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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
 


APOLOGIA CAVILLOSA EM DEFENÇA DO MESMO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ.

Agora saio eu a campo
por vós, meu Antônio Luís,
que já fede tanto verso,
e enfada tanto pasquim!

Que vos quer esta canalha
tropel de vilões ruins,
tanto Poeta sendeiro,
tanto trovador rocim?

Se fizestes mau governo,
que é certo, que foi ruim,
eles, que o façam pior,
que eu lhe dou das quatro mil.

Entorcastes muita gente?
mente, quem tal coisa diz:
Gabriel os enforcava,
que eu com estes olhos vi.

É verdade, que gostáveis
vós muito de vê-los ir,
sois amigo de enforcados,
ter-lhes ódio, isso fora ruim.

Cada qual gosta, o que gosta,
uns carneiro outros perdiz,
vós um quarto de enforcado,
e eu de um quarto do pernil.

Em gostos não há disputa
dai ao demo o povo vil,
que até nos gostos se mete
a ser dos gostos juiz.

O querer não tem razão,
que a vontade é mui sutil,
e assim por onde quer entra,
e talvez não quer sair.

Cada um quer, o que quer,
não há nisto, que arguir,
fez Deus as vontades livres,
prendê-las é frenesi.

Sois amigo de enforcados,
quem vo-lo pode impedir?
oxalá fôreis amigo
levar o mesmo fim.

Ora vamos a farinha,
foi pouca, cara, e ruim:
mas vós não sois sol, nem chuva,
para haver de a produzir.

Eu confesso, que houve fome,
governando vós aqui,
sois mofino, e por contágio
ficou mofino o Brasil.

Ser mofino não é culpa,
a fortuna o quer assim:
quem é mofino consigo,
cos mais há de ser feliz?

Não vos mandou governar
El-Rei farinhas aqui,
as carnes, nem os pescados,
porém a forca isso sim.

Valha o diabo a vossa alma
cabelos de colomim,
mandou-vos El-Rei acaso
desgovernar os quadris?

Mandou-vos acaso El-Rei
com as fêmeas não dormir,
senão com vosso criado,
que é bomba dos vossos rins?

No mais vos levanta falsos
todo este povo civil,
mas isto do vosso corpo
vo-lo levanta o Luís.

Mandou-vos El-Rei acaso
a Sodoma, ou ao Brasil?
Se não viveis em Judá,
quem vos meteu a Rabi?

Mandou-vos El-Rei que fosse
vosso pajem meretriz,
madrasta de vossos filhos,
como dizem por aí?

Ora ide-vos co diabo,
que ja não quero acudir
por um Tucano, um Fanchono,
um Sodoma, um vilão ruim.




DESCANTA O POETA AGORA A DESPEDIDA DESTE GOVERNADOR EM METAPHORA DE CHULARIAS, QUE SE UZAVAM NAQUELLE TEMPO. POR DIZER-SE VINHA RENDÊLLO D. JOÃO DE ALENCASTRE SEU CUNHADO.


Bangüê, que será de ti
em vindo o Governador,
que manda El-Rei meu Senhor
para te botar daqui?
que será de ti, maldi-
to, que assaz a ti te toca
por neto de curiboca
e porque este teu pepino
no que é vaso feminino
jamais toca, nem emboca.


Que será de ti, Bangüê,
quando o sucessor vier,
que hás de perder a mulher,
que é fêmea de cutilque?
e se teu criado é,
que o podes também levar,
não te há de sofrer o mar,
nem suas ondas sagradas,
antes por essas porradas
a porra te há de salgar.



RETRATO QUE FAZ ESTRAVAGANTEMENTE O POETA, AO MESMO
GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DA CAMARA NA SUA DESPEDIDA.



Vá de retrato
por consoantes,
que e eu sou Timantes
de um nariz de tucano
pés de Pato.

Pelo cabelo
começo a obra,
que o tempo sobra
para pintar a giba
do camelo.

Causa-me engulho
o pêlo untado,
que de molhado
parece, que sai sempre
de mergulho.

Não pinto as faltas
dos olhos baios,
que versos raios
nunca foram, senão
a cousas altas.

Mas a fachada
da sobrancelha
se me assemelha
a uma negra vassoura
esparramada.

Nariz de embono
com tal sacada,
que entra na escada
duas horas primeiro
que seu dono.

Nariz, que fala
longe do rosto,
pois na Sé posto
na Praça manda pôr
a guarda em ala.

Membro de olfatos,
mas tão quadrado,
que um Rei coroado
o pode ter por copa
de cem pratos.

Tão temerário
é o tal nariz,
que por um triz
não ficou cantareira
de um armário.

Você perdoe,
nariz nefando,
que eu vou cortando,
e inda fica nariz,
em que se assoe.

Ao pé da altura
no naso oiteiro,
tem o sendeiro,
o que boca nasceu, e é
rasgadura.

Na gargantona
membro do gosto
está composto
o órgão mais sutil
da voz fanchona.

Vamos à giba:
mas eu que intento,
se não sou vento
para poder trepar
lá tanto arriba?

Sempre eu insisto,
que no horizonte
deste alto monte
foi tentar o diabo
A Jesu Cristo.

Chamam-lhe autores,
por falar fresco
dorso burlesco,
no qual fabricaverunt
peccatores.

E havendo apostas,
se é homem, ou fera,
se assentou, que era
um caracol, que traz
a casa às costas.

De grande a riba,
tanto se entona,
que já blasona,
que enjeitou ser canastra
por ser giba.

Ó pico alçado,
quem lá subira,
para que vira,
se és Etna abrasador
se Alpe nevado!

Cousa pintada
sempre uma cousa,
pois onde pousa,
sempre o vêem de bastão
sempre de espada.

Dos santos passos
na bruta cinta
uma cruz pinta
a espada o pau da cruz,
e eles os braços.

Vamos voltando
para a dianteira,
que na traseira
o cu vejo açoutado
por nefando.

Se bem se infere
outro fracasso,
porque em tal caso
só se açouta, quem canta
o miserere.

Pois que seria,
que eu vi vergões?;
serão chupões,
que o bruxo do Ferreira
lhe daria.

Seguem-se as pernas,
sigam-se embora,
porque eu por ora
não me quero embarcar
em tais cavernas.

Se bem, que assento
nos meus miolos
que são dous rolos
de tabaco já podre,
e fedorento.

Os pés são figas
a mor grandeza,
por cuja empresa
tomaram tantos pés
tantas cantigas.

Velha coitada
suja figura,
na arquitetura
da popa de Nau nova
está entalhada.

Boa viagem
senhor Tucano,
que para o ano
vos espera a Bahia
entre a bagagem.



A D. JOÃO D'ALENCASTRE TOMANDO POSSE DO SEO GOVERNO OBSEQUEA O POETA COM AS QUEYXAS DO SEU ANTECESSOR, E CUNHADO.



Quando Deus redimiu da tirania
da mão do Faraó endurecido
o Povo Hebreu amado, e esclarecido.
Páscoa ficou de redenção o dia.


Páscoa de flores, dia de alegria
Àquele Povo foi tão afligido
O dia, em que por Deus foi redimido;
Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.


Pois mandado pela alta Majestade
Nos remiu de tão triste cativeiro,
Nos livrou de tão vil calamidade.


Quem pode ser senão um verdadeiro Deus,
que veio estirpar desta cidade
O Faraó do Povo Brasileiro.



AO MESMO GOVERNADOR CHEGANDOLHE A NOVA DA MORTE DE
SUA SOGRA, A QUEM DEYXOU CONVALECIDA DA MESMA ENFERMIDADE, DE QUE MORREO DEPOIS.




Alto Príncipe, a quem a Parca bruta
Aos estragos negando-se de horrível,
Quando acredita assombro no inflexível,
Em rendimento a vossos pés tributa.


Tímida a vossa vista se reputa,
E o mostra nesta ação quase visível,
Onde em vós o pesar, sendo possível,
Reverente o rigor não executa.


Pouco faz a Bahia, se venera
Humilde, e grata a vossa presidência,
Se inda a morte convosco não é fera


Porque admirando em vós tanta excelência
Para dar-vos um golpe, astuta espera
(Por temer-vos, Senhor) a vossa ausência.



LOUVA O SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEYRA RAVASCO A HUM SUGEYTO, QUE FOY À COSTA DA MINA E LÁ FEZ HUMA ILLUSTRE ACÇÃO.


Vindes da Mina, e só trazeis a fama,
De que vosso valor fez alta empresa,
Que não consiste a glória na riqueza
No seu desprezo sim, que honra se chama.


O vosso zelo, que ambição se inflama,
Do serviço fiel de Sua Alteza
Lhe deu prudente aquela Fortaleza,
Que é padrão imortal, que vos aclama.


Quanto co'a espada, e co juízo obrastes,
Quanto na África, e Europa merecestes,
São ações, que convosco competistes.


Não vos queixeis do pouco, que alcançastes,
Pois na glória, em que a todos excedestes,
Dificultais o prêmio, ao que servistes.



RESPONDE O POETA A BERNARDO VIEYRA RAVASCO PELOS MESMOS CONSOANTES POR AQUELLA PESSOA A QUEM SE FEZ O OBSEQUIO.


Hoje é melhor ter mina, que ter fama,
Que no tesouro se acha a nobre empresa,
Porque onde se idolatra só riqueza,
A glória dos progressos nada clama.


Ambicioso e avarento mais se inflama
Pertendendo subir a nova alteza,
E fragando nos bens a fortaleza,
Quer estragar a honra, que se aclama.


Mas vós, que a acreditar-me tanto obrastes,
Fiado, no que, é certo, merecestes,
Em mérito, a que sempre competistes:


A mim me dais a glória, que alcançastes,
Que como vós em tudo me excedestes,
Té para me abonar hoje servistes.



CONTINUA BERNARDO VIEYRA RAVASCO NO SEU PROPOSITO PELOS MESMOS CONSOANTES.


Nos assuntos, que dais à vossa fama,
Têm as invejas mais ardente empresa,
Pois se a glória do nome é mor grandeza,
No vosso acende mais ativa a chama


A emulação, que sempre assim se inflama,
O seu incêndio exala à suma alteza,
Mas esse incêndio em rara fortaleza
Salamandra vos faz, Fênix aclama.


Quanto nas armas valeroso obrastes,
Nas invejas prudente merecestes,
Triunfando sempre nunca competistes.


Mas outra maior glória inda alcançastes;
Não há Musa, que conte, o que excedestes,
Nem grandeza, que pague, o que servistes.



AO MESMO SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEYRA PEDINDO HUMAS OITAVAS AO POETA, EM TEMPO, EM QUE FAZIA ANNOS CONVALESCENDO DE HUMA GRAVE DOENÇA.


Oitavas canto agora por preceito,
Sem que na oitava possa diligente
Louvar as excelências de um sujeito,
Que pode ser em tudo o melhor Lente:
Mas como em mim não pode ser perfeito
O canto, ficará menos cadente
A música de Apolo, e de Talia,
Que não há cantar bem sem melodia.


Se do tempo perfeito o meu compasso
A compasso cantara neste canto,
Não faltara à garganta agora o passo,
E em passos de garganta fora espanto:
Porém se em canto nunca da mão passo
Como posso afinar no canto tanto,
Que me atreva a cantar vossa ciência,
Sem que falte ao compasso na cadência.


Canora a voz tomara, e tão suave,
Que em passos largos, e ecos repetidos
Sonora requintasse aquela clave,
Em que fossem meus ecos esparcidos:
Porém se o vosso nome o canto grave
Eleva suspendendo os mais sentidos,
Com a voz, que formar o meu alento
Chegar posso tarnbém ao Firmamento.


Discutindo esse globo de ciências
No mapa desta esfera Americana,
Acho um todo formado de excelências
Maravilha fatal em forma humana:
De modo se une, e formam as essências
Que o natural as graças vos germana:
Mas que muito se vós no largo mundo
Sois da graça, e ciências tão fecundo.


Se emulações tiraram Luzimentos,
Que soube a natureza vincular-vos,
Apolo não perdera os pensamentos,
Temendo-se na empresa de louvar-vos:
Suspende a admiração os vãos intentos
Ao discurso, que emprende realçar-vos,
Que a Musa enfraquecida, a pena leve
Nunca diz, o que sente, no que escreve.


Deixem-se os Gregos já do seu Eliano,
Condenam a silêncio um Xenofonte,
Não louve Alexandria Herodiano,
Que na Bahia tem Timocreonte:
O qual pode ensinar Quintiliano,
Camões, Terêncio, Ênio, Anacreonte,
Platões, Anaximandros, e Musés,
Acusilaus, Priscianos, e a Timéus.


Nos anos climatéricos glorioso
Vosso nome será tão dilatado,
Que suba, onde o decrépito invejoso
O veja nas estrelas colocado:
Sereis novo Planeta luminoso,
E Sol em nova esfera sublimado,
Que, a quem o mundo singular aclama,
Só descansa no céu com ele a fama.


Separar vossas partes, e Louvores
Absurdo fora certo, e averiguado,
Que à grandeza dos orbes superiores
Ninguém pode pôr termo limitado:
Receba o infinito por maiores,
Quem foi por singular ao mundo dado,
Com que as partes publica deste modo,
Quem de todo admirado admira o todo.


Cesse pois em louvar-vos minha pena,
Que impossível será, que sem engano
Presuma, que fazendo esta novena
Vos possa ponderar em todo um ano:
Este novo, e felice, que hoje ordena
O Céu, lograi, Senhor, sem tanto dano,
Porque sejam em vós os mais gloriosos
Aqueles, que vos faltam de invejosos.
F I M


FIM

Fonte:
MATOS, Gregório de. Obra Poética. 3ª ed., Rio de Janeiro:
Editora Record, 1992.

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
<http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
NUPILL - Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e
Lingüística da Universidade Federal de Santa Catarina


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