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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco


CAPÍTULO V

- Menti-lhe para me livrar das baixezas suplicantes e das ameaças. Prometi deixar Augusto e ficar na companhia do barão. Pediu-me que escrevesse uma carta ao caixeiro, segundo ele ma ditasse. Recusei. Ameaçou-me de novo; vendo-me, porém, resistente e já disposta a morrer, tornou às branduras e desistiu da carta, como coisa inútil depois da minha promessa.
No mesmo dia, brindou-me com um alfinete de diamantes e mandou-me preparar para irmos viajar. O meu plano estava formado: respondi a tudo que sim.
Quando veio a mestra, dei-lhe uma carta para Augusto, avisando-o do meu projeto de fuga e pedindo-lhe que me recebesse assim pobre, que eu já sabia trabalhar e nunca lhe seria pesada.
A mestra estava já vendida ao barão, que foi logo senhor da carta. Se eu fosse esperta, adivinhara a perfídia da medianeira na alteração de rosto com que me recebeu a carta. Estava-se acusando a vil criatura; mas eu não podia julgá-la. Parece-me que só os infames podem julgar bem os infames.
Vi entrar o barão no meu quarto com terrível contractação de rosto. Sem me encarar, pediu-me uma a uma todas as minhas jóias: dei-lhas. Pediu-me todos os meus vestidos, todos, nomeando-os um a um pelas suas cores e estofos: dei-lhos; e perguntei se devia despir o que tinha vestido. 'Veremos', disse ele. E, depois de atirar com os vestidos a pontapés para o interior do seu quarto e guardar as jóias, acrescentou: 'agora, vá quando quiser, que vai como veio. 'Não vou como vim', respondi eu. 'Era pura quando entrei nesta casa, Sr. Barão.' Replicou-me com um insulto sem nome e saiu.
Esperei que anoitecesse, e no entanto pensei para onde iria. O coração impelia-me para Augusto; mas eu ignorava a residência dele. Lembrou-me ir pedir agasalho a minha irmã, e de casa dela indagar a morada de Augusto. Lembrou-me de relance minha mãe; mas suposto me sorrissem as minhas irmãzinhas, fechei logo os olhos a esta horrorosa visão. Prevaleceu o único refúgio, que era minha irmã, muito menos desgraçada do que eu.
Escureceu; saí do quarto e desci as escadas. Ia assim como estou agora. Não levava comigo cinco réis, nem valor algum além dum vestido de casa que tinha no corpo. A meio das escadas, saiu-me o barão duma sobreloja, travou-me pelo braço com mais amor que força e disse-me: 'Onde vais, desgraçada?! Pensa bem no passo que vais dar. Contas com o caixeiro? Esse miserável é tão pobre como tu. Desde que saiu da minha casa, já me mandou pedir um empréstimo, que eu lhe dei como esmola. Nenhuma casa comercial o aceita sem as minhas informações; e eu, a quem mas pede, respondo que ele aniquilou a minha felicidade e desgraçou para sempre duas famílias. Serve-te assim o homem? Cuidas que o caixeiro irá pedir esmola para te sustentar? Irá; mas quem é que lha dá? E quando ele, cansado de humilhações e desonras, friamente olhar para ti e te julgar a causa de sua desgraça, há-de aborrecer-te, odiar-te, e abandonar-te, e fugir de ti como quem foge do maior inimigo. Medita nisto, Marcolina. Perdoo-te o mal que me fizeste, esqueço tudo, peço-te mesmo perdão do que fiz hoje, alucinado pelo amor que te tenho. Ficas, Marcolina?
'Não fico', respondi, 'nem vou procurar Augusto. Para desgraça, basta a minha. Vou ter com minha irmã e de lá procurarei uma casa onde sirva.'
Lançou-se-me aos pés o barão, abraçou-me pela cintura abafado pelos soluços; disse-me até, no seu desvario, que iríamos para a França, e lá casaria comigo. Causou-me riso e compaixão este desatino!... Cedi, deixei-me ir quase nos braços dele até ao meu quarto. Parecia louco de alegria o pobre homem! Trouxe-me as jóias, tirou do dedo um grande brilhante, que ele chamou anel de casamento, e quis à força que eu o pusesse entre outros, posto que podia abranger três dos meus dedos.
- Era uma pulseira! - interrompi eu com ambições de graça. - O barão, excepto os dedos, parece-me um bom sujeito!
- Era - tornou Marcolina -, era um coração como poucos. As ameaças das pistolas, os insultos, a requisição das jóias e dos vestidos, tudo isto, que parece vilania, era nele uma sublime maneira de exprimir o seu muito ciúme e paixão.
Nunca mais vi a mestra, nem tive pessoa que me falasse de Augusto. Naturalmente o fui esquecendo, o forçoso era esquecê-lo em Paris e Londres, para onde o barão me levou, sem me dar tempo a cismar uma hora no meu passado.
De Londres fomos para Alemanha, e estávamos em Baden-Baden, quando o barão, no gozo de robusta saúde e felicidade que a cada hora me confessava, morreu subitamente dum ataque apopléctico, quando se estava banhando.
Não estou a moer-lhe a paciência com os pormenores das coisas sucedidas depois da morte do meu extremoso amigo. Basta dizer-lhe que eu fiquei apenas possuidora dos objectos valiosos que tinha para meu uso, e sem esses mesmos ficaria se um português que estava em Baden-Baden me não aconselhasse a sonegá-los às averiguações da justiça. A mulher do barão veio a Portugal e habilitou-se herdeira única da grande riqueza.
Deliberei voltar para Lisboa.


CAPÍTULO VI

- As minhas jóias valeriam quarenta mil cruzados.
Coadjuvada pelo serviçal português, que me aconselhara, vendi em Londres as melhores peças do meu cofre e apurei uns doze contos de réis. Cheguei a Lisboa e aluguei uma casinha agradável em Buenos Aires. Procurei minha irmã e encontrei-a com muita dificuldade, reduzida ao extremo aviltamento. Em menos de um ano, a infeliz descera a escala da abjecção, que outras descem em muitos anos de libertinagem, com reveses de miséria e luxo. Se alguma vez passou numas ruas imundas da cidade alta, onde as mulheres competem em palavras obscenas com os marinheiros embriagados, já sabe onde eu encontrei a primogénita das segundas núpcias de minha mãe.
E minha mãe onde estaria? E minhas irmãs a que destino seriam chamadas?
Levei a desgraçada para a minha companhia. Chorei três dias a contemplá-la; e ela não chorava. Vesti-a com decência igual à minha; levei-a comigo a passeios ao campo; falava-lhe em tudo, menos no seu destino; queria ela contar-me a sua queda, e eu pretextava sempre uma distração para não lha ouvir.
Passados quinze dias, conheci que minha irmã amava o vinho e bebia muito, e ria desentoadamente depois, começava a rir logo de manhã, e chegava ao jantar já completamente embriagada. Chamei o criado a perguntas, e soube que ela bebia genebra em grandes porções e a toda a hora. Aconselhei-a primeiro brandamente, e depois, baldados os bons modos, repreendi-a com severidade. O resultado foi querer ela sair de minha casa e voltar ao sítio donde viera. Estava irremediavelmente perdida. Consenti que se embriagasse e não saísse. Não bastou esta concessão. Um dia desapareceu-me. Fui procurá-la às paragens mais prováveis e não pude achá-la. Só depois de um mês, com auxílio da polícia, pude descobri-la... no Hospital de S. José.
Fui ao hospital. Falei-lhe, e vi que estava de todo desfigurada. Consultei o facultativo da enfermaria e soube que minha irmã estava mortalmente doente de tubérculos pulmonares. Fí-la transportar para minha casa, por me lembrar que no hospital, a religião não poderia dar-lhe esperanças de melhor vida, agonizando ela entre as suas companheiras de desgraça, que continuamente vociferavam torpezas, ou praguejavam contra Deus, enfrenesiadas pelas dores.
Ao sair do hospital, encontrei Augusto. Senti um abalo, como se visse ressuscitado um amigo morto e quase esquecido. Adiantou-se ele para mim, cumprimentou-me, e disse-me que andava estudando Medicina e estava no seu segundo ano, modo de vida que abraçara por ter parentes que o protegiam, conhecedores da malvadez com que o barão o perseguia.
Minha irmã morreu: já não podia vencer a morte. Prestei-lhe quantos auxílios cabiam em forças da amizade e da compaixão. Os paroxismos da infeliz foram tranquilos; e, se as lágrimas valem na presença de Deus, pode ser que o seu inferno fosse o deste mundo somente.


CAPÍTULO VII

- Foi Augusto visitar-me.
Falou-me do passado, e eu contei-lhe tudo que decorrera desde a sua última carta.
Não lhe ocultei os haveres, que eu tinha em inscrições, compradas com o produto das jóias. Respondi com amizade às reminiscências do seu amor. Pedi-lhe que fosse meu amigo, simplesmente meu amigo, e que não quisesse acordar um sentimento que por pouco nos não fizera a ambos desgraçados sem refúgio.
Encarreguei-o de indagar a sorte de minha mãe. Soube que ela, desde a morte do barão, estava vendendo os móveis para se sustentar e que, em breve, na opinião dos informadores, teria as filhas em conta de móveis. Augusto, industriado por mim, pôde falar às meninas, na ausência da mãe, e persuadiu-as a fugirem para a minha companhia; o que elas prontamente fizeram. Ao mesmo tempo, mandei dar a minha mãe uma mesada, com a certeza de que as faria educar e preparar para um virtuoso destino.
Parece que o senhor às vezes se mostra espantado desta linguagem na boca da mulher que ontem encontrou às onze horas da noite!...
- Dizes bem, Marcolina; às vezes espanto-me. Tenho-te ouvido falar em virtude não sei quantas vezes!
- Uma.
- Só uma?! Será: mas tens tido raptos de eloquência religiosa que cabiam muito bem num livro espiritual.
- E daí que conclui? Que sou hipócrita?
- Não: concluo apenas que és mulher, mistério enigma, absurdo, paradoxo, mescla de luz do Céu, e lavareda do Inferno, demônio e anjo, etc. Continua, que eu enquanto te não vir desfalecida de falar, não te lembro que devemos jantar hoje.
- Pois então jantemos, que eu não penso mais. Parte-se-me o peito com dores; preciso descansar, porque há seis anos que não falo tanto, meu amigo. Estou admirada do bem que me faz o ar do campo. Ainda não tossi desde que cheguei a Sintra.
- Pois tu tens tosse?
- Tenho a tosse da tísica.
- Estás tísica?
- Parece-me que sim... Não falemos em moléstias. Vamos jantar debaixo das árvores: pode ser que eu chore, e o Sr. Silvestre também. Felizes os que choram... É a única felicidade que eu posso dar-lhe.
Estava o jantar na mesa.
Entre parênteses do editor
Há-de muita gente pensar que Silvestre da Silva, nesta parte de suas memórias, anda apegado às muletas literárias dos modernos regeneradores das mulheres degeneradas. Arguição injusta! A Margarida Gauthier é muito mais nova que a Marcolina; e reparem, além disso, que o processo da reabilitação. Eu estou em acreditar que Marcolina, longe de exibir a fibra pura do seu coração, pedindo que lhe aceitem a virgindade moral que ela se refugiou das paixões infames e infrenes, há-de esconder os bons sentimentos com pejo de os denunciar, e fará que as fivelas da mordaça lhe apertem atrozmente os lábios, quando a palavra "amor" lhe rebentar da abundância do coração. A meu ver, Marcolina está dando lições de moralidade, quando muita gente cuida que ela está pedindo lágrimas e perdão dos agravos que fez à moral pública. Veremos.
Como quer que seja, aqui não há damas de camélias, nem Armandos. Silvestre não quer que o romanceiem nem dramatizem. Conta as coisas em escrito como mas disse a mim conversando, e eu agora as dou em estampa ao universo quais as achei nos seus manuscritos. Da moral do conto, o universo que decida, e os localistas.


