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ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
 




A Berceil, tão inquieta como eu, interrogou toda a gente, disseram-lhe que o Senhor de... chegara três minutos depois de termos saído, que parecia muito inquieto, que se retirara imediatamente e que voltara para escrever este bilhete talvez meia hora depois.

Mais inquieta ainda, mandei buscar uma viatura... mas acreditará, Senhor, a que ponto de descaramento esta indigna mulher ousou levar o vício?

- Menina - disse vendo-me partir -, nunca diga uma palavra sobre isto, não me canso de lho recomendar, mas se por infelicidade vier a zangar-se com o Senhor de..., creia-me, aproveite da sua liberdade para se divertir, isso vale muito mais do que um amante; sei que é uma menina como deve ser, mas é jovem, com certeza lhe dão pouco dinheiro e, linda como é, fá-la-ia ganhar todo o que quisesse... Vá, vá, não é a única, há tantas que pertencem à melhor sociedade, que se casam, como poderá fazer um dia, com condes ou marqueses, e que, ou por própria iniciativa, ou por intermédio da governanta, nos passaram pelas mãos como a Menina; temos pessoas especiais para as bonequinhas da sua espécie, já o viu bem; servem-se delas como duma rosa, respiram-nas e não as fazem murchar; adeus, minha bela, de qualquer modo não nos zanguemos, vê bem que ainda lhe poderei ser útil.

Lancei um olhar horrorizado a esta criatura e saí prontamente sem lhe responder; apanhei Julie em casa de minha tia, como era meu hábito fazê-lo, e regressei a casa.

Já não tinha maneira de dizer qualquer coisa ao Senhor de..., pois vendo-nos três vezes por semana, não usávamos escrever-nos, tornando-se assim necessário aguardar a altura do encontro... Que me iria ele dizer... que lhe responderia eu? Manteria o mistério do que se passara, não haveria o maior perigo no caso disso se vir a descobrir não seria mais prudente confessar-lhe tudo?...

Todas estas diferentes possibilidades mantinham-me num estado de inquietação inexprimível. Decidi-me, enfim, a seguir o conselho da Berceil, e bem segura de que esta mulher era a primeira interessada no segredo, resolvi-me a imitá-la e a nada dizer...

Ah, céu misericordioso, de que me serviam todas estas congeminações se não deveria voltar a ver o meu amante e o raio que se ia abater sobre a minha cabeça já resplandecia!

O meu irmão mais velho perguntou-me, no dia seguinte ao sucedido, porque me permitia sair assim sozinha um tão grande número de vezes na semana e a tais horas.

- Está bem, meu querido irmão - respondi-lhe, tremendo -, vou-lhe confessar tudo: uma das minhas amigas, que conhece bem, a Senhora de Saint-Clair, tem a gentileza de me levar três vezes por semana ao seu camarote no Français; nada me atrevi a dizer com medo que o pai o desaprovasse mas a tia sabe tudo perfeitamente.

- Se vai ao espetáculo - disse-me o meu irmão -, podia-me ter dito, eu tê-la-ia acompanhado e a coisa tornava-se mais simples... mas sozinha com uma mulher que não lhe pertence e quase tão nova como a menina...

- Vamos, vamos, meu amigo - disse o meu outro irmão que se aproximara durante a conversa -, a Menina tem os seus prazeres, não se deve perturbá-los... procura esposo seguramente, farão bicha com essa conduta...

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