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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos





CAPÍTULO I

Gregório de Matos


A NOSSA SÉ DA BAHIA

com ser um mapa de festas
é um presépio de bestas.
e se nisto maldigo ou me engano,
eu me submeto à Santa Madre Igreja.

Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis Religioso
chamai-lhe embora de Frade
Jesu, nome de Jesu!



AOS CAPITULARES DO SEU TEMPO.



A nossa Sé da Bahia,
com ser um mapa de festas,
é um presépio de bestas,
se não for estrebaria:
várias bestas cada dia
vemos, que o sino congrega,
Caveira mula galega,
o Deão burrinha parda,
Pereira besta de albarda,
tudo para a Sé se agrega.



PONDERA ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO QUAM GLORIOSA
HE A PAZ DA RELIGIÃO.



Quem da religiosa vida não se namora, e agrada,
já tem a alma danada,
e a graça de Deus perdida:
uma vida tão medida
pela vontade dos Céus,
que humildes ganham troféus,
e tal glória se desfruta,
que na mesa a Deus se escuta,
no Coro se louva a Deus.


Esta vida religiosa
tão sossegada, e segura
a toda a boa alma apura,
afugenta a alma viciosa:
há cousa mais deliciosa,
que achar o jantar, e almoço
sem cuidado, e sem sobrosso
tendo no bom, e mau ano
sempre o pão quotidiano,
e escusar o Padre nosso!

Há cousa como escutar
o silêncio, que a garrida
toca depois da comida
pare cozer o jantar!
há cousa como calar,
e estar só na minha cela
considerando a panela,
que cheirava, e recendia
no gosto de malvasia
na grandeza da tigela!


Há cousa como estar vendo
uma só Mãe religião
sustentar a tanto Irmão
mais, ou menos Reverendo!
há maior gosto, ao que entendo,
que agradar ao meu Prelado,
para ser dele estimado,
se ao obedecer-lhe me animo,
e depois de tanto mimo
ganhar o Céu de contado!


Dirão réprobos, e réus,
que a sujeição é fastio,
pois para que é o alvedrio,
senão para o dar a Deus:
quem mais o sujeita aos céus,
esse mais livre se vê,
que Deus (como ensina a fé)
nos deixou livre a vontade,
e o mais é mor falsidade,
que os montes de Gelboé.


Oh quem, meu Jesus amante,
do Frade mais descontente
me fizera tão parente,
que fora eu seu semelhante!
Quem me vira neste instante
tão solteiro, qual eu era,
que na Ordem mas austera
comera o vosso maná!
Mas nunca direi, que lá
virá a fresca Primavera.



AO ILUSTRISSIMO SENHOR D. Fr. MANUEL DA RESURREYÇÃO.


Subi a púrpura já, raio luzente
Do sol Americano, que em dourado
Dossel o Tibre vos verá sagrado
Dar um dia leis à sua corrente.


Entonces da Tiara a vossa frente,
E vosso Patriarca coroado
Um redil deveremos, e um cajado
Às vossas claves, e a seu zelo ardente.


Subi a cumes tão esclarecidos,
ó vos, de cuja remendada capa
sombras são já purpúreos resplandores.


Em quem divinamente reunidos
Os brasões de Seráfico, e de Papa
Verão os vossos dous Progenitores.



A MORTE DO MESMO SENHOR SUCCEDIDA DE HUMA FEBRE
MALIGNA EM BELLEM ANDANDO EM VISITA.


Neste túmulo a cinzas reduzido
Da virtude o Herói mais portentoso
Se oculta, feito estrago lastimoso
Da dura Parca, de que foi vencido.


De um incêndio cruel ficou rendido
Aquele peito forte, e valeroso,
Que por Deus tantas vezes amoroso
Tinha grandes incêndios padecido.


Porém a Parca andou muito advertida
Em Ihe tirar a vida desta sorte,
E tirana não foi, sendo homicida.


Que se o matou em um incêndio forte,
Foi, porque se de incêndios teve a vida,
De incêndios era bem tivesse a morte.



EPITÁFIO À SEPULTURA DO MESMO EXmo. SENHOR ARCEBISPO


Este mármore encerra, ó Peregrino,
Se bem, que a nossos olhos já guardado,
Aquele, que na terra foi sagrado,
Para que lá no céu fosse divino.


De seu merecimento justo, e digno
Prêmio, pois na terra nunca irado
Se viu o seu poder, e o seu cajado
Neste nosso hemisfério ultramarino.


Enfim relíquias de um Prelado santo
Oculta este piedoso monumento:
As lágrimas detém, enxuga o pranto.


Prosta-te reverente, e beija atento
As cinzas, de quem deu ao mundo espanto,
E a todos os Prelados documento.



A CHEGADA DO ILLUSTRISSIMO SENHOR D. JOÃO FRANCO DE
OLIVEYRA TENDO SIDO JA BISPO EM ANGOLLA.


Hoje os Matos incultos da Bahia
Se não suave for, ruidosarnente
Cantem a boa vinda do Eminente
Príncipe desta Sacra Monarquia.


Hoje em Roma de Pedro se Ihe fia
Segunda vez a Barca, e o Tridente,
Porque a pesca, que fez já no Oriente,
A destinou para a do meio-dia.


Oh se quisera Deus, que sendo ouvida
A Musa bronca dos incultos Matos
Ficasse a vossa púrpura atraída!


Oh se como Arion, que a doces tratos
Uma pedra atraiu endurecida,
Atraísse eu, Senhor, vossos sapatos!



A FROTA EM QUE VEYO O PALLIOLO DESTE GRANDE PRELADO.


Tal frota nunca viram as idades
De rota, desmembrada, e detençosa,
Mui Santa deve ser, e religiosa,
Pois de dous em dous veio, como frades.


Não Ihe duvido eu destas qualidades,
Se veio na Almirante venturosa
Aquela insígnia Santa, e poderosa,
Que à Mitra episcopal dá potestades.


Chegou o Pálio enfim, que de um Prelado,
Que nos veio a medida do desejo
Tão merecido foi, como esperado.


Eu ouço repicar, e folgar vejo:
Repica a Sé, o Carmo está folgado,
Louco devo eu de ser, pois não doudejo.



AO MESMO ILLUSTRISSIMO SENHOR CHEGANDO DE VISITA A VILLA
DE S. FRANCISCO, ONDE Ò ESPERAVAM MUYTOS CLERIGOS PARA
TOMAREM ORDENS.


Bem-vindo seja, Senhor, Vossa llustríssima
A este sítio famoso do Seráfico,
Onde nesta canção de verso alcaico
Ouça a ovelha balar sua amantíssima


Aqui verá correr água claríssima
Do grande Seregipe rio antártico,
Onde para tomar o eclesiástico
Caráter Santo há gente prestantíssima.


Aqui de Pedro a rede celebérrima
Cuido, que fez os lanços hiperbólicos,
Que na Bíblia se lêem Santa integérrima.


Porque estes Pescadores tão católicos
Nunca uma pesca fazem tão pulquérrima,
Que os buchos nos não deixem melancólicos.



A MAGNIFICENCIA COM QUE OS MORADORES DAQUELLA VlLLA
RECEBERAM O DITO SENHOR COM VARIOS ARTIFICIOS DE FOGO POR MAR, E TERRA CONCORRENDO PARA A DESPEZA O VIGARIO.


Apareceram tão belas
no mar canoas, e truzes,
que se o céu é mar de luzes,
o mar era um céu de estrelas:
era uma armada sem velas
movida de outro elemento,
era um prodígio, um portento
ver com tanto desafogo
esta navegar com fogo,
se outras arribam com vento.


Sua Ilustríssima estava
assustado sobre absorto,
porque via um rio morto
o fogo, em que se abrasava:
grande cuidado Ihe dava ver,
que o mar morria então
infamado na opinião,
e como um judeu queimado,
sendo, que o mar é sagrado,
que inda é mais que ser cristão.


Lá no vale ardia o ar,
e por ser, comua a guerra,
no mar há fogo de terra,
na terra há fogo do mar:
toda a esfera a retumbar
fazia correspondência,
e com alegre aparênca
luzia na ardente empresa
fogo do ar por alteza,
e do mar por excelência.


Em cima as rodas paravam,
que varia a fortuna toda
desandava a sua roda,
e as do fogo não paravam:
os mestres se envergonhavam,
que era Lourenço, e Diogo:
e eu vi, que a Lourenço logo
a face se quebrantava,
com que a mim mais me queimava
o seu rosto, que o seu fogo.


Deu-se fogo em conclusão
a uma roda de encomenda,
foi como a minha fazenda,
que ardeu num abrir de mão:
estava em meio do chão
um rasto, para que ardesse
uma câmara, e parece,
que uma faísca caiu,
disparou: quem jamais viu,
que o fogo em câmeras desse.


Era grande a multidão
do Clero, e dos Seculares,
que a graça destes folgares
consiste na confusão:
Sua llustríssima então
se foi, que o fogo não zomba,
aqui queima, ali arromba:
segue-lhe o vigário os trilhos,
que as rodas não tinham filhos
mas pariam muita bomba.


A gente ficou pasmada,
porque viu a gente toda,
que era a resposta da roda
de bombarda respostada:
ficou a turba enganada,
porque enfim nos perturbarnos:
mas todos nos alegramos,
que isto somos, e isso fomos,
que então alegres nos pomos
quando mais nos enganamos.


Entre o desar, e entre o risco
a noite alegre passou:
que mais noite! se a gabou
té o Padre São Francisco:
nas mais paróquias foi cisco,
foi sombra, foi ar, foi nada
do nosso Prelado a entrada,
e a desconfiança é vã
de o Cura ter bolsa chã,
se a vontade é tão sobrada.



OBRIGADOS OS ORDENANDOS A CANTAR O CANTO CHAM DESAFINARAM PERTURBADOS A VISTA DO PRELADO, E OS OBRIGOU, A QUE ESTUDASSEM OS SETTE SIGNOS. CELEBRA O POETA ESTE CASO, E LOUVA A PREDICA, QUE FEZ SUA ILLUSTRISSIMA.


Senhor; os Padres daqui
por b quadro, e por b mol
cantam bem ré mi fá sol,
cantam mal lá sol fá mi:
a razão, que eu nisto ouvi,
e tenho para vos dar,
é, que como no ordenar
fazem tanto por luzir,
cantam bem para subir,
cantam mal para baixar.


Porém como cantariam
os pobres perante vós?
tão bem cantariam sós,
quão mal, onde vos ouviam:
quando o fabordão erguiam
cad'um parece, que berra,
e se um dissona, o outro erra,
mui justo me pareceu,
que sempre à vista do Céu
fique abatido, o que é terra.


Os Padres cantaram mal
como está já pressuposto,
e inda assim vos deram gosto,
que eu vi no riso o sinal.
foi-se logo cada qual
direito às suas pousadas
a estudar nas tabuadas
da música os sete signos,
não por cantar a Deus hinos,
mas por vos dar badaladas.


Vós com voz tão doce, e grata
enleastes meus sentidos,
que ficaram meus ouvidos,
engastados nessa prata:
tanto o povo se desata
ouvindo os vossos espritos!
que com laudatórios gritos
dou eu fé, que uma Donzela
disse, qual outra Marcela,
o cântico Benedictus.



A MORTE VIOLENTA QUE LUIZ FERREYRA DE NORONHA CAPITÃO DA GUARDA DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DEO À JOZÉ DE MELLO SOBRINHO DESTE PRELADO.


Brilha em seu auge a mais luzida estrela,
Em sua pompa existe a flor mais pura,
Se esta do prado frágil formosura,
Brilhante ostentação do céu aquela.


Quando ousada uma nuvem a atropela,
Se a outra troca em lástima a candura,
Que há também para estrelas sombra escura,
Se para flores há, quem as não zela.


Estrela e flor, José, em ti se encerra,
Porque ser flor, e estrela mereceu
Teu garbo, a quem a Parca hoje desterra.


E para se admirar o indulto teu,
Como flor te sepultas cá na terra,
Como estrela ressurges lá no céu.



AO RETIRO QUE FES ESTE ILLUSTRISSIMO PRELADO SENTIDISSIMO, E MAGUADO PELA TYRANNA, E VIOLENTA MORTE QUE O CAPITÃO DA GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA DEO A SEU SOBRINHO.


Um benemérito peito,
uma Sacra Dignidade
sentir vem na soledade
da parca o cruel efeito:
que de um golpe sem respeito
quis cortar o vital fio,
sem atender Senhorio,
nem ver, o despojo horrendo,
de quem se agravara, vendo
desautorizado o brio.


Já de todo o mal distando
em Belém busca o retiro,
onde um, e outro suspiro
a pena estão aumentando:
e no pesar contemplando
jamais será divertido,
vendo de todo perdido
por culpa de um traidor vil
aquele Adônis gentil
a cadáver reduzido


Se a lei se deve observar,
como agora falta, e tarda?
a Justiça apenas guarda,
que agradou por aguardar:
privou por se depravar
pela via nunca usada,
deu ao vício franca entrada,
e bem se pode entender,
que enquanto vivo há de ser
privado pela privada.


Mas que muito haja amparado
um Calígula tirano
a seu amigo inumano
Capitão de cama, e lado?
o vulgo tem murmurado,
e a maldade não se doma,
e a sem-razão, que se assoma,
como demais já sobeja
contra um Ministro da Igreja
um nefando de Sodoma.

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