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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco


PÁGINAS SÉRIAS DA MINHA VIDA

CAPÍTULO I


Vi no baile do barão de Bouças as três herdeiras mais ricas da sociedade portuense. Das três , a mais velha e rica era viúva e regularmente feia. A mais nova tinha uns longes sedutores: mas, examinada ao pé, era uma cara sem vida, coisa muito parecida com a alvura de leite, encarnada nas maçãs do rosto, como as bonecas de olhos de vidro, e beiços purpurinos de malagueta. A terceira era uma verdadeira mulher, trigueira como as predilectas de toda a gente.
Consultei a minha cabeça, e a cabeça me disse que requestasse a viúva. Senti que o coração punha embargos; mas a veleidade foi de momentos. Caiu-lhe em cima a cabeça com todo peso da razão; e o pobrezinho, que já não servia para mais que centro das funções sanguíneas, gemeu, contorceu-se e amuou.
À roda da viúva giravam os mais graúdos paraltas do Porto, sujeitos que andavam sempre de esporas e que se frisavam todas as manhãs para irem passar as tardes em casa do seu alfaiate, discutindo as belezas de uma lapela de fraque e a lista mais ou menos enflorada das pantalonas.
Eram estes os terríveis açambarcadores das almas das senhoras do Porto; mas com almas se comentavam, como convinha a pessoas puramente espirituais.
Pedi que me apresentassem à viúva. O elegante de quem solicitei este favor, antes de me apresentar, disse-me:
- Fala-lhe de mim, a ver o que ela te diz.
- Vê-se que a amas... - atalhei eu.
-Amo deveras; mas não lhe amo a fortuna.
- A fortuna é galicismo - interrompi com azedume. - Diz antes os haveres. Morra o homem de paixão, sendo necessário, mas salve-se a língua dos Lucenas, dos Sousas e dos Bernardes.
Este meu amigo incorrecto foi depois dizer a outro que eu era tolo. A ignorância é muito atrevida!
Falei com D. Justina Mendes, e para logo adivinhei que dentro daquele peito não havia senão membranas, tecidos adiposos e ossos com as respectivas cartilagens. Fez-me doer a cabeça com três palermas respostas que me deu. Perguntando-lhe eu se tinha saudades do seu tempo de casada, respondeu-me:
- O boi solto lambe-se todo.
Devia dizer vaca, se gostava do anexim.
Perguntei-lhe se amava os bailes. Resposta:
- Bons bailes é cada um em sua casa.
A terceira pergunta:
- Que juízo faz Vossa Excelência do cavalheiro a quem eu devo o favor de lhe ser apresentado?
- Não é feio; mas eu não gosto - respondeu.
- Então de quem gosta, minha senhora?
- De ninguém: tomara eu que me deixem.
- Vossa Excelência há-de necessariamente gostar de caldo de repolho com feijão branco - repliquei.
Esta facécia de mau gosto foi ouvida, repetida e lançada à circulação por duas senhoras que nos ouviam atentas.
D. Justina envesgou-me os olhos e murmurou:
- Não acho graça nenhuma ao seu atrevimento. - E, voltando a cara, sentou-se de esguelha.
Tornando ao apresentante, disse-lhe que a viúva o achava bonito.
Pedi que me apresentassem à mulher trigueira, e logo me disseram que não gastasse o meu tempo com um coração rendido aos encantos de Josino.
Este Josino, esta criatura que eu cantei em oitava rima, era um homem de biscuit, engelhado de refegos na cara como a frontaria da Batalha, velho dengoso, que tinha amado as mães das meninas casadoiras que requestava. Mas que terrível homem!... Era amado, e casou com ela.
Nota
Diz Silvestre que cantara Josino em oitava rima. O leitor decerto me agradece a reprodução do poema, que passou despressentido e sem assinatura num jornal literário daquele tempo. Foi ele escrito na véspera do matrimónio de Josino com a formosa trigueirinha. Não louvo semelhante desafogo de despeito, nem encareço o quilate da poesia. Reza assim a coisa, depois de ter resumido em estiradas oitavas o epitome da sua vida e a resolução de se casar:
Josino amigo meu, velho incontrito,
Há trinta anos conheço em cata duma,
Que tenha coração, e algum saquito
Daquilo com que a vida mais se arruma.
É velho o meu Josino; mas bonito,
E bem conservadinho; inda se apruma,
Quando vê na janela da vizinha
A travessa criada da cozinha.
Nos bailes, faz-me inveja o seu meneio,
E os trejeitos, que faz coa perna fina,
E o garbo, que lhe empresta o bom recheio
Do túmido algodão com que fascina.
Do cume de gravata, em doce enleio,
Contempla as graças da gentil menina,
Já neta duma avó, que foi deveras
Namoro de Josino em priscas eras.
Já tem um pouco os olhos desvidrados;
Porém, não sei que graça tem, se os pisca!
Eu, se fosse mulher... ai!, meus pecados!,
Caia neste anzol de antiga isca.
Há homens tão fatais e endiabrados,
Que mal sabe a mulher ao que se arrisca,
Se palestra lhes dá! Ai!, pobrezinha!
É a história do sapo e da doninha!
Mas que importa o poder que tens no peito
Das cândidas donzelas, velho audaz!
Tu consegues fazer com manha e jeito
O que a natureza pérfida desfaz.
Já consta por aí que tu és feito
De pródigo algodão, múmia falaz!
Suspeita-se também ser de algodão
A coisa a que tu chamas coração.
Josino, ainda assim, já mais fraqueia;
Ousa dar-se o valor duma antigalha,
Camafeu de Herculanum ou de Pompeia,
Que no mundo não tem mulher que o valha.
Isto diz muita vez, à boca cheia,
À criada Jacinta, quando ralha,
Porque a pobre, mulher de sã lisura,
Se ri quando ele encaixa a dentadura.
Josino tem caleche e tem cavalo,
Que aos triunfos d'amor lhe presta ajuda.
Quando silva da pita o agudo estalo
Donzelinha não há que não sacuda
A ceroula do pai, para espreitá-lo,
Tingida do pudor, que o gesto muda;
Enquanto ele lhe mostra o dente amante,
Que outrora adorno foi dum elefante.
Nestes meses de Inverno, o reumatismo
Costuma apoquentá-lo; e ele afecta
Que está numa razão de cepticismo,
E rebate do amor a doce seia.
Diz que o seu coração é fundo abismo,
Onde entesoura imagem predilecta
Da mulher que há-de vir; e, à vista disto,
Presume-se que vem co Anticristo.
Mas, apenas repinta a Primavera
Espargindo matiz de lindas flores,
Josino sai da cama, onde gemera,
E remoça nutrindo outros amores.
Ludibrio miserando da quimera,
Que o mangara no leito d'agras dores,
Ei-lo, de novo, em coração repoisa
De menina, que pese alguma coisa.
Não cuida que perdeu do seu quilate
Enquanto pode as rugas rebocar.
Diz sempre que lá dentro inda lhe bate
O quer que seja, que precisa amar.
Assim, como quem diz um disparate,
Pergunta se será néscio em casar:
Conta os logros, que fez, nunca sabidos,
E teme a previdência dos maridos.
Sem embargo, porém, deste palpite
Josino vai pedir a mão de esposa
A formosa menina, das do élite,
Que a detracção abocanhar não ousa.
Assente o pai ao digno convite,
Que é pássaro bisnau, velha raposa,
E vira um vulto de homem presumível
Sair do quarto dela(ó vista horrível)5
Josino, alfim, casou, e partiu logo
(Ah!, que não sei de nojo como o conte!)
Todo ânsia, paixão, ardor e fogo,
Com ela para o Bom Jesus do Monte.
Ai!, que lua-de-mel, que desafogo
De cadente paixão ao pé da fonte,
Que trépida repete em magno anelo
As falas que murmura o Esganarello6.
Esganarello... sim!... (Se saber quer
Alguém, que o não conhece, aquele herói,
Procure-o, que há-de achá-lo em Molière,
Ou lá na vizinhança.) O caso foi
Que, extinta a Lua incasta do prazer,
A esposa diz que já n'alma lhe dói
Saudades do teatro italiano,
E do primo doutor... grande magano7.


