CRISÁLIDAS
Machado de Assis
ÚLTIMA FOLHA
Tout passe,
Tout fuit.
V. HUGO
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.
Dos teus cabelos
de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.
Vês? Não
é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente.
Vês? Lá
ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.
Desce. Virá
um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.
Então
coroarás a ingênua fronte
Das flores da manhã, - e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!
Então,
nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;
Quando, já
finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;
E o rio, a árvore
e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;
Então
sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza,
A ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então
será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;
Lá onde,
abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!
Musa, desce
do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia!
FIM
POSFÁCIO
CARTA AO
DR. CAETANO FILGUEIRAS
Meu amigo.
Agora que o leitor frio e severo pôde comparar o meu pobre
livro com a tua crítica benévola e amiga, deixa-me
dizer-te rapidamente duas palavras.
Recordaste os nossos amigos, poetas na adolescência, hoje
idos para sempre dos nossos olhos e da glória que os esperava.
Tão piedosa evocação será o paládio
do meu livro, como o é a tua carta de recomendação.
Vai longe esse tempo. Guardo a lembrança dele, tão
viva como a saudade que ainda sinto, mas já sem aquelas ilusões
que o tornavam tão doce ao nosso espírito. O tempo
não corre em vão para os que desde o berço
foram condenados ao duelo infausto entre a aspiração
e a realidade. Cada ano foi uma lufada que desprendeu da árvore
da mocidade, não só uma alma querida, como uma ilusão
consoladora.
A tua pena encontrou expressões de verdade e de sentimento
para descrever as nossas confabulações de poetas,
tão serenas e tão íntimas. Tiveste o condão
de transportar-me a essas práticas da adolescência
poética; lendo a tua carta pareceu-me ouvir aqueles que hoje
repousam nos seus túmulos, e ouvindo dentro de mim um ruído
de aplauso sincero às tuas expressões, afigurava-se-me
que eram eles que te aplaudiam, como no outro tempo, na tua pequena
e faceira salinha.
Essa recordação bastava para felicitar o meu livro.
Mas onde não vai a amizade e a crítica benevolente?
Foste além: - traduziste para o papel as tuas impressões
que eu, - mesmo despido desta modéstia oficial dos preâmbulos
e dos epílogos, - não posso deixar de aceitar como
parciais e filhas do coração. Bem sabes como o coração
pode levar a injustiças involuntárias, apesar de todo
o empenho em manter uma imparcialidade perfeita.
Não, o meu livro não vai aparecer como o resultado
de uma vocação superior. Confesso o que me falta que
é para ter direito de reclamar o pouco que possuo. O meu
livro é esse pouco que tu caracterizaste tão bem atribuindo
os meus versos a um desejo secreto de expansão; não
curo de escolas ou teorias; no culto das musas não sou um
sacerdote, sou um fiel obscuro da vasta multidão dos fiéis.
Tal sou eu, tal deve ser apreciado o meu livro; nem mais, nem menos.
Foi assim que eu cultivei a poesia. Se cometi um erro, tenho cúmplices,
tu e tantos outros, mortos, e ainda vivos. Animaram-me, e bem sabes
o que vale uma animação para os infantes da poesia.
Muitas vezes é a sua perdição. Sê-lo-ia
para mim? O público que responda.
Não incluí neste volume todos os meus versos. Faltou-me
o tempo para coligir e corrigir muitos deles, filhos das primeiras
incertezas. Vão porém todos, ou quase todos os versos
de recente data. Se um escrúpulo de não acumular muita
coisa sem valor me não detivesse, este primeiro volume sairia
menos magro do que é; entre os dois inconvenientes preferi
o segundo.
Como sabes, publicando os meus versos cedo às solicitações
de alguns amigos, a cuja frente te puseste. Devo declará-lo,
para que não recaia sobre mim exclusivamente a responsabilidade
do livro. Denuncio os cúmplices para que sofram a sentença.
Não te bastou animar-me a realizar esta publicação;
a tua lealdade quis que tomasses parte no cometimento, e com a tua
própria firma selaste a tua confissão. Agradeço-te
o ato e o modo por que o praticaste. E se a tua bela carta não
puder salvar o meu livro de um insucesso fatal, nem por isso deixarei
de estender-te amigável e fraternalmente a mão.
MACHADO DE
ASSIS
RIO DE JANEIRO, 1° DE SETEMBRO
DE 1864
NOTAS
* locubrações, no original
* Na errata da edição original consta travesso
** Neologismo do autor do prefácio, significando a qualidade
de ser aéreo.
* Corrigido da errata. No original consta mais inspirado, e talvex,
etc...
** Bioco, no original. Corrigido na errata
* Conforme o original, embora a grafia correta devesse ser mueveme
* Note-se a cacofonia, como no original.
** Césu, no original, corrigido na errata.
* Na errata, o verso escreve-se: Dando-lhes pão, guarida,
amparo, leito e amor.
* No original, as aspas não fecham.
** Foi mantida a forma arcaica em razão da métrica.
* No original, as aspas não fecham.
* No original, a letra z está invertida.
* Conforme o original , sem menção na errata. A forma
correta seria gloire.
* O autor optou por este título em suas Poesias Completas.
* Manteve-se o travessão, tal como na edição
original.
* No original consta desfolha, na errata, esfolha: possivelmente
para caber na métrica, em decassílabos.
* Sem acento circunflexo, no original.
* Todos os grifos são do autor do poema, conforme original.
* Na errata consta Nume, por Nome.
* Na errata lê-se o por ó.
* No original está ceiava
* No original está ...os neblinas. Não houve menção
na errata.
* Na errata constam os versos seguintes:
Como a areia
Como a areia confundir.
* No original das mãos corrigido na errata..
* Manteve-se o acento para evitar a homofonia fôrma, tal como
é a lição do autor.
* Este o famoso verso, legenda que a estátua de Machado de
Assis traz ao pé, na Academia Brasileira de Letras. ( Nota
do Pesquisador)
NOTAS DO AUTOR
1 E ao som dos
nossos cânticos; etc.
Estes versos são postos na boca de uma hebréia. Foram
recitados no Ateneu Dramático pela eminente artista D. Gabriela
da Cunha, por ocasião da exibição de um quadro
do cenógrafo João Caetano, representando o dilúvio
universal.
2 Foi com alguma
hesitação que eu fiz inserir no volume estes versos.
Já bastava o arrojo de traduzir a maviosa elegia de Chenier.
Poderia eu conservar a grave simplicidade do original? A animação
de um amigo decidiu-me a não imolar o trabalho já
feito; aí fica a poesia; se me sair mal, corre por conta
do amigo anônimo.
3 Esta poesia,
como se terá visto, é a resposta que me deu o meu
amigo F. X. de Novaes, a quem foram dirigidos os versos anteriores.
Tão bom amigo e tão belo nome tinham direito de figurar
neste livro. O leitor apreciará, sem dúvida, a dificuldade
vencida pelo poeta que me respondeu em estilo faceto, no mesmo tom
e pelos mesmos consoantes.
4 Este canto
é tirado de uma tragédia de M.me Emile de Girardin.
O escravo, tendo visto coroado o seu amor pela rainha do Egito,
é condenado a morrer. Com a taça em punho, entoa o
belo canto de que fiz esta mal amanhada paráfrase.
5 Esta poesia
foi recitada no Clube Fluminense, num sarau literário. Pareceu
então que eu fazia sátira pessoal. Não fiz.
A sátira abrange uma classe que se encontra em todas as cenas
políticas, - é a classe daqueles que, como se exprime
um escritor, depois de darem ao povo todas as insígnias da
realeza, quiseram completar-lha, fazendo-se eles próprios
os bobos do povo.
6 Eras livre,
tão livre como as águas
Do teu formoso, celebrado rio.
O rio a que aludem os versos é o Niemen. É um dos
rios mais cantados pelos poetas polacos. Há um soneto de
Mickiewicz ao Niemen, que me agradou muito, apesar da prosa francesa
em que o li, e do qual escreve um crítico polaco: "
Há nesta página uma cantilena a que não resiste
nenhum ouvido eslavo; foi posta em música pelo célebre
Kurpinski. Assim consagrado, o soneto de Niemen correu toda a Polônia,
e só deixará de viver quando deixarem de correr as
águas daquele rio."
Foi a hora dos hinos e das preces.
Alude às cenas da Varsóvia, em que este admirável
povo ia aos templos cantar ladainhas sobre a música dos hinos
nacionais, a despeito da invasão da tropa armada nas igrejas.
É sabido que por esse motivo se fecharam os templos.
7 Em 1858, eu
e o meu finado amigo F. Gonçalves Braga resolvemos fazer
uma tradução livre ou paráfrase destes versos
de Alexandre Dumas filho. No dia aprazado apresentamos e confrontamos
o nosso trabalho. A tradução dele foi publicada, não
me lembro em que jornal.
8 .............
Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas, etc.
O Dr. Caetano Filgueiras trabalha há tempos num livro de
que são as rosas o título e o objeto. É um
trabalho curioso de erudição e de fantasia; o assunto
requer, na verdade, um poeta e um erudito. É a isso que aludem
estes últimos versos.
9 A dedicatória
desta poesia ao padre-mestre Silveira Sarmento é um justo
tributo pago ao talento, e à amizade que sempre me votou
este digno sacerdote. Pareceu-me que não podia fazer nada
mais próprio do que falar-lhe de Monte Alverne, que ele admirava,
como eu.
Não há nesta poesia só um tributo de amizade
e de admiração: há igualmente a lembrança
de um ano de minha vida. O padre-mestre, alguns anos mais velho
do que eu, fazia-se nesse tempo um modesto preceptor e um agradável
companheiro. Circunstâncias da vida nos separaram até
hoje.
10 Este canto
é extraído de um poema do poeta polaco Mickiewicz,
denominado Conrado Wallenrod. Não sei como corresponderá
ao original; eu servi-me da tradução francesa do polaco
Christiano Ostrowski.
11 As três
primeiras poesias desta coleção foram publicadas sob
o anônimo nas colunas do Correio Mercantil; a quarta e quinta
saíram no Diário do Rio, sendo esta última
assinada. A sexta é inteiramente inédita.
MINISTÉRIO
DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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