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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
 

 

O MESMO AMIGO PEDIO AO POETA EM OUTRA OCCASIÃO LHE
GLOZASSE ESTE MOTTE, CUJA MATERIA FOY HAVER TRIUNFADO
O DITO FR. THOMAZ DE CERTA OPPOSIÇÃO CAPITULAR.

MOTE



Nuvens, que em oposição
o sol querem desluzir,
seus raios sabem sentir
por ser seu cuidado em vão.


No Céu pardo de Francisco
pardo à força de nublados
há vapores humilhados,
e soberbos com seu risco:
o soberbo ao sol arisco
se põe, e o humilhado não,
e o sol menos queima então
as nuvens, que chegar vê
em acatamentos, que
Nuvens, que em oposição.


As nuvens, que se lhe opõem
com tão néscio atrevimento,
o sol de um raio violento
queima, abrasa, e descompõe:
tudo o mais o sol dispõe
pare o manter, e cobrir
criar, e reproduzir,
e com razão não tem fé
co’as nuvens ingratas, que
O sol querem desluzir.


O sol por sua altiveza,
e nativo luzimento
não recebe abatimento
e abatê-lo é louca empresa:
quando se atreve a vileza
do vapor, que o vai seguir
na nuvem, que o quer cobrir,
se a subir não tem desmaios,
ao resistir dos seus raios
Seus raios sabem sentir.


Sentem com tanto pesar,
que têm por melhor partido
não haver ao sol subido
que subir para baixar:
era força escarmentar
na queda de Faetão,
e na Icária perdição,
que estes outros se arruinaram,
quando ao sol subir cuidaram,
Por ser seu cuidado em vão.



AO SOBREDITO RELIGIOSO DESDENHANDO CRITICO DE HAVER GONÇALLO RAVASCO, E ALBUQUERQUE NA PRESENÇA DE SUA FREYRA VOMITADO HUMAS NAUSEAS, QUE LOGO COBRIO COM O CHAPEO.


Quem vos mete, Fr. Tomás,
em julgar as mãos de amor,
falando de um amador
que pode dar-vos seis e ás?
Sendo vós disso incapaz,
quem vos mete, Fr. Franquia,
julgar, se foi policia
o vômito, que arrotastes,
se quando vós o julgastes,
vomitastes uma asnia:


Sabeis, por que vomitou
aquele amante em jejum?
lembrou-lhe o vosso budum,
e a lembrança o enjoou;
e porque considerou,
que o tal budum vomitado
era um fedor refinado,
por não ver poluto um céu,
o cobriu com seu chapéu,
e em cobri-lo o fez honrado.


Vós sois um pantufo em zancos,
mais oco do que um tonel,
e se estudais no burel,
entendereis de tamancos:
que as ações dos homens brancos,
tão brancos como Fuão,
não as julga um maganão
criado em um oratório,
julgador de refectório,
que dá o nosso Guardião.


O que sabeis, Frei Garrafa,
é a traça, e a maneira,
com que estafais uma Freira,
dizendo, que vos estafa:
vós saís com a manga gafa
do palangana, e tigela
d'ovos moles com canela,
e tão mal correspondeis,
que esse tempo, que a comeis,
são as têmporas para ela.


Item sabeis tresladar
falto de próprios conselhos
de trezentos sermões velhos
um sermão para pregar:
e como entre o pontear,
e cirgir obras alheias
se enxergam vossas idéias,
mostrais pregando de falso,
que sendo um Frade descalço,
andais pregando de meias.


E pois vossa Reverência
quis ser julgador de nora,
tenha paciência, que agora
se lhe tira a residência:
e inda que a minha clemência
se há com dissimulação,
livre-se na relação
dos cargos, em que é culpado
ser glutão como um capado,
como um bode fodinchão.



A CERTO FRADE NA VILLA DE SAM FRANCISCO, A QUEM HUA MOÇA
FINGINDOSE AGRADECIDA À SEUS REPETIDOS GALANTEYOS, LHE
MANDOU EM SIMULAÇÕES DE DOCE HUMA PANELLA DE MERDA
.


Reverendo Frei Antônio
se vos der venérea fome,
praza a Deus, que Deus vos tome,
como vos toma o demônio:
uma purga de antimônio
devia a moça tomar,
quando houve de vos mandar
um mimo, em que dá a emender,
que já vos ama, e vos quer
tanto, como o seu cagar.


Fostes-vos mui de lampeiro
vós, e os amigos de cela
ao miolo da panela,
e achastes um camareiro:
metestes a mão primeiro,
de que vos desenganásseis,
e foi bem feito, que achásseis,
cagalhões, que então sentistes,
porque aquilo, que não vistes,
quis o demo, que cheirásseis.


A hora foi temerária,
o caso tremendo, e atroz,
e essa merda para vós
se não serve, é necessária:
se a peça é mui ordinária,
eu de vós não tenho dó:
e se não dizei-me: é pó
mandar-vos a ponto cru
a Moça prendas do cu,
que tão vizinho é do có?


Se vos mandara primeiro
o mijo num panelão,
não ficáreis vós então
mui longe do mijadeiro:
mas a um Frade malhadeiro
sem correia, nem lacerda,
que não sente a sua perda,
seu descrédito, ou desar,
que havia a Moça mandar,
senão merda com mais merda?


Dos cagalhões afamados
diz esta plebe inimiga,
que eram de ouro de má liga
não dobrões, porém dobrados:
aos Fradinhos esfamiados,
que abrindo a panela estão,
daí por cabeça um dobrão,
e o mais mandai-o fechar;
que por isso, e por guardar,
manhã serei guardião.


Se os cagalhões são tão duros,
tão gordos, tão bem dispostos,
é, porque hoje foram postos,
e ainda estão mal maduros:
que na enxurrada dos tais
é de crer, que abrandem mais,
porque a Moça cristãmente
não quer, que quebreis um dente,
mas deseja, que os comais.



O CERTO FRADE QUE GALANTEANDO HUAS SENHORAS NO CONVENTO DE ODIVELAS, LHES ENTREGOU HABITO, E MENORES PARA UM FINGIDO ENTREMEZ, E CONHECENDO O CHASCO, EM ALTA NOYTE DEO EM CANTAR O MISERERE, BORRANDO, E OURINANDO TODO O PARLATORIO, PELO QUE A ABADEÇA LHE DEO OS SEUS HÁBITOS, E HUA LANTERNA PARA SE RETIRAR À LISBOA.


Reverendo Frei Carqueja,
quentárida com cordão,
magano da religião,
e mariola da Igreja:
Frei Sarna, ou Frei Bertoeja,
Frei Pirtigo, que o centeio
moes, e não dás receio,
Frei Burro de Lançamento,
pois que sendo um Frei Jumento,
és um jumento sem freio.


Tu, que nas pardas cavernas
vives de um grosso saial,
és carvoeiro infernal,
pois andas com saco em pernas:
lembram-te aquelas fraternas,
que levaste a teu pesar,
quando a Prelada Bivar
por culpa, que te cavou,
de dia te desfradou
para à noite te expulsar.


Pela dentada, que Adão
deu no vedado fruteiro,
de folhas fez um cueiro,
e cobriu seu cordavão:
a ti o querer ser glutão
de outra maçã reservada,
ao vento te pôs a ossada,
mas com diferença muita,
que se nu te pôs a fruita,
tu não lhe deste a dentada.


De José se diz cad'hora,
que o fez um seno de chapa
deixar pela honra a capa
nas mãos da amante senhora:
tu na mão, que te namora,
por honra, e por pundonor
deixas hábito, e menor,
mas com desigual partido,
que José de acometido,
e tu de acometedor.


Desfradado em conclusão
te vistes em couro puro,
como vinho bem maduro,
sendo, que és um cascarrão:
era pelo alto serão,
quando a gente às adivinhas
viu entre queixas mesquinhas
na varanda um Frade andeiro
saído do Limoeiro
a berrar pelas casinhas.


Como Galeno na praça
apareceste ao luar
pobre, roubado do mar,
que era ver-te um mar de graça:
quando um pasma, e outro embaça;
não me tenham por visão,
frade sou inda em cueiros,
tornei-me aos anos primeiros,
e Bivar foi meu Jordão.


Porque luz se te não manda,
tu por não dar num ferrolho,
dizem, que abriste o teu olho,
que é cancela, que tresanda:
chovias por uma banda,
e por outra trovejavas,
viva tempestade andavas,
porque à comédia assistias,
que era tramóia fingias,
e na verdade o passavas.


Ninguém há, que vitupere
aquele lanço estupendo,
quando o teu pecado vendo
tomaste o teu miserere:
mas é bem, que me exaspere
de ver, que todo o sandeu,
que nos tratos se meteu
de Freiras, logo confessa,
que isso lhe deu na cabeça,
e a ti só no cu te deu.


Dessa hora temerária
ficou a grade de guisa,
que se até ali foi precisa,
desde então foi necessária:
tu andaste como alimária,
mas isso não te desdoura,
porque fiado na coura
da brutesca fradaria
estercaste estrebaria,
o que gostas manjedoura.


Que és frade de habilidade,
dás grandíssima suspeita,
pois deixas câmara feita,
o que foi té agora grade:
tu és um corrente Frade
nos lances de amor, e brio,
pois achou teu desvario
ser melhor, e mais barato,
do que dar o teu retrato,
pôr na grade o teu feitio.


Corrido enfim te ausentaste,
mas obrando ao regatão,
pois levaste um lampião
pela cera, que deixaste:
sujamente te vingaste
Frei Azar, ou Frei Piorno,
e estás com grande sojorno,
e posto muito de perna,
sem veres, que essa lanterna
te deram, por dar-te um corno.


O com que perco o sentido,
é ver, que em tão sujo tope
levando a Freira o xarope
tu ficaste o escorrido:
na câmara estás provido
e de ruibarbo com capa,
mas lembro-te Frei Jalapa,
que por cagar no sagrado
o cu tens excomungado,
se não recorres ao Papa.


Muito em teus negócios medras
com furor, que te destampa,
pois sendo um louco de trampa,
te tem por louco de pedras:
é muito, que não desmedras,
vendo-te trapo, e farrapo,
antes co’a Freira no papo,
como no sentido a tinhas,
parece, que a vê-la vinhas,
pois vinhas com todo o trapo.


Tu és magano de lampa,
Bivar é Freira travessa,
a Freira pregou-te a peça,
mas tu armaste-lhe a trampa:
se o teu cagar nunca escampa,
nunca estie o seu capricho,
e pois ta pregou, Frei Mixo,
chame-se por todo o mapa
ela travessa de chapa,
e tu magano de esguicho.



A CERTO FRADE, QUE QUERENDO EMBARCAR-SE PARA FORA DA CIDADE, FURTOU HUM CABRITO, O QUAL SENDO CONHECIDO DA MAY PELO BERRO O FOY BUSCAR DENTRO DO BARCO, E COMO NÃO TEVE EFFEYTO O DITO ROUBO, TRATOU LOGO DE FURTAR OUTRO, E O LEVOU ASSADO.



De fornicário em ladrão
se converteu Frei Foderibus
o lascivo em mulieribus,
o mui alto fodinchão:
foi o caso, que um verão
tratando o Frade maldito
de ir da cidade ao distrito,
querendo a cabra levar,
para mais a assegurar,
embarcou logo o cabrito.


Mas a cabra esquiva, e crua
a outro pasto já inclinada
não quis fazer a jornada,
nem que a faça cousa sua:
balou uma, e outra rua
com tal dor, e tal paixão,
que respondendo o mamão
alcançou todo o distrito
nas respostas do cabrito
o codilho do cabrão.


Estava ele muito altivo
com seu jogo bem assaz,
porém, por roubar sem ás
perdeu bolo, cabra, e chibo:
porque sem pôr pé no estrivo
saltou na barca do Alparca,
e dizendo desembarca
saiu co filho a correr,
porque então não quis meter
com tal cabrão pé em barca.


O Frade ficou num berro,
porque temia o maldito
se não levasse o cabrito,
de achar, que lhe pegue um perro:
e por não cair nesse erro
num rebanho em boa fé
outro, a quem o Frei Caziqui,
quando ele dizia mihi,
ele respondia mé.


Do mé desaparecido
foi logo o dono avisado,
que o Frade lhe havia achado
antes dele o haver perdido:
e sendo o sítio corrido,
se achou, que a modo de pá
num forno o cabrito está,
que o Frade é destro ladrão
porém nesta ocasião
saiu-lhe a fornada má.



A CERTO FRADE QUE PREGANDO MUITOS DESPROPOSITOS NA MADRE DE DEOS FOI APEDREJADO PELOS RAPAZES, E SE FINGIO DESMAYADO POR ESCAPAR: MAS DEPOIS FURTANDO AO POETA UM BORDÃO, E AO ARPISTA DA FESTA UM CHAPEO SE RETIROU: POREM SABENDO-SE DO FURTO LHE FOY AO CAMINHO TIRAR DAS MÃOS HUM MULATO DE DOMINGOS BORGES.


Reverendo Padre em Cristo,
Fr. Porraz por caridade,
Padre sem paternidade
salvo a tem pelo Anticristo:
não me direis, que foi isto,
que dizem, quando pregastes,
tão depressa vos pagastes,
que antes que o sermão findara
tanto cascalho embolsastes.


Pregastes tanta parvoíce
de tolo, e de beberrão,
que o povo bárbaro então
entendeu, que era louquice:
quis-vos seguir a doudice,
e posto no mesmo andar,
em lugar de persignar
uma pedrada vos prega,
que a testa ainda arrenega
de tal modo de pregar.


Aqui-d'EI-Rei me aturdistes,
e como um Paulo pregáveis,
entendi, quando gritáveis,
que do cavalo caístes:
vós logo me desmentistes,
dizendo, não tenho nada,
fingi aquela gritada,
porque entre tantos maraus
com seixos, limões, e paus
não viesse outra pedrada.


Bem creio eu, Peralvilho,
que sois cavalo de Troia,
e fazeis uma tramóia
co'a morte no garrotilho:
mas se perdendo o codilho,
que ganhais a mão, dizeis,
a vós o engano fazeis,
porque se quem compra, e mente,
se diz, que na bolsa o sente,
vós na testa o sentireis.


Vendo-vos escalavrado
o Vigário homem do céu
em casa vos recolheu,
por vos salvar no sagrado:
vós sois tão desaforado,
que não quisestes cear,
não mais que pelo poupar,
sendo que sois tão má preia,
que lhe poupastes a ceia,
por lhe roubar o jantar.


Fostes-vos de madrugada,
deixando-lhe aberta a porta,
mas a porta pouco importa,
importa a casa roubada:
fizestes uma trocada,
que só a pudera fazer
um beberrão a meu ver,
d’um por outro chapéu podre,
que trocar odre por odre
venha o demo a escolher.


Ficou o Mestre solfista
sem chapéu destro, ou sinestro,
e ainda que na arpa é destro,
vós fostes maior arpista:
quem por ladrão vos alista,
saiba, que sois mau ladrão,
que não perdendo ocasião,
lá em cima na vossa estada,
levastes a bordoada,
cá em baixo o meu bordão.


Tomastes do rio a borda,
e vendo os amigos Borges,
que leváveis tais alforjes,
trataram de dar-vos corda:
mas vendo, que vos engorda,
mais do que a vaca, o capim,
puseram-vos um selim,
um freio, e um barbicacho,
porque sendo um burro baio
logreis honras de rocim.


Vendo-vos ajaezado,
pela ocasião não perder,
botastes logo a correr
atrás das éguas mangado:
apenas tínheis chegado
de Caípe à casaria,
quando um Mulataço harpia
arrogante apareceu,
e vos tirou o chapéu
sem vos fazer cortesia.


Tirou-vos o meu cajado,
porque sois ladrão tão mau,
que levastes o meu pau,
que não serve a um barbado:
e vendo-vos despojado
dos furtos deste lugar
vos pusestes a admirar,
de que um Mulato valente
de vos despir se contente,
podendo-vos açoutar.


Nunca vós, borracho alvar,
a pregar-nos vos metais,
que se a rapazes pregais,
eles vos lá hão de pregar:
tratai logo de buscar
alguma Dona Bertola,
para pregar pela gola,
como aqui sempre fizestes,
que esse é o pregar, que aprendestes,
do que podeis pôr escola.


E guardai-vos, maganão
bêbado, jeribiteiro,
de tornar a este oiteiro
fazer vossa pregação:
que o Mestre Pantaleão,
e o Doutor, a quem roubastes,
e os mais, que aqui encontrastes
vos esperam com escarbas.
para arrancar-vos as barbas,
se é que a vinho as não pelastes.

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