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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
 

 


AFIRMA QUE A FORTUNA, E O FADO NÃO É OUTRA COUSA MAIS QUE A PROVIDENCIA DIVINA.


Isto, que ouço chamar por todo o mundo
Fortuna, de uns cruel, d'outros impia,
É no rigor da boa teologia
Providência de Deus alto, e profundo.

Vai-se com temporal a Nau ao fundo
carregada de rica mercancia,
Queixa-se da Fortuna, que a envia,
E eu sei, que a submergiu Deus iracundo.

Mas se faz tudo a alta Providência
De Deus, como reparte justamente
À culpa bens, e males à inocência?

Não sou tão perspicaz, nem tão ciente,
Que explique arcanos d'alta Inteligência,
Só vos lembro, que é Deus o providente.



NO SERMÃO QUE PREGOU NA MADRE DE DEOS D. JOÃO FRANCO
DE OLIVEYRA PONDERA O POETA A FRAGILIDADE HUMANA.


Na oração, que
desaterra..........
aterra

Quer Deus, que, a quem está o
cuidado.......dado

Pregue, que a vida é
emprestado.........estado

Mistérios mil, que
desenterra.......
enterra.


Quem não cuida de si, que é
terra.........erra

Que o alto Rei por
afamado........
amado,

E quem lhe assiste ao desvelado
.......lado

Da morte ao ar não
desaferra.........
aferra.


Quem do mundo a mortal
loucura..........cura,

A vontade de Deus
sagrada..........
agrada,

Firmar-lhe a vida em
atadura........
dura.

Ó voz zelosa, que
dobrada........
brada,

Já sei, que a flor da
formosura.........
usura

Será no fim desta
jornada.........
nada.



CONTINUA O POETA COM ESTE ADMIRAVEL A QUARTA FEYRA DE CINZAS


Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja,
De pó te faz espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.

Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja
Nos mares da vaidade, onde peleja,
Te põe à vista a terra, onde salvar-te.

Alerta, alerta pois, que o vento berra,
E se assopra a vaidade, e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina, e ferra.


Todo o lenho mortal, baixel humano
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.



CONSIDERA O POETA ANTES DE CONFESSAR-SE NA ESTREYTA
CONTA, E VIDA RELAXADA.


Ai de mim! Se neste intento,
e costume de pecar
a morte me embaraçar
o salvar-me, como intento?
que mau caminho freqüento
para tão estreita conta;
oh que pena, e oh que afronta
será, quando ouvir dizer:
vai, maldito, a padecer,
onde Lucifer te aponta.

Valha-me Deus, que será
desta minha triste vida,
que assim mal logro perdida,
onde, Senhor, parará?
que conta se me fará
lá no fim, onde se apura
o mal, que sempre em mim dura,
o bem, que nunca abracei,
os gozos, que desprezei,
por uma eterna amargura.

Que desculpa posso dar,
quando ao tremendo juízo
for levado de improviso,
e o demônio me acusar?
Como me hei de desculpar
sem remédio, e sem ventura,
se for para aonde dura
o tormento eternamente,
ao que morre impenitente
sem confissão, nem fé pura.

Nome tenho de cristão,
e vivo brutualmente,
comunico a tanta gente
sem ter, quem me dê a mão:
Deus me chama co perdão
por auxílios, e conselhos,
eu ponho-me de joelhos
e mostro-me arrependido;
mas como tudo é fingido,
não me valem aparelhos.

Sempre que vou confessar-me,
digo, que deixo o pecado;
porém torno ao mau estado,
em que é certo o condenar-me:
mas lá está quem há de dar-me
o pago do proceder:
pagarei num vivo arder
de tormentos repetidos
sacrilégios cometidos
contra quem me deu o ser.

Mas se tenho tempo agora,
e Deus me quer perdoar,
que lhe hei de mais esperar,
para quando? ou em qual hora?
que será, quando traidora
a morte me acometer,
e então lugar não tiver
de deixar a ocasião,
na extrema condenação
me hei de vir a subverter.



AO DIA DO JUIZO.


O alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado
O resplandor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido!

Rompa todo o criado em um gemido,
Que é de ti mundo? onde tens parado?
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.

Soa a trombeta da maior altura,
A que a vivos, e mortos traz o aviso
Da desventura de uns, d'outros ventura.

Acabe o mundo, porque é já preciso,
Erga-se o morto, deixe a sepultura,
Porque é chegado o dia do juízo.



A CONCEYÇÃO IMMACULADA DE MARIA SANTISSIMA
.


Para Mãe, para Esposa, Templo, e Filha
Decretou a Santíssima Trindade
Lá da sua profunda eternidade
A Maria, a quem fez com maravilha.

E como esta na graça tanto brilha,
No cristal de tão pura claridade
A segunda Pessoa humanidade
Pela culpa de Adão tomar se humilha

Para que foi aceita a tal Menina?
Para emblema do Amor, obra piedosa
Do Padre, Filho, e Pomba essência trina:

É logo conseqüência esta forçosa,
Que Estrela, que fez Deus tão cristalina
Nem por sombras da sombra a mancha goza.



A CONCEYÇÃO IMMACULADA DE MARIA SANTISSINA

Como na cova tenebrosa, e escura,
A quem abriu o Original pecado,
Se o próprio Deus a mão vos tinha dado;
Podíeis vós cair, ó virgem pura?

Nem Deus, que o bem das almas só procura,
De todo vendo o mundo arruinado,
Permitira a desgraça haver entrado,
Donde havia sair nova ventura.

Nasce a rosa de espinhos coroada
Mas se é pelos espinhos assistida,
Não é pelos espinhos magoada.

Bela Rosa, ó virgem esclarecida!
Se entre a culpa se vê, fostes criada,
Pela culpa não fosse ofendida.



AO MESMO ASSUMPTO.


Antes de ser fabricada
do mundo a máquina digna,
já lá na mente divina,
Senhora, estáveis formada:
com que sendo vós criada
então, e depois nascida
(como é cousa bem sabida)
não podíeis, (se esta sois)
na culpa, que foi depois,
nascer, Virgem, comprendida

Entre os nascidos só vós
por privilégio na vida
fostes, Senhora, nascida
isenta da culpa atroz:
mas se Deus (sabemos nós)
que pode tudo, o que quer,
e vos chegou a eleger
para Mãe sua tão alta,
impureza, mancha, ou falta
nunca em vós podia haver.

Louvem-vos os serafins,
que nessa Glória vos vêem,
e todo o mundo também
por todos os fins dos fins:
Potestades, querubins,
e enfim toda a criatura,
que em louvar-vos mais se apura,
confessem, como é razão,
que foi vossa conceição
sacra, rara, limpa, e pura.

0 Céu para coroar-vos
estrelas vos oferece,
o sol de luzes vos tece
a gala, com que trajar-vos:
a lua para calçar-vos
dedica o seu arrebol,
e consagra o seu farol,
porque veja o mundo todo,
que brilham mais deste modo
Céu. estrelas, lua, e sol.



A N. SENHORA DO ROSARIO.


A Rainha celestial,
venceu o seu contrário,
nosso pobre cabedal
hoje do Santo Rosário
lhe faz um arco triunfal.

O arco é de paz, e guerra,
com que sempre há de triunfar,
e tal virtude em si encerra,
que por ele hei de chegar
ao alto céu desde a terra.

Este é o arco dos céus,
que sobre as nuvens se vê,
dado para nós por Deus,
por cujo meio com fé
teremos grandes troféus.

Porque o rosário rezado
quando a alma em graça está,
é sinal, que Deus tem dado,
de que não me afogará
no dilúvio do pecado.

Este é o arco triunfal,
por onde a alma gloriosa
livre do corpo mortal
vai aos céus a ser esposa
do Príncipe celestial.

Tem o homem seu contrário
dentro em sua mesma terra,
que lhe vence de Ordinário,
e a Virgem por esta guerra
dá-lhes as contas do Rosário.

Esta é boa artilharia
para o justo, e pecador,
tirai a alma em pontaria
co fogo do vosso amor,
e co'as balas de Maria.

Toda alma, que fizer conta
de si, e sua salvação,
ouça, o que a Virgem lhe aponta:
suba, que em sua oração
será degrau cada conta.



AS LAGRIMAS QUE SE DIZ, CHOROU N.SENHORA DE MONSARRATE.


Temor de um dano, de uma oferta indício
Pronta em divina Origem desatado,
Que tendo por horrível ao pecado
Sois a Deus agradável sacrifício.

Esperança da fé, terror do vício,
Enigma em dois assuntos decifrado,
Que pareceis castigo ameaçado
E sois executado benefício.

Duas cousas qualquer delas possível
Tendes, ó pranto, para ser forçoso,
e envolveis o prodígio para crível.

Tendo um motivo ingrato, outro piedoso,
Um na minha dureza aborrecível,
Outro no vosso amparo generoso.



A S. FRANCISCO TOMANDO O POETA O HABITO DE TERCEYRO.


Ó magno serafim, que a Deus voaste
Com asas de humildade, e paciência,
E absorto já nessa divina essência
Logras o eterno bem, a que aspiraste:

Pois o caminho aberto nos deixaste,
Para alcançar de Deus também clemência
Na ordem singular de penitência
Destes Filhos Terceiros, que criaste.

A Filhos, como Pai, olha queridos,
E intercede por nós, Francisco Santo,
Para que te sigamos, e imitemos.

E assim desse teu hábito vestidos
Na terra blasonemos de bem tanto,
E depois para o Céu juntos voemos.



AO GLORIOSO PORTUGUEZ SANTO ANTONIO

MOTE


Deus, que é vosso amigo d'alma,
na palma se vos vem pôr,
para mostrar, que de amor
só vós levastes a palma.

Quando o livrinho perdestes
lá na mata do botão,
Antônio, grande aflição
dentro em vossa alma tivestes:
e se da dor, que vencestes
levastes vitória, e palma,
bem se colhe, que em tal calma
tal dor, e tal agonia
só aliviar-vos podia
Deus, que é vosso amigo d'alma.

Fez-vos Deus nessa ocasião
visita bem lisonjeira,
e por não puxar cadeira,
se sentou na vossa mão:
foi larga a conversação,
que o assunto foi de amor,
e porque um Frade menor,
(sendo menor que o Menino)
era de tal palma digno,
Na palma se vos vem pôr.

Convosco o Menino então
um jogo, Antônio, jogou:
ele a palma vos ganhou,
mas vós ganhastes por mão:
não jogou entonces não
com o seu Servo o Senhor
para mostrar, que o favor
nasceu da ociosidade,
senão por mais majestade
Para mostrar, que de amor.

Mostrou, que em quererdes bem
a um Deus, a quem imitastes,
não só premissas pagastes,
mas os dízimos também:
e por deixar em refém
deste amor a mais pura alma,
pois todas deixais em calma,
cantam os coros celestes,
que porque a palma a Deus destes
Só vos levastes a palma.



AO MESMO ASSUMPTO.

MOTE



Qual dos dois terá mor gosto,
Antônio em braços com Cristo,
ou Cristo em seus braços posto?

Gosta Cristo de mostrar
que é de Antônio amante fino,
por isso se faz menino,
para em seus braços estar:
mas quem poderá falar,
quando está de rosto a rosto
Cristo com Antônio posto,
Antônio com Cristo em braços
em tão amorosos laços
Qual dos dois terá mor gosto?

Mas sendo Cristo o que vem
para em seus braços se ver,
com razão se há de dizer,
que Cristo mor gosto tem:
mas se ainda houver alguém,
que duvide assim ser isto,
em seus braços bem se há visto
Cristo, porque quis mostrar,
que somente pode estar
Antônio em braços com Cristo.

Foi tão raro, e peregrino
este Santo Lusitano,
que mereceu, sendo humano,
adorações de divino:
finalmente foi tão digno
de excelências, que em seu rosto
realça de Cristo o gosto:
pois onde Cristo estiver,
logo Antônio se há de ver,
Ou Cristo em seus braços posto.



AO MESMO QUE LHE DERAM A GLOZAR.

MOTE



Bêbado está Santo Antônio
Entrou um bêbado um dia
pelo templo sacrossanto
do nosso Português Santo,
e para o Santo investia:
a gente, que ali assistia,
cuidando, tinha o demônio,
lhe acudiu a tempo idôneo,
gritando-lhe todos, tá,
tem mão, olha, que acolá,
Bêbado, está Santo Antônio.



A CANONIZAÇÃO DO BEATO STANISLAO KOSCA.


Na conceição o sangue esclarecido,
No nascimento a graça, consumada,
Na vida a perfeição mais regulada,
E na morte o triunfo mais devido.

O sangue mal na Europa competido,
A graça nas ações sempre admirada,
A profissão no breve confirmada,
O triunfo no eterno merecido.

Tudo se vincula ao ser profundo
De Estanislau, que a glória do seu norte
Foi ser portento ao céu, prodígio ao mundo.

Por isso teve a fama de tal sorte,
Que o fazem nela unidos sem segundo
Conceição, Nascimento, Vida, e Morte.

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