CORAÇÃO,
CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco
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Advertência do Autor
à 2ª. Edição
Folheando novamente os manuscritos de Silvestre da Silva, encontrei
algumas páginas que merecem ser intercaladas nesta 2ª.
Edição de suas memórias.
A simpatia que o meu defunto amigo granjeou postumamente na república
das letras e das tetras impõe-me o dever de empurrar portas
dentro da imortalidade tudo que lhe diz respeito.
O meu amigo Antônio Augusto Teixeira de Vasconcelos achou
que Silvestre algumas vezes abusava do vocabulário dos eufemismos.
Também me parece que sim. Mas já agora deixemos o
defunto com a sua responsabilidade e tenhamos esperanças
de que ele se salvará primeiro que o autor da Fany, livro
querido das famílias!
Aqui vem a ponto dizer como Lopo de Vega, na Arte Nueva de Hacer
Comedias:
"Sustento en fin lo que escribi y conozco
Que aunque fuera mejor de otra manera,
No tuvieran el gusto que han tenido
Por que as veces lo que és contra el justo
Por la misma razón deleita el gusto".
O AUTOR
PREÂMBULO
- O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele
nosso amigo Silvestre da Silva...
- Ora, se conheci!... Como está ele?
- Está bem: está enterrado há seis meses.
- Morreu?!
- Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não
deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, senão
convencionalmente. Não há morte. O que há é
metamorfose, transformação, mudança de feito.
Pergunta tu ao doutíssimo poeta José Feliciano de
Castilho o destino que tem a matéria. Dir-te-á a teu
respeito o que disse de Ovídio, sujeito que não era
mais material que tu e que o nosso amigo Silvestre da Silva. "Ovídio
cadáver", pergunta o sábio, "onde é
que pára?" Tudo isso corre fados misteriosos, como Adão,
como Noé, como Rômulo, como nossos pais, como nós,
como nossos filhos, rolando pelos oceanos, flutuando nos ares, manando
nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras, sumido nas minas,
misturado nos solos, viçando nas ervas, rindo nas flores,
recendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas,
rojando dos vulcões, etc." Isto, a meu ver, é
exato e, sobretudo, consolador. O nosso amigo Silvestre da Silva,
a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui faz parte
da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma
tulipa; acolá, está consubstanciado num olho de alface;
pode ser até que eu o esteja bebendo neste copo de água
que tenho à minha beira e que tu o encontres nos sertões
da América, alguma vez, transfigurado em cobra cascavel,
disposto a comer-te, meu Faustino.
O que te eu assevero é que ele deixou de ser Silvestre da
silva, há seis meses, posto que os parentes teimam em lhe
ter uma lousa sobre o chão, onde o estiraram, com esta mentira:
'Aqui jaz Silvestre da Silva.'
Pois é verdade.
O nosso amigo começou a queixar-se, há de haver um
ano, de falta de apetite, e frialdade de estômago, efeito
das indigestões. Foi de mal a pior. Desconfiou que passava
a outra metamorfose, e deu ordem aos seus negócios da alma
com a eternidade. Dos bens terrenos não fez deixação,
porque lá estavam os credores, seus presuntivos herdeiros,
ainda que alguns deles declinaram a herança a benefício
de inventário, lamentando que em Portugal não fosse
lei a prisão por dívidas: parece que os irritou a
certeza de que o cadáver insolvente não podia ser
preso. Em outro ponto te darei mais detida notícia desta
catástrofe.
Eu fui o herdeiro dos seus papéis. Alguns credores quiseram
disputarmos, cuidando que eram papéis de crédito.
Fiz-lhes entender que eram pedaços dum romance; e eles, renunciando
a posse, disseram que tais pataratices deviam chamar-se papelada,
e não papéis.
Aceitei a distinção como necessária e retirei
com a papelada, resolvido a dá-la à estampa, e com
o produto dela ir resgatando a palavra do nosso defunto amigo, embolsando
os credores os credores. Fiz um cálculo aproximado, que me
anima a asseverar aos credores de Silvestre da Silva que hão
de ser plenamente pagos, feita a 10.ª edição
deste romance.
Aqui tens tu uma ação que deve ser extremamente agradável
às moléculas circunfusas do nosso amigo. Espero que
Silvestre ainda venha a agradecer-me o culto que assim dou à
memória dele, convertido em aroma de flor, em linha de cristalina
fonte, ou em Ambrósia de vinho do Porto, metamorfose mais
que muito honrosa, mas pouco admirativa nele, que foi deste mundo
já saturado em bom vinho. É opinião minha que
o nosso amigo, a esta hora, é uma folhuda parreira.
Vamos à papelada, como dizem os outros.
Tenho debaixo dos olhos, mal enxutos da saudade, três volumes
escritos da mão de Silvestre.
O primeiro, na lauda, que serve de capa, tem a seguinte inscrição
em letras maiúsculas: Coração.
O segundo, menos volumoso, diz: Cabeça.
O título do terceiro, e maior volume, é: Estômago.
Nenhum deles designa época; mas quem tiver, como eu, particular
conhecimento do indivíduo, pode, sem grande erro cronológico,
datar os três manuscritos.
O Coração reina desde 1844 até 1854. São
aqueles dez anos em que nós vimos Silvestre fazer tolice
brava.
Em 1855 notamos a transfiguração do nosso amigo, que
durou até 1860, época em que tu já tinhas trocado
o Património da estima dos teus conterrâneos pelas
lentilhas do Novo Mundo. Não viste, pois, a transição
que o homem fez para o estômago, sepultura indigna das santas
quimeras, que aconteceram na mocidade, e consequência funesta
da má direção que ele deu aos Projectos, raciocínios
e sistemas da cabeça. Podemos assinar tempo ao terceiro volume,
desde 1860 até fim de 61, em que o autobiógrafo se
desmanchou do que era para se arranjar doutro feitio.
Silvestre, como sabes, tinha muita lição de maus livros.
Olha se te lembras que os seus folhetins eram um viveiro de imoralidades
vestidas, ou nuas, à francesa. Jornal em que ele escrevesse
morria ao fim do primeiro trimestre, depois de ter matado muitas
ilusões. Quem hoje desembrulha um queijo flamengo, e lê
no invólucro um folhetim de silvestre, mal pensará
que tem entre as mãos o passaporte de muita gente para o
inferno. Não há muito que eu, despejando uma quarta
de mostarda num banho de pés, li o papel, que a contivera,
e achei o seguinte período de um folhetim do meu saudoso
amigo:
"Diz Petrônio que fora o medo que inventara as divindades.
Deus é o que é. O homem é o pequeníssimo
bicho da terra, de que fala o Camões.
Entre Deus e o homem, só a soberba estúpida do homem
podia inventar convenções, concordatas, obrigações
e alianças.
O sagüi é muito menos estúpido e mais modesto.
Come, bebe, dá cabriolas, faz caretas ao mau tempo, coça-se
ao sol, retouça-se à sombra, vive, e acaba feliz,
porque se não receia de vir a ser homem.
A estolidez do homem! Diz ele empapado de vaidade tola: 'Deus tem
os olhos em mim!' Que importância! Deus tem os olhos nele!
Se assim fosse, havia de ver bonitas coisas o criador do homem que
mata seu irmão!
Os olhos nele, para quê? Para envergonhar-se a cada hora da
sua obra!...
É a blasfêmia em todo o seu asco!
Rebalsa-te em sangue, miserável vampiro! Emperla os teus
cabelos, meretriz, que deixas morrer tua mãe de fome! Mãe
infame, come aí em toalhas de Flandres o preço da
desonra de tua filha! Ostentai-vos, vermes, aos olhos de Deus, que
estão pasmos em vós!..."
Ainda bem que o fragmento findava nisto, senão eu teria a
imprudência de to dar inteiro nesta cópia, em que senti
as repugnâncias do pulso. Vê tu que missionário
era aquele Silvestre! Que ceifa de almas fez o empreiteiro das trevas
inferiores naqueles anos!
Eu de mim pude salvar-me, estudando, como sabes, a teologia a fundo.
Tu também te salvaste, penso eu, justamente porque não
sabias coisa nenhuma de teologia e acreditavas na religião
de teus pais, visto que a base fundamental da tua crença
era a caridade. Acertou de ser isto num tempo em que tu pedias esmola
para as freiras de Lorvão e eu, também contigo, pedia
esmola no Teatro de S. João, para o poeta Bingre.
Recorda-te, Novais; mas não chores. Faz como eu: ergue o
peito de sobre a banca do trabalho e sacode a lájea que te
está pesando nas costas... Olha a vaidade! Teremos nós
sepultura com lájea!? Conta com um comarozinho de terra,
e umas papoulas na Primavera, e uma tábua preta com um número
branco. A aritmética há de perseguir-me além
da morte!
Atemos o fio.
Os manuscritos de Silvestre careciam de ser adulterados para merecerem
a qualificação de romance. É coisa que eu não
faria, se pudesse. Acho aqui em páginas correntemente numeradas
sucessos sem ligação nem contingência. Umas
histórias em princípio, outras que começam
pelo fim e outras que não tem fim nem princípio. Pode
ser que eu, alguma vez, em notas, elucide as escuridades do texto,
ou ajunte às histórias incompletas a catástrofe,
que sucedeu em tempo que o meu amigo se retirara da sociedade, onde
deixara a víscera dos afectos.
No volume denominado Coração encontro algumas poesias,
que não traslado, por desmerecerem publicidade, sobre serem
imprestáveis ao contexto da obra. Não designam as
pessoas a quem foram dedicadas, nem me parecem coisa de grande inspiração.
Silvestre, em poesia, era vulgar; e a poesia vulgar, mormente na
pátria dos Junqueiros, dos Álvares de Azevedo, dos
Casimiros de Abreu e dos Gonçalves Dias, é um pecado
publicá-la. Sonego, pois, as poesias, em abono da reputação
literária do nosso amigo.
Basta de preâmbulo.
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