CAPÍTULO VIII

Marcolina fingiu que comia e que se alegrava. Quis ter graça para responder à provocação das minhas facécias: mas era senhoril de mais nos chistes, que saíam obrigados pelo desejo de fazer-me boa companhia. Tomou algumas chávenas de café e não provou nenhuma bebida espirituosa. À quarta ou quinta chávena, teve um acesso violento de tosse, que terminou com um golfo de sangue. Saiu do quebranto em que ficara com as faces emaciadas e lívidas. Pediu-me perdão do dissabor da sua doença e prontificou-se, se eu queria, a ir contar-me o restante da sua vida, à sombra das árvores. Desisti da minha curiosidade, dispensando-a de falar naquele dia em coisas que a fizessem chorar e me comovessem a mim. Não quis. Aceitou-me o braço e saímos. À sombra da primeira árvore, distante dos grupos que a viram passar e nos olhavam com um sorriso de escárnio ou de piedade da minha libertinagem, sentou-se Marcolina, e recomeçou com as últimas palavras que dissera antes de jantar:
- Felizes os que choram... E a única felicidade que eu posso dar-lhe. - E prosseguiu, depois de recordar o facto em que ficara suspensa a história:
Augusto, apesar das minhas instâncias, pouco sinceras, falou-me do seu amor incessantemente; com tanto respeito, porém, o fazia, quer eu estivesse sozinha, quer com as minhas irmãs, que me cativou a gratidão. Mal sabe o mundo quanto a mulher indigna de respeito sabe ser agradecida a quem teve com ela a comiseração do recato nas palavras e nos gestos!... A infeliz passa da estranheza à alegria de se ver ainda tratada com delicadeza, quando a consciência, o seu verdugo, lhe está dizendo que não merece inspirar sentimento algum, que não seja aviltante ou desonesto. Foi assim que me prendeu Augusto, sem me despertar o amor doutro tempo. Sentia que o não amava e mentia-lhe, querendo retribuir a sua generosidade cavalheirosa. O desapego de meu coração era incompreensível. Na minha vida só se tinham dado os infortúnios que lhe contei. Não gastara a sensibilidade; amara-o apenas a ele; e, sem ter sido enganada pela sedução dalgum homem, sinceramente lhe digo que me inclinava a odiá-los todos. Creio que me levaram a isto as desgraças de minha irmã falecida. Cuidei que todos os sentimentos de dignidade lhos tinham matado os homens, reduzindo-a à hediondez de corpo e alma em que a vi.
As conversações de augusto tendiam todas ao casamento. Contrariei-as com simulada repugnância; mas em minha alma antevia a felicidade de ter um marido, que nunca me havia de pedir contas do meu passado. Além disso, meditando nos costumes de Augusto, no seu viver, na sua aplicação aos estudos, e no plano que tinha de se retirar para uma província logo que estivesse formado, achava-o mais perfeito do que eu podia merecê-lo: parecia-me que qualquer menina sem mancha na sua reputação e com um bom dote se devia dar por bem-aventurada com tal marido.
Casei.
Acredite que eu não tive um mês de contentamento. Sou obrigada a crer que há em mim desgraça contagiosa. Augusto transfigurou-se, se não era hipócrita; ou o demónio do meu destino lhe entrou no espírito para me atormentar sem tréguas, nem fim. Eu não posso demorar-me a contar-lhe pelo miúdo o desconcerto em que vivemos. Augusto era libertino, dissipador, jogador, e até embriagado o vi muitas vezes. Como se explica esta mudança, a não ser pela precisão de mudar-se tão espantosamente um homem que devia ser o meu flagelo?! Mas Porquê? Em que era eu criminosa para tal castigo? Que mal fizera eu a Deus ou à sociedade? Não fui causa a que o barão deixasse a mulher, porque já a tinha abandonado quando me levou para si. Fui boa com a minha mãe e com minhas irmãs. Lembra-me agora se o meu crime era possuir alguns contos de réis das jóias que me tinham sido dadas, e que eu escondi aos direitos da herdeira. Mas a minha desonra e repulsão dentre as pessoas virtuosas não valia alguma coisa?
Seriam as jóias, seriam, meu amigo... É certo que meu marido em dois anos dissipou tudo, tudo. As inscrições vendeu-as; o resto dos braceletes, anéis, cadeias, relógios, tudo com razão ou sem ela, com violência ou brandura, me levou de casa. Restavam-me os móveis, quando, depois de esperar três dias por Augusto, recebi dele uma carta em que me dizia adeus para sempre. Não sei se saiu do País, se se matou. Há três anos que o não vi, nem seus condiscípulos tiveram novas dele.
Ficaram comigo três irmãs, e minha mãe em sua casa, vivendo da mesada que eu lhe dera até ao fim, já quando a furtava à boca e à decência do vestir. Chamei minhas irmãs, que eram já mulheres, e disse-lhes que era necessário morrermos todas. Ouviram-me espavoridas. Disse-lhes que a morte era simples e rápida se acendêssemos dois fogareiros num quarto e fechássemos portas e janelas. Lançaram-se a mim a chorar. Não queria morrer.
Fui vendendo a roupa e os móveis. Perto estava já o dia da fome irremediável, quando fui convidada a procurar em determinada casa um homem que desejava tirar-me da miséria. A encarregada deste convite era uma mulher que tinha estabelecimento público de infâmia. Fui?... Fui... meu amigo, porque minhas irmãs tinham vendido na véspera as suas camisas e minha mãe já três vezes tinha vindo à minha porta pedir esmola com um ar de zombaria que me espedaçava. Apenas conheci a casa em que estava, quis fugir; mas fui estorvada pelo homem que me chamara. Era um amigo do barão.
Voltei a casa com uma peça de ouro e escondi de minhas irmãs a ignomínia daquele dinheiro. Inventei uma história, fiz o elogio da generosidade dum benfeitor, e minhas irmãs, erguendo as mãos a Deus, pediram-lhe a saúde dele. Então ri-me... riso atroz!... creio que me ri da Providência... e, a falar a verdade, não sei bem do que me ri...
Calou-se Marcolina, obrigada pela tosse e pelo vômito de sangue. Amparei-lhe a fronte nas minhas mãos; esperei que sossegasse e disse-lhe:
- E as lágrimas?... Tinhas-me dito que chorarias, infeliz!...
Pois não vê as lágrimas no sangue? - disse ela, sorrindo. - Os olhos já não as têm.
- Não quero ouvir mais - tornei eu.
- Não tem mais que ouvir... O que falta é...
- A duração da desgraça com um só meio de remediá-la...
- Decerto...
- Que fazias ontem no Cais do Sodré?
- Pedia coragem ao meu demónio para me matar; mas vi minhas irmãs, ou o demónio mas mostrava, para que o meu inferno se não acabasse.
- Basta. Esta noite partiremos para Lisboa. Confias de mim o teu destino e o de tuas irmãs? - disse-lhe eu, sem calcular o cargo que me impunha e pensando apenas na quantia que podia dispor.
Marcolina sorriu-se e disse:
- Que generosa alma a sua! Não sabe em que mundo está!...


CAPÍTULO IX

Poucos dias depois da minha volta de Sintra, as três irmãs de Marcolina entraram num recolhimento, a título de minhas parentas.
Marcolina saiu de Lisboa comigo e entrou em minha casa na província. Era já morta minha mãe. Os meus vizinhos escandalizaram-se de me verem em concubinagem, e o pároco da freguesia deixou de me visitar, e o boticário proibiu as filhas de me falarem, e o regedor recomendou à mulher que não fizesse conhecimento com a lisboeta, que tinha cara de pecado.
A minha aldeia é penhascosa, feia e triste. Marcolina amava os rochedos, e as sombras das matas, e ajoelhava às cruzes que encontrava nas veredas por onde andava sozinha, e dobrava-se rente com o chão para beber das fontes térreas em que borbulhava a água. Retingiram-se-lhe as faces e cessou algum tempo a tosse. Já subia comigo aos píncaros das serras, quando eu caçava; trazia ao tiracolo a saca de malha com a merenda, e por lá, naqueles vales, onde os medronheiros e avelãzeiras vinham a terra com frutos, era de ver as delícias com que ela comia, por igual comigo, as grosseiras iguarias que levávamos.
Entrou o Outono, e logo notei a desmedrança e abatimento de Marcolina. A decomposição parece que se via, como se os vermes lhe andassem roendo já perto da epiderme. Quis voltar com ela a Lisboa; mas achei-a pertinaz em não sair da aldeia. Dizia-me que fosse eu distrair-me e que a deixasse ali acabar os seus dias.
Poucos tinha ela já de vida, quando a mais velha das irmãs lhes escreveu contando que o pai voltara rico de África e pusera anúncios nos jornais indagando notícias de sua mulher e filhas. Dizia mais que ele fora ao recolhimento e chorara de alegria vendo-as; mas logo se enfurecera quando elas lhe falaram da mãe. Acrescentava que ele, sabendo que devia à enteada o refúgio de suas irmãs, estava ansioso por vê-la, e pedia-lhe que voltasse imediatamente a Lisboa.
Esta carta deu delírios de júbilo a Marcolina. Fez por vigorizar-se para a jornada, não tanto para testemunhar a felicidade das irmãs como para pedir ao padrasto que não desamparasse sua mulher. A esperança apagou-se súbita, quando preparávamos a partida. Fui, uma tarde, à vila próxima comprar alguns aprestos para a jornada, e quando voltei estava Marcolina nos últimos arrancos. Agitou-se vertiginosamente quando me viu:apertou-me ansiosamente contra o coração e murmurou:
- Agora... e só agora me atrevo a dizer-te que te amei... Deixo-te a eterna lembrança da desgraçada que só à hora da morte se julga digna de ti...
Morreu.
Não posso bem dizer o que senti nessa hora. Morrera uma grande parte do meu ser. Senti o vácuo; era no peito que o sentia. Devia ser o coração, o que vulgarmente se diz coração, que morrera.
É, pois, certo que eu amei aquela mulher?
Ó meu Deus e minha consciência! Vós bem vedes com que orgulho e saudade eu digo que sim, que amei!
Amei-a porque era mais pura, mais virgem e mais santa que a outra respeitada do mundo; e porque, em ódio à sociedade, que a desprezava, não posso vingá-la senão amando-a com eterna saudade.

SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA