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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
 

 

CAPÍTULO III

OS HOMENS BONS
Gregório de Matos


Senhor, bem-vinda seja Vossa Senhoria
Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.

Que néscio que eu era então.


PESSOAS MUITO PRINCIPAIS


... certa pessoa muito principal ...

Manuel Pereira Rabelo, licenciado
do Céu toda a Majestade
em tão pequeno distrito.



SALVE RAINHA A VIRGEM SANTÍSSIMA.


Salve, Celeste Pombinha,
Salve, divina Beleza,
Salve, dos Anjos Princesa,
e dos céus, Salve Rainha.

Sois graça, luz, e concórdia
entre os maiores horrores,
sois guia de pecadores,

Madre de Misericórdia

Sois divina Formosura,
sois entre as sombras da morte
o mais favorável Norte,
e sois da vida Doçura

Sois a peregrina Ave,
pois minha fé vos alcança
sois pois ditosa esperança

Esperança nossa Salve
Vosso favor invocamos
como remédio mais raro,
não nos falte vosso amparo,
e vede, que a vós bradamos

Os da Pátria desterrados
viver na pátria desejam;
quereis vós, que dela sejam
deste mundo os degradados?

De Jesus tanto agrado leva
de com os homens viver,
nós somos, bem podeis ver,
os mesmos Filhos de Eva.

Humildes vos invocamos
com rogos enternecidos,
e desse amparo rendidos,
Senhora, a vós supiramos.

Se Deus nos perdoa, quando
a nossa culpa é chorada,
estamos por ser perdoada
aqui gemendo, e chorando.

Mas vós, por quem mais se vale,
Lírio do Vale, chorais,
e o vosso pranto val mais
neste de Lágrimas Vale

Já que tão piedosa sois
não tardeis com vosso rogo,
alcançai o perdão logo,
apressai-vos eia pois.

Porque desde agora possa
triunfar qualquer de nós
de inimigo tão atroz
pedi advogada nossa.

E enquanto nestes abrolhos
do mundo postos estamos,
de nós, que o caminho erramos
não tireis os vossos olhos.

Sejam sempre piedosos
para nos favorecer,
e para nos socorrer
sejam misericordiosos.

Favorecer-nos quereia,
de vossos olhos co'a guia,
gloriosa Virgem Maria
sempre eles a nós volvéi

Livrai-nos de todo erro
para que assim consigamos
graça enquanto aqui andamos
e depois deste desterro

Pois vosso Filho é a luz
e alumiar-nos quereis,
para que esta mostreis
nos amostrai a Jesus

E se como raio bruto
o fruto vemos vedado
noutro paraíso dado
veremos o bento Fruto

Em nossos corações entre
seu amor, pois é razão,
seja meu de coração,
o que foi do vosso ventre

De Jericó melhor Rosa,
puro, e cândido Jasmim,
quereis vós, que seja assim
ó clemente, ó piedosa.

Tenhamos esta alegria,
esta doçura tenhamos,
pois que tanta em vós achamos,
ó doce Virgem Maria

Pois quem mais pode, sois vós,
chegando a Deus a pedir
para melhor vos ouvir,
pedi, e rogai por nós.

Que então os favores seus
muito melhor seguramos,
pois que neles empenhamos
a Santa Madre de Deus.

Fazei-nos sempres benignos
entre deste mundo os sustos
para que sejamos justos
para que sejamos dignos

E se nos concedeis isto,
que vos pede o nosso rogo
mui dignos nos fareis logo
ser das promessas de Cristo

Seja pois, divina luz,
melhor Estrela, assim seja
para que por nós se veja
Vosso amparo. Amém Jesus



A N. SENHORA DA MADRE DE DEOS INDO LÁ O POETA


Venho, Madre de Deus, ao Vosso monte
E reverente em vosso altar sagrado,
Vendo o Menino em berço argenteado
O sol vejo nascer desse Horizonte.

Oh quanto o verdadeiro Faetonte
Lusbel, e seu exército danado
Se irrita, de que um braço limitado
Exceda na soltura a Alcidemonte.

Quem vossa devoção não enriquece?
A virtude, Senhora. é muito rica,
E a virtude sem vós tudo empobrece.

Não me espanto, que quem vos sacrifica
Essa hóstia do altar, que vos ofrece,
Que vós o enriqueçais, se a vós a aplica.



AO MENINO JESUS DE N. SENHORA DAS MARAVILHAS, A QUEM
INFIÉIS DESPEDAÇARAM ACHANDO-SE A PARTE DO PEYTO.



Entre as partes do todo a melhor parte
Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo
Se na parte do peito o quis pôr todo
O peito foi foi do todo a melhor parte.

Parta-se pois de Deus o corpo em parte,
Que a parte, em que Deus ficou o amor todo
Por mais partes, que façam deste todo
De todo fica intacta essa só parte.

O peito já foi parte entre as do todo,
Que tudo mais rasgaram parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste todo

Sem que do peito todo rasguem parte,
Que lá quis dar por partes o amor todo,
E agora o quis dar todo nesta parte.



AO BRAÇO DO MESMO MENINO JESUS QUANDO APPARECEO.


O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.



AO MENINO JESUS DO COADJUTOR DE S. ANTÔNIO QUE SENDO ANTIGO HE MUYTO BELLO.


Oh, quanta divindade, oh quanra graça,
Menino, em vosso vulto sacro, e belo
Infunde a mão de tal gentil modelo,
Inspira o Autor de tão divina traça!

Se o tempo aos mais vultos desengraça
Na vossa Imagem não deslustra um pêlo:
Reverente o tratou com tal desvelo,
Que o que eleva menino, velho embaça.

Quanto a idade usurpa de beleza
Nos que somos mortais, paga em respeito,
Venerações, que atrai a antiguidade.

Mas de vossa escultura a gentileza
Tem trocado do tempo o edaz efeito
Venera-se a beleza, ama-se a idade.



A N. SENHOR JESUS CHRISTO COM ACTOS DE ARREPENDIDO E
SUSPIROS DE AMOR.



Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.



A CHRISTO S. N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA


Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minh vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.



AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO.


Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-nos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.



AO SANCTISSIMO SACRAMENTO ESTANDO PARA COMUNGAR.


Tremendo chego, meu Deus
Ante vossa divindade,
que a fé é muito animosa,
mas a culpa mui cobarde.

À vossa mesa divina
como poderei chegar-me,
se é triaga da virtude
e veneno da maldade?

Como comerei de um pão,
que me dais, porque me salve?
um pão, que a todos dá vida,
e a mim temo, que me mate.

Como não hei de ter medo
de um pão, que tão formidável
vendo, que estais todo em tudo,
e estais todo em qualquer parte?

Quanto a que o sangue vos beba,
isso não, e perdoai-me:
como quem tanto vos ama,
há de beber-vos o sangue?

Beber o sangue do amigo
é sinal de inimizade;
pois como quereis, que o beba,
para confirmarmos pazes?

Senhor, eu não vos entendo;
vossos preceitos são graves,
vossos juízos são fundos,
vossa idéia inescrutável.

Eu confuso neste caso
entre tais perplexidades
de salvar-me, ou de perder-me,
só sei, que importa salvar-me.

Oh se me déreis tal graça,
que tenho culpas a mares,
me virá salvar na tábua
de auxílios tão eficazes!

E pois já à mesa cheguei,
onde é força alimentar-me
deste manjar, de que os Anjos
fazem seus prórios manjares:

Os Anjos, meu Deus, vos louvem,
que os vossos arcanos sabem,
e os Santos todos da glória,
que, o que vos devem, vos paguem.

Louve-vos minha rudeza,
por mais que sois inefável,
porque se os brutos vos louvam,
será a rudeza bastante.

Todos os brutos vos louvam,
troncos, penhas, montes, vales,
e pois vos louva o sensível,
louve-vos o vegetável.



ACTO DE CONTRIÇÃO O QUE FÊZ DEPOIS DE SE CONFESSAR.


Meu amado Redentor,
Jesu Cristo soberano
Divino Homem, Deus Humano,
da terra, Deus criador:
por seres, quem sois, Senhor,
e porque muito vos quero,
me pesa com rigor fero
de vos haver ofendido,
do que agora arrependido,
meu Deus, o perdão espero.

Bem sei, meu Pai soberano,
que na obstinação sobejo
corri sem temor, nem pejo
pelos caminhos do engano:
bem sei também, que o meu dano
muito vos tem agravado,
porém venho confiado
em vossa graça, e amor,
que também sei, é maior,
Senhor, do que meu pecado.

Bem não vos amo, confesso,
várias juras cometi,
missa inteira nunca ouvi,
a meus Pais não obedeço:
matar alguns apeteço,
luxurioso pequei,
bens do próximo furtei,
falsos levantei às claras,
desejei mulheres raras,
cousas de outrem cobicei.

Para lavar culpas tantas,
e ofensas, Senhor,tão feias
são fortes de graça cheias
essas chagas sacrossantas:
sobre mim venham as santas
correntes do vosso lado;
para que fique lavado,
e limpo nessas correntes,
comunica-me as enchentes
da graça, meu Deus amado.

Assim, meu Pai, há de ser,
e proponho, meu Senhor,
com vossa graça, e amor
nunca mais vos ofender:
prometo permanecer
em vosso amor firmemente,
para que mais nunca intente
ofensas contra meu Deus,
a quem os sentidos meus
ofereço humildemente.

Humilhado desta sorte,
meu Deus do meu coração,
vos peço ansioso o perdão
por vossa paixão, e morte:
à minha alma em ânsia forte
perdão vossas chagas dêem,
e com o perdão também
espero o prêmio dos Céus,
não pelos méritos meus,
mas do vosso sangue: amém.



A HUMAS CANTIGAS, QUE COSTUMAVAM CANTAR OS CHULOS NAQUELLE TEMPO: "BANGUÉ, QUE SERÁ DE TI?" E OUTROS MAIS PIEDOSOS CANTAVÃO: "MEU DEOS, QUE SERÁ DE MIM?" O QUE O POETA GLOZOU ENTRE A ALMA CHRISTÃ RESISTlNDO ÀS TENTAÇÕES DIABOLICAS.


MOTE


Meu Deus, que será de mim?
Bangüê, que será de ti?

Alma

Se o descuido do futuro,
e a lembrança do presente
é em mim tão continente,
como do mundo murmuro?

Será, porque não procuro
temer do princípio o fim?
Será, porque sigo assim
cegamente o meu pecado?
mas se me vir condenado,

Meu Deus, que será de mim?


Se não segues meus enganos,
e meus deleites não segues,
temo, que nunca sossegues
no florido dos teus anos:
vê, como vivem ufanos
os descuidados de si;
canta, baila, folga, e ri,
pois os que não se alegraram.
dous infernos militaram.
Bangüê, que será de ti?



Alma

Se para o céu me criastes,
Meu Deus, à imagem vossa,
como é possível, que possa
fugir-vos, pois me buscastes:
e se para mim tratastes
o melhor remédio, e fim,
eu como ingrato Caim
deste bem tão esquecido
tenho-vos tão ofendido:
Meu Deus, que será de mim?


Demônio


Todo o cantar alivia,
e todo o folgar alegra
toda a branca, parda e negra
tem sua hora de folia:
só tu na melancolia
tens alívio? canta aqui,
e torna a cantar ali,
que desse modo o praticam,
os que alegres pronosticam,
Bangüê, que será de ti?


Alma


Eu para vós ofensor,
vós para mim ofendido?
eu já de vós esquecido,
e vós de mim redentor?
ai como sinto, Senhor,
de tão mau princípio o fim:
se não me valeis assim,
como àquele, que na cruz
feristes com vossa luz,
Meu Deus, que será de mim?


Demônio


Como assim na flor dos anos
colhes o fruto amargoso?
não vês, que todo o penoso
é causa de muitos danos?
deixa, deixa desenganos,
segue os deleites, que aqui
te ofereço: porque ali
os mais, que cantando vão,
dizem na triste canção,
Bangüê que será de ti?


Alma


Quem vos ofendeu, Senhor?
Uma criatura vossa?
como é possível, que eu possa
ofender meu Criador?
triste de mim pecador,
se a glória, que dais sem fim
perdida num serafim
se perder em mim também!
Se eu perder tamanho bem,
Meu Deus, que será de mim?


Demônio


Se a tua culpa merece
do teu Deus a esquivança
a folga no mundo, e descansa,
que o arrepender aborrece:
se o pecado te entristece,
como já em outros vi,
te prometo desde aqui,
que os mais da tua facção,
e tu no inferno dirão,
Bangüê, que será de ti?



AO MISTERIOSO EPÍLOGFOLOGO DOS INSTRUUMENTOS DA PAYXAO RECOPILADO NA FLOR DO MARACUJÁ.


Divina flor, se en essa pompa vana
Los martirios ostentas reverente,
Corona con los clavos a tu frente,
Pues brillas con las llagas tan losana.

Venera essa corona altiva, y ufana,
Y en tus garbos te ostenta floreciente:
Los clavos enarbola eternamente,
Pues Dios com sus heridas se te hermana.

Si flor nasciste para mas pomposa
Desvanecer floridos crescimientos
Ya, flor, te reconocen mas dichosa.

Que el cielo te ha gravado en dos tormentos
En clavos la corona mas gloriosa,
Y en llagas sublimados luzimientos.



RENDE-SE A PESSOA DE BERNARDO VIEYRA RAVASCO? NESTE SONETO, PELOS MESMOS CONSOANTES DE OUTRO FEITO À FLOR DO MARACUJÁ PARA CONSTAR DO DITO QUE ERAM ESTAS RESPOSTAS DO NOSSO POETA.


Ya rendida, y prostrada mas que vana
A vuestros pies mi Musa reverente
Por coronar com ellos a su frente
Del suelo sube al cielo mas losana.

Por convencido ostenta gloria ufana,
Que tiene por corona floreciente
El quedar-se rendida eternamente,
Porque humilhada al triumpho se germana.

Rendimiento fiel haze pomposa,
Que en beber los castalios crescimientos
Se adquire la ventura mas dichosa.

A que Phenix nos causa mil tormentos
Ver, que triumpha humilhada, y tan gloriosa
Por ser rendida a vuestro luzimiento.

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