CAPÍTULO II

Acabo de demonstrar que é débil, se não impossível, armar romance com as meninas do Porto. Pode ser que este aranzel de coisas nunca faça gemer os prelos do meu país; porém, quem me diz a mim que eu não tenha o póstumo regalo de ser impresso e lido? Nesta hipótese, com que a vaidade se incha, quisera eu vestir a nudez dos meus contos, enfeitá-los com as jóias do estilo, que dão realce aos assuntos frívolos, e recompor mais literalmente com embelecos de imaginação as securas da verdade, dura de engolir neste tempo, se o engenho não a arrebica de pechisbeques e desvarios da natureza.
A viúva, bem aproveitada, podia dar alguns capítulos. Tolice tinha ela de mais saciar o espírito público, sempre faminto de ver em letra redonda as tolices próprias às costas alheias. Se eu tivesse sido mais moderado na minha linguagem, a criatura dava um livro; mas a minha razão, inconciliável com as parvoiçadas da milionária, saiu com aquela pergunta do caldo de repolho, mais para castigar os seus admiradores que para chasquear a tola. Bem pode ser que esta senhora, se fosse pobre, tivesse o siso comum, que o dinheiro produz milagres de variados feitios: a certas pessoas pule-as, espiritualiza-as, dá-lhes estilo sentencioso e inspiração para falarem de tudo com público aplauso; a outras pessoas despoetiza-as, materializa-as e embrutece-as. Conheço exemplos de tudo, e o leitor também.
A viúva, segundo me consta, antes de casar, era uma menina como são todas as meninas. Tinha os seus namoros, a quem respondia com bonita letra, e pensamentos, se não engenhosos, pudibundos. Casou com u riquíssimo velho por escolha de seus pais e condescendência sua. Fez as delícias do esposo, e as próprias, comendo e dormindo para ter sempre as faculdades do coração em torpor. Enviuvou ao sétimo ano de casada, quando de sua primeira natureza já não tinha vislumbres. Soube então que era riquíssima e requerida pelos homens notáveis da terra, e continuou a comer e a dormir. Porém, como os pés lhe inchassem por falta de exercício, e os médicos a mandassem passear e agitar-se, a viúva apareceu de repente nos passeios, nos bailes e nos teatros, onde adormecia do segundo acto em diante. Dispararam-lhe à queima-roupa as mais incendiárias declarações, e ela ouviu-as a dormir, enquanto a não incomodaram. Depois, como a pusessem em cerco e não a deixassem tomar fôlego, a mulher despegou em despropósitos e rusticárias, que a tornaram mais amável aos concorrentes. Aqui está o que era a viúva.
Assestei o fito à terceira, à menina que tinha aspecto de serafim de tribuna de igreja. Disseram-me logo que o Dr. Anselmo Sanches a requestava traiçoeiramente. Ora, o Dr. Anselmo Sanches era um homem honesto.
Convém saber que em toda a parte do mundo sublunar a honestidade soa como hipocrisia velhaca.
O homem honesto dali é o que logra embair a opinião pública; recatar a impudência com o exterior sisudo da catadura; acentuar a expressão no tom sentencioso do preceito; contar com a mobilidade do globo visual para o revirar ao céu, quando o ânimo afecta confrangir-se com a notícia dum escândalo; franzir os beiços e avincar a testa, se é forçoso chancelar com voto cominativo a pena de alguma imoralidade a retalho.
Conheci alguns homens honestos no Porto. Custou-me muito. Venci, para vê-los ao pé, estorvos desanimadores. Fez-me mister iniciar-me nos arcanos da desonestidade para entrar no segredo de certas existências que, dantes, me pareciam bem fadadas da virtude, ou dotadas de compleição refractária ao vício. Quando me avistei com eles na mesma zona, senti-me corrompido, escorria-me do coração o pus tábido das chagas; dei como impossível o regenerar-me diante do meu próprio senso íntimo; estava ou devia estar perdido, porque julguei necessária à vida a hipocrisia cínica.
É que, sem ter descido as escaleiras todas da protérvia e do opróbrio, não se devassa o latíbulo em que se encovam os homens honestos.
A corrupção periódica das almas, empestadas pelo exemplo, ou impelidas pelo instinto, não tem que ver com a corrupção por grosso, que o acaso ou o ardil vos depara no secreto viver dessa cabilda de beduínos, salteadores da honra alheia, e nojentíssimos farsistas da sua8.
O mundo é péssimo; há, porém, providência nesta péssima organização.
A hora certa, dentre as flores da vida, cultivadas por mão ilesa de espinhos, salta a víbora, que a morde.
Não há felicidade completa para a verdadeira honra: menos a haverá para a falsa.
A virtude, conquanto escudada por si própria, é vulnerável, porque se dói aos golpes da injustiça.
Ora, a hipocrisia, estribada na manha e na fraudulência, há-de, em desaire da justiça de Deus, rebater os tiros da indignação? É impossível. Embora o látego não fira uma fibra sensível nas espáduas do fariseu abroquelado pela impostura; embora a sátira recue espavorida dessas almas impermeáveis à vergonha, é preciso que se escreva um livro, ou se delineiem os traços desse livro, o único, o urgente, o possível, o capitalíssimo para o Porto.
Cansei-me de ouvir dizer que a segunda cidade de Portugal é um enxame de moedeiros falsos, de contrabandistas, de mercadores de negros, de exportadores de escravos e de magistrados de alquilaria. Venalidade, crueza e latrocínio são três eixos capitais sobre que roda, no entender da crítica mordente, o maquinismo social de cem mil almas.
A minha análise aprofunda mais o espírito vital do Porto.
Ali, o viver íntimo tem faces desconhecidas ao olho da polícia e da economia social. Conhecem-se as librés dos chatins de negros; discrimina-se pelo brasão o fabricante de notas falsas do outro seu colega heráldico, opulentado em roubos ao fisco; ignora-se, todavia, o mais observável e ponderoso da biografia desses vultos, que a fortuna estúpida colocou à frente dos destinos e da civilização do Porto.
Ó cidade dos livres, que é da liberdade dos teus escritores?
Se aí há homem de alma, que sacode os sapatos na testeira da riqueza bruta, que testemunho nos dá da sua independência?
O jornalismo do Porto está acorrentado às ucharias dos ricos. O jornalista por via de regra é um pobre homem, que vive do estipêndio cobrado com franciscana humildade à porta do assinante. Para os festins do fidalgo de raça era chamado o versista com as consoantes prévias do soneto na algibeira, onde não havia outra coisa. Nos tumulentos jantares do fidalgo de indústria há talher para o gazeteiro, que já deixou na estante dos caixotins a local sumarenta, inspirada pelo antegosto das viandas, que lhe arrastam na torrente a alma para o estômago.
Nota
Perdoe-me a memória de Silvestre. A calúnia, conquanto escrita em palavras cultas e penteadas, é sempre calúnia. Elegâncias da linguagem, por mais que valham na retórica, valem nada para o desconceito de quem injustamente difamam. O jornalismo do Porto teve e tem admiráveis e valentes mentenedores da honra contra classes poderosas pela infâmia nobilitada. A conta de muitos poderia escrever-se o que o finado Silvestre disse de um, nestes termos, que trasladamos dos seus manuscritos:
Havia aí uma forte alma e audaciosa inteligência, que levou a mão à máscara de alguns para lhes estampar o ferrete na testa.
O jornal brioso, que a tanto ousara, expirou à míngua de subscritores, porque os afrontados por ele iam, de porta em porta, mandar uns e pedir a outros que retratassem as moedas de cobre à receita do escritor, que as não queria para si.
O heróico moço, rodeado de inimigos até ameaçado na vida, cruzou os braços, descorçoado, e disse: "É impossível! Cuidei que teria por mim os incorruptos; mas a peste não respeitou consciência alguma."
Num país em que o Governo atalaiasse os interesses do Estado, e o renome honrado da cidade, aquele jornal seria sustentado a expensas do tesouro; aquele jornalista seria acrescentado em bens e honras; aqueles réprobos, indigitados pelo órgão da voz pública - que é sempre a voz dos fracos e dos inermes -, seriam por seu mesmo decoro e dos poderes que os nobilitariam, obrigados a refutarem a detracção ou a despirem nas praças os arminhos com que escondem o pescoço à corda de esparto.
Doces e nobres quimeras!
O jornalista austero será sempre um ente malsinado e odioso para todos os governos. Hão-de expulsá-lo sempre do sacrário puluto das mercês, onde reina o ladrão laureado, que tem o segredo de abater ministros erguidos e exaltar ministros despenhados.
E acrescenta Silvestre da Silva:
Que outro homem há aí que se aventure a entrar na trilha daquele, que esmoreceu, afinal, diante das conveniências sociais? Serei eu...
Fez bem! Partiu o braço, querendo parar o movimento da roda. Desbaratou a melhor parte do seu Património em publicações panfletárias, que não rasgam sulco algum para as searas do futuro progresso da humanidade. Criou inimigos, que nem sequer lhe tinham lido as diatribes, nem lhe podiam perdoar pelas graças do estilo - inimigos que não sabiam ler, os piores de quantos há. É o que ele fez!


CAPÍTULO III

Tornando ao Dr. Anselmo Sanches.
Dois meses depois que fui ao baile, planeando casar-me com uma das três representantes de acções bancárias no valor de trezentos contos para cima, vi uma senhora, que devia ter sido formosa, encostada ao braço de seu marido.
Trinta e quatro anos teria ou menos; mas os precoces vincos da velhice denunciavam quarenta anos ou mais. Lá estava o fulgor dos olhos para desmentir a denúncia das rugas, fulgor embaciado de lágrimas, mas ainda vivido como clarão crepuscular quando uma barra de púrpura e ouro tinge a orla do céu. De feito, era aquela uma vida em crepúsculo da tarde; já tudo para além-túmulo era escuridade e pavor para a triste senhora.
Chamava-se Rita e era brasileira, pura carioca, linda como todas as cariocas que não tem mais de dezoito anos.
Francisco José de Sousa, marido dela, era um português que enriquecera no Brasil. Tinham viajado longo tempo; e como Francisco José de Sousa tivesse ido do Minho e as saudades da Pátria o não deixassem nunca, escolhera o Porto para residência.
O fino trato, aliado à opulência, estimulou invejas, caprichos, competências e ódios mesmo na sociedade portuense. De todas esta más paixões surdiu um bom resultado: aumentou o número dos bailes, entraram em emulação as equipagens, enriqueceram as modistas, acudiram os jornalistas a fazer acta, qual delas mais encomiástica, dos bailes profusos e luxuosos; o Porto, enfim, poliu-se mais em dois anos que nos nove séculos de vida que a mitologia, vulgarmente chamada história portuguesa, lhe dá.
Estava designada a noite dum baile em casa de Rita Emilia, quando os convidados receberam aviso da súbita doença de Francisco José de Sousa.
Correram amigos e indiferentes a visitar o enfermo. Fui entre os segundos: achei-o prostrado e taciturno; e não vi a esposa ao pé do leito, nem na antecâmara. Perguntavam por ela as pessoas mais familiares; mas a brasileira não recebia sequer as amigas íntimas.
Grande mistério, grande burburinho, a curiosidade em ânsias, a maledicência espionando, a calúnia imaginosa a segredar por praças, e salas, e botequins, desaforadas conjecturas. Andou pois a difamação explicando às cegas, por vários modos, a enfermidade moral de Francisco de Sousa e a misteriosa ausência de D. Rita.
Quinze dias depois fecharam-se as portas e janelas da casa do brasileiro, e os criados, quase todos despedidos, disseram que os amos tinham ido viajar.
Aqui é que a curiosidade ia dando um estouro. Houve aí bisbilhoteria ilustre que se encanzinou de raiva por não poder esquadrinhar o segredo desta saída, a qual, de força, devia ter um escândalo por causa, escândalo que a hipocrisia pudera abafar ardilosamente.
Havia nesta casa uma menina de dezesseis anos, órfã, muito rica, pupila do brasileiro e filha doutro, que morrera no Brasil, quando andava em liquidação.
Mariana acompanhara-os na misteriosa saída do Porto: soube-se, porém, que, ao passarem em Braga, a órfã entrara nas Ursulinas, mosteiro de educação.
Esta menina era a terceira mulher rica do baile.
Sabido isto, respirou um pouco a maledicência. Já os arpéus da hipótese achavam duro onde morder. Acordaram, portanto, em conciliábulo, algumas famílias honestas, que Mariana fora encontrada em flagrante desprezo do seu pudor e, por isso, enclausurada no mosteiro bracarense.
Toda a gente ia ter com o Dr. Anselmo Sanches para evidenciar a conjectura.


CAPÍTULO IV

Era o doutor amigo íntimo da família, pertencia ao conselho tutelar da órfã, curava dos negócios litigiosos do brasileiro e podia muito na casa, dominando a vontade do dono, que se fiava dele, mais seguro que em si próprio. Trinta e oito anos teria Anselmo. Em conta o haviam de homem exemplar em todas as qualidades boas, excepto na jurisprudência, em que era ignorante mais que o ordinário. Isso, porém, não lhe danificava o bom nome. Os seus muitos apologistas, se duvidavam dar-lhe procuração para os representar no foro, sobejamente o indemnizavam, confiando-lhes mulheres, filhas e - o que mais é no Porto - o dinheiro.
Tinha o Dr. Sanches uma cara mais que feliz para se fazer benquisto. Nunca fechava a boca. O queixo inferior, pedindo sempre, servia-o às maravilhas, quando parecia escutar com dor os escândalos que os oradores encartados da Assembléia Portuense9 expectavam do peito sujo, onde a asma senil desafogava pela detracção injuriosa. Se a vítima era senhora casada, o doutor abanava um pouco a cabeça, punha os olhos no tecto, e dizia: "Vão-se os costumes..." Se o escândalo recitava as gargalhadas gosmentas do auditório, Anselmo sorria por complacência e murmurava: "É remarcável o deboche em que está o grande mundo!" (O celerado conspurcava a língua pátria!). Não consentia ele que se erguesse voz a desculpar imoralidades, se raro sucedia algum confrade, por sestro de contradição, indulgenciar fraquezas ordinárias, em verdura de anos, ou obrigadas por circunstâncias especiais.
Era para ver como o inexorável Sanches se enfurecia em invectidas contra Pedro, que passava diariamente duas vezes em tal rua, para inquietar a moça incauta! Chegava a chorar no apuro do sentimental, que prodigamente consumia, descrevendo os funestos resultados da sedução. Menos perdoaria a Martinho, que, impudico e sacrílego, ousava ir aos domingos, à missa do meio-dia, aos Congregados ou Clérigos, para ver pelas costas a mulher do seu vizinho Januário, depois de ter sujado a fama da mulher do seu vizinho Timóteo! E, em seguida, punha em miúdos a história do descrédito daquelas senhoras, casadas com seus amigos, e havia risadas à conta dos maridos, e ficavam todos sabendo o que até então ignoravam. Momentos depois, se lhe pediam novidades, o doutor respondia que não só se abstinha de indagar a vida alheia, mas até quisera, se pudesse, cerrar ouvidos às histórias torpes que todos os dias germinavam da corrupção do corpo social.
Francisco José de Sousa prezava no doutro o que muitos chamavam sobejidão de escrúpulos. Parecia-lhe, a ele, brasileiro, vilã e torpe a incessante detracção em que entretinham os saraus algumas dezenas de velhos, de cuja língua a palavra licenciosa dos bordéis saia mais nojenta do que é em si. Anselmo, para não cair no desagrado do seu amo, dizia que o mal não era a sátira, mas sim o estragamento dos costumes que a autorizava. Escusando os velhos, acrescentava que as cãs eram um pouco intolerantes; porém, inofensivas.
Simpatize o leitor com o Dr. Anselmo, para que se não diga que a virtude é mal vista como a verdade nua.


CAPÍTULO V


No espaço de três meses, a contar da violenta introdução de Mariana nas Ursulinas de Braga, saiu a lume o tenebroso mistério; mas sem estrondo, porque andava muita gente apostada a encobrir Anselmo Sanches para não ter de proclamar a infâmia do apostólico varão, que tinham santificado.
Eu hei-de abreviar em poucas páginas o que sei. Não me posso ver muito tempo encharcado nesta lama, onde me atirou um dos empurrões da sorte. Lama por toda a parte onde me impeliu o coração e a cabeça! Toda a gente se goza dalgumas paragens risonhas; a todo o peregrino da vida é dado assomar de barrancos resvaladiços às chãs pitorescas, e descansar, e esforçar-se aí para se afrontar de novo com as fadigas da jornada. Eu, de mim, nào tive o que têm todos. Onde quer que parei, resvalei num atascadeiro. Quando os acicates do amor me arremessavam às aventuras do coração, ia-me esbarrar com tolas ou devassas, ou desgraçadas tais como Marcolina. Se era a razão que me induzia com os seus cálculos egoístas a tomar o meu quinhão daquilo que o vulgo chama senso comum, já sabem que consequências eu vou tirando das minhas racionais primícias. Vi três mulheres à luz serena do raciocínio. Saiu-me parva a primeira, a ponto de me obrigar, sendo eu em extremo delicado, a perguntar-lhe se gostava de caldo de repolho. A segunda, para me humilhar e abater o orgulho, deu-me em Josino um rival preferido. Esta terceira, a Mariana dos olhos doces e jeitos de inocência lorpa, vão agora saber no que deu.


CAPÍTULO VI


Grandes considerações!
Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima de modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.
Se me desarmam deste convencimento, cimentado em doze anos de experi6encia e observações, não sei como hei-de explicar o amor de D. Rita Emília ao Dr. Anselmo Sanches.
Defendo-a desta vergonha como defenderia o réu dum crime extremamente execrável. A alucinação, a doença dos nervos, a demência, enfim, explicam o crime, e deviam no máximo das vezes absolver a mãe que mata seu filho, o filho que mata seu pai e a mulher que se dá em alma e corpo aos Anselmos Sanches.
Posto isto, dispensam a história das repugnantes conjecturas, que então fiz, sobre o inarrável mistério dos amores de Rita e Anselmo.Indulte-se a infeliz em nome da depravação do nervo óptico, em nome da física e da patologia, em nome da caridade evangélica, em nome de tudo que move à lástima, à piedade e ao perdão.
Rita amava Sanches: aceitou o facto consumado. Ora Francisco José de Sousa, ileso da enfermidade visual de sua mulher, via o doutor, qual a natureza o fabricara, feio, canhestro, mazorral, abrutado, refractário aos dardos do deus de Gnido. Embalde se cansaria a malquerença insinuando ao brasileiro com cartas anónimas - expediente em voga, e creio mesmo que inventado no Porto - a suspeita de que sua mulher encarava no doutor com olhos menos ajuizados que os dele marido.
E a suspeita era já de si tão absurda que não houve no Porto alma de sobra danada que denegrisse, até rebentar o escândalo, a virtude conjugal de Rita.
D. Margarida Carvalhosa disse-me um dia10:
- Vou contar-lhe uma enjoativa novidade, Sr. Silvestre. Prepare-se para rebater um ataque de inveja.
- De inveja, minha querida senhora? Vai Vossa Excelência dizer-me que mimoseou o mais feliz dos mortais com o seu coração?... Invejo, realmente invejo...
- Cale-se. Não se trata de mim: é um escândalo.
- Ah!... disse-me Vossa Excelência logo que era um escândalo: ser-me-ia impossível associar o nome de Vossa Excelência a um escândalo. Trata-se de Guilherme do Amaral? Do barão de Bouças? De Cecília? De João José Dias?
- Não, senhor. Trata-se daquela Rita brasileira de quem o Sr. Silvestre disse que andavam enamorados os anjos.
- E os demónios, minha senhora! Diga, diga, que eu interesso-me em aspirar todos os aromas que rescendem das essências angélicas.
Margarida Carvalhosa descompôs-se a rir e continuou:
- Pois o aroma da tal essência angélica está sendo um aroma de arruda, meu caro poeta.
- Arruda, minha senhora?! Queira explicar-se.
- Rita deixou de ser a cara-metade de seu marido e passou inteira para o Dr. Anselmo Sanches.
- Calúnia torpe! - exclamei com sincero espanto.
Margarida Carvalhosa tange a campainha, sorrindo com irónica piedade da minha boa-fé.
- Venha cá, Josefa - disse ela à criada, que entrava.
- Repare se a mamã está por aqui perto...
A criada disse que a senhora baronesa estava no jardim.
- Conte - prosseguiu Margarida - diante deste senhor, sem acanhamento nem receio, o que me contou a respeito da brasileira.
E, voltando-se para mim, ajuntou:
- Esta criada hesitava; mas, animada pela ama, disse com visível repugnância:
- A brasileira... Então que quer Vossa Excelência que eu conte?
- Como se chamava o amante da sua ama? - disse Margarida.
- Era o Sr. Dr. Anselmo.
- Como soube você que ela amava o Dr. Anselmo?
- Como soube? Soube-o porque eu era a criada do quarto da senhora.
- Aquilo é muito significativo, Sr. Silvestre - disse, sorrindo com gentil malícia, a filha do barão, e acrescentou voltada para a moça: - E como tem você a certeza?
- Ora essa! A senhora não sabe?! Eu sabia tudo. De mim só se escondia ele. Até ela, quando o doutor começava a querer seduzir a pupila do Sr. Sousa, chorava muito e desabafava só comigo.
- Conte lá essa história da sedução da pupila. Como era isso? - disse eu.
O Sr. Doutor sabia que a Sra. D. Marianazinha era rica, e disse à Sra. D. Rita que o melhor modo de continuarem a viver de perto sem que o mundo botasse fel era ele fazer com que o marido consentisse no casamento dela com a menina. Depois, a minha ama deu-lhe um desmaio, e esteve às portas da morte. Quando melhorou, abraçou-se à menina e perguntou-lhe se o doutor já lhe tinha dito alguma palavra a respeito de casar com ela. A menina pegou a chorar e não disse uma nem duas. Isto mais apoquentava a minha ama, e desesperava-se que metia medo. Tanto fez que a menina confessou que o doutor a perseguira quatro meses todas as vezes que a senhora não estivesse ao pé, e que, vindo uma vez com ela de Guimarães, onde a menina tinha ido visitar umas parentas...
A criada, neste ponto, levou o avental ao rosto para encobrir que não corava; e no entanto, Margarida, relanceando os olhos dela para mim, e de mim para ela, com um brilho de alegria só compreensível às mulheres despenhadas, que folgam a cada vítima abismada com elas, disse com império:
- Acabe a história, Josefa.
- A história está acabada, Sra. D. Margarida - disse eu.
Faltam os comentários, que tanta gente faz por sua conta. Esta D. Rita, Sr. Silvestre, quando me estendia a mão e os lábios numa sala, fazia-o com um ar de soberania que me incomodava. Ouviu-lhe muitas vezes, falando de Cecília, dizer com virtuosas caretas: "Vergonha das mulheres!" Rejeitou convites para casa de certas senhoras que não aspiravam a santas. A mim me disse com pedantesco ar maternal: "Menina, as exterioridades, por muito francas e inocentes que sejam, bastam para condenar. Coíba-se de todas as acções que possam dar pasto à maledicência. Olhe que a honestidade não está somente no coração: um olhar e uma palavra irreflectida bastam a depor contra as mais sisudas intenções."
E continuou com rancorosa satisfação:
- De Mariana só lhe direi que ainda há quinze dias a vi com seu ar virginal voltar-se à brasileira, que estava ao pé de mim na missa dos Clérigos, e murmurar a meu respeito palavras que eu não pude compreender. Esta criada, que estava ao pé delas, ouviu-as: "Aquela Margarida Carvalhosa tem modos tão desenvoltos e impróprios de menina solteira!" Ora isto dito por quem oito dias antes, vindo de Guimarães, aceitara uma catástrofe tão imprópria de menina solteira, não me parece crítica muito frisante aos meus costumes. (Eu ri-me por dentro, quando ela disse "meus costumes"...)
Enquanto ao Dr. Anselmo Sanches - continuou D. Margarida, cortando as palavras com frouxos de riso -, esse deixo eu à perspicácia do Sr. Silvestre avaliá-lo... Retire-se, Josefa, que vem aí a mamã.

SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA