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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco



CAPÍTULO V

À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.
Estava o estômago no mais activo de sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu espírito. Nenhum devaneio dos que arrombam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.
Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.
E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.
Quando acordei tinha sobre a face um lenço de linho, branco de neve.
Enxuguei o suor, relanceei em derredor os olhos e vi, a distância de cem passos, Tomásia, sentada à beira dum tanque, coberto de ramagens de para, costurando e cantando a meia voz.
- Boas tardes, Sr. Silvestre! - disse ela, risonha.
- Ande lá, que se regalou de dormir; e, se não sou eu, as moscas e os mosquitos chupavam-lhe o sangue.
- Muito obrigado, menina.
- Menina! - tornou ela. - Eu sou mulher, não sou menina.
Ergui-me e fui lavar a cara na bica do tanque. Tomásia tirou o seu avental de linho para eu me limpar. Sentei-me, depois, à sua beira, e vi que ela estava remendando uma camisa.
- Remenda o teu pano, e chegar-te-á ao ano; torna-o a remendar, e tornará a chegar - disse ela.
Estivemos silenciosos alguns segundos. Cortou Tomásia o silêncio, perguntando:
- Vai-se embora amanhã?
- Vou.
- Não gosta de estar conosco?
- Gosto; mas cada um de nós tem a sua casa.
- Isso é verdade... - disse ela, com a mão da agulha suspensa e os olhos fitos em qualquer coisa distante.
- É feliz, não é, Sra. Tomásia?
- Feliz é quem está no Céu. Diz meu tio padre João que neste mundo ninguém é contente da sorte que tem.
- Que lhe falta a si? Não tem tudo o que deseja?
- Eu desejo pouco...
- Então que mais quer para ser feliz?
- Queria que o Sr. Silvestre se deixasse estar mais alguns dias por aqui; mas, se tem que fazer na sua casa, vá. Lembra-se quando estivemos, faz anos para a Semana Santa, nas Endoenças de Santo Amaro?
- Lembro.
- Pois olhe que nunca mais me esqueceu! Vossemecê lembra-se de me ver?
- Mal me recordo...
- Lá me parecia...
- Porquê? Tem razão para supor que eu não a devia lembrar?
- É dum modo de dizer... Nem se lembra que eu lhe dei duas cavacas em casa do Sr. Vigário?
- Ah!, agora me lembro... levava os cabelos louros com laços de fita, não levava?
- E vestido vermelho de cetim.
- Tal e qual. Que linda ia! Fiquei a pensar em si muitos dias...
- Mas esqueceu-se, e nem me conheceu agora. Uma rapariga em dez anos muda de cara; estou já velha...
- Não está sequer mudada, menina.
- E ele a dar-lhe!... não gosto que me chame menina.
Chame-me Tomásia.
Neste momento chegou o sargento-mor e disse com muito afável gesto:
- Ó rapariga, olha que teus tios já lá estão perguntando se tu fugiste com o Sr. Silvestre.
- Estamos a tratar disso, meu pai; quer vossemecê fugir também connosco? - respondeu ela com muita graça e desembaraço.
- Pois vamos lá com Deus.
E o velho, aproximando-se mais, reparou na costura de Tomásia, e disse:
- Não tens vergonha de estar a remendar camisas diante deste senhor?
- Agora tenho! Pois isto é vergonha? Vergonha é trazê-las rotas. Ó Sr. Silvestre, ainda que eu seja confiada, diga-me: quem lhe arranja a sua roupa?
- A minha roupa está sempre desarranjada; quando se rompe, compro outra.
- É bom governo esse! - tornou ela -, assim é que há-de ir para diante a sua casa!... Se eu morasse mais perto de si, dizia-lhe que mandasse a roupa para cá... Ri-se? Talvez cuide que eu não sei engomar! Veja o colarinho da camisa de meu pai como está rijo!
- Pois o melhor de tudo - atalhou o velho - é que o Sr. Silvestre venha cá para casa de vez, e então lhe tratarás da roupa.
Tomásia compreendeu o figurado do dizer e pôs os olhos na costura.
Chegavam os padres, discutindo outro ponto do artigo de fundo da Nação, e caminhámos todos polemicando, até chegarmos a um campo marginal do rio, onde o sargento-mor tinha uma pequena casa com adega.
Entrámos na adega, cuja frescura consolava. Pouco depois chegou uma rapariga com o cesto da merenda. Era uma travessa de barro vermelho cogulada de trutas fritas.
Tomásia foi a uma poça colher celgas e agriões, de que fez salada, depois de esfregar as mãos com areia da margem do rio.
Rodeámos uma dorna de fundo ao alto, sobre a qual se colocou a travessa das trutas e o alguidar da salada, donde nos servimos todos com garfos de ferro mui lustrosos.
Tomásia tirou uma truta para cima duma fatia de pão e sentou-se no socalco da pipa, donde tirava o vinho, que ressaltava espumando pelo batoque. Bebíamos todos do mesmo pichel de estanho; e o pichel, quando caia na mão dum padre, voltava vazio à torneira.
- Dão-me que fazer os tios!... - disse Tomásia a rir.
- Anda lá, rapariga - acudiu o padre João -, que tu também gostas de ver o fundo da caneca... Essas cores não se criam com água.
- Bebe, bebe, cachopa - disse o sargento-mor -, que o vinho é meia mantença.
Quando o pichel passou da minha mão à de Tomásia, reparei que ela assentou os lábios no rebordo molhado por onde eu tinha bebido. E, como visse que eu dera fé, corou.
Ao entardecer voltámos a casa.


CAPÍTULO VI

Depois de ceia, Tomásia saiu a uma varanda de cantaria que dominava dilatadas várzeas orladas de arvoredo.
Os padres, o sargento-mor e eu ficámos praticando em sistemas de governo e discutindo as vantagens da representação nacional sobre o alvitre dum só homem. Os ardores da polémica eram refrigerados com beijos no pichel, beijos longos, longos, e absorventes como beijos de amantes.
O sargento-mor, como já não entendesse as teorias absolutistas dos irmãos, nem as minhas de emancipação social, adormeceu encostado ao espaldar duma cadeira de couro.
A questão foi esmorecendo consoante as forças intelectuais iam convergindo para o lavor da digestão. A ceia tinha sido pouco menos chorumenta que o jantar. Afora duas galinhas, amarelas de gordas, com o seu préstito de salpicões, no centro da mesa, estava o alguidar do anho assado, que lourejava estirado sobre um vasto plano de arroz, atauxiado de rodelas de lingüiça.
Três padres foram deitar-se, e o mais letrado dos quatro, padre João, disse-me se eu queria ir à varanda ver o rio prateado pela Lua e as penumbras dos altos serros circumpostos à graciosa aldeia.
Quando passávamos para a varanda, parei, e pedi ao padre que parasse.
Estava Tomásia cantando uma toada popular, triste como todas as cantilenas do Minho e Trás-os-Montes. A melancolia não a dava a letra menos que a música. Dizia assim:
Teus cabelos me prenderam,
E teus olhos me mataram;
Teus lindos pés me fugiram,
Quando morta me deixaram.
Entre as mãos frias de neve
Um raminho me puseste;
Levaste as rosas e os cravos,
Deixaste murta e cipreste.
Entrei de surpresa na varando e disse à maviosa cantora:
- Quem lhe ensinou essa letra tão triste e bonita?
- Ai! - exclamou ela -, não cuidei que estava aí...
Estas cantigas eram as de menina de Chaves.
- Quem era a menina de Chaves?
O padre tomou à sua conta a resposta, e disse:
- Era a namorada dum meu condiscípulo no Seminário de Braga, que morreu de amores por ele no Convento de Sant'Ana, e ele também morreu por ela. Eram ambos de Chaves. Eu fiquei com o papelinho em que a coitada escreveu as coplas que minha sobrinha canta a chorar.
- E está a chorar! - disse eu, vendo-lhe nos olhos espelhado um raio da Lua.
- Não que eu - disse Tomásia entre risonha e lagrimosa - tenho uma pena da criatura!...
- Dela somente? - interrompi.
- E dele, que lá foi procurá-la ao outro mundo.
As lágrimas desta mulher que nome têm se não são a sublime poesia da ternura, que eu ainda agora encontro pela primeira vez!..., disse eu entre mim, de modo que o estômago me não ouvisse. E as cinzas, que foram coração, estremeceram levemente.


CAPÍTULO VII

Ao amanhecer do dia seguinte ouvi a voz do sargento-mor, que passeava no pomar contíguo à casa.
Desci ao pomar e perguntei-lhe se tinha resolvido seriamente dar-me sua filha.
O velho encostou o queixo às mãos, que assentavam sobre uma bengala alta de cana encostada em marfim, e disse:
- Eu tenho uma só palavra: sou o sargento-mor de Soutelo, cavaleiro professo na Ordem de Cristo desde 1812 e cavaleiro da Ordem da Verdade, filha de Cristo, desde que me conheço. Dou-lhe minha filha, com a condição de que o Sr. Silvestre há-de viver comigo, enquanto eu vivo for; depois, se quiser, leva a mulher para sua casa. Não a doto com isto nem com aquilo. Tudo que eu tenho e tem meus irmãos dela é. O senhor entra aqui mais como filho que como genro. Come, bebe e veste da casa. Os rendimentos da sua aplique-os ao desempenho dela, que, pelos modos, o senhor lá por esse mundo gastou muito e mal. Pagou o tributo: todos o pagam cada um por seu feitio. Eu também as fiz boas, e vi-as fazer piores a meus padres, quando já tinham a cabeça rapada. Agora com águas passadas não mói o moinho. Faça-se homem, e descanse. Mande ao diabo as extravagâncias e os prazeres das cidades. Aqui é que reina a paz e a alegria nas boas consciências.
Prosseguiu o sargento-mor até que a filha assomou à janela da cozinha, dizendo:
- Venham daí o almoço.
- O senhor vai hoje ou fica? - perguntou, no caminho para casa, o velho.
- Vou dar as providências necessárias e voltarei, passados vinte dias, para ficar.
- Isso é decidido? É palavra de cavaleiro?
- Não mereço que o respeitável pai de Tomásia me faça essa pergunta.
- Desculpe à minha satisfação estas dúvidas. Boas são as venturas de que a gente duvida, quando as tem já na mão.
E abraçou-me com os olhos húmidos.
Estávamos à mesa. Tomásia, segundo o seu costume, andava da sala para a cozinha, levando e trazendo pratos e iguarias.
O pai mandou-a sentar ao meu lado.
Padre João, meu vizinho da direita, rolou o abdómen para dar lugar à sobrinha.
Tomásia parecia outra no acanhamento e não desfitava os olhos do pai.
- Tu que me queres moça, que olhas tão sisuda para mim? - disse ele. - Ó rapariga, o sangue parece que te quer saltar pela cara! É assim, é assim que eu vi tua mãe há trinta e dois anos. O casamento dela foi tal qual como o teu. Soube-o na véspera do dia, como tu, e eu resolvi-me, de à noite para pela manhã, porque ela virtuosa, trabalhadeira e pura como as estrelas do Céu. Aí tens o teu noivo, Tomásia. Bebamos à saúde do nosso Silvestre!
Saíram do armário sete canecas de louça da Índia com que as saúdes se fizeram.
- São as mesmas que serviram há trinta e dois anos em casa de meu sogro - disse o sargento-mor.
Eu fiz um brinde em termos chãos à minha nova família.
Durante o almoço, Tomásia nunca me esperou um olhar.
Findo o almoço, perguntei por ela para despedir-me, e soube que estava na igreja.
Esperei-a. Entretanto, padre João entregou-me a certidão de idade da sobrinha e pediu-me que no mais breve termo lhe arremetesse a minha para se lerem os banhos.
Voltou Tomásia acelerada porque a foram chamar. Logo que pôde falar-me a sós, tirou do peito um embrulho e deu-mo, pedindo-me que lançasse ao pescoço o que ia dentro do lenço. Despedi-me e abracei-a. Tomásia não quis que outra pessoa me segurasse o estribo quando eu montava.
- Já cuida dele como de coisa sua! - disse o velho a rir, e os padres riram todos.
Depois tornou ela dentro à casa, mandando-me que esperasse um pouquinho, e veio logo com um pequenino alforge.
- É para o caminho - disse ela, atando-os às fivelas da sela.
Dei o último adeus, e Tomásia subiu ao topo de um outeiro donde se avistava grande espaço de estrada, e ali estava acenando-me até que me sumi numa baixa de serra.
Abri o embrulho: era um Agnus-Dei, encastoado em prata. O lenço que o envolvia tinha no centro um coração com muitos aleijões, atravessado por uma flecha que a caprichosa bordadeira deixava ver em todo o seu comprimento, de modo que parecia uma seta grudada ao coração.
Dali três léguas sentei-me à sombra duns azinheiros e abri o alforge: era uma galinha assada, uma cabaça de vinho e um pão.
A leitora de coração fino e melindroso pergunta-me se eu gostei daquilo, se me não seria mais saboroso encontrar um ramo de flores.
Não, minha senhora, eu gosto muito mais de encontrar a galinha, o pão e a cabaça.
Os prazeres das flores cedo-os bizarramente aos amadores de Vossa Excelência e a Vossa Excelência não levo a mal que se ria da filha do sargento-mor de Soutelo, que punha flores aos santos e cuidava seriamente do estômago das pessoas que lhe eram caras.


CAPÍTULO VIII

Cheguei a minha casa e estranhei-a como se não fosse a minha.
Vi uns velhos criados, que se moviam taciturnos e tristes. Peava-me no peito aquela solidão, mais amargurada pelas lembranças da infância. O espírito refugiava-se em Soutelo, e eu pasmava de não sentir renascer o coração ao calor daqueles desejos, que semelhavam saudades.
Abreviei os meus arranjos, fazendo ler o primeiro proclame do meu casamento no dia imediato, que era domingo, dispondo novos arrendamentos dos bens, demitindo-me da regedoria e comprando na vila próxima algumas prendas de noivado.
Nestes preparativos, andava comigo um contentamento plácido e sereno como eu nunca houvera experimentado. Adormecia e acordava alegre, bem que esta alegria do despertar não fosse um alvoroço, uma embriaguez de gozo como eu sentira em outra idade, nos efêmeros prazeres, ou meras esperanças de os alcançar. Agora, a minha satisfação era toda ver-me sequestrado do mundo, estimado de cinco velhos felizes, ligado a uma mulher inocente, moldada pelas doces imagens que eu julgava extintas nos tempos bíblicos. Figurava-se-me a minha vida futura no decurso de trinta anos, que podia ainda viver. Antevia a uniformidade, no trabalho sem fadiga e no respeito e estima dos meus conterrâneos. Lia da minha pequena livraria os poetas bucólicos, e especialmente relia e decorava uma ode de Meléndez que principiava assim:
Ya vuelvo a ti pacífico retiro:
Altas colinas, vale silencioso
Término a mis deseos,
Faustos me recebid; dadme el reposo
Por que en vano suspiro
Entre el tumulto y tristes devaneos
De la corte enganosa:
Con vuestra sombra amiga
Mi inocencia cubrid, y en paz dichosa
Dadme esperar el golpe doloroso
De la parca enemiga...
Algumas vezes interrogava a minha consciência, perguntando-lhe se eu amava Tomásia. Não me respondia, por se julgar desautorizada para a resposta. Ao coração é que tocava o discutirmos semelhantes pontos de pouquíssima importância para o complemento da minha felicidade. Eu tinha lido a Bíblia e não vira lá os patriarcas oferecendo ou pedindo amor às mulheres com quem se esposavam. Booz não diz a Rute que a ama. Jacob, conquanto dessimpatize com os olhos doentios de Lia, não se declara amoroso de Raquel. Abraão casou com Sara sem se despender em maravalhas do coração. Na idade de ouro, a mulher era a fêmea do homem: casavam para procriarem, segundo suas espécies, e procriando envelheciam ditosos.
O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: "A Maria do Ribeiro ama o António da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. "Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.
O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem subtilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimónio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
Eu cismava estas e outras coisas quando me estava preparando para entregar a minha vida às quietas delícias dum casamento que faria rir de piedade os meus amigos.


CAPÍTULO IX


Fui.
No carvalhal que forma o ádito da povoação de Soutelo esperavam-me os quatro clérigos, o sargento-mor, o abade, o boticário e o juiz eleito. Abraçaram-me todos sem ser apresentado aos três personagens que ampliavam o círculo das minhas relações. Aquela boa gente das aldeias vem direita a um homem, dá-lhe um abraço de amolgar as costelas e levanta-o ao ar na veemência de sua credulidade. Coisa que nunca por lá me disseram foi: "Aqui lhe apresento o Sr. Fulano".
Os Fulanos da aldeia julgam-se sempre assaz visíveis para dispensarem que outrem diga deles: "Aqui lho mostro".
Abalámos dali para casa.
Tomásia veio receber-me ao patim da escada e logo me perguntou pelo Agnus Dei. Mostrei-lho, tirando-o do peito. A contente moça beijou a relíquia e disse:
- Vê meu pai? Cá o tem ao peito. Vossemecê dizia que o Sr. Silvestre não punha isto!... Eu bem sabia que ele era cristão!
Estava a mesa posta e coberta de pratos de trutas e escalos, entre açafates de fruta.
Merendámos e ficámos em palestra na varanda de cantaria até ao toque das ave-marias.
Depois da reza saíram os convidados: os padres também saíram para rezar o breviário, o sargento-mor foi tomar um banho no rio e eu fiquei sozinho com tomásia.
Coaxavam as rãs e zumbiam os besouros. Dos soutos e carvalheiras vinha o pio gemente das corujas e dos mochos. Os morcegos voejavam por entre os pilares da varanda. Nas cortes vizinhas da casa balavam os cordeiros, e refocilavam-se as cabras, produzindo o som cavo do embate das marradas - divertimento que a humanidade usa com menos estrondo e mais às claras.
Tomei a mão de tomásia e disse-lhe:
- És muito minha amiga?
- Sou - respondeu ela, dando a outra mão, que eu apertei entre as minhas.
- És feliz em casar comigo?
- Agora é que tenho quanto desejo.
- E se eu não voltasse, se eu não casasse contigo, eras desgraçada?
- Deus me livre! Morria como a menina de Chaves.
- E se te dissessem que eu gostava doutra mulher, querias-me?
- Se o Sr. Silvestre gostasse doutra não me queria a mim.
- Mas se eu viesse a gostar depois de casado?
Tomásia retirou as mãos. Não sei se perdeu a cor, que era suficiente a claridade das estrelas para este estudo.
- Porque tiras as tuas mãos das minhas?! - perguntei.
Tomásia deu-as outra vez, sem responder.
Insisti na pergunta.
- Isso não pode ser - disse ela.
- O que não pode ser?
- Casar comigo e gostar doutra depois... Meu pai quis sempre muito a minha mãe, e todos os casados que conheço são como era meu pai.
- E eu serei como eles, minha amiga. Não penses mais nestas perguntas.
Abracei-a, dei-lhe um beijo na face e deixei-a ir dar as ordens para a ceia.
O beijo recebeu-o sem estremecimentos de pudor, como as donzelinhas dos romances.

SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA