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CAPÍTULO 106

DEZ LIBRAS ESTERLINAS

Eu já disse que era poupada, ou fica dito agora, e não só de dinheiro
mas também de coisas usadas, dessas que se guardam por tradição, por
lembrança ou por saudade.

Uns sapatos, por exemplo, uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e princípio da perna, os últimos que usou antes de calçar botinas, trouxe-os para casa, e tirava-os de longe em longe da gaveta da cômoda, com outras velharias, dizendo-me que eram pedaços de criança. Minha mãe, que tinha o mesmo gênio, gostava de ouvir falar e fazer assim. Quanto às puras economias de dinheiro, direi um caso, e basta.

Foi justamente por ocasião de uma lição de astronomia, à Praia da
Glória. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite
perdeu-se em fitar o mar, com tal força e concentração, que me deu
ciúmes.

- Você não me ouve, Capitu.

- Eu? Ouço perfeitamente.

- O que é que eu dizia?

- Você...você falava de Sírius.

- Qual Sírius, Capitu. Há vinte minutos que eu falei de Sírius..- Falava de... falava de Marte, emendou ela apressada.

Realmente, era de Marte, mas é claro que só apanhara o som da palavra,
não o sentido. Fiquei sério, e o ímpeto que me deu foi deixar a sala,
Capitu, ao percebê-lo, fez-se a mais mimosa das criaturas, começou-me na
mão, confessou-me que estivera contando, isto é, somando uns dinheiros
para descobrir certa parcela que não achava.

Tratava-se de uma conversão de papel em ouro. A princípio supus que era um recurso para desenfadar-me, mas daí a pouco estava eu mesmo calculando também, já então com papel e lápis, sobre o joelho, e dava a diferença que ela buscava.

- Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim.

Capitu fitou-me rindo, e replicou que a culpa de romper o segredo era
minha. Ergueu-se, foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas, na
mão; eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as
despesas.

- Tudo isto?

- Não é muito, dez libras só; é o que a avarenta de sua mulher pôde
arranjar, em alguns meses, concluiu fazendo tinir o ouro na mão.

- Quem foi o corretor?

- O seu amigo Escobar.

- Como é que ele não me disse nada?

- Foi hoje mesmo.

- Ele esteve cá?

- Pouco antes de você chegar; eu não disse para que você não
desconfiasse.

Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo,
mas Capitu deteve-me. Ao contrário, consultou-me sobre o que havíamos de
fazer daquelas libras.

- São suas, respondi.

- São nossas, emendou.

- Pois você guarde-as.

No dia seguinte, fui ter com Escobar ao armazém, e ri-me do segredo de
ambos. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório
contar-me tudo. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu)
tinha-lhe falado naquilo por ocasião da nossa última visita a Andaraí, e
disse-lhe a razão do segredo.

- Quando contei isto a Sanchinha, concluiu ele, ficou espantada:

"Como é que Capitu pode economizar, agora que tudo está tão caro?"- "Não
sei, filha; sei que arranjou dez libras.".

- Vê se ela aprende também.

- Não creio; Sanchinha não é gastadeira, mas também não poupada; o que
lhe dou chega, mas só chega.

Eu, depois de alguns instantes de reflexão:

- Capitu é um anjo!

Escobar concordou de cabeça, mas sem entusiasmo, como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher. Assim pensarias m também, tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão te ou qual vaidade, orgulho ou consolação.

CAPÍTULO 107

CIÚMES DO MAR

Se não fosse a astronomia, não descobriria eu tão cedo as dez libras de
Capitu; mas não é por isso que torno a ela, é para que não cuides que a
vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e
ter ciúmes do mar. Não, meu amigo.

Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fora ou acima dela. É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas, metade culpadas, um terço, um quinto, um décimo de culpadas, pois que em matéria de culpa a graduação é infinita. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles.

Não é mister pecado efetivo e mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno, suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírius dentro de Marte, e tu sabes, leitor, a diferença que há de um a outro na distancia e no tamanho, mas a astronomia tem dessas confusões. Foi isto que me fez empalidecer, calar e querer fugir da sala para voltar, Deus sabe quando; provavelmente, dez minutos depois. Dez minutos depois, estaria eu outra vez na sala, ao piano ou à janela, continuando a lição interrompida:

- Marte está a distancia de...

Tão pouco tempo? Sim, tão pouco tempo, dez minutos. Os meus ciúmes eram intensos, mas curtos; com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu, a terra e as estrelas.

A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu, se era possível, ela ainda
mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus. E
não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto, nem o sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia, mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias.

Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.

CAPÍTULO 108

UM FILHO

Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho, um triste menino que
fosse, amarelo e magro, mas um filho, um filho próprio da minha pessoa.

Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de Escobar e Sancha,
familiarmente Capituzinha, por diferençá-la de minha mulher, visto que
lhe deram o mesmo nome à pia, ficávamos cheios de invejas. A pequena era
graciosa e gorducha, faladeira e curiosa. Os pais, como os outros pais,
contavam as travessuras e agudezas da menina, e nós, quando voltávamos à noite para a Glória, vínhamos suspirando as nossas invejas, e pedindo
mentalmente ao céu que no-las matasse...

...As invejas morreram, as esperanças nasceram, e não tardou que viesse
ao mundo o fruto delas. Não era escasso nem feio, como eu já pedia, mas
um rapagão robusto e lindo.

A minha alegria quando ele nasceu, não sei dizê-la; nunca a tive igual,
nem creio que a possa haver idêntica, ou que de longe ou de perto se
pareça com ela. Foi uma vertigem e uma loucura. Não cantava na rua por
natural vergonha, nem em casa para não afligir Capitu convalescente.

Também não caía, porque há um deus para os pais novos. Fora, vivia com o
espírito no menino; em casa, com os olhos a observá-lo, a mirá-lo, a
perguntar-lhe donde vinha, e por que é que eu estava tão inteiramente
nele, e várias outras tolices sem palavras, mas pensadas ou deliradas a
cada instante. Talvez perdi algumas causas no toro por descuido.

Capitu não era menos terna para ele e para mim. Dávamos as mãos um ao
outro, e, quando não olhávamos para o nosso filho, conversávamos de nós,
do nosso passado e do nosso futuro. As horas de maior encanto e mistério
eram as de amamentação.

Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe, e toda aquela união da natureza para a nutrição e vida de um ser que não fora nada, mas que o nosso destino afirmou que seria, e a nossa constância e o nosso amor fizeram que chegasse a ser. ficava que não sei dizer nem digo; positivamente não me lembra, e receio que o que dissesse.me saísse escuro.

Escusai minúcias. Assim que, não é preciso contar a dedicação da minha mãe e de Sancha, que também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. Quis rejeitar o obséquio de Sancha; respondeu- me que eu não tinha nada com isso; também Capitu, em solteira, fora tratá-la à Rua dos Inválidos.

- Não se lembra que o senhor foi lá vê-la?

- Lembra-me; mas Escobar...

- Eu virei jantar com vocês, e às noites sigo para Andaraí; oito dias, e
está tudo passado. Bem se vê que você é pai de primeira viagem.

- Também você- onde está a segunda?

Usávamos então estas graças em família. Hoje, que me recolhi à minha
casmurrice, não sei se ainda há tal linguagem, mas deve haver. Escobar
cumpriu o que disse; jantava conosco, e ia-se à noite. Sobre tarde
descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público, fazendo ele os seus
cálculos, eu os meus sonhos. Eu via o meu filho médico, advogado,
negociante, meti-o em várias universidades e bancos, e até aceitei a
hipótese de ser poeta. A possibilidade de político foi consultada, e cri que me saísse orador, e grande orador.

- Pode ser, redargüia Escobar; ninguém diria o que veio a se Demóstenes.

Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices; também interrogava o futuro. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha. A
amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar, ao
ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto, estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força. Aceitei a lembrança, e propus que os encaminhássemos a este fim, pela educação igual e comum, pela infância unida e correta.

Era minha idéia que Escobar fosse padrinho do pequeno; a madrinha devia
ser e seria minha mãe. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do
tio Cosme, que, ao ver a criança, disse-lhe entre outros carinhos:

- Anda, toma a bênção a teu padrinho, velhaco.

E, voltando-se para mim:

- Não desisto do favor; e há de ser depressa o batizado, antes que a
minha doença me leve de vez.

Contei discretamente a anedota a Escobar, para que ele me compreendesse
e desculpasse; riu-se e não se magoou. Fez mais, quis que o almoço do
batizado fosse na chácara dele, e foi.

Eu ainda tentei espaçar a cerimônia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro à doença, mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. Não houve remédio senão levar o.menino à pia, onde se lhe deu o nome de Ezequiel; era o de Escobar, e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio.