O CORTIÇO
Aluisio Azevedo
CAPÍTULO XI
A Bruxa, por influência sugestiva da loucura de Marciana, piorou
do juízo e tentou incendiar o cortiço.
Enquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ela, com todo o
disfarce, carregava palha e sarrafos para o número 12 e preparava
uma fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as conseqüências
foram do mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando
como aquela ao fogo, não escaparam à devastação
da polícia. Algumas ficaram completamente assoladas. E a coisa
seria ainda mais feia, se não viera o providencial aguaceiro apagar
também o outro incêndio ainda pior, que, de parte a parte,
lavrava nos ânimos. A polícia retirou-se sem levar nenhum
preso. "A ir um iriam todos à estação! Deus
te livre! Demais, para quê? o que ela queria fazer, fez! Estava
satisfeita!"
Apesar do empenho do João Romão, ninguém conseguiu
descobrir o autor da sinistra tentativa, e só muito tarde cada
qual cuidou de pregar olho, depois de reacomodar, entre plangentes lamentações,
o que se salvou do destroço. O tempo levantou de novo à
meia-noite. Ao romper da aurora já muita gente estava de pé
e o vendeiro passava uma revista minuciosa no pátio, avaliando
e carpindo, inconsolável e furioso, o seu prejuízo. De vez
em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam os urbanos
dentro das casas, havia muita tina partida, muito jirau quebrado, lampiões
em fanicos, hortas e cercas arrasadas; o portão da frente e a tabuleta
foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para cobrir
o dano, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem, aumentando-lhes
o aluguel dos cômodos e o preço dos gêneros. Viu-se
numa dobadoura durante o dia inteiro; desde pela manhã dera logo
as providências para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa
possível: mandou buscar novas tinas; fabricar novos jiraus e consertar
os quebrados; pôs gente a remendar o portão e a tabuleta.
Ao meio-dia teve de comparecer à presença do subdelegado
na secretaria da polícia. Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias;
muitos do cortiço o acompanharam, quer por espírito de camaradagem,
quer por simples curiosidade.
Uma verdadeira patuscada esse passeio à cidade! Parecia uma romaria;
algumas mulheres levaram os seus pequenitos ao colo; um magote de italianos
ia à frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns cantavam.
Ninguém tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e altercaram
em grande troça, comentando com gargalhadas e chalaças gordas
o que iam encontrando, a chamar a atenção das ruas por onde
desfilava a ruidosa farândola.
A sala da polícia encheu-se.
O interrogatório, exclusivamente dirigido a João Romão,
era respondido por todos a um só tempo, a despeito dos protestos
e das ameaças da autoridade, que se viu tonta. Nenhum deles nada
esclarecia e todos se queixavam da polícia, exagerando as perdas
recebidas na véspera.
A respeito de como se travara o conflito e quem o provocara, o taverneiro
declarou que nada podia saber ao certo, porque na ocasião se achava
ausente da estalagem. De que tinha certeza era de que as praças
lhe invadiram a propriedade e puseram em cacos tudo o que encontraram,
como se aquilo lá fosse roupa de francês!
- Bem feito! bradou o subdelegado. Não resistissem!
Um coro de respostas assanhadas levantou-se para justificar a resistência.
"Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam os morcegos, quando
lhes não saia alguém pela frente! Esbodegavam até
à última, só pelo gostinho de fazer mal! Pois então
uma criatura, porque estava a divertir-se um bocado com os amigos, havia
de ser aperreada que nem boi ladrão?... Tinha lá jeito?
Os rolos era sempre a polícia quem os levantava com as suas fúrias!
Não se metesse ela na vida de quem vivia sossegado no seu canto,
e não seria tanto barulho!..." Como de costume, o espírito
de coletividade, que unia aquela gente em circulo de ferro, impediu que
transpirasse o menor vislumbre de denúncia. O subdelegado, depois
de dirigir-se inutilmente a um por um, despachou o bando, que fez logo
a sua retirada, no meio de uma alacridade mais quente ainda que a da ida.
Lá no cortiço, de portas adentro, podiam esfaquear-se à
vontade, que nenhum deles, e muito menos a vitima, seria capaz de apontar
o criminoso; tanto que o médico, que, logo depois da invasão
da polícia, desceu da casa do Miranda à estalagem, para
socorrer Jerônimo, não conseguiu arrancar deste o menor esclarecimento
sobre o motivo da navalhada. "Não fora nada!... Não
fora de propósito!... Estavam a brincar e sucedera aquilo!... Ninguém
tivera a menor intenção de fazer-lhe mossa!..."
Rita mostrou-se de uma incansável solicitude para com o ferido.
Foi ela quem correu a buscar os remédios, quem serviu de ajudante
ao medico e quem serviu de enfermeira ao doente. Muitos lá iam,
demorando-se um instante, para dar fé; ela, porém, desde
que Jerônimo se achou operado, não lhe abandonou a cabeceira;
ao passo que Piedade, aflita e atarantada, não fazia senão
chorar e arreliar-se.
A mulata, essa não chorava; mas a sua fisionomia tinha uma profunda
expressão de mágoa enternecida. Agora toda ela se sentia
apegar-se àquele homem bom e forte; àquele gigante inofensivo,
àquele Hércules tranqüilo que mataria o Firmo com uma
punhada, mas que, na sua boa-fé, se deixara navalhar pelo facínora.
"E tudo por causa dela! só por ela!" Seu coração
de mulher rendia-se cativo a semelhante dedicação ensangüentada
e dolorosa. E ele, o mísero, interrompia as contrações
do rosto para sorrir defronte dos olhos enamorados da baiana, feliz naquela
desgraça que lhe permitia gozar dos seus carinhos. E tomava-lhe
as mãos, e cingia-lhe a cintura, resignado e comovido, sem uma
palavra, sem um gesto, mas a dizer bem claro, na sua dor silenciosa e
quieta de animal ferido, que a amava muito, que a amava loucamente.
Rita afagava-o, já sem a menor sombra de escrúpulo, tratando-o
por tu, ameigando-lhe os cabelos sujos de sangue com a polpa macia da
sua mão feminil. E ali mesmo em presença da mulher dele
só faltava beijá-lo com a boca, que com os olhos o devorava
de beijos ardentes e sequiosos.
Depois da meia-noite dada, ela e Piedade ficaram sozinhas velando o enfermo.
Deliberou-se que este iria pela manhã para a Ordem de Santo Antônio,
de que era irmão. E, com efeito, no dia imediato, enquanto o vendeiro
e seu bando andavam lá às voltas com a polícia, e
o resto do cortiço formigava, tagarelando em volta do conserto
das tinas e jiraus, Jerônimo, ao lado da mulher e da Rita, seguia
dentro de um carro para o hospital.
As duas só voltaram de lá à noite, caindo de fadiga.
De resto, toda a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo pela
cama, se bem que nesse dia as lavadeiras em geral gazeassem o trabalho;
as que tinham roupa com mais pressa foram lavar fora ou arrastaram bacias
de banho para debaixo das bicas, à falta de melhor vasilha para
o serviço. Discutiu-se a campanha da véspera sem variar
o assunto. Aqui era um que lembrava as suas proezas com os urbanos, descrevendo
entusiasmado os pormenores da luta; ali, outro repetia, cheio de empáfia,
os desaforos que dissera depois nas bochechas da autoridade; mais adiante
trocavam-se queixas e recriminações; cada qual, mulheres
e homens, sofrera o seu prejuízo ou a sua arranhadura, e mostravam
entre si, numa febre de indignação, os objetos partidos
ou a parte do corpo escoriada.
Mas às nove da noite já não havia viva alma no pátio
da estalagem. A venda fechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza
atirou-se ao colchão, estrompada; João Romão recolheu-se
junto dela, porem não conseguiu dormir: sentia calafrios e pontadas
na cabeça. Chamou pela amiga, a gemer, e pediu-lhe que lhe desse
alguma coisa para suar. Supunha estar com febre.
A crioula só descansou quando, muitas horas adiante, depois de
mudar-lhe a roupa, o viu pegar no sono; e daí a pouco, às
quatro da madrugada, erguia-se ela, com estalos de juntas, a bocejar,
fungando no seu estremunhamento pesadão, e pigarreando forte. Acordou
o caixeiro para ir ao mercado; gargarejou um pouco da água à
torneira da cozinha e foi fazer fogo para o café dos trabalhadores,
riscando fósforos e acendendo cavacos num fogareiro, donde começaram
a borbotar grossos novelos de fumo espesso.
Lá fora clareava já, e a vida renascia no cortiço.
A luta de todos os dias continuava, como se não houvera interrupção.
Principiava o burburinho. Aquela noite bem dormida punha-os a todos de
bom humor.
Pombinha, entretanto, nessa manhã acordara abatida e nervosa, sem
animo de sair dos lençóis. Pediu café à mãe,
bebeu, e tornou a abraçar-se nos travesseiros, escondendo o rosto.
- Não te sentes melhor hoje, minha filha?... perguntou-lhe Dona
Isabel, apalpando-lhe a testa. Febre não tens.
- Ainda sinto o corpo mole... mas não é nada... isto passa!...
- Foi de tanto gelo, que tomaste em casa de madama!... Não te dizia?...
Agora, o melhor é dar-te um escalda-pés!...
- Não, não, por amor de Deus! Daqui a pouco estou em pé!
Às oito horas, com efeito, levantava-se e fazia, indolentemente,
o alinho da cabeça, defronte do seu modesto lavatório de
ferro. Dir-se-ia sem forças para a menor coisa; toda ela transpirava
uma contemplativa melancolia de convalescente; havia uma doce expressão
dolorosa na limpidez cristalina de seus olhos de moça enferma;
um pobre sorriso pálido a entreabrir-lhe as pétalas da boca,
sem lhe alegrar os lábios, que pareciam ressequidos à mingua
de beijos de amor; assim delicada planta murcha, languesce e morre, se
carinhosa borboleta não vai sacudir sobre ela as asas prenhes de
fecundo e dourado pólen.
O passeio à casa de Léonie fizera-lhe muito mal. Trouxe
de lá impressões de íntimos vexames, que nunca mais
se apagariam por toda a sua vida.
A cocote recebeu-a de braços abertos, radiante com apanhá-la
junto de si, naqueles divãs fofos e traidores, entre todo aquele
luxo extravagante e requintado próprio para os vícios grandes.
Ordenou à criada que não deixasse entrar ninguém,
ninguém, nem mesmo o Bebê, e assentou-se ao lado da menina,
bem juntinho uma da outra, tomando-lhe as mãos, fazendo-lhe uma
infinidade de perguntas, e pedindo-lhe beijos, que saboreava gemendo,
de olhos fechados.
Dona Isabel suspirava também, mas de outro modo: na sua parva compreensão
do conforto, aqueles impertinentes espelhos, aqueles móveis casquilhos
e aquelas cortinas escandalosas arrancavam-lhe saudosas recordações
do bom tempo e avivavam a sua impaciência por melhor futuro.
Ai! assim Deus quisesse ajudá-la!...
Às duas da tarde, Léonie, por sua própria mão
serviu às visitas um pequeno lanche de foie-gras, presunto e queijo,
acompanhado de champanha, gelo e água de Seltz; e, sem se descuidar
um instante da rapariga, tinha para ela extremas solicitudes de namorado;
levava-lhe a comida à boca, bebia do seu copo, apertava-lhe os
dedos por debaixo da mesa.
Depois da refeição, Dona Isabel, que não estava habituada
a tomar vinho, sentiu vontade de descansar o corpo; Léonie franqueou-lhe
um bom quarto, com boa cama, e, mal percebeu que a velha dormia, fechou
a porta pelo lado de fora, para melhor ficar em liberdade com a pequena.
Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
- Vem cá, minha flor!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se
cair sobre um divã. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou
louca por ti!
E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a
menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a
pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.
A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão.
- Descansemos nós também um pouco... propôs, arrastando-a
para a alcova.
Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa,
com vontade de afastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento,
tentou reatar o fio da conversa, que elas sustentavam um pouco antes,
à mesa, em presença de Dona Isabel. Léonie fingia
prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe
a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou
a desabotoar-lhe o corpinho do vestido.
- Não! Para quê!... Não quero despir-me...
- Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...
- Estou bem assim. Não quero!
- Que tolice a tua...! Não vês que sou mulher, tolinha?...
De que tens medo?... Olha! Vou dar exemplo!
E, num relance, desfez-se da roupa, e prosseguiu na campanha.
A menina, vendo-se descomposta, cruzou os braços sobre o seio,
vermelha de pudor.
- Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupila trêmula.
E, apesar dos protestos, das súplicas e até das lágrimas
da infeliz, arrancou-lhe a última vestimenta, e precipitou-se contra
ela, a beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os lábios o
róseo bico do peito.
- Oh! Oh! Deixa disso! Deixa disso! reclamava Pombinha estorcendo-se em
cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal,
que enlouqueciam a prostituta.
- Que mal faz?... Estamos brincando...
- Não! Não! balbuciou a vitima, repelindo-a.
- Sim! Sim! insistiu Léonie, fechando-a entre os braços,
como entre duas colunas; e pondo em contato com o dela todo o seu corpo
nu.
Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas irrequietas
sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o rogar vertiginoso
daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais
sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora
do sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.
Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em
crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida
de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de égua,
bufando e relinchando.
E metia-lhe a língua tesa pela boca e pelas orelhas, e esmagava-lhe
os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe
o lóbulo dos ombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabelo, como
se quisesse arrancá-lo aos punhados. Até que, com um assomo
mais forte, devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros
gritos, secos, curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, exânime,
inerte, os membros atirados num abandono de bêbedo, soltando de
instante a instante um soluço estrangulado.
A menina voltara a si e torcera-se logo em sentido contrário à
adversária, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o seu
pranto, envergonhada e corrida.
A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir abrir os olhos, procurou
animá-la, ameigando-lhe a nuca e as espáduas. Mas Pombinha
parecia inconsolável, e a outra teve de erguer-se a meio e puxá-la
como uma criança para o seu colo, onde ela foi ocultando o rosto,
a soluçar baixinho.
- Não chores assim, meu amor!...
Pombinha continuou a soluçar.
- Vamos! Não quero ver-te deste modo!... Estás zangada comigo?...
- Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzela,
desgalgando o leito para vestir-se.
- Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres
mal com a tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!...
- Deixe-me!
- Vem cá, Pombinha!
- Não vou! Já disse!
E vestia-se com movimentos de raiva. Léonie saltara para junto
dela e pôs-se a beijar-lhe, à força. os ouvidos e
o pescoço, fazendo se muito humilde, adulando-a, comprometendo-se
a ser sua escrava, e obedecer-lhe como um cachorrinho, contanto que aquela
tirana não se fosse assim zangada.
- Faço tudo! tudo! mas não fiques mal comigo! Ah! se soubesse
como eu te adoro!...
- Não sei! Largue-me!...
- Espera!
- Que amolação! Oh!
- Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus!
Pombinha acabava de encasar o último botão do corpinho,
e repuxava o pescoço e sacudia os braços, ajustando bem
a sua roupa ao corpo. Mas Léonie caíra-lhe aos pés,
enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias.
Olha!... Ouve!...
Deixa-me sair!
Não! Não hás de ir zangada, ou faço aqui um
escândalo dos diabos!
E que mamãe já acordou com certeza!...
- Que acordasse!
Agora a meretriz defendia a porta da alcova.
- Oh! meu Deus! Deixe-me sair!
- Não deixo, sem fazermos as pazes...
- Que aborrecimento!
- Dá-me um beijo!
- Não dou!
- Pois então não sais!
- Eu grito!
- Pois grita! Que me importa!
- Arrede-se daí, por favor!...
- Faz as pazes...
- Não estou zangada, creia! Estou é indisposta... Não
me sinto boa!
- Mas eu faço questão do beijo!
- Pois bem! Está ai!
E beijou-a.
- Não quero assim! Foi dado de má vontade!...
Pombinha deu-lhe outro.
- Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me! É um instante!
Em três tempos, lavou-se ligeiramente no bidê, endireitou
o penteado defronte do espelho, num movimento rápido de dedos,
e empoou-se, perfumou-se, e enfiou camisa, anágua e penteador,
tudo com uma expedição de quem está habituada a vestir-se
muitas vezes por dia. E, pronta, correu uma vista de olhos pela menina,
desenrugou-lhe a saia, consertou-lhe melhor os cabelos e, readquirindo
o seu ar tranqüilo de mulher ajuizada, tomou-a pela cintura e levou-a
vagarosamente até à sala de jantar, para tomarem vermute
com gasosa.
O jantar foi às seis e meia. Correu frio, não tanto por
parte de Pombinha, que aliás se mostrava bem incomodada, como porque
Dona Isabel, dormindo até o momento de a chamarem para mesa, sentia-se
aziada com o foie-gras. A dona da casa, todavia, não se forrou
a desvelos e fez por alegrá-las rindo e contando anedotas burlescas.
Ao café apareceu Jujú, que a criada levara a passear desde
logo depois do almoço, e uma afetação de agrados
levantou-se em torno da pequerrucha. Léonie pôs-se a conversar
com ela, falando como criança, dizendo-lhe que mostrasse a Dona
Isabel "o seu papatinho novo!"
Mais tarde, no terraço, enquanto fumava um cigarro, tomou a mão
de Pombinha e meteu-lhe no dedo um anel com um diamante cercado de pérolas.
A menina recusou o mimo, formalmente. Foi preciso a intervenção
da velha para que ela consentisse em aceitá-lo.
Às oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho para
a estalagem. Durante toda a viagem Pombinha parecia preocupada e triste.
- Que tens tu?... perguntou-lhe a mãe duas vezes.
E de ambas a filha respondeu:
- Nada! Aborrecimento...
No pouco que dormiu essa noite, que foi a do baralho com a polícia,
teve sonhos agitados e passou mal todo o dia seguinte, com molezas de
febre e dores no útero. Não arredou pé de casa, nem
para ver os destroços do conflito. A noticia do defloramento e
da fuga de Florinda, como a da loucura da velha Marciana, produziu-lhe
grande abalo nos nervos.
Na manhã imediata, a despeito de fazer-se forte, torceu o nariz
ao pobre almoço que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe
as dores uterinas, não vivas, mas constantes. Não teve ânimo
de pegar na costura, e um livro que ela tentou ler, foi por várias
vezes repelido.
Às onze para o meio-dia era tal o seu constrangimento e era tal
o seu desassossego entre as apertadas paredes do número 15, que,
malgrado os protestos da velha, saiu a dar uma volta por detrás
do cortiço, à sombra dos bambus e das mangueiras.
Uma irresistível necessidade de estar só, completamente
só, uma aflição de conversar consigo mesma, a apartava
no seu estreito quarto sufocante, tão tristonho e tão pouco
amigo. Pungia-lhe na brancura da alma virgem um arrependimento incisivo
e negro das torpezas da antevéspera; mas, lubrificada por essa
recordação, toda a sua carne ria e rejubilava-se, pressentindo
delicias que lhe pareciam reservadas para mais tarde, junto de um homem
amado, dentro dela balbuciavam desejos, até ai mudos e adormecidos;
e mistérios desvendavam-se no segredo do seu corpo, enchendo-a
de surpresa e mergulhando-a em fundas concentrações de êxtase.
Um inefável quebranto afrouxava-lhe a energia e distendia-lhe os
músculos com uma embriaguez de flores traiçoeiras.
Não pôde resistir: assentou-se debaixo das árvores,
um cotovelo em terra, a cabeça reclinada contra a palma da mão.
Na doce tranqüilidade daquela sombra morna, ouvia-se retinir distante
a picareta dos homens da pedreira e o martelo dos ferreiros na forja.
E o canto dos trabalhadores ora mais claro, ora mais duvidoso, acompanhando
o marulhar dos ventos, ondeava no espaço, melancólico e
sentido, como um coro religioso de penitentes.
O calor tirava do capim um cheiro sensual.
A moça fechou as pálpebras, vencida pelo seu delicioso entorpecimento,
e estendeu-se de todo no chão, de barriga para o ar, braços
e pernas abertas.
Adormeceu.
Começou logo a sonhar que em redor ia tudo se fazendo de um cor-de-rosa,
a princípio muito leve e transparente, depois mais carregado, e
mais, e mais, até formar-se em torno dela uma floresta vermelha,
cor de sangue, onde largos tinhorões rubros se agitavam lentamente.
E viu-se nua, toda nua, exposta ao céu, sob a tépida luz
de um sol embriagador, que lhe batia de chapa sobre os seios.
Mas, pouco a pouco, seus olhos, posto que bem abertos, nada mais enxergavam
do que uma grande claridade palpitante, onde o sol, feito de uma só
mancha reluzente, oscilava como um pêndulo fantástico.
Entretanto, notava que, em volta da sua nudez alourada pela luz, iam-se
formando ondulantes camadas sangüíneas, que se agitavam, desprendendo
aromas de flor. E, rodando o olhar, percebeu, cheia de encantos, que se
achava deitada entre pétalas gigantescas, no regaço de uma
rosa interminável, em que seu corpo se atufava como em ninho de
veludo carmesim, bordado de ouro, fofo, macio, trescalante e morno.
E suspirando, espreguiçou-se toda num enleio de volúpia
ascética.
Lá do alto o sol a fitava obstinadamente, enamorado das suas mimosas
formas de menina.
Ela sorriu para ele, requebrando os olhos, e então o fogoso astro
tremeu e agitou-se, e, desdobrando-se, abriu-se de par em par em duas
asas e principiou a fremir, atraído e perplexo. Mas de repente,
nem que se de improviso lhe inflamassem os desejos, precipitou-se lá
de cima agitando as asas, e veio, enorme borboleta de fogo, adejar luxuriosamente
em torno da imensa rosa, em cujo regaço a virgem permanecia com
os peitos franqueados.
E a donzela, sempre que a borboleta se aproximava da rosa, sentia-se penetrar
de um calor estranho, que lhe acendia, gota a gota, todo o seu sangue
de moça.
E a borboleta, sem parar nunca, doidejava em todas as direções,
ora fugindo rápida, ora se chegando lentamente, medrosa de tocar
com as suas antenas de brasa a pele delicada e pura da menina.
Esta, delirante de desejos, ardia por ser alcançada e empinava
o colo. Mas a borboleta fugia.
Uma sofreguidão lúbrica, desensofrida, apoderou-se da moça;
queria a todo custo que a borboleta pousasse nela, ao menos um instante,
um só instante, e a fechasse num rápido abraço dentro
das suas asas ardentes. Mas a borboleta, sempre doida, não conseguia
deter-se; mal se adiantava, fugia logo, irrequieta, desvairada de volúpia.
- Vem! Vem! suplicava a donzela, apresentando o corpo. Pousa um instante
em mim! Queima-me a carne no calor das tuas asas!
E a rosa, que tinha ao colo, é que parecia falar e não ela.
De cada vez que a borboleta se avizinhava com as suas negaças,
a flor arregaçava-se toda, dilatando as pétalas, abrindo
o seu pistilo vermelho e ávido daquele contato com a luz.
- Não fujas! Não fujas! Pousa um instante!
A borboleta não pousou; mas, num delírio, convulsa de amor,
sacudiu as asas com mais ímpeto e uma nuvem de poeira dourada desprendeu-se
sobre a rosa, fazendo a donzela soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto
sob aquele eflúvio luminoso e fecundante.
Nisto, Pombinha soltou um ai formidável e despertou sobressaltada,
levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de
susto ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentiu o grito da puberdade sair-lhe
afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente.
A natureza sorriu-se comovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze
badaladas do meio-dia. O sol, vitorioso, estava a pino e, por entre a
copagem negra da mangueira, um dos seus raios descia em fio de ouro sobre
o ventre da rapariga, abençoando a nova mulher que se formava para
o mundo.
CAPÍTULO
XII
Pombinha ergueu-se de um pulo e abriu de carreira para casa. No lugar
em que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos.
A mãe lavava à tina, ela chamou-a com instância, enfiando
cheia de alvoroço pelo número 15. E aí, sem uma palavra,
ergueu as saias do vestido e expôs a Dona Isabel as suas fraldas
ensangüentadas.
- Veio?! perguntou a velha com um grito arrancado do fundo da alma.
A rapariga meneou a cabeça afirmativamente, sorrindo feliz e enrubescida.
As lágrimas saltaram dos olhos da lavadeira.
- Bendito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! exclamou ela, caindo
de joelhos defronte da menina e erguendo para Deus o rosto e as mãos
trêmulas.
Depois abraçou-se às pernas da filha e, no arrebatamento
de sua comoção, beijou-lhe repetidas vezes a barriga e parecia
querer beijar também aquele sangue abençoado, que lhes abria
os horizontes da vida, que lhes garantia o futuro; aquele sangue bom,
que descia do céu, como a chuva benfazeja sobre uma pobre terra
esterilizada pela seca.
Não se pôde conter: enquanto Pombinha mudava de roupa, saiu
ela ao pátio, apregoando aos quatro ventos a linda noticia. E,
se não fora a formal oposição da menina, teria passeado
em triunfo a camisa ensangüentada, para que todos a vissem bem e
para que todos a adorassem, entre hinos de amor, que nem a uma verônica
sagrada de um Cristo.
- Minha filha é mulher! Minha filha é mulher!
O fato abalou o coração do cortiço, as duas receberam
parabéns e felicitações. Dona Isabel acendeu velas
de cera à frente do seu oratório, e nesse dia não
pegou mais no trabalho, ficou estonteada, sem saber o que fazia, a entrar
e a sair de casa, radiante de ventura. De cada vez que passava junto da
filha dava-lhe um beijo na cabeça e em segredo recomendava-lhe
todo o cuidado. "Que não apanhasse umidade! que não
bebesse coisas frias! Que se agasalhasse o melhor possível e, no
caso de sentir o corpo mole, que se metesse logo na cama! Qualquer imprudência
poderia ser fatal!..." O seu empenho era pôr o João
da Costa, no mesmo instante, ao corrente da grande novidade e pedir-lhe
que marcasse logo o dia do casamento; a menina entendia que não,
que era feio, mas a mãe arranjou um portador e mandou chamar o
rapaz com urgência. Ele apareceu à tarde. A velha convidara
gente para jantar; matou duas galinhas, comprou garrafas de vinho, e,
à noite, serviu, às nove horas, um chá com biscoitos.
Nenen e a das Dores apresentaram-se em trajos de festa; fez-se muita cerimônia;
conversou-se em voz baixa, formando todos em volta de Pombinha uma solícita
cadeia de agrados, uma respeitosa preocupação de bons desejos,
a que ela respondia sorrindo comovida, como que exalando da frescura da
sua virgindade um vitorioso aroma de flor que desabrocha.
E a partir desse dia Dona Isabel mudou completamente. As suas rugas alegraram-se;
ouviam-na cantarolar pela manhã, enquanto varria a casa e espanava
os móveis.
Não obstante, depois do tremendo conflito que acabou em navalhada,
uma tristeza ia minando uma grande parte da estalagem. Já se não
faziam as quentes noitadas de violão e dança ao relento.
A Rita andava aborrecida e concentrada, desde que Jerônimo partiu
para a Ordem; Firmo fora intimado pelo vendeiro a que lhe não pusesse,
nunca mais, os pés em casa, sob pena de ser entregue à polícia;
Piedade, que vivia a dar ais, carpindo a ausência do. marido, ainda
ficou mais consumida com a primeira visita que lhe fez ao hospital; encontrou-o
frio e sem uma palavra de ternura para ela, deixando até perceber
a sua impaciência para ouvir falar da outra, daquela maldita mulata
dos diabos, que, no fim de contas, era a única culpada de tudo
aquilo e havia de ser a sua perdição e mais do seu homem!
Quando voltou de lá atirou-se à cama, a soluçar sem
alívio, e nessa noite não pôde pregar olho, senão
já pela madrugada. Um negro desgosto comia-a por dentro, como tubérculos
de tísica, e tirava-lhe a vontade para tudo que não fosse
chorar.
Outro que também, coitado! arrastava a vida muito triste, era o
Bruno. A mulher, que a princípio não lhe fizera grande falta,
agora o torturava com a sua distância; um mês depois da separação,
o desgraçado já não podia esconder o seu sofrimento
e ralava-se de saudades. A Bruxa, a pedido dele, tirou a sorte nas cartas
e disse-lhe misteriosamente que Leocádia ainda o amava.
Só Dona Isabel e a filha andavam deveras satisfeitas. Essas sim!
nunca tinham tido uma época tão boa e tão esperançosa.
Pombinha abandonara o curso de dança; o noivo ia agora visitá-la,
invariavelmente, todas as noites; chegava sempre às sete horas
e demorava-se até às dez; davam-lhe café numa xícara
especial, de porcelana; às vezes jogavam a bisca, e ele mandava
buscar, de sua algibeira, uma garrafa de cerveja alemã, e ficavam
a conversar os três, cada qual defronte do seu copo, a respeito
dos projetos de felicidade comum; outras vezes o Costa, sempre muito respeitador,
muito bom rapaz, acendia o seu charuto da Bahia e deixava-se cair numa
pasmaceira, a olhar para a moça, todo embebido nela. Pombinha punha
alegrias naqueles serões com as suas garrulices de pomba que prepara
o ninho. Depois do seu idílio com o sol fazia-se muito amiga da
existência, sorvendo a vida em haustos largos, como quem acaba de
sair de uma prisão e saboreia o ar livre. Volvia-se carnuda e cheia,
sazonava que nem uma fruta que nos provoca o apetite de morder. Dona Isabel,
ao lado deles, toscanejava do meio para o fim da visita, traçando
cruzes na boca e afugentando os bocejos com voluptuosas pitadas da sua
insigne tabaqueira.
Fixado o dia do casamento, o assunto inalterável da conversa era
o enxoval da noiva e a casinha que o Costa preparava para a lua-de-mel.
Iriam todos três morar juntos; teriam cozinheiro e uma criada que
lavasse e engomasse. O rapaz trouxera peças de linho e de algodão,
e ali, à luz amarela do velho candeeiro de querosene, enquanto
a mãe talhava camisas e lençóis, a filha cosia valentemente
numa máquina que lhe oferecera o noivo.
Uma vez, eram duas da tarde, ela pregava rendas numa fronha de almofada,
quando o Bruno, cheio de hesitações, a coçar os cabelos
da nuca, pálido e mal asseado, disse-lhe, encostando-se à
ombreira da porta:
- Ora, nham Pombinha... tinha-lhe um servicinho a pedir... mas vosmecezinha
anda agora tão tomada com o seu enxoval e não há
de querer dar-se a maços...
- Que queres tu, Bruno?
- N'é nada, é que precisava que vosmecezinha me fizesse
uma carta pr' aquele diabo... mas já se vê que não
tem cabimento... Fica pr'ao depois!
- Uma carta para tua mulher, não é?
- Coitada! É mais doida do que ruim! Pois se a gente até
dos brutos tem pena!...
- Pois estás servido. Queres para já?
- Não vale estorvar! Continue seu servicinho! Eu volto pr'outra
vez!...
- Não! anda cá, entra! O que se tem de fazer, faz-se logo!
- Deus lhe pague! Vosmecezinha é mesmo um anjo! Não sei
a quem se chegue a gente ao depois que já lhe não tivermos
cá!...
E continuou a louvar a bondade da rapariga, enquanto esta, toda serviçal,
preparava numa mesinha redonda os seus apetrechos de escrita.
- Vamos lá, Bruno! que queres tu mandar dizer à Leocádia?
- Diga-lhe, antes de mais nada, que aquilo que quebrei dela, que dou outro!
Que ela fez mal em quebrar também o que era meu, mas que fecho
os olhos! Águas passadas não movem moinho! Que sei que ela
agora está desempregada e aos paus; que está a dever para
mais de mês na estalagem; mas que não precisa dar cabeçadas:
que me mande cá o senhorio, que me entendo com ele. Que acho bom
que ela deixe a casa da crioula onde come, porque a mulher já se
queixou e já disse, a quem quis ouvir, que aquilo lá não
era ponto de vadios e mulheres de má vida! Que ela, se tivesse
um pouco de tino, nem precisava estar às migalhas dos outros, que
eu na forja fazia para a trazer de barriga cheia e mais aos filhos que
Deus mandasse... - Principiava a tomar calor. - Que a culpada de tudo
isto é só ela e mais ninguém! tivesse um bocado de
juízo e não precisava envergonhar a cara por ai...
- Isso já está dito, Bruno!
- Pois arrume-lhe outra vez a ver se ela toma brio!
- E que mais?
- Que lhe não quero mal, nem lhe rogo pragas, mas que é
bem feito que ela amargue um pouco do pão do diabo, pra ficar sabendo
que uma mulher direita não deve olhar se não pra seu marido;
e que, se ela não fosse tão maluca...
- Já aí vai você repetir inda uma vez a mesma cantiga!...
- Mas diga-lhe sempre, tenha paciência, nham Pombinha!... Que ainda
estaria aqui, comigo, como dantes, sem agüentar repelões de
estranhos!...
- Adiante, Bruno!
- Diga-lhe...
E interrompeu-se.
Ora, que mais ele tinha a dizer?...
Coçou a cabeça.
- Veja, Bruno, você é quem sabe o que precisa escrever a
sua mulher...
- Diga-lhe...
Não se animava.
- Que...
- Diga-lhe... Não! não lhe diga mais nada!...
- Posso então fechar a carta?...
- Está bom... resmungou o ferreiro, decidindo-se. Vá lá!
Diga-lhe que...
- Que...
Houve um silêncio, no qual o desgraçado parecia arrancar
de dentro uma frase que, no entanto, era a única idéia que
o levava a dirigir-se à mulher. Afinal, depois de coçar
mais vivamente a cabeça, gaguejou com a voz estrangulada de soluços:
- Diga-lhe que... se ela quiser tornar pra minha companhia... que pode
vir... Eu esqueço tudo!
Pombinha, impressionada pela transformação da voz dele,
levantou o rosto e viu que as lágrimas lhe desfilavam duas a duas,
três a três, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa
das barbas. E, coisa estranha, ela, que escrevera tantas cartas naquelas
mesmas condições; que tantas vezes presenciara o choro rude
de outros muitos trabalhadores do cortiço, sobressaltava-se agora
com os desalentados soluços do ferreiro.
Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois
que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher,
teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas
davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo,
desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno desenvolvimento,
uma lucidez que a deliciava e surpreendia. Não a comovera tanto
a revolução física. Como que naquele instante o mundo
inteiro se despia à sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe
todos os segredos das suas paixões. Agora, encarando as lágrimas
do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade
desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras,
mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada
mão da fêmea.
Aquela pobre flor de cortiço, escapando à estupidez do meio
em que desabotoou, tinha de ser fatalmente vitima da própria inteligência.
À mingua de educação, seu espírito trabalhou
à revelia, e atraiçoou-a, obrigando-a a tirar da substância
caprichosa da sua fantasia de moça ignorante e viva a explicação
de tudo que lhe não ensinaram a ver e sentir.
Bruno retirou-se com a carta. Pombinha pousou os cotovelos na mesa e tulipou
as mãos contra o rosto, a cismar nos homens.
Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre eles, a tal ponto,
que os infelizes, carregados de desonra e de ludíbrio, ainda vinham
covardes e suplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ela lhes
fizera?...
E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua própria
força e do seu próprio valor.
Sorriu.
E no seu sorriso já havia garras.
Uma aluvião de cenas, que ela jamais tentara explicar e que até
ai jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora
nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos
respeitáveis, cujas fotografias Léonie lhe mostrara no dia
que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos
e submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até
com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado,
fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade
sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor
e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino;
escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua
mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher,
a senhora, a dona dele, ia tranqüilamente desfrutando o seu império,
endeusada e querida, prodigalizando martírios, que os miseráveis
aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis
mãos que os estrangulavam.
- Ah! homens! homens!... sussurrou ela de envolta com um suspiro.
E pegou de novo na costura, deixando que o pensamento vadiasse à
solta, enquanto os dedos iam maquinalmente pregando as rendas naquela
almofada, em que a sua cabeça teria de repousar para receber o
primeiro beijo genital.
Num só lance de vista, como quem apanha uma esfera entre as pontas
de um compasso, mediu com as antenas da sua perspicácia mulheril
toda aquela esterqueira, onde ela, depois de se arrastar por muito tempo
como larva, um belo dia acordou borboleta à luz do sol. E sentiu
diante dos olhos aquela massa informe de machos e fêmeas, a comichar,
a fremir concupiscente, sufocando-se uns aos outros. E viu o Firmo e o
Jerônimo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma
cadela da rua; e viu o Miranda, lá defronte, subalterno ao lado
da esposa infiel, que se divertia a fazê-lo dançar a seus
pés seguro pelos chifres; e viu o Domingos, que fora da venda,
furtando horas ao sono, depois de um trabalho de burro, e perdendo o seu
emprego e as economias ajuntadas com sacrifício, só para
ter um instante de luxúria entre as pernas de uma desgraçadinha
irresponsável e tola; e tornou a ver o Bruno a soluçar pela
mulher; e outros ferreiros e hortelões, e cavouqueiros, e trabalhadores
de toda a espécie, um exército de bestas sensuais, cujos
segredos ela possuía, cujas íntimas correspondências
escrevera dia a dia, cujos corações conhecia como as palmas
das mãos, porque a sua escrivaninha era um pequeno confessionário,
onde toda a salsugem e todas as fezes daquela praia de despejo foram arremessadas
espumantes de dor e aljofradas de lágrimas.
E na sua alma enfermiça e aleijada, no seu espírito rebelde
de flor mimosa e peregrina criada num monturo, violeta infeliz, que um
estrume forte demais para ela atrofiara, a moça pressentiu bem
claro que nunca daria de si ao marido que ia ter uma companheira amiga,
leal e dedicada; pressentiu que nunca o respeitaria sinceramente como
a um ser superior por quem damos a vida; que nunca lhe votaria entusiasmo,
e por conseguinte nunca lhe teria amor; desse de que ela se sentia capaz
de amar alguém, se na terra houvera homens dignos disso. Ah! não
o amaria decerto, porque o Costa era como os outros, passivo e resignado,
aceitando a existência que lhe impunham as circunstâncias,
sem ideais próprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos
de ambição, sem vícios trágicos, sem capacidade
para grandes crimes; era mais um animal que viera ao mundo para propagar
a espécie; um pobre diabo enfim que já a adorava cegamente
e que mais tarde, com ou sem razão, derramaria aquelas mesmas lágrimas,
ridículas e vergonhosas, que ela vira decorrendo em quentes camarinhas
pelas ásperas e maltratadas barbas do marido de Leocádia.
E não obstante, até então, aquele matrimônio
era o seu sonho dourado. Pois agora, nas vésperas de obtê-lo,
sentia repugnância em dar-se ao noivo, e, se não fora a mãe,
seria muito capaz de dissolver o ajuste.
Mas, daí a uma semana, a estalagem era toda em rebuliço
desde logo pela manhã. Só se falava em casamento; havia
em cada olhar um sangüíneo reflexo de noites nupciais. Desfolharam-se
rosas à porta da Pombinha. Às onze horas parou um carro
à entrada do cortiço com uma senhora gorda, vestida de seda
cor de pérola. Era a madrinha que vinha buscar a noiva para a igreja
de São João Batista. A cerimônia estava marcada para
o meio-dia. Toda esta formalidade embatucava os circunstantes, que se
alinhavam imóveis defronte do número 15, com as mãos
cruzadas atrás, o rosto paralisado por uma comoção
respeitosa; alguns sorriam enternecidos; quase todos tinham os olhos ressumbrados
de água.
Pombinha surgiu à porta de casa, já pronta para desferir
o grande vôo; de véu e grinalda, toda de branco, vaporosa,
linda. Parecia comovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos
com o seu ramalhete de flores artificiais. Dona Isabel chorava como criança,
abraçando as amigas, uma por uma.
- Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um bom
parto, quando vier a primeira barriga.
A noiva sorria, de olhos baixos. Uma fímbria de desdém toldava-lhe
a rosada candura de seus lábios. Encaminhou-se para o portão,
cercada pela bênção de toda aquela gente, cujas lágrimas
rebentaram afinal, feliz cada um por vê-la feliz e em caminho da
posição que lhe competia na sociedade.
- Não! aquela não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre,
retorcendo o reluzente bigode. Seria lástima se a deixassem ficar
aqui!
O velho Libório, cascalhando uma risada decrépita, queixou-se
de que o maganão do Costa lhe passara a perna roubando-lhe a namorada.
Ingrata! Ele que estava disposto a fazer uma asneira!
Nenen deu uma corrida até à noiva, na ocasião em
que esta chegava à carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca,
pediu-lhe com empenho que se não esquecesse de mandar-lhe um botão
da sua grinalda de flores de laranjeira.
- Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto
medo de ficar solteira!... É todo o meu susto!
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