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Crônica
do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
AOS MISSIONARIOS, À QUEM O ARCEBISPO D. FR. JOÃO
DA MADRE DE DEUS RECOMENDAVA MUYTO AS VIAS SACRAS, QUE ENCHENDO A
CIDADE DE CRUZES CHAMAVÃO DO PULPITO AS PESSOAS POR SEUS NOMES,
REPREHENDENDO, À QUEM FALTAVA.
Via de perfeição é a sacra via,
Via do céu, caminho da verdade:
Mas ir ao Céu com tal publicidade,
Mais que à virtude, o boto à hipocrisia.
O ódio é d'alma infame companhia,
A paz deixou-a Deus à cristandade:
Mas arrastar por força, uma vontade,
Em vez de perfeição é tirania.
O dar pregões do púlpito e indecência,
Que de Fulano? venha aqui sicrano:
Porque o pecado, o pecador se veja:
E próprio de um Porteiro d'audiência,
E se nisto maldigo, ou mal me engano,
Eu me submeto à Santa Madre Igreja.
A CERTO PROVINCIAL DE CERTA REGIÃO QUE PREGOU O MANDATO
EM TERMOS TA, RIDICULOS QUE MAIS SERVIO DE MOTIVO DE RIZO, DO QUE
DE COMPAIXÃO.
Inda está por decidir,
meu Padre Provincial,
se aquele sermão fatal
foi de chorar, se de rir:
cada qual pode inferir,
o que melhor lhe estiver,
porque aquela má mulher
da preversa sinagoga
fez no sermão tal chinoga,
que o não deixou entender.
Certo, que este lava-pés
me deixou escangalhado,
e quanto a mim foi traçado
para risonho entremez:
eu lhe quero dar das três
a outro qualquer Pregador,
seja ele quem quer que for,
já filósofo, ou já letrado,
e quero perder dobrado,
se fizer outro pior.
E vossa Paternidade,
pelo que deve à virtude,
de tais pensamentos mude,
que prega mal na verdade:
faça atos de caridade,
e trate de se emendar,
não nos venha mais pregar,
que jurou o Mestre Escola,
que por pregar pare Angola
o haviam de degradar.
AO CURA DA SÉ QUE ERA NAQUELLE TEMPO, INTRODUZIDA ALI POR
DINHEYRO, E COM PRESUNÇÕES DE NAMORADO SATYRIZA O POETA
COMO CREATURA DO PRELADO.
O Cura, a quem toca a cura
de curar esta cidade,
cheia a tem de enfermidade
tão mortal, que não tem cura:
dizem, que a si só se cura
de uma natural sezão, que lhe dá na ocasião
de ver as Moças no eirado,
com que o Cura é o curado,
e as Moças seu cura são.
Desta meizinha se argúi,
que ao tal Cura assezoado
mais lhe rende o ser curado,
que o Curado, que possui,
grande virtude lhe influi
o curado exterior:
mas o vício interior
Amor curá-lo procura,
porque Amor todo loucura,
se a cura é de louco amor.
Disto cura o nosso Cura,
porque é curador maldito,
mas ao mal de ser cabrito
nunca pôde dar-lhe cura:
É verdade, que a tonsura
meteu o Cabra na Sé,
e quando vai dizer "Te
Deum laudamus" aos doentes,
se lhe resvela entre dentes,
e em lugar de Te diz me.
Como ser douto cobiça,
a qualquer Moça de jeito
onde pôs o seu direito,
logo acha, que tem justiça:
a dar-lhe favor se atiça,
e para o fazer com arte,
não só favorece a parte,
mas toda a prosápia má,
se justiça lhe não dá,
lhe dá direito, que farte.
Porque o demo lhe procura
tecer laços, e urdir teias,
não cura de almas alheias,
e só do seu corpo cura:
debaixo da capa escura
de um beato capuchinho
é beato tão maligno
o cura, que por seu mal
com calva sacerdotal
é sacerdote calvino.
Em um tempo é tão velhaco,
tão dissimulado, e tanto,
que só por parecer santo
canoniza em santo um caco:
se conforme o adágio fraco
ninguém pode dar, senão
aquilo, que tem na mão,
claro está que no seu tanto
não faria um ladrão santo,
senão um Santo Ladrão.
Estou em crer, que hoje em dia
já os cânones sagrados
não reputam por pecados
pecados de simonia:
os que vêem tanta ousadia,
com que comprados estão
os curados mão por mão,
devem crer, como já creram,
que ou os cânones morreram,
ou então a Santa unção.
AO ILLUSTRISSIMO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEOS MUDANDO-SE
PARA O SEU NOVO PALACIO, QUE COMPROU.
Sacro Pastor da América florida,
Que para o bom regímen do teu gado
De exemplo fabricastes o cajado,
E de frauta te sene a mesma vida.
Outros tua virtude esclarecida
Cantem: mas teu palácio por sagrado
Cante Apolo de raios coroado
Na musa humilde de álamos cingida.
Gusano a tua folha me alimente,
Tua sombra me ampare peregrino,
Passarinho o teu ramo me sustente.
Tecerei tua historia em ouro fino,
De meus versos serás templo freqüente,
Onde glórias te cante de contino.
O DEÃO ANDRE GOMES CAVEYRA SE INTRODUZIO DE TAL MODO COM
ÊSTE PRELADO EM DESABONO DO POETA, QUE ESTIMULANDO O DITO FÊZ
O SEGUINTE.
MOTE
O mundo vai-se acabando,
cada qual olhe por si,
porque dizem, que anda aqui
uma Caveira falando.
Chegou o nosso Prelado
tão galhardo, e tão luzido,
tão douro, e esclarecido,
tão nobre, e tão ilustrado,
e não houve Prebendado,
que para o ir enganando
se lhe não fosse chegando;
mas só Caveira asnaval
é, quem co Prelado val:
O mundo vai-se acabando.
Como não há de acabar-se,
se uma Caveira tão feia
ao Prelado galanteia
a risco de enamorar-se!
onde se viu galantear-se
o roxete carmesi
pela caveira de Heli?
não é mentira, é verdade;
pois para seguridade
cada qual olhe por si.
Olhe por si cada qual,
e não se dêem por seguros,
sabendo, que anda extramuros
esta Caveira infernal:
ela anda pelo arrebal,
e dacolá para aqui,
eu por mil partes a vi:
o leigo, o frade, e o monge
não a imaginem de longe,
Porque dizem, que anda aqui.
Aqui anda, e aqui está
rosnando sempre entre nós,
Deão com cara de algoz,
e pertensões de Bispá:
ele é, o que os pontos dá,
e os vícios vai acusando
com zelo torpe, e nefando,
com que nos bota a perder:
porque quem não há de crer
Uma Caveira falando.
COMO ACREDITOU ESTE PRELADO MAIS OS MEXERICOS DE CAVEYRA, DO QUE
AS LIZONJAS DO POETA, LHE FEZ ESTA SÁTIRA.
Eu, que me não sei calar,
mas antes tenho por míngua,
não purgar-se qualquer língua
a risco de arrebentar:
vos quero, amigo, contar,
pois sois o meu secretário,
um sucesso extraordinário,
um caso tremendo, e atroz;
porém fique aqui entre nós.
Do Confessor Jesuíta,
que ao ladrão do confessado
não só absolve o pecado,
mas os furtos lhe alcovita:
do Percursor da visita,
que na vanguarda marchando
vai pedindo, e vai tirando,
o demo há de ser algoz:
porém fique aqui entre nós.
O ladronaço em rigor
não tem para que o dizer
furtos, que antes de os fazer,
já os sabe o confessor:
cala-os para ouvir melhor,
pois com ofício alternado
confessor, e confessado
ali se barbeiam sós:
porém fique aqui entre nós.
Aqui o Ladrão consente
sem castigo, e com escusa,
pois do mesmo se lhe acusa
o confessor delinqüente:
ambos alternadamente
um a outro, e outro a um
o pecado, que é comum
confessa em comua voz:
porém fique aqui entre nós.
Um a outro a mor cautela
vem a ser neste acidente
confessor, e penitente,
porque fique ela por ela:
o demo em tanta mazela
diz: faço, porque façais,
absolvo, porque absolvais,
pacto inopinado pôs;
porém fique aqui entre nós.
Não se dá a este Ladrão
penitência em caso algum,
e somente em um jejum
se tira a consolação:
ele estará como um cão
de levar a bofetada:
mas na cara ladrilhada
emenda o pejo não pôs:
porém fique aqui entre nós.
Mecânica disciplina
vem a impor por derradeiro
o confessor marceneiro
ao pecador carapina:
e como qualquer se inclina
a furtar, e mais furtar,
se conjura a escavacar
as bolsas um par de enxós:
porém fique aqui entre nós.
O tal confessor me abisma,
que releve, e não se ofenda,
que um Frade Sagrado venda
o sagrado óleo da crisma:
por dinheiro a gente crisma,
não por cera, havendo queixa,
que nem a da orelha deixa,
onde crismando a mão pôs:
porém fique aqui entre nós.
Que em toda a Franciscania
não achasse um mau Ladrão,
quem lhe ouvisse a confissão,
mais que um padre da panhia!
nisto, amigo, há simpatia,
e é, porque lhe veio a pêlo,
que um atando vá no orelo,
e outro enfiando no cós:
porém fique aqui entre nós.
Que tanta culpa mortal
se absolva! eu perco o tino,
pois absolve um Teatino
pecados de pedra, e cal:
quem em vida monacal
quer dar à Filha um debate
condenando em dote, ou date
vem a dar-lhe o pão, e a noz;
porém fique aqui entre nós.
As Freiras com santas sedes
saem condenadas em pedra,
quando o ladronaço medra
roubando pedra, e paredes:
vós, amigo, que isto vedes,
deveis a Deus graças dar
por vos fazer secular,
e não zote de albernoz:
porém fique aqui entre nós.
LOUVA O POETA O SERM ÃO, QUE PREGOU CERTO MESTRE NA FESTA,
QUE A JUSTIÇA FAZ, AO SPIRITO SANTO NO CONVENTO DO CARMO NO
ANO 1686.
Alto sermão, egrégio, e soberano
Em forma tão civil, tão erudita,
Que sendo o pregador um carmelita,
Julguei eu, que pregava um Ulpiano.
Não desfez Alexandre o nó Gordiano,
Co'a espada o rompeu (traça esquisita)
Soltais na forma legal, e requisita
Soltais o nó do magistrado arcano.
Ó Príncipes, Pontífices, Monarcas,
Se o Mestre excede a Bártolos, e Abades
Vesti-lhe a toga, despojai-lhe alparcas.
Rompam-se logo as leis das Majestades,
Ouçam Ministros sempre os Patriarcas,
Pois mais podem, que leis, autoridades.
CELEBRA O POETA (ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO), A BURLA,
QUE FIZERAM OS RELIGIOSOS COM UMA PATENTE FALSA DE PRIOR A FREI MIGUEL
NOVELLOS, APELIDADO O LATINO POR DIVERTIMENTO EM HUM DIA DE MUYTA
CHUVA.
Victor, meu Padre Latino,
que só vós sabeis latim,
que agora se soube enfim,
para um breve tão divino:
era num dia mofino
de chuva, que as canas rega,
eis a patente aqui chega,
e eu por milagre o suspeito
na Igreja Latina feito,
para se pregar na grega.
Os sinos se repicaram
de seu moto natural,
porque o Padre Provincial,
e outros Padres lhe ordenaram:
os mais Frades se abalaram
a lhe dar obediência,
e eu em tanta complacência,
por não faltar ao primor,
dizia a um Victor Prior,
Victor, vossa Reverência.
Estava aqui retraído
o Doutor Gregório, e vendo
um breve tão reverendo
ficou co queixo caído:
mas tornando em seu sentido
de galhofa perenal,
que não vi patente igual,
disse: e é cousa patente,
que se a patente não mente,
é obra de pedra, e cal.
Vctor, Victor se dizia,
e em prazer tão repentino,
sendo os vivas ao latino
soavam a ingresia:
era tanta a fradaria,
que nesta casa Carmela
não cabia refestela,
mas recolheram-se enfim
cada qual ao seu celim,
e eu fiquei na minha cela.
AO VIGARIO DA VILLA DE S. FRANCISCO POR HUMA PENDENCIA,
QUE TEVE COM HUM OURIVES A RESPEYTO DE HUMA MULATA, QUE
SE DIZIA CORRER POR SUA CONTA.
Naquele grande motim,
onde acudiu tanta gente,
a título de valente
também veio valentim:
puxou pelo seu faim,
e tirando-lhe a barriga,
você se quer, que lho diga,
disse ao Ourives da prata,
na obra desta Mulata
mete muita falsa liga:
Briga, briga.
É homem tão desalmado,
que por lhe a prata faltar,
a estar sempre a trabalhar
bate no vaso sagrado:
não vê que está excomungado,
porque com tanta fadiga
a peça da igreja obriga
numa casa excomungada
com censura reservada,
pela qual Deus o castiga:
Briga, briga.
Porque com modos violentos
a um vigário tão capaz
sobre quatro, que já traz,
cornos, lhe põe quatrocentos!
deixe-se desses intentos,
e reponha a rapariga,
pois a repô-la se obriga,
quando afirma, que a possui,
e se a razão não conclui,
vai esta ponta à barriga:
Briga, briga.
Senhor Ourives, você
não é ourives da prata?
pois que quer dessa Mulata,
que cobre, ou tambaca é?
Restitua a Moça, que
é peça da Igreja antiga:
restitua a rapariga,
que se vingará o Vigário
talvez no confessionário,
e talvez na desobriga:
Briga, briga.
A Mulata já lhe pesa
de trocar odre por odre,
pois o leigo é membro podre,
e o Padre membro da igreja:
sempre esta telha goteja,
sempre dá grão esta espiga,
e a bola da rapariga
quer desfazer esta troca,
e deixando a sua toca
quer fazer co Padre liga
Briga, briga.
Largai a Mulata, e seja
logo logo a bom partido,
que como tem delinqüido
se quer acolher à igreja:
porque todo o mundo veja,
que quando a carne inimiga
tenta a uma rapariga,
quer no cabo, quer no rabo
a Igreja vence ao diabo
com outra qualquer cantiga.
Briga, briga.
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