo do seminário, as relações de Escobar,
as nossas simpatias, a nossa amizade, começada, continuada e nunca.interrompida, até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas.

De quando em quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral; não me arrancando nada, continuou o seu ofício. Chegando a casa, deitei aquelas emoções ao papel; tal seria o discurso.

CAPÍTULO 123

OLHOS DE RESSACA

Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis
despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos.
Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria
arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns
instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não
admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...

As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as
depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de
carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a
retinha também.

Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.