UM
CREDOR DA FAZENDA NACIONAL
Qorpo-Santo
ATO SEGUNDO
Salão em que
trabalham diversas secções
CREDOR (entrando)
- É a vigésima... não me lembro se quinta ou sétima
vez que venho
a esta casa haver aluguéis de casa! E talvez ainda hoje saia sem
dinheiro! (À parte: ) Mas eles hão de se arranjar! (A um
dos empregados, o Contador: )Vossa Senhoria faz-me o obséquio de
dizer se está despachando o conteúdo, ou quer que seja,
quando a um requerimento que aqui tenho?
CONTADOR - Será... (lendo) Castro... Car... Cirilo, Dilermando!?
CREDOR - Não! É um requerimento meu, assinado - José
Joaqim de Qampos Leão,
Qorpo-Santo.
CONTADOR - Ah! Esse está no chefe da quarta secção.
CREDOR - Bem, então lá irei.(Dirigindo-se ao chefe: )Faz-me
o obséquio de dizer se já
está despachado um requerimento que aqui tenho?
CHEFE (apontado) - Fale ali com o Sr. Barbosa.
CREDOR (dirigindo-se a este) - Ainda não encontrou o que procurava
a meu respeito?
BARBOSA - Ainda não! Há aqui tantos papéis!
CREDOR - Ora, com efeito! Pois tanto custa ver um ofício da Presidência,
ou ver o
assentamento que em virtude desse ofício deve existir no livro
competente? Isto é, no mesmo em que se acham debitados tais aluguéis!?
(Senta-se.)
CHEFE - V. Exa. Não adianta nada em esperar aqui! Antes atrasa
o serviço para conseguir
o que quer; deixe estar que está se trabalhando!
CREDOR - Eu, nem venho interromper, nem venho adiantar! Mas apenas saber!
Parece-
me cousa tão simples; tão fácil...
BARBOSA - São três ofícios da Presidência que
o Sr. Inspetor quer ver! Não é um só.
CREDOR - Srs., eu já sei o que hei de fazer, o que os Srs. querem!
Voltarei em tempo!
(Ao sair, encontra-se com outro.)
O OUTRO - Então, não!? (Dá-lhe uma caixa de fósforos.)
CREDOR - Estou doente; e assim fico todas as vezes que venho a esta casa,
e dela saio
sem dinheiro!
O OUTRO - Então fico eu pelo Sr.! (O Credor sai; e o Outro entra.)
O OUTRO - Muito custa esta casa pagar a quem deve! Faz-se uma dúzia
de requerimentos
para se obter um despacho! Cada requerimento leva outra dúzia de
informações! O
despacho definitivo obtém-se por milagre! E a paga ou dinheiro
que a alguém se deve - quase à força, ou pela força!
UM DOS EMPREGADOS - (para esse Indivíduo) - Com efeito! O Sr. é
audaz de mais!
O OUTRO - Não! Não é por audácia! É
apenas referir o que se passa... o que é verídico!
EMPREGADO - Sim; mas nós não temos culpa!
O OUTRO- Nem eu inculpo a alguém! Mas receio, Srs., que os numerosos
incômodos que
tenho sofrimento, pelo procedimento que esta repartição
para comigo - vai tendo; os vexames; as faltas; as privações;
e até as enfermidades que tem me causado e numerosos outros transtornos,
farão de repente com que se espalhe fogo nestes papéis -
e tudo se incendie (Toca uma caixa de fósforos numa mesa; esta
incendeia-se; ele a atira para as mesas de um dos lados; faz o mesmo à
outra, e atira para outro lado; enquanto os empregados trabalham para
apagar o fogo em alguns papéis que começam a incendiar-se,
ele sai.)
(Já se vê que há descompostura; repreensões;
atropelamento, carreiras em busca d' água; ligeireza para se-apagar;
aparecimento de alguns outros empregados, ao ouvirem o grito de fogo,
etc.
Pode acabar assim; ou com a cena da entrada do Inspector, repreendendo
a todos pelo mal que cumprem seus deveres; e terminando por atirarem com
livros e penas; atracações e descomposturas etc.)
Por
José Joaquim
de Campos Leão Qorpo-Santo.
Em Porto Alegre, de
26 a 27 de Maio de 1866.
Um Credor da Fazenda
Nacional, de Qorpo Santo
Fonte:
LEÃO, José Joaquim de Campos (Qorpo Santo). "Um Credor
da Fazenda Nacional". Teatro Completo, Guilhermino César (org).
Rio de Janeiro : Serviço Nacional de Teatro/ Fundação
Nacional de Arte, 1980. p. 137-145 (Clássicos do Teatro Brasileiro,
4).
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
Selma Suely Teixeira - Curitiba/PR
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