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CAPÍTULO 103

A FELICIDADE TEM BOA ALMA

Mocetona é vulgar; José Dias achou melhor. Foi a única pessoa cá de
baixo que nos visitou na Tijuca, levando abraços dos nossos e palavras
suas, mas palavras que eram músicas verdadeiras; não as ponho aqui para
ir poupando papel, mas foram deliciosas.

Um dia comparou-nos a aves criadas em dois vãos de telhados contíguos. Imagina o resto, as aves emplumando as asas e subindo ao céu, e o céu agora mais largo para poder contê-las também. Nenhum de nós riu, ambos escutávamos comovidos e convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde de 1858... A felicidade tem boa alça.

CAPÍTULO 104

AS PIRÂMIDES

José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe, alternando os jantares
da Glória com os almoços de Mata-cavalos. Tudo corria bem.
Ao fim de dois anos de casado, salvo o desgosto grande de não ter um
filho, tudo corria bem. Perdera meu sogro, é verdade, e o tio Cosme
estava por pouco, mas a saúde de minha mãe era boa; a nossa excelente.

Eu era advogado de algumas casas ricas, e os processos vinham chegando.
Escobar contribuíra muito para as minhas estréias no foro. Interveio com
um advogado célebre para que me admitisse à sua banca, e arranjou-me
algumas procurações, tudo espontaneamente.

Demais, as nossas relações de família estavam previamente feitas; Sancha
e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola, Escobar e eu a do seminário. Eles moravam em Andaraí, aonde que riam que fôssemos muitas vezes, e, não podendo ser tantas como desejávamos, íamos lá jantar alguns domingos, ou eles vinham fazê-lo conosco.

Jantar é pouco, íamos sempre muito cedo, logo depois do almoço, para gozarmos o dia compridamente, e só nos separávamos às nove, dez e onze horas, quando não podia ser mais. Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória, sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as
Pirâmides.

Escobar e a mulher viviam felizes, tinham uma filhinha. Em tempo ouvi
falar de uma aventura do marido, negócio de teatro, não sei que atriz ou.bailarina, mas se foi certo, não deu escândalo. Sancha era modesta, o
marido trabalhador. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não
ter um filho, replicou-me:

- Homem, deixa lá. Deus os dará quando quiser, e se não der nenhum é que
os quer para si, e melhor será que fiquem no céu.

- Uma criança, um filho é o complemento natural da vida.

- Virá, se for necessário.

Não vinha. Capitu pedia-o em suas orações, eu mais de uma vez dava por
mim a rezar e a pedi-lo. Já não era como em criança; agora pagava
antecipadamente, como os aluguéis da casa.

CAPÍTULO 105

OS BRAÇOS

No mais, tudo corria bem. Capitu gostava de rir e divertir-se, e, nos
primeiros tempos, quando íamos a passeios ou espetáculos, era como um
pássaro que saísse da gaiola. Arranjava-se com graça e modéstia. Embora
gostasse de jóias, como as outras moças, não queria que eu lhe comprasse
muitas nem caras, e um dia afligiu-se tanto que prometi não comprar mais
nenhuma; mas foi só por pouco tempo.

A nossa vida era mais ou menos plácida. Quando não estávamos com a
família ou com amigos, ou se não íamos a algum espetáculo ou serão
particular (e estes eram raros) passávamos as noites à nossa janela da
Glória, mirando o mar e o céu, a sombra das montanhas e dos navios, ou a
gente que passava na praia.

Às vezes, eu contava a Capitu a história da cidade, outras dava-lhe notícias de astronomia; notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa, nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. Não sabendo piano, aprendeu depois de casada, e depressa, e daí a pouco tocava nas casas de amizade.

Na Glória era uma das nossas recreações; também cantava, mas pouco e raro, por não ter voz; um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. De dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os braços é que... Os braços merecem um período.

Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, não creio
que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de
menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no mármore,
donde vieram, ou nas mãos do divino escultor. Eram os mais belos da
noite, a ponto que me encheram de desvane acontecimento.

Conversava mal.com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. lá não foi assim no segundo
baile; nesse, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para
eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas
pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o
apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios, concordou
logo comigo.

- Sanchinha também não vai, ou irá de mangas compridas; o contrário parece-me indecente.

- Não é? Mas não diga o motivo; hão de chamar-nos seminaristas. Capitu
já me chamou assim.

Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar.
Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos, mas
cedeu depressa, e não foi ao baile; a outros foi, mas levou-os meio
vestidos de escumilha ou não sei que, que nem cobria nem descobria
inteiramente, como o cendal de Camões.