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ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
 



Enfim, quinze dias após o seu regresso a Paris, a Menina de Tourville ficou em estado de se levantar e de andar numa viatura; o conde fez-lhe envergar um vestido branco análogo à inocência do seu coração, nada foi descuidado para realçar o brilho dos seus encantos que uns vestígios de palidez e fraqueza tornavam ainda mais interessantes; o conde, ela e Luxeuil fizeram-se transportar a casa do presidente de Tourville que não estava prevenido de nada e cuja surpresa foi imensa ao ver entrar a filha.

Estava com os dois filhos, cujas testas se encheram de rugas e de raiva perante esta visita inesperada; sabiam que a irmã se evadira mas supunham-na morta nalgum recanto da floresta e disso se consolavam, como se vê, o mais alegremente possível.

- Senhor - disse o conde, apresentando Émilie ao pai -, eis a inocência em pessoa que trago a seus joelhos - e Émilie aí se precipitou. - Imploro a sua graça Senhor - continuou o conde -, e não seria eu a pedir-lha se não estivesse seguro de que ela a merece; de resto, Senhor - continuou rapidamente -, a melhor prova que lhe posso dar da profunda estima que sinto pela sua filha é pedi-la para o meu filho. As nossas classes sociais estão feitas para se aliarem, Senhor, e se houver alguma desproporção da minha parte no tocante a bens, venderei tudo o que tenho para entregar a meu filho uma fortuna digna de ser oferecida à menina sua filha. Decida, Senhor, e permita-me que não o deixe sem receber a sua palavra.

O velho presidente de Tourville, que sempre adorara a sua querida Émilie, que no fundo era a bondade personificada e que até, devido à excelência do seu caráter, já não exercia o cargo há mais de vinte anos, o velho presidente, dizia eu, encharcando de lágrimas o seio desta querida criança, respondeu ao conde que se sentia muito honrado com tal escolha e que só se preocupava se a sua querida Émilie dela não fosse digna; o marquês de Luxeuil lançando-se, por sua vez, aos joelhos do presidente, rogou-lhe que lhe perdoasse as suas faltas e que lhas permitisse reparar.

Tudo se prometeu, tudo se concertou, tudo sossegou, de um lado e de outro, apenas os irmãos da nossa interessante heroína se recusaram a partilhar a alegria geral e repeliram-na quando deles se aproximou para os beijar; o conde, furioso com tal procedimento, quis deter um que pretendia sair do apartamento. O Senhor de Tourville gritou para o conde:

- Deixe-os, Senhor, deixe-os, enganaram-me horrivelmente; se esta querida criança fosse tão culpada como eles diziam, consentiria em entregá-la a seu filho? Perturbaram a felicidade dos meus dias privando-me da minha Émilie... deixe-os...

E os desgraçados saíram rebentando de raiva. Então o conde pôs o Senhor de Tourville ao corrente de todos os horrores dos filhos e das verdadeiras faltas da filha: o presidente vendo a pequena proporção que havia entre as faltas e a indignidade do castigo, jurou que não voltaria a ver os filhos; o conde acalmou-o e fez-lhe prometer que retiraria tais propósitos da idéia.

Oito dias depois celebrou-se o casamento sem que os irmãos tivessem comparecido mas dispensaram-nos bem, desprezando-os; o Senhor de Tourville contentou-se em recomendar-lhes o máximo silêncio sob ameaça dele próprio os mandar prender e assim se calaram embora não o bastante para não se vangloriarem do seu infame procedimento condenando a indulgência do pai; os que souberam desta Infeliz aventura exclamaram, terrificados pelos pormenores atrozes que a caracterizam:

- Oh, Céu misericordioso, eis pois os horrores que se permitem tacitamente os que se metem a punir os crimes dos outros! Há bastas razões para dizer que tais infâmias estão reservadas a estes frenéticos e ineptos sequazes da cega Témis que, alimentados por um rigorismo imbecil, insensíveis desde a infância aos gritos do infortúnio, manchados de sangue desde o berço, vituperando tudo e entregando-se a tudo, imaginam que a única maneira de cobrir as suas torpezas secretas e as suas prevaricações públicas é exibir uma rigidez inflexível que, assemelhando-os exteriormente a gansos, a tigres interiormente, nada mais obtém, contudo, manchando-os de crimes, do que iludir os parvos e fazer detestar ao homem prudente, quer os seus odiosos princípios, quer as suas desprezíveis pessoas.

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