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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco


CAPÍTULO IV


Ainda agora me não entendo bem, se penso na frieza do meu coração às escaramuças que a dona do hotel lhe fazia!
Era a Sra. D. Martinha uma viúva de trinta e cinco anos, pequena, entroncada; mas bem feita e ágil. De seu tinha pouco cabelo; porém, com o abençoado capital que empregara em marrafas tecia um trançado tão abundante, principalmente ao domingo, que nunca a arte dos Canovas fez cabeça mais magnífica em adornos que a da Sra. D. Martinha.
Eu bem a vi desfazer-se em atenções comigo, dando-me o melhor quarto, a melhor manteiga, e o café, depois do jantar, fora do ajuste; mas os olhos do meu coração andavam desvairados em contemplações de mais poéticas provas de amor, e não podiam baixar ao devido apreço da boa manteiga e do café de Cabo Verde, como amorosos mimos e demonstração de ternura.
Aos Domingos, a Sra. D. Martinha honrava os hóspedes ao jantar com a sua presença. Eram banquetes estes jantares, obrigados a vinho de Setúbal, presente semanal dum tio da senhora, sujeito de sessenta anos, que remoçava aos vinte, naqueles dias em que ele era certo à mesa.
A jovial dama erguia-se sempre escarlate até às orelhas e lançava-se a um tão voluptuariamente alquebrada, que seria muito para amar-se, se a hipótese consentisse que ela tivesse dentro do seio tanto coração como vinho de Setúbal. Vi-a dançar a jota com requebros de escandecente despejo; não era menos lúbrica no lundum chorado; e, não sei se de experiência, se de instinto, saracoteava-se tão peneirada nas evoluções do fado, que eu estava pasmado do que via.
Convidava eu amigos a jantarem comigo aos domingos, prevenindo-os para gozarem as delícias gratuitas daquela dama, transfigurada em bacante, posto que as antigas bacantes não o eram sem a condição da virgindade, e neste ponto, de modo algum quero ultrajá-la com a comparação. Os meus amigos, já apodrentados de coração, encaravam na desenvolta Martinha com olhos cobiçosos, e, a seu pesar, confessavam que o amado era eu, e unicamente eu. Maus conselheiros excitaram-me a cismar nos encantos, que eles viam, e - com pejo o digo - descobri que a mulher tinha reduzido a pântano uma parte do meu coração para retouçar-se nele.
Amei-a; e ela, sem lho eu dizer, conheceu-o logo. Expôs-me ardentemente as suas raivas e ciúmes, quando me via namorar as vizinhas; e confessou que tivera o satânico pensamento de envenenar Catarina, quando eu a amava, e era amado, tendo ela depositado no coração da desleal amiga o seu segredo.
Os dias corriam plácidos e felizes para nós, quando D. Martinha tomou uma criada, que era mulata.
Mas que anjo das estuosas zonas onde a pele está calcinada, como devem está-lo as fibras do coração! Que mulata!, que inferno de devorante lascívia ela tinha nos olhos! Que tentação, que doidice me tomou de assalto apenas a vi em roda do meu leito, fazendo a cama! O menor trejeito era uma provocação; o frêmito das saias era um choque da pilha galvânica! Ó minha virtude pudibunda! Estavas estragada por D. Martinha!
Amei a mulata, com todo o ardor do meu sangue e dos meus vinte anos! Pedi-lhe amor, como se pede a um Serafim de neve e rosas, a quem a gente ajoelha e ora de longe, com medo de os desmanchar com o bafo. Quando a exorava, parece que os nervos me retorciam os músculos; e os músculos se contraíam em espasmos de luciferina delícia! Lembra-me que me ajoelhei a seus pés um dia, beijando-lhe as mãos, que perfumavam o aroma de cebola do refogado. Melhor me lembra ainda que me ergui de seus pés vitorioso, e feliz como nunca um réu perdoado se ergueu dos pés de rainha do Congo!
Perguntai às aves do céu, e às alimárias dos pedregais africanos, como se amam!
O meu amor tinha da ave a meiguice e do tigre a insaciável sofreguidão.
A mulata sabia que eu tinha amado a ama e era ainda perseguido por ela. Disse-lhe eu que a tolerava por compaixão do seu aferrado afecto. Riu-se a mulata e disse: "Uma vez hei de mostrar-lhe a Sra. D. Martinha no momento em que ela for mais digna da sua compaixão."
Ainda lhes não tinha dito que a folha do Brasil era extremamente engraçada, esperta e maliciosa. Aquelas poucas palavras bastam a defini-la.
Chegou o dia em que ela me havia de mostrar D. Martinha no momento em que mais digna fosse da minha compaixão.
Desceu a mulata do terceiro ao segundo andar e disse-me: "Siga-me pé ante pé." Segui-a, e entrei numa alcova, que tinha portas cortinadas para uma saleta. A condutora afastou um todo-nada da cortina e mandou-me espreitar através da vidraça.
Vi D. Martinha despeitorada e reclinada sobre a otomana. Com os joelhos no estrado estava ele a calçar-lhe as meias nas pernas abandonadas aos seus carinhos. Ele, depois, estendeu-lhe os braços seio acima, cingiu-a pelo pescoço e apoiou a face na porção mais flácida do peito. Ele, depois... "Ele, quem?", pergunta quem isto ler.
Era o tio, que dava o vinho de Setúbal aos domingos. Quando saí do observatório, inclinei o ouvido à mulata, que me dizia:
- É, ou não é, mais digna da sua compaixão do que nunca foi?
- E de nojo! - acrescentei.
Dois dias depois, tive de retirar da hospedaria, em razão de ter dito à Sra. D. Martinha que ela não valia as garrafas de Setúbal que lhe dava o incestuoso sexagenário.
A mulata... (agora me lembro que se chamava Tupinyoyo - que nome tão amável!) ficou de me visitar todos os domingos; mas ao terceiro, depois da promessa, contou-me um aguadeiro de um ricaço, vindo do Brasil, se apaixonou por ela e a levara consigo para o Minho.
Não mentiu o galego. Três anos depois a vi eu na segunda ordem do Teatro de S. João do Porto, vestida ricamente, ao lado duma grande cabeça, que estava cotada na praça do Porto em dois milhões.
Viu-me, fitou-me; não sei se corou; o pudor naquela ordem de peles não sei a cor que toma. Para ouvir a opinião pública, perguntei a diferentes elegantes quem fosse a mulata, e todos. À uma, me responderam que era filha dum titular brasileiro e que fora educada em Londres.
Não desmenti a opinião pública. Seria uma ingratidão à mulher que me ergueu dos seus pés, quando eu lhe pedia o seu amor com lágrimas. Se eu fosse opulento como o homem vindo do Brasil, talvez que ao lado dela, no camarote de S. João, estivesse eu, e não ele.
Falta-me falar da sétima mulher.


CAPÍTULO V


Eu tinha um amigo que se namorara duma modista francesa e me pedia que fosse intérprete do seu coração, na língua de Vítor Hugo. Não me pareceu custoso fingir a língua de Vítor Hugo, sendo a semelhança julgada pela modista. Parece-me que Vítor Hugo não entenderia as minhas cartas escritas no seu idioma; quero, porém, acreditar que a francesa não acharia mais poesia nem mais correção raciniana no poeta das Orientais.
As minhas cartas pertenciam ao sistema que os mestres em epistolografia amorosa determinaram para as modistas. Era o sistema da precipitação dos sucessos e da catástrofe. À oitava carta, convencionou-se o encontro do meu amigo com a francesa numa quinta em Carnide, indo ela acompanhada de uma sua amiga na carruagem, que devia esperá-las à porta oriental do Passeio Público.
- Como há de ser isto?! - disse eu ao meu amigo -; como te hás de tu entender com ela?
Cibrão ficou um pouco enleado e respondeu:
- É verdade!... como hei de eu entendê-la!... Há quinze dias que comprei um dicionário português-francês e uma guia de conversação; mas pouco ou nada sei...
- Como há de ser isto? Eu acho ridícula a tua posição se , às primeiras palavras da francesa, tens de lhe dizer, numa língua que ela não entende, que não percebes a língua que ela te fala. Vocês afinal acabam por se rirem francamente um do outro, e com o ridículo matam o amor.
- Vais tu comigo? - acudiu Cibrão, de golpe.
- Vou; mas, ainda assim, o que faço é aumentar com a minha ida os personagens da farsa. Como queres tu que a francesa me faça a língua do seu coração, se eu suponho que a sua vontade é dizer-te coisas que envergonham dois amantes na presença de terceira pessoa? E calculas tu quanto seria cômico estar eu entre ti e ela compondo para francês e traduzindo para português a linguagem intraduzível dos suspiros? Afinal rir-nos-íamos todos três. A minha opinião é que não vás. Inventa um pretexto, que dê em resultado uma outra entrevista, em que se dispense um longo prefácio de palestra e em que o silêncio seja necessário como recato e cautela. Não vás a sítios em que a natureza campestre te obrigue a discorrer acerca de flores e delícias das tardes estivas. Procura um encontro nas trevas, de modo que a tua inteligência de línguas fique também em trevas, dando-lhe tu em compensação as mais significativas provas de tua sensibilidade, sem alardo de espírito. Às frases responde suspirando. O je vous aime virá sempre a propósito. Aprende a conjugar bem o verbo aimer.
- Esse já eu sei.
- Já? Eu amo?
- J'aime.
- Eu amarei.
- J'aimerai.
- Bem. Je t'aimerai pour la vie, par toujours, éternellement. Entendes?
- Perfeitamente.
- O mais que pudesses dizer seria um pleonasmo. Cifra-te nisto. Adão amou Eva, sabendo dizer muito menos, se me não engana o juízo que eu formo da organização das línguas. Os irracionais também se amam sem diálogo, se não devemos chamar diálogo ao gorjeio dos passarinhos e aos bramidos da leoa sedenta de amor, quando o querido lhe ruge da vizinha selva. Imitemos os bichos para sermos naturais alguma vez.
- Mas afinal - interrompeu Cibrão - que dizes tu?
Aconselhas-me que não vá a Carnide?
- Parecia-me imprudente...
- A boa hora me vens pregar prudências! Hei de ir, e tu vais comigo. Prometo dispensar os teus conhecimentos para me fazer entender. Conjugarei o verbo desde o tempo presente do modo indicativo até ao imperativo. Eu darei o braço à francesa e tu ficarás com a outra. A quinta está ajardinada com sombrinhas grutas de murtas; nestas grutas mora o amor; o amor nos ensinará a falar.
- Sendo assim... vamos.
E fomos.
A sege das meninas chegou pouco depois da nossa. Saltaram com buliçosa graça; e, sem biocos de cerim6onia ou pudor (pudor!... é o que faltava!), nos tomaram os braços.
"Je vous aime", disse Cibrão à risonha criatura, osculando-a base do nariz. "Je vous aimerai 'ternellement", prosseguiu ele, levando-a consigo a doces repelões, com a impetuosa ternura que eu imagino em Júpiter, feito boi, para arrebatar a Europa.
E eu, para também me parecer com Júpiter, fiquei dizendo suavíssimas endeixas em prosa mélica, como aquele famoso cisne as cantava a LeD.
O meu amigo, com a sua flexível haste de tarlatanas e grinaldas artificiais no chapéu, desapareceu nos caramanchéis das murtas, onde o amor os esperava para lhes ensinar a vernácula linguagem.
A francesa, que me escutava as maravilhas amorosas em vasconço, era uma esbelta moça que devia ter sido muito festejada no seu Paris, antes dos trinta anos, e viera naturalmente reflorir a estranhos climas, em país de tolos, como este nosso, tolos esquisitos que, até no amor, adoram o galicismo, ainda mesmo que, na boa linguagem francesa, ele já tenha caído em desuso por antiquado e de mau quilate. Mademoiselle Florence Carlin era termo obsoleto lá na sua terra. Cá entre nós, andava encarecida nas palestras dos peraltas e requestada com finezas pelos mais gentis moços da roda (como quem diz enjeitados da fortuna), e com promessa de grosso cabedal por alguns velhos ricos, velhos digo ao dizer do vulgo, que em Lisboa só se sabe que Fulano ou sicrano era velho, quando morre, se a lista da mortalidade nos diz em que cemitério foi enterrado e os anos que tinha. Em Lisboa não há velho nenhum vivo. É freqüente ouvir a gente esta pergunta feita a um moço de cinqüenta anos: "Esteve em Sintra?" "Oh!", responde, anediando a estriga do bigode encapada em lúcido verniz, "estive em Sintra, minha senhora." "Estava muita gente no jantar da prima viscondessa?" "Sim, minha querida senhora marquesa; damas eram trinta; rapazes éramos vinte e sete."
Tornando à francesa, coisa a que não pode chamar-se vaca-fria:
Dei-lhe uma idéia da minha alma. Contei-lhe os meus sofrimentos em demanda da mulher, que a fantasia em sonhos me vestia com as roupas cândidas do anjo. Disse-lhe mais que a sua imagem como resplendor de lua instantâneo, na horrível cerração de noite borrascosa, dans l'affreuse obscurité d'orageuse nuit, me tinha transluzido nas trevas do meu viver.
A francesa ouviu-me pasmada, e assim a modo de medrosa, como pomba, que se teme da garrulice dum papagaio. A cada movimento melodramático de minhas mãos davam-lhe rebate os nervos, com menos alvoroço de pudor que o de Virgínia nos assaltos lúbricos do decênviro Appius Claudius, de desonesta memória.
Convencida da inocência da minha mímica cobrou ânimo a dama e contou-me que era menina de boa família de Paris, e como tal se julgara digna consorte de um duque fementido, que a raptara e abandonara. À terceira tentativa inútil contra sua vida, resolveu a vítima do duque fugir de Paris para que a sua sociedade a não visse na perdição. Acaso soubera ela que uma notável modista francesa, estabelecida em Lisboa, mandara escriturar em Paris algumas oficias. Mademoiselle Elise de La Sallete mudou o nome, escriturou-se, e veio expiar a sua culpa na hora do trabalho. Eis aqui a história, que eu ouvi com os olhos marejados de lágrimas.
Depois desta revelação, a minha linguagem baixou a prosa vil; mas o sentir da alma era mais íntimo e nobre. Tratei-a com o respeito que impõe a desgraça, mormente se a vítima caiu do altar das adorações à ara negra do holocausto de sua santa e virginal confiança. Ao entardecer, quando Cibrão voltava dos maciços de arbustos, pedi licença à nobre infeliz para lhe apertar a mão e dar-lhe o nome venerável e venerador de amigo.
Despedimo-nos.
Cibrão convenceu-me de que o amor estava nas murtas e saíra, ao vê-los, segregando a cada um a linguagem com que cabalmente, e quantum satis, se perceberam. Eu vinha pasmado do que ele me contou; e, se o não transmito, é que não quero ter os leitores em pasmo. Ora ele também vinha pasmado de mim. Eu a dizer-lhe, em pungimentos de ânimo, a sorte infausta de Mademoiselle Elisa de la Sallete, e ele a rir, e clamar: "Que araras tu engoles! Leve o diabo a poesia, que faz um homem tolo!"
Entendi que o meu amigo era um estúpido feliz, e calei-me.
Escrevi muito nessa noite. Ainda tenho os dois primeiros capítulos dum romance, então começado, com o título: Abismos do Amor. No primeiro descrevo Elisa ab ovo, quero dizer, na incubação dos anjos, que a tinham gerado. Isto orçava por parvoíce; mas era original - merecimento raro nas parvoíces que por aí se escrevem e dizem. No segundo capítulo deito-a em berço de ouro, rodeio-a de boas e más fadas, de anjos fiéis ao Senhor e de anjos despenhados no Inferno. Tencionava, no terceiro, dar o horóscopo da mafaldada, em resultado da vitória alcançada por Lúcifer sobre o anjo-custódio. Era uma coisa de muito trabalho e engenho.
Fora meu intento publicar o romance por assinaturas, em cadernetas de 15 réis, e dedicá-lo deste feitio:
AO ANJO
QUE CONSERVA SUA PUREZA NA DESGRAÇA
E QUE, ANTES DE SER MARTIR,
SE CHAMOU
MADEMOISELLE Elise de la Sallete,
E HOJE
SE CHAMA APENAS
A SANTA,
CONSAGRA O AUTOR
ESTA URNA DE SUAS LÁGRIMAS
Naqueles primeiros dias vi de relance a mártir, à hora da tarde em que despregava da costura.
Concentrava-me e dizia-lhe no verbo dum suspiro: "Ó santa do amor!, mal dirão as mulheres que hoje pompeiam nos salões com os vestidos que lhes fizeste quantas lágrimas verteste no estofo, que te estava insultando e escarnecendo no infortúnio!"
Uma tarde de julho estava eu no Passeio Público, quando as duas francesas entraram. De longe e reverenciosamente as cortejei. Elisa respondeu-me com um gesto de imensa melancolia, como quem diz: "Oh!, não reveles a esses homens de pedra a desgraçada que aqui vai!"
Atrás de mim estava um grupo de homens, que falaram e riam, quando as modistas passaram. Apurei o ouvido e escutei, com preferência, a voz dum sujeito, entre os dizeres zombeteiros dos outros. Dizia assim:
"[...] Parece incrível! Quando eu a conheci, há quatro anos, estava ela com um estudante brasileiro, que estudava o Curso Superior de Letras. Encontrei-a nas guinguettes, a dançar o cancã com admirável mestria. Depois, o brasileiro endossou-a a um italiano; o italiano deu-a de mão beijada a um tenor; o tenor passou-a ao corifeu dos coristas; e daí começou a descer, e perdi-a de vista. Eis senão quando, dou com ela no armazém da *** com a mais pudica das caras e a mais mesurada das linguagens. Recordei-lhe em termos hábeis o passado, as guinguettes, o cancã, o brasileiro e a caterva magna das dinastias que lhe avassalaram o coração; e ela, com as mais marmóreas das caras, disse-me que eu, se não estava enganado, era um infame. Mas o melhor de tudo é ela ter-se encampado a um provinciano, que por aí anda, conhecido do Cibrão Taveira, a título de menina seduzida por um duque, e diz chamar-se, em Paris, Elise de la Sallete!"
Riram todos, e eu pus a mão no lado esquerdo, a rebater o coração que partia as costelas e rasgava as membranas. Fitei o homem, que falava ainda, e disse mentalmente: "Se mentes, pagarás a infâmia com a vida!"
Procurei o meu amigo Cibrão Taveira e contei-lhe o que ouvira. Cibrão, sem escarnecer a minha dor, respondeu com ar sisudo:
- É verdade o que esse homem disse. Não quis desmentir as tuas presunções, porque sabia que te fazia mal. Eu sei-o da outra, que ela tem na conta de amiga íntima. Ambas são da mesma farinha. Nenhuma delas serve para poetas, que andam no encalço dos anjos. Se te serve assim, dá louvores ao Céu por ela ser quem é. Se queres mulheres para romances e prosas, pede-as à tua imaginação e deixa o mundo real como ele está, que não pode ser melhor.
Nesse mesmo dia fui para Mafra com tenção de morrer de tédio: o sítio era azado; mas a minha robusta organização resistiu.
Quando voltei a Lisboa, em começo de setembro, tinha chegado a companhia lírica. Um dos figurantes escriturados era o tenor que em Paris sucedera ao pintor seu patrício. A francesa viu-o, reconheceram-se, amaram-se outra vez, e estavam de casa e pucarinho numa sobreloja na Rua do Outeiro.
Encontrei-me uma vez com eles em casa do Mata, no Cais do Sodré. Aproximei-me dela, que comia um pastel de camarões, e disse-lhe:
- Posso ter a honra de ser apresentado ao Sr. Duque?
Fitaram-me ambos, e a francesa parecia corriD.
Acrescentei:
- Vejo que o sedutor por fim cumpriu os deveres de cavalheiro, Sra. Duquesa! Bem sabe quanto me deve ser grata a sua ventura. Agora, em paga do que as suas desgraças me penalisaram, queira a Sra. Duquesa dar-me o prazer de a ver dançar o cancã.
O Italiano ergueu-se de salto e arremesso; eu saí da sala devagarzinho; e ele, enquanto a mim, tornou a sentar-se. Fez bem, que eu não era para graças.
Acabou assim a história das sete mulheres, número cabalístico, de cuja misteriosa influência me ficou a alma um pouco derrancada.

SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA