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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco



CAPÍTULO X

Dois dias depois, às seis horas da manhã, ouvi um tiroteio que vinha soando das montanhas e vales convizinhos da aldeia.
Eram os amigos do sargento-mor, chamados e não chamados a festejar o casamento da morgada. Assim a denunciavam por ser filha única.
Encheram-se os extensos casarões de gente. Chamavam lá cobrados e casarões ao que nas terras onde já chegou a ilustração das palavras se chama "salas".
Vinham à mistura com os lavradores muitas moças de alegres rostos, com abadas de flores desfolhadas.
O juiz eleito vestia casaca e o boticário parecia trazer na gola da sua todo o laboratório farmacêutico.
Tomásia trajava de cetim azul. Fora mandado vir de Chaves o vestido. A irmã do juiz eleito, que estivera a banhos na Foz, penteou-a à moda do Porto; mas a minha noiva, vendo-se ao espelho, desmanchou o penteado e formou da grande trança loura um diadema, sem mais enfeites que uma rosa de Alexandria. Por cima dos ombros, que o vestido deixava nus, lançou Tomásia um xaile de Tonquim escarlate, que eu havia mandado a minha mãe e ela nunca vestira.
Saímos para a igreja entre alas de activo bombardeamento. Eram centenares de pessoas de ambos os sexos.
As velhas erguiam as mãos aos céus, exclamando:
- Como tu vais linda! Bendito seja Deus! Pareces Nossa Senhora!
Confessamo-nos, comungamos e recebemos as bênçãos.
Desde que saímos da Igreja até à entrada de casa caminhámos sempre debaixo de nuvens de flores. O estrondo dos bacamartes era atroador e os dois sinos da freguesia repicaram desde que saímos do templo até ao anoitecer desse dia.
Meia hora depois que chegámos entrei no quarto de minha mulher e encontrei-a de joelhos diante duma imagem de S. João dos Bem-Casados.
Ergueu-se ela, benzendo-se, e esperou que eu a beijasse pela segunda vez. Penso que o público me releva a confissão de que, ao dar-lhe este segundo beijo, encontrei os lábios. Era o instinto das sensações agradáveis, mas honestas, que ensinou a minha mulher o segredo do máximo prazer de um beijo.
Estava o almoço na mesa.
O EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO
Os autógrafos do meu amigo Silvestre da Silva carecem de nexo e ordem desde a data do seu casamento. Salta logo aos olhos que o ilustre autobiógrafo, chegado ao macro da bem-aventurança, quedou-se a repousar da peregrinação - Deus sabe quão penosa! - que trouxera pelas precipitosas veredas do seu passado.
Vejo aqui muito fragmento de obras bosquejadas, sobre assuntos de higiene caseira. Os mais aproveitáveis tendem a mostrar que a deusa da fortuna é a predilecta amiga dos que submetem a vida ao regime suave da matéria e só exercitam seu espírito para corrigir-lhe as demasias. Estes trechos soltos acho-os enfaixados sob o título: A Felicidade pelo Estômago.
Há outros manuscritos que encarecem o egoísmo, mas o racional egoísmo de Bentham. É esta uma das máximas: "O homem só vive bem com os outros quando vive mais para si". E neste ponto de sentenças podia eu mostrar, se tivesse paciência para copiá-las, que Silvestre da Silva, se cultivasse o género, poderia ser um La Rochefoucauld fora de Soutelo.
Pospondo como coisas da segunda ordem as manifestações intelectuais de Silvestre, vou tentar, auxiliado pelos apontamentos dele, e notícias que alcancei, organizar a sucessão dos factos posteriores ao casamento.
Silvestre foi eleito presidente da Câmara de Carrazedo de Montenegro, que assim se denomina o conselho onde a ventura lhe bafeja o outono da vida. Estreou-se nas funções municipais mandando construir uma porca nova para o sino da igreja e compor uma estrada descalçada que lhe passava à porta; depois propôs em sessão que se pedisse ao Governo uma estrada do Porto a Chaves, com um ramal por Soutelo.
Este alvitre criou-lhe créditos, que foram um espeque à sua reputação algum tanto abalada com o facto de consumir os dinheiros do cofre municipal na reconstrução do caminho de sua exclusiva serventia. Mais meiga lhe soprou a aura popular, quando ele, mediante a solicitude do deputado, que fizera eleger, conseguiu que o conselho de Carrazedo absorvesse, na divisão do território, outro conselho limítrofe.
Nas próximas eleições, Silvestre da Silva, sem inculcar-se aos povos, nem recomendar sua candidatura, foi eleito deputado, contra a vontade das autoridades.
Tomásia, sabendo que seu marido se apartava dela no segundo ano de casada, fez tamanha e tão sincera choradeira que Silvestre desistiu da candidatura e fez que no escrutínio suplementar saísse deputado o juiz eleito, que também não serviu por se ter recusado a prestar o juramento, como legítima que era de entranhas.
O Governo chamou ao seu partido a influ6encia de Silvestre e conseguiu fazer eleger no seu círculo um candidato desconhecido dos eleitores. Ganhou com isso o genro do sargento-mor uma comenda para seu sogro e outra para ele, e uma abadia pingue para o padre Atanásio, tio de sua mulher. Em consequência do que todos os padres voltaram a sotaina e proclamaram a legitimidade da Senhora D. Maria II, com grande desgosto do juiz eleito, que rompeu relações com a família dos renegados, ou arrenegados, como ele dizia.
Desta desavença resultou que os jornais do Porto agrediram Silvestre da Silva, acoimando-o de desviar os dinheiros do Município em benefício das suas propriedades.
Agora é tempo de dizer que Silvestre saíra muito empenhado do Porto e os credores o tinham em conta de insolvente por saberem que a sua pequena casa estava hipotecada a dívidas mais antigas. Ora, como quer que os credores o vissem tratado nos periódicos como proprietário e indagassem, até saber que ele casara rico, e onde, remeteram deprecadas para ele ser citado com sua mulher. Então se saiu Silvestre com uma escritura nupcial, em que os bens havidos e por haver de sua mulher ficavam isentos de pagar as dívidas do marido, contraídas até à data do casamento. Os credores mais antigos saíram com as suas acções de execução sobre as hipotecas e retiraram pasmados de verem cópias de escrituras anteriores. O certo é que Silvestre da Silva, se necessário fosse, mostraria que seus avós tinham hipotecado a casa, alguns séculos antes de ela existir.
É mui pouco de louvar-se este proceder; mas uma razão ilustrada concede que um homem maltratado pelas mulheres se vingasse nos credores. Um espírito sublime, quando trata de despicar-se, vinga-se em globo. Verdadeiramente inultos são aqueles que nem credores têm sequer!
O sargento-mor, conquanto fosse carácter dos bons tempos, transigiu com as velhacadas do genro e admirou-lhe a esperteza. A comenda iluminara-lhe o espírito, a cuja luz ele viu as coisas, os homens e a época.
Ao terceiro ano de casado, Silvestre formava com o peito e abdómem um arco. A gordura embargava-lhe a acção e abafava-lhe o espírito nas enxúndias.
Vi-o na Foz, e conheci então a Sra. Tomásia, e seu pai, e um menino de dois anos, que era a doidice do avô.
Falei em assuntos literários com o meu antigo colega na imprensa. O homem ria-se de mim e dizia:
- Ainda estás nisso, pobrezote?! Esquece-te, brutaziza-te, faz-te estômago, se quiseres viver à imagem de Deus, que faz os homens neste tempo!
O único livro que lhe vi à cabeceira da cama era a Fisiologia do Paladar, de Brillat-Savarin, e a Gastronomia, poema de Bouchet.
Pediu-me que fosse passar com ele uma temporada a Soutelo, se queria voltar ao mundo com alma nova. Anuí, e lá me detive dois meses, voltando com o estômago arruinado pelo sarro do muito toucinho sobre o qual o meu amigo me prometia reconstruir o aparelho espiritual.
Observei, na Foz, que Silvestre procurava a distracção do jogo: dizia que a fortuna dos seus credores dependia dos ganhos que ele obtivesse. Os credores do meu amigo perdiam com ele, como pessoas infelicíssimas que eram.
Explicava Silvestre a excentricidade deste mundo, julgando-o bom e de nenhum modo interessado em ludibriar-me, o mundo folgou de explorar um tolo que abria o coração e a algibeira a todas as perfídias e zombarias.
Não tive um sincero amigo que me desse dinheiro sem primeiro me furar as algibeiras para o aparar com uma das mãos, enquanto a outra mo emprestava, já cercado dos juros. Os meus mais dedicados amigos serviam-me de indicadores de usurários, que me davam o décimo do valor da letra, que eu assinava. Era um jogo de ladrões; foram empréstimos da infâmia; só podem ser pagos com infames meios. A consciência de Santo António e de S. Francisco das Chagas não foram mais puras do que há-de ir a minha à presença do supremo Juiz. Creio que não devo nada, porque os juros que paguei excedem o capital: ora o que eu não devo só por absurdo posso pagá-lo com o que não for meu.
Parece-me que a lógica manqueja nesta argumentação. Seja como for, há muito quem deixe de pagar como Silvestre da Silva; mas não pagar, firmado em raciocínios, à primeira vista, irrefutáveis, nisso é que ele foi singular.
Direi o que me pareceu a vida doméstica do meu amigo.
D. Tomásia adorava-o e, sem o querer, polira-se por amor dele, a ponto de renunciar às suas antigas ocupações de portas adentro. Andavam à competência de quem engordaria mais; e, nas horas de dormir, excediam a toda a gente, menos um ao outro. Silvestre levara do Porto um cozinheiro, que contribuiu grandemente para derrancar o estômago do sargento-mor e dos padres. A mesa de Silvestre cobrou fama nos arredores, principalmente depois que o boticário, comensal insaciável, morreu de uma indigestão de almôndegas. Estava sendo no Verão que eu lá passei muito concorrida a casa de famílias remotas, entre as quais vi gente que o dilúvio respeitou, e eu também.
Posso jurar que Silvestre nunca deu sombra de ciúme a sua mulher. A segurança em que mutuamente se tinham é escusado dizê-la. D. Tomásia era folgazã, ria até arrebentar, fazia rir com as suas simplicidades: porém, no que diz respeito à invulnerabilidade da sua castidade de esposa, nunca ninguém, excepto a leitora casada, me deu tão alto grau de certeza. E era bela, a não poder ser mais, aquela mulher de trinta e dois anos! A mesma exuberância de carnes parecia enfeitar-lhe as formas duma certa majestade, que faria o terror de Vossa Excelência, menina de Lisboa, cuja cintura, como a quebrar-se, vai ondeando ao capricho da brisa.
Mais de uma vez tentei espertar o entorpecido engenho do meu amigo, recordando as nossas palestras literárias nos cafés e citando passagens mais conhecidas dos seus folhetins. Silvestre acordava por instantes, ouvia-me com aspecto melancólico de saudade; mas logo retomava o ar alarve e motejador de quem se bandeia com os mofadores das letras. Aqui se me depara agora um poesia, que ele, em hora bem-humorada, tirou desta mesma pasta para me ler. Quando a releio e aquilato a tendência satírica de Silvestre, mal posso perdoar ao mundo que o exilou da pátria luminosa do espírito para as estúpidas de uma vida cuja felicidade eu desejaria, como vingança, a quem ma aconselhasse. Aqui tem o leitor os versos:
Da oca ostentação as vãs negaças,
E os tantos seus ridículos tamanhos,
Fazem chorar e rir.
Ó eras primitivas dos rebanhos,
Ó tempos patriarcais
Deixai que possa esta alma reflorir!
A filha de Labão enchia a bilha;
Penélope, a rainha, ensaboava
Os carpins conjugais.
Lucrécia com a roca sirandava,
E muito grandes damas
Faziam tudo aquilo, e muito mais.
E era um gosto ver como elas tinham
As casas petrechadas, trastejadas,
Mourejadas, varridas!
Curavam por mãos suas as meadas,
Teciam suas teias
E tinham sempre as arcas bem fornidas.
Ao domingo, depois de ouvirem missa,
Cuidavam do jantar à portuguesa,
Farta sopa e cozido.
Depois, para ajudar a natureza,
Vão dar um passeio
Desintourindo o bucho entumecido.
Ao lusco-fusco, as portas se trancavam,
E marido e mulher, numa só alma,
E numa cama só,
Ressonavam em doce e mansa calma;
Sonhavam sonhos d'ouro,
E amor os estreitava em mago nó.
Ó tempos patriarcais!... Com que saudade
Eu, filho destas eras pataratas,
Invejo os meus avós!
Vivíeis pendurados dos rabichos,
Virtudes portuguesas!
O rabicho caiu, caístes vós.
E agora... ai!, que desmancho, que toleimas,
Que gente, que nação e que costumes
Os teus, ó Portugal!
Se há civilização, é só nos lumes,
Nos lumes-prontos só;
E, se teimam que há luz, é infernal!
Vão ver o que se passa em cada casa,
Que vive à lei de gótica nobreza,
E seus festins nos dá!
Se é jantar, o talher que vem à mesa,
O usuário o dera
Em troca do serviço que é do chá.
Se é baile, vai em troca do serviço
A inútil baixela do jantar;
E assim se faz figura;
E, se é jantar e chá, vão-se alugar
Ao sórdido judeu
Ambas as coisas, que absorve a usura.
As famílias do tom mais miserandas
Aquelas são que têm sege em cachoeira
E seu guarda-portão;
Que dos riscos de giz do merceeiro
Deduz-se que a barriga
É imolada às glórias do brasão.
São moda agora uns fofos vaporentos
Omelettes souflés denominados,
E omelettes sucrées;
Emblema são do tempo estes bocados,
De todo o ponto avessos
Ao estômago sincero português!
Pondera alguém que as raças se depuram
Ao passo que a tintura vermelhaça
Dos semblantes se some;
Dizem que a palidez extrema a raça;
Mas eu de mim não creio
Que seja perfeição: acho que é fome.
Em caução da minha crítica, declaro que me afasto dos admiradores de Silvestre, se alguns ele tem, como poeta. A genuína poesia não é aquilo, nem o foi nunca. O poeta puro-sangue levanta-se sobre o lodo da vida real e senhoreia-se dos milhares de mundos que Deus criou para os génios e os génios tomaram das mãos de Deus para cantá-los. Poeta que canta a sopa e o cozido falseia a sua vocação de medíocre cozinheiro. Assim é que eu, zeloso sacerdote da arte, entendo a poesia, e nem aos mortos indulto. Antes quisera ter de o criticar somente por umas bagatelas métricas com que Silvestre da Silva algumas vezes rastreou Nicolau Tolentino. A mordacidade distancia-se da poesia quanto as sátiras de Boileau discriminam das contemplações de Vitor Hugo. Aqui se traslada, ainda assim, o género em que prelevou Silvestre, à competência com Faustino Xavier de Novais, ambos, para assim dizer, feridos do mesmo dente da musa mordente:
Eu já fui rapaz do tom,
E, com pesar de o ter sido,
Resolvi fazer-me bom;
E ao mundo que hei ofendido,
Em paga, faço-lhe um dom.
Dos meus colegas, é certo,
Que os artifícios traidores
Hei-de mostrar bem de perto.
Quero pôr a descoberto
Seus planos sedutores.
Quando a vítima incauta
(Quero dizer a donzela),
Chilreando em tom de flauta,
Lança à noite da janela
Cartinha escrita por pauta:
O poetastro entra em casa,
Devora, sôfrego, a empada,
E, se não é maré vaza
De inspiração desgrenhada,
Bate do estro a negra asa.
O que primeiro lhe acode
Não é o ardente dizer,
Que pintá-lo melhor pode;
Primeiro, cumpre saber
Se há-de ser canção ou ode.
Vai, depois, pondo em fileira
As regrinhas desasadas;
Arrepela a cabeleira,
Rói as unhas mal lavadas,
E, por fim, rebenta asneira.
Borra a pintura que fez,
E versos novos maquina;
Recorda doutros que, há um mês,
Mandara a certa menina,
Que, com ele, amava três.
Nova edição incorreta
Da cataplasma daninha
Impinge o vesgo poeta
À analfabeta vizinha
Que engole os versos e a peta.
Engole, digo, pois quando
Ela, com custo, os soletra,
Parece está-los mascando;
E admira não ver setra
Com dois corações sangrando!
Repete os versos à amiga
Que diz nunca os vira iguais;
Mas, não sabendo o que diga
Em resposta a mimos tais,
Manda-lhe velha cantiga.
Os diques da inspiração
Rompem-se alfim em torrentes
De frutos de maldição;
Não são trovas, são candentes
Jorros de aceso vulcão.
Já começa a dar gemidos
A imprensa pouco honesta
Com os versos nunca lidos,
Que leitor grave detesta
Porque os fins são já sabidos.
E não leva a bela a mal
Que o mundo diga que é ela
Quem figura no jornal,
Disfarçada em nívea estrela
Com promessas de imortal.
À inveja de certa amiga
Nem isto quer que se esconda.
E, soberba, se impertiga,
Vendo-se em letra redonda,
Do pai cruel inimiga.
Já o vate exímio abarca
Um pensamento profundo,
Vem-lhe à memória Petrarca,
Que deixou cá neste mundo
Laura zombando da parca;
E estoutra Laura, tão sua,
Quer fazê-la eterna em verso;
E, quando pensa que actua
Na admiração do universo,
Não o conhecem na rua.
Trinta cadernos apronta
De pavorosa escritura,
Tira prospectos por conta
De equívoca assinatura,
Que por um terço desconta.
Sai a lume, e em trevas morre,
Filho da asneira e do amor,
Livro que insónias socorre;
Mas quem risco amargo corre
É decerto o impressor.
Entretanto, a virgem meiga
Os versinhos, doce prenda,
Cada vez mais n'alma arreiga,
A tempo já que na tenda
Se embrulha nela manteiga.
Vive na fé, todavia,
Que do amante a loquaz fama,
Que até aos astros a envia,
Já seu talento proclama
Muito além da freguesia.
E, convicta disto assim,
Tendo-se em conta de eterna,
Julga ser mister ruim,
Coser ceroula paterna
Ou remendar o carpim.
Infeliz pai!, que aflições
Não tens tu de amargurar
Ao tirar dos gavetões
A peúga sem calcanhar
E a camisa sem botões!
Em velhice desditosa,
Dói-me ao ver-te submerso!
Enquanto a filha radiosa
Se fez imortal em verso,
Morres tu em chilra prosa.
Mas, ó patusca poesia,
És a varinha de condão,
És no deserto água fria,
És tábua de salvação,
És farol que à Pátria guia!
Sem ti, doce companheira,
Amiga, sócia fiel,
A fábrica da Abelheira
Não venderia o papel,
Nem teria prémio a asneira,
Nem seria a mulher rola,
Nem celeste o seu sorriso,
Talvez fosse menos tola,
E tivesse mais juízo;
Mas isso de que consola?
Aí têm as futilidades com que, a grandes intervalos de tempo, se saía aquele espírito, que também sorteado entrara na república das letras! Vejam como se descompadecem a felicidade estúpida do marido de Tomásia e o engenho! Quão melhor lhe fora pedir ele à sociedade que lhe rasgasse de novo as cicatrizes e instilasse nelas o veneno que transpira depois em vociferações eloquentes na comédia, no poema e no romance! Ao menos, aquele brilhante astro, afogado no charco do estômago, irradiaria como tantos outros infelizes em volta da região intangível da felicidade, e o mundo, que o crucificara, seria depois o primeiro a apregoá-lo grande.
Saí de Soutelo no fim do Verão.
Silvestre acompanhou-me aos banhos da Póvoa e já vinha com todos os sintomas de caquexia, resultante da imobilidade, e cansaço das molas digestivas. Retirou-se para a província logo que os primeiros banhos e as primeiras perdas ao jogo lhe molestaram o corpo e o espírito. De lá me escreveu, contando os progressos da cabeça da doença e prognosticando o seu próximo fim. Nesta carta prometia o meu amigo legar-me os seus papéis, com plena autorização de divulgá-los, se eu visse que podiam ser de proveito para a iniciação da mocidade. À maneira do moralista Duclos, dizia ele: "J'ai vécu, je voudrais être utile à ceux qui ont à vivre.
Poucos meses depois recebi da mão de um almocreve uma chapeleira de couro repleta de embrulhos, que me enviava a Sra. D.Tomásia, e uma carta do sargento-mor asseverando-me que seu genro morrera como um passarinho - a morte do justo; com a diferença que não ajustou contas com os credores, para quem a salvação do meu amigo é coisa muito duvidosa...
Na carta do saudoso sogro vinha o seguinte soneto, que o moribundo fizera, à imitação dos distintos génios de ambos os sexos, que sonetearam à hora da morte, tais como a poetisa D. Catarina Balsemão e Bocage.
O soneto reza assim:
Abri meu coração às mil quimeras;
Encheram-mo de fel, e tédio, e alma,
Tive, em paga do amor, riso de infama...
Ai!, pobre coração!, quão tolo eras!
Dobrei-me da razão às leis austeras;
Quis moldar-me ao viver que o mundo ama
O escárnio, a detracção me suja a fama,
E a lei me pune as intenções severas.
Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-lo pensei... Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!
Bem se vê que o soneto era o da morte. Um grande merecimento tem ele: é ser o último.


Coração, cabeça e estômago, de Camilo Castelo Branco

Fonte:
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, cabeça e estômago. 2 ed. Lisboa: Publicações Europa-América, LD.

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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NOTAS

1 Chamava-se Margarida a dama. Viveu ainda até 1857 e morreu da febre-amarela, e o filho também. Conta-se que o conde, receoso do contágio, não ousara vir a Lisboa, das Caldas da Rainha, onde estava, quando Margarida o mandou chamar para despedir-se. Morreu contemplando os paroxismos do filho. Os criados abandonaram-na no último dia. Estava sozinha quando expirou. O conde está ótimo de saúde e transferiu a mobília de Margarida para os aposentos de uma criada, que a condessa expulsou de casa...
2 Aproveitei o lanço de verificar a lealdade desta passagem das memórias do meu amigo. Como em nota à margem estava o nome do marido farçola, solicitei relacionar-me com ele há quatro dias, e fácil foi isso. À terceira palestra que tivemos, com ar de intimidade, falei no sucesso passado catorze anos antes. O funcionário público recordou-me, e disse: "É verdade o que o seu amigo deixou escrito. Só lhe falhou escrever o que, felizmente, não soube, e é que minha mulher o amou..." Fiquei pasmado da ingenuidade e lembraram-me dois versos franceses de não sei quem:
"Quand on l'ignore, ce n'est rien;
Quand on le sait, cést peu de chose.
3 Não suprimo este descabido incidente do filósofo e do gramático, posto que fútil e desgracioso. Silvestre ia muitas vezes derramado nestas divagações, que denotam pouca firmeza na composição e desleixada contextura nas ideias. Honra, porém, lhe seja pelo muito que ele amou a Língua, a apuros de esfriar subitamente em paixões vulcânicas, por causa das incorreções gramaticais das cartas, que respondiam às suas, sempre castiças.
4 A palavra é pouco urbana e civil para livro de tanta polpa e gravidade. Bêbado é o homem que se embebeda na taberna. Ao bebedor que se embriaga nos cafés e nas salas, a não se lhe dar nome de espirituoso, também não deve chamar-se bêbado. Os glossários que conheço carecem desta distinção, que se quer observada entre pessoas que se tratam.
5 Estamos autorizados a declarar que este verso, sobre ser mau, é calunioso. No manuscrito do autor leio à margem desta oitava as seguintes palavras: "Menti por amor da rima: as mentiras em prosa é que não são perdoáveis, salvo quando é preciso arredondar o período, se a verdade se não presta."
6 Outra calúnia por amor da rima.
7 A existência deste primo bacharel é que não foi ficção; se o fosse, acudiria eu logo pela honestidade da família, cuja honra tenho em mais veneração que as aleivosias dum verso hendecassílabo. Este primo era pessoa de costumes derrancados, e poeta, sem a delicadeza que pelo ordinário é inerente e congenial da verdadeira poesia. Daí vinha mofar ele da dentadura do marido de sua prima e jogar a péla com as almofadinhas de algodão, se Josino, extremamente fiado em si, o deixava a sós com ela. Ora, posto que a desgostosa senhora andasse mui duvidosa de suas forças e muito se tremesse de fraquear em luta com as tentações, o primo conseguiu tornar-se-lhe odioso, porque nenhuma mulher perdoa à irrisão com que os ineptos pensam aviltar o marido aos olhos dela. Foi isto que a salvou. Salva ainda a vaidade, quando a dignidade falece! Muito é que o amor-próprio pondere mais no ânimo da mulher que o temor da difamação! Admirável em sua sabedoria foi a Providência, que dotou a mulher de índoles contraditórias, que nós chamamos defeitos, em razão de nos deixarmos induzir pelos mil absurdos em que se firma o chamado senso público.
8 Aqui está uma amostra das desordenadas imprecações de Silvestre contra a sociedade. Escreveu-as provavelmente durante a passagem da cabeça ao estômago. A trovoadas tais de estilo é o que andavam sacrificados todos os jornais em que ele escrevia. Era impossível que o assinante, no fim do trimestre, não recebesse o cobrador do jornal como a última palavra do insulto. Por minha vontade, podava muito destas páginas; mas, sobre ser deslealdade à memória do autor, seria supor que os homens sinceramente honestos do Porto se ofendem da sátira que reverbera os velhacos. O que eu quisera concertar é o desmancho de ideias deste capítulo; não posso, nem sei o que ele pensava, nem porque estava assim assanhado contra a sociedade portuense. Devia de ser escrita esta objurgatória no fim de algum trimestre, quando o proprietário do jornal lhe intimou silêncio.
9 Ao tempo que Silvestre da Silva escrevia esta impertinência contra a Assembléia Portuense, tinha esta sociedade uma sala privativa de alguns indivíduos, que se divertiam contando passagens da vida alheia, em linguagem acomodada aos assuntos. Os sócios desta congregação, chamada "Palheiro", eram pessoas respeitáveis, maiores de cinquenta anos, qualificadas na jerarquia eclesiástica, no comércio nobilitado e na magistratura, sendo o principal elemento do Palheiro negociantes aposentados, vindos do Brasil. A razão de chamar-se "Palheiro" àquela reunião não a sei. Conjecturalmente diziam alguns etimologistas que palheiro derivava de palha, querendo concluir que o pensamento de quem dera o nome à coisa fora significar o alimento natural dos sócios reunidos naquele ponto do edifício. Acho muito violenta e sobremaneira desatenciosa a hipótese. Os cavalheiros, ofendidos com tal interpretação, eram pessoas que tinham boas lembranças, propósitos salgados e instrução variada para enfeitar as desgraciosidades da maledicência. Estas qualidades intelectivas não se nutrem com palha, penso eu.
Conquanto não fosse extremamente agradável ouvir um sexagenário a discorrer em termos lúbricos acerca das suas libertinagens de rapaz, eu tenho mais que muito para mim que o sal ático dos eufemismos havia de encobrir a impudicícia da ideia.
O que havia de menos louvável nas sessões daqueles cavalheiros era a obrigação que reciprocamente se impunham de esmiuçarem os pormenores das desonras meio veladas para os contarem de modo que a difamação pudesse dali sair a desenrolar o sudário das chagas sociais à luz do sol. Quando os relatores não tinham que expender, era permitida a calúnia para gastar o tempo: quer-me parecer que este artigo dos estatutos do Palheiro não merece louvores. Homens a escorregarem à sepultura, uns entrajados com as severas vestes da religião de Cristo, outros com o peito honrado por cruzes e crachás, outros com numerosa posteridade de filhos e netos, não davam de si boa prova indo para ali afiar a linguagem do impudor, decretar a publicidade de desgraças, que não precisavam da infâmia pública para o serem, e inventar escândalos para aligeirar os tédios da noite.
O que tinham de mais humano aqueles sujeitos era comerem muito biscoito de Valongo e forragearem nos tabuleiros às mãos-cheias para levarem à família. Isto, que não parece bonito, era a coisa de mais sainete e folia que os velhinhos faziam na assembléia.
O tempo foi matando uns e espalhando os outros, de modo que o Palheiro, à falta de concorrentes dignos, ficou devoluto, à espera que a geração nova passe da torpeza militante para as pacíficas recordações de suas façanhas.
10 Esta D. Margarida e outros personagens mencionados em seguida pode o leitor conhecê-los em diferentes romances do editor.


SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA