Error processing SSI file
 

 

Contrastes e Confrontos
Euclides da Cunha


SOLIDARIEDADE SUL-AMERICANA

A República tirou-nos do remanso isolador do império para a perigosa solidariedade sul-americana: caímos dentro do campo da visão, nem sempre lúcida, do estrangeiro, insistentemente fixa sobre os povos, os governos e os "governos" (ironicamente sublinhados ou farpeados de aspas) da América do Sul.
O imperador, em que pese à sua educação imperfeita e às suas sensíveis falhas de estadistas, era o grandes plenipotenciário do nosso bom senso equilibrado e da nossa seriedade. A sua bela meia ciência, toda ornada de excertos hebraicos e das estrelas da astronomia doméstica de Flammarion, mas ansiosamente atraída para o convívio dos sábios e costumaz freqüentadora de institutos, era a nossa mesma ânsia, talvez precipitada, mas nobilíssima, de acertar, e a sua bonomia, os seus hábitos modestos e simples, os mesmos hábitos modestos, certo sem brilhos, mas em todo o caso decentes, com que andávamos na história.
Tinha a força sugestiva e dominadora dos símbolos, ou das imagens. Era, para a civilização tão distraída por infinitos assuntos mais urgentes e mais sérios, um índice abreviado onde ela aprendia de um lance os aspectos capitais da nossa vida: o epítome vivo do Brasil.
Talvez não fosse bem certo e carecesse de uma mondadura severa, ou revisão acurada, mas tinha a vantagem de nos determinar uma consideração à parte. Na atividade revolucionária e dispersiva da política sul-americana, apisoada e revolta pelas gauchadas dos caudilhos, a nossa placidez, a nossa quietude, digamos de uma vez, o nosso marasmo, delatavam ao olhar inexperto do estrangeiro o progresso dos que ficam parados quando outros velozmente recuam. E, dada a complexidade étnica e o apenas esboçado de uma sub-raça onde ainda se caldeiam tantos sangues, aquela placabilidade e aquele marasmo recordavam-lhe na ordem social e política a imprescindível tranqüilidade de ambiente que, por vezes, se exige, na física, para que se completem as cristalizações iniciadas...
Hoje, não. Sem aquele ponto de referência, a opinião geral desvaira; derranca-se em absurdos e em erros; estonteia num agitar sem sentido, de maravalhas inúteis; confunde-nos nas desordens tradicionais de caudilhagem; mistura os nossos quatorze anos de regime novo a mais de um século de pronunciamentos; e como, durante esta crise de crescimento, nos saltearam e salteiam desastres - que só podem ser atribuídos à República por quem atribuía ao firmamento as tempestades que no-lo escondem - já não nos distingue nos mesmos conceitos. E que conceitos ...
Deletreiem-se as revistas norte-americanas, para não citarmos outras, e vejam-se o desabrido da palavra, o cruciante dos assertos e até o temerário de futuros planos de absorção, sempre que acontece tratar-se das sister republics, curioso eufemismo com que se designa vulgarmente o vasto e apetecido res nullius, desatado do Panamá ao cabo Horn.
Para os rígidos estadistas que não nos conhecem, e a quem justamente admiramos, as Repúblicas latinas -"as que se dizem Repúblicas" no dizer dolorosíssimo de James Bryce, patenteiam, impressionadoramente, o espetáculo assombroso de algumas sociedades que estão morrendo. Aplicando à vida superorgânica as conclusões positivas do transformismo, esta filosofia caracteristicamente saxônia, e exercitando crítica formidável a que não escapam os mínimos sintomas mórbidos de uma política agitada, expressa no triunfo das mediocridades e na preferência dos atributos inferiores, já de exagerado mando, já de subserviência revoltante, o que eles lobrigam nas gentes sul-americanas é uma seleção natural invertida: a sobrevivência dos menos aptos, a evolução retrógrada dos aleijões, a extinção em toda a linha das belas qualidades do caráter, transmudadas numa incompatibilidade à vida, e a vitória estrepitosa dos fracos sobre os fortes incompreendidos...
Imaginai o darwinismo pelo avesso aplicado à história...
Ora, precisamos anular estes conceitos lastimáveis, que às vezes nos marcam situações bem pouco lisonjeiras. Porque, ainda os há que excetuam o México disciplinado por Porfirio Díaz e enriquecido por José Ignez, embora abrangido de todo pela órbita comercial e industrial da Norte-América; e o Chile com a sua rígida estrutura aristocrática; e a Argentina, que poucos anos de paz vão transfigurando, sob o permanente influxo do grande espírito de Mitre - um homem que é o poder espiritual de um povo.
Nós ficamos alinhados com o Paraguai, convalescente; com a Bolívia, dilacerada pelos motins e pelas guerras; com a Colômbia e a abortícia república que há meses lhe saiu dos flancos; com o Uruguai, a esta hora abalado pelas cavalarias gaúchas e com o Peru.
Não exageramos. Poderíamos fazer numerosas e até monótonas citações, recentes todas, espalhadas em livros e em revistas, onde se move esta extravagante e crudelíssima guerrilha de descrédito.
Aqui, um secretário de legação - poupemos o seu nome - que na North-American Review patenteia um adorável ciúme ante a expansão teutônica em Santa Catarina e bate alarmadamente a afinadíssima tecla do princípio de Monroe; e demasia-se depois no excesso de zelo de denunciar a nossa apatia de filhos de uma terra onde é sempre de tarde - a land where it is always afternoon! - e a nossa miopia patriótica que não percebe em Von den Stein, em Hermann Meyer, em Landerberg os caixeiros sábios de Hansa, os batedores sem armas do germanismo; além do pretenso sociólogo - deixemos também em paz o seu nome e o seu livro, que ambos não valem a escolta dos mais desarranjados adjetivos - que pontificando dogmaticamente, genialmente canhestro, acerca do imperfeito da instrução japonesa, aponta-a como inferior a das Repúblicas sul-americanas, "exceto o Paraguai e o Brasil", recusando-nos, nesta parceria, a mesma procedência alfabética...
Realmente, o que surpreende em tais artigos não é o extravagante das afirmativas; é faltar-lhes, subscrevendo-os, a assinatura de Marc Twain, o mestre encantador da risonha gravidade da ironia ianque.

***

Ora esta campanha iminente com o Peru pode ser um magnífico combate contra essas guerrilhas extravagantes.
Fizemos tudo por evitá-la, sobrepondo à fraqueza belicosa da nação vizinha o generoso programa da nossa política exterior no últimos tempos, tão elevada no sacrificar interesses transitórios aos intuitos mais dignos de seguirmos à frente das nações sul-americanas como os mais fortes, os mais liberais e os mais pacíficos. O recente tratado de Petrópolis - resolvido há quarenta anos, quase pormenorizado por Tavares Bastos e Pimenta Bueno - todo ele resultado de uma inegável continuidade histórica - é o melhor atestado dessa antiga irradiação superior do nosso espírito, destruindo ou dispensando sempre o brilho e a fragilidade das espadas. Nada exprime melhor a nossa atitude desinteressada e originalíssima, de povo cavaleiro-andante, imaginando na América do Sul, robustecida pela fraternidade republicana, a garantia suprema e talvez única de toda a raça latina diante da concorrência formidável de outros povos.
Mas não a compreendeu nunca a opinião estrangeira, que um excesso de objetivismo leva à contemplação exclusiva do quadro material das nossas desditas, à análise despiedada de tudo quanto temos de mau, à indiferença sistemática por tudo quanto temos de bom: e interpretam-na talvez como um sintoma de fraqueza as próprias nações irmãs do continente.
Desiludamo-las.
Aceitemos tranqüilamente a luta com que nos ameaçam, e que não podemos temer.
Não será o primeiro caso de uma guerra reconstrutora. Mesmo quando rematam aparentes desastres, estes conflitos vitais entre os povos, se os não impelem apenas os caprichos dinásticos ou diplomáticos, traduzem-se em grandes e inesperadas vantagens até para os vencidos. A França talvez não monopolizasse hoje as simpatias da Europa sem a catástrofe de 70, que fez a dolorosa glorificação do seu espírito e o ponto de partida de uma regeneração incomparável, toda esteada numa experiência duríssima. Entram muito na glória imortal da Gambeta os planos estratégicos de Moltke.
Tão certo é que as artificiosas combinações políticas, afeiçoadas ao egoísmo dos grupos, se despedaçam nos largos movimentos coletivos, que não abrangem. E nós, afinal, precisamos de uma forte arregimentação de vontade e de uma sólida convergência de esforços, para grandes transformações indispensáveis.
Se essa solidariedade sul-americana é um belíssimo ideal absolutamente irrealizável, com o efeito único de nos prender às desordens tradicionais de dois ou três povos irremediavelmente perdidos, pelo se incompatibilizarem às exigências severas do verdadeiro progresso - deixemo-la.
Sigamos - no nosso antigo e esplêndido isolamento - para o futuro; e, conscientes da nossa robustez, para a desafronta e para a defesa da Amazônia, onde a visão profética de Humboldt nos revelou o mais amplo cenário de toda a civilização da terra.


O IDEAL AMERICANO

Roosevelt é um estilista medíocre. A frase adelgaça-se-lhe no distendido de uns períodos oratórios cheios de incidentes intermináveis e rematados pela simulcadência inaturável das mesmas idéias repisadas, volvidas e revolvidas sob todas as faces, com o sacrifício absoluto da forma à clareza, ou à exposição desatada em pormenores e minúcias exemplificadoras. Não escreve, leciona. Não doutrina, demonstra. Não generaliza, não sintetiza e não se compraz com os aspectos brilhantes de uma teoria: analisa, disseca, induz friamente, ensina.
Mas isto sem o aprumo pretensioso de um lente que pontifica, senão com a modéstia fecunda de um adjunto que rediz, experimenta e mostra.
E o grande repetidor da filosofia contemporânea. Nada diz de novo.
Diz tudo de útil.
O seu último livro, o Ideal Americano, é uma sistematização de truísmos, para adotarmos o anglicismo indispensável às coisas sabidíssimas e claras. E no primeiro momento, deletreadas as primeiras páginas, imaginamo-nos às voltas com um excêntrico rival de Marc Twain, abalançando-se a ressuscitar velharia e a demonstrar axiomas.
No entanto, a pouco e pouco ele nos domina e absorve. Há um encanto irresistível naquela rudeza de rough rider e de quaker; e o paladino rejuvenescido de coisas tão antigas - a energia, a ocupação aparente dos destinos de seu pais, vai, realmente, traçando todas as condições imprescindíveis à vida de todos os países.
Para nós, sobretudo, a sua leitura é imperiosa e urgente.
Copiamos, numa quase agitação reflexa, com o cérebro inerte, a Constituição norte-americana, arremetendo com as mais elementares noções do nosso tirocínio histórico e da nossa formação, violando do mesmo passo as nossas tradições e a nossa índole; é natural e obrigatório que lhe vejamos, a par da grandeza, os males, sobretudo quando eles entendem especialmente com a nossa situação presente e o nosso caráter nacional.
De fato, Roosevelt, ao delatar os "perigos excepcionais" que ameaçam a grande República, antepõe-lhes por vezes de relance, mas insistentemente, feito uma contraprova expressiva, o quadro da anarquia sul-americana; "rusguento grupo de Estados, premidos pelas revoluções, onde um único senão destaca mesmo como nação de segunda".
Deste modo, enquanto recuamos espavoridos imaginando o espantalho do perigo ianque, o estrênuo professor de energia põe, na frente da opinião ianque, o espantalho do perigo sul-americano. Temos medo daquela força; e, no entanto, ela é quem se assusta e foge apavorada da nossa fraqueza.
Ora, infelizmente para nós, a covardia paradoxal do colosso é mais compreensível que a infantilidade dos nossos receios.
Folheiem-se ao acaso as primeiras folhas do Ideal Americano. Depara-se-nos para logo uma novidade: o homem tão representativo do absorvente utilitarismo e do triunfo industrial da América do Norte é um idealista, um sonhador, um poeta incomparável de virtudes heróicas.
Para ele, as garantias de sucesso da sua terra estão menos nos prodígios da atividade e no assombro de uma riqueza material sem par, do que nas belíssimas tradições de honra, e eficiência, traduzidas na ordem política pelos nomes que se inserem entre os de Washington e Lincoln, e na ordem social pelo repontar ininterrupto dessas emoções generosas, que propelem aos verdadeiros estadistas e sem as quais as nações se transmudam "em trambolhos obstrutivos de alguns tratos da superfície terrestre". Não lhe bastam as virtudes da economia e do trabalho; superpõe-lhes a glorificação permanente da honra nacional, da coragem e da persistência, do altruísmo, da lealdade e das grandes tradições provindas das façanhas passadas, formando a capacidade crescente para as empresas maiores do futuro...
Traçado este rumo, é inflexível. Caem-lhe sob o passo de carga de uma lógica inteiriça, confundidos, embolados e ruídos no mesmo esmagamento: - o político tortuoso e solerte que, malignado pelo oblíquo incurável da visão moral, faz da política um meio de existência e supre com a esperteza criminosa a superioridade de pensar; o doutrinador estéril que não transforma a vida numa força ativa e combatente; o indiferente que resmoneia, agressivo, contra a corrupção política ou administrativa, e não intervém num protesto vigoroso e alto, definito por atos decisivos; o jornalista que não exercita uma critica intrépida dos homens e dos partidos, ou se desfaz em lisonjarias indecorosas... e sobre todos eles, os que formam a platéia louvaminheira, não só para lhes explorar as ações como para lhas divinizar e aplaudir, garantindo-lhes no mesmo lance a impunidade dos crimes e a recompensa das males perpetrados
Ao lermos estas páginas impiedosas, pressentimos o dardo de uma alusão ferina. Ali está, latente, um comentário interlinear, de onde ressalta o pior da nossa desalentadora psicologia.
Mas prossigamos. Há identidades mais empolgantes. O impávido moralista repisa logo adiante uma outra novidade velha: firma de modo inflexível a necessidade de um largo americanismo, um forte sentimento. nacional contraposto a um localismo deprimente e dispersivo. Combate às claras - numa lúcida compreensão,. que não possuímos, do verdadeiro regime federal - o maligno espírito de paróquia e esse estreito patriotismo de campanário provincial ou estadual, que subordina a nacionalidade ao bairrismo e retrata, em nosso tempo, o federalismo incoerente da antigüidade grega, das Repúblicas medievais da Itália, e dos retrógrados Estados da Alemanha antes de Bismarck.
Neste lance, aponta ainda uma vez os fatos "abjetos e sangrentos" da América do Sul. E tão desanimador se lhe afigura este vício do regime, que se apressa em lhe denunciar a quase extinção na América do Norte, graças a uma evolução inegável e positiva, porque significa, ali, a passagem de uma forma incoerente e dispersiva a uma forma mais coerente e definida, consoante o preceito elementar do maior pensador da sua raça.
Trata-se como se vê, de um mal que lá está em plena decadência, próximo a extinguir-se, mas que ainda atemoriza; ao passo que entre nós ele surge vigoroso, e se desenvolve e irradia para toda a banda, delineando umas fronteiras ridículas, ou ostentando irritantemente umas questões de limites inclassificáveis, e deixa-nos impassíveis...
Completa-o um outro.
Ao patriotismo diferenciado alia-se, pior, o cosmopolitismo - essa espécie de regime colonial do espírito que transforma o filho de um país num emigrado virtual vivendo, estéril, no ambiente fictício de uma civilização de empréstimo. Mas não há explicar-se a insistência do escritor neste ponto. O americano do norte é um absorvente e um dominador de civilizações. Suplanta-as, transfigura-as, afeiçoa-as ao seu individualismo robusto e ao seu bom senso incomparável; americaniza-as.
Para nós, sim, é que parecem feitas aquelas páginas severas riçadas de repentinos e vivos golpes de ironia - porque entre nós é que se faz mister repetir longamente, e monotonamente mesmo, que mais vale ser um original do que uma cópia, embora esta valha mais do que aquele" e que o ser brasileiro de primeira mão, simplesmente brasileiro, malgrado a modéstia do titulo, "vale cinqüenta vezes mais do que ser a cópia de 2ª classe, ou servil oleografia, de um francês ou de um inglês".
Parafraseando, diríamos: os nossos melhores estadistas, guerreiros, pensadores e dominadores da terra, os que engenharam as melhores leis e as cumpriram, os homens de energia ativa e de coração, que definiram com mais brilho a nossa robustez e o nosso espírito - todos sentiram, pensaram e agiram principalmente como brasileiros; destacam-se, como no passado, de todo destoantes da fisionomia moral de uma época onde o mesmo esboço de um irrequieto e frágil nativismo foi pedir à história do estrangeiro o próprio nome do batismo.
O Ideal Americano não é um livro para os Estados Unidos, é um livro para o Brasil.
Os nossos homens públicos devem - com diurna e noturna mão - versá-lo e decorar-lhe as linhas mais incisivas, como os arquitetos decoram as fórmulas empíricas da resistência dos materiais.
E um compêndio de virilidade social e de honra política incomparável. Traçou-o o homem que é o melhor discípulo de Hobbes e de Gunplowicz - um fanático da força, um tenaz propagandista do valor sobre todos os aspectos, que vai da simples coragem física ao estoicismo mais complexo.
Daí a sua utilidade, não nos iludamos. Na pressão atual da vida contemporânea, a expansão irresistível das nacionalidades deriva-se, como a de todas as forças naturais, segundo as linhas de menor resistência. A absorção de Marrocos ou do Egito, ou de qualquer urna outra raça incompetente, é antes de tudo um fenômeno natural, e, diante dele, conforme insinua a ironia aterradora de Mahan, o falar-se no Direito é extravagância idêntica à quem procura discutir ou indagar sobre a moralidade de um terremoto.
É o darwinismo rudemente aplicado à vida das nações.
Roosevelt compara de modo pinturesco essa concorrência formidável a um vasto e estupendo football on the green: o jogo deve ser claro, franco, enérgico e decisivo; nada de desvios, nada de tortuosidades, nada de receios, porque o triunfo é obrigatoriamente do lutador que hits tle line hard!
Aprendamos, enquanto é tempo, esta admirável lição de mestre.


TEMORES VÃOS

Numa quase mania coletiva da perseguição, andamos, por vezes, às arrancadas com alguns espectros: o perigo alemão e o perigo ianque. Nunca, em toda a nossa vida histórica, o terror do estrangeiro assumiu tão alarmante aspecto, ou abalou tão profundamente as almas. Estamos, neste ponto, como os romanos da decadência depois dos revezes de Varus: escutamos o rumor longínquo da invasão. Uma diferença apenas: Átila não ruge o stella cadi, tellus fremit! descarregando-nos àcabeça o frankisk pesado, e sobre o chão as patas esterilizadoras do cavalo, é Guilherme II, um sonhador medieval desgarrado no industrialismo da Alemanha; e Genserico, a despeito da sua envergadura rija de cowboy dominador das pastagens, é Roosevelt, o grande professor da energia, o maior filósofo prático do século, o ríspido evangelista da vida intensa e proveitosa.
Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora. Esta última consideração é expressiva. Mostra que os receios são vãos.
De fato, atentando-se para a maior destas ameaças, a da absorção ianque, põe-se de manifesto que o imperialismo nos últimos tempos dominante na política norte-americana não significa o fato material de uma conquista de territórios, ou a expansão geográfica à custa do esmagamento das nacionalidades fracas - senão, numa esfera superior, o triunfo das atividades, o curso irresistível de um movimento industrial incomparável e a expansão naturalíssima de um país onde um individualismo esclarecido, suplantando a iniciativa oficial, sempre emperrada ou tardia, permitiu o desdobramento desafogado de todas as energias garantidas por um senso prático incomparável, por um largo sentimento da justiça e até por uma idealização maravilhosa dos mais elevados destinos da existência.
Esta vida prodigiosa alastra-se pela terra com a fatalidade irresistível de uma queda de potenciais. Mas não leva exclusivamente o vigor de uma indústria em busca de mercados, ou uma pletora de riquezas que impõe o desafogo de emigração forçada dos capitais senão também as mais belas conquistas morais do nosso tempo, em que a inviolabilidade dos direitos se ajusta cada vez mais ao respeito crescente da liberdade humana.
Sendo assim, é pelo menos singular que vejamos uma ameaça naquela civilização. Singular e injustificável. Tomemos um exemplo recentíssimo.
Quando o almirante Dewey rematou em Manilha a campanha acelerada que em tão pouco tempo se alongara, num teatro de operações de 160o de longitude, da ilha de Cuba às extremas do Pacifico, a conquista das Filipinas pareceu a toda a gente uma intervenção desassombrada do ianque na partilha do continente asiático. Os melhores propagandistas de uma política liberal e respeitadora da autonomia de outros povos, os mesmos antiexpansionistas do North America, justificavam uma posse arduamente conseguida através de uma luta penosa e ferocíssima. Além disto, o arquipélago não decairia da situação anterior, permanecendo no sistema subalterno de colônia. Melhoraria com a troca das metrópoles; e as suas 114.000 milhas quadradas de terras fertilíssimas, onde se entranham as mais opulentas minas e pompeiam os primores de uma flora surpreendente, eram um novo palco que se abria às grandes maravilhas do trabalho. Realizava-se a profecia de J. Keill: a civilização, depois de contornar a terra, volvia ao berço fulgurante do Oriente, levando-lhe os tesouros de uma faina secular...
Deste modo, quando ao termo da campanha seguiu a primeira "comissáo filipina" a manter entre os tagalos o prestígio americano, consolidar a paz e instituir a justiça, viu-se neste aparato pacífico o primeiro sintoma da absorção inevitável. E era falso.
Aquela conquista, fato consumado pelo triunfo militar, pela aquiescência de todas as nações, e pela submissão completa dos indígenas, sem nenhum empeço material que se lhe oponha, é, neste momento, duvidosa, problemática e talvez inexeqüível.
Não no-lo diz um sentimental; demonstra-o, friamente, num seco argumentar incisivo, o homem mais competente para isto - Gould Shurmann, precisamente o chefe daquela primeira comissão, e o intérprete mais veraz, senão único, dos intuitos da política nos Estados Unidos naquele caso.
A sua linguagem é franca; não segreda ou coleia. no abafamento e nas minúcias das informações oficiais; vibra às claras e alto numa revista - The Ethical Record, de março último, onde o assunto, a great national question, está sob as vistas de todo o mundo.
Ali se discutem os três destinos essenciais das Filipinas: a dependência colonial, a independência incompleta, a exemplo do que sucede em Cuba, ou a constituição de um território, prefigurando vindouro Estado confederado. E a conclusão é surpreendente, sobretudo para os que tanto armam olhos e ouvidos aos esgares truanescos e às versas extravagantes do Jingoismo ianque, tão desmoralizado na própria terra onde se agita: Gould Shurmann, embora ressalvando os interesses da sua terra, declara-se, com um desassombro raro, advogado da independência Filipina. A seu parecer ela se impõe feito um corolário inflexível e insofismável de princípios e tradições políticas que a grande República não poderá negar ou iludir sem a renúncia indesculpável "da sua própria história e dos seus próprios ideais."
Convenhamos em que estes dizeres, dada a autoridade oficial de quem os emite, tornam bastante opinável o perigo ianque - a funambulesca Tarasca que tanto desafia por aí o ferretoar dos pontos de admiração das frases patrióticas.
Afinal, ele não existe; como, afinal, não existe o perigo germânico, inexplicável mesmo diante das nossas tentativas para que se ab-rogue completamente o rescrito de Von der Heydt, que proibiu a emigração germânica para o Brasil.

***

Concluímos que este pavor e este bracejar entre fantasmas são um simples reflexo subjetivo de fraqueza transitória; e que estes perigos - alemão, ianque ou italiano ou ainda outros rompentes ao calor das fantasias, e que se nos figuram estranhos são claros sintomas de um perigo maior, do perigo real e único que está todo dentro das nossas fronteiras e irrompe' numa alucinação da nossa própria vida nacional: o perigo brasileiro.
Este, sim; aí está e se desvenda ao mais incurioso olhar sob infinitos aspectos.
Mas não os consideramos.
Seria uma tarefa crudelíssima.
Teríamos de contemplar, na ordem superior dos nossos destinos, o domínio impertinente da velha tolice metafísica, consistindo em esperarmos tudo das artificiosas e estéreis combinações políticas, olvidando que ao revés de causas elas são meros efeitos dos estados sociais; e aos desastrosos resultados de um código orgânico, que não é a sistematização das condições naturais do nosso progresso, mas uma cópia apressadíssima, onde prepondera um federalismo incompreendido, que é o rompimento da solidariedade nacional
Nos recessos mais íntimos da nossa vida, veríamos desdobrar-se um pecaminoso amor da novidade, que se demasia ao olvido das nossas tradições; o afrouxamento em toda a linha da fiscalização moral de uma opinião publica que se desorganiza de dia a dia, e cada dia se torna mais inapta a conter e corrigir aos que a afrontam, que a escandalizam, e que triunfam; uma situação econômica inexplicavelmente abatida e tombada sobre as maiores e mais fecundas riquezas naturais; e por toda a parte os desfalecimentos das antigas virtudes do trabalho e perseverança que já foram, e ainda o serão, as melhores garantias do nosso destino.
Concluiríamos que os temores são vãos.
Mesmo no balancear com segurança os únicos perigos reais que nos assoberbam, não se distinguiriam males insanáveis - mas a crise transitória da adaptação repentina a um sistema de governo que, mais do que qualquer outro, requer, imperativamente, o influxo ininterrupto e tonificante da moral sobre a política. Por isso mesmo ele nos salvará.
Firmar-se-á, inevitavelmente, uma harmonia salvadora entre os belos atributos da nossa raça e as fórmulas superiores da República, empanados num eclipse momentâneo; e desta mútua reação, deste equilíbrio dinâmico de sentimentos e de princípios, repontarão do mesmo passo as regenerações de um povo e de um regime.
Veremos então, melhor, todo o infundado de receios ou de imaginosas conquistas, que são até uma calúnia e uma condenável afronta a nacionalidades que hoje nos assombram, porque progridem, e que nos ameaçam pelo motivo único de avançarem triunfante e civilizadoramente para o futuro.

Heróis e Bandidos
O Marechal de Ferro

O Kaiser
A Ascádia da Alemanha

A Vida das Estátuas
Anchieta
Garimpeiros
A Comédia Histórica

Plano de Uma Cruzada
A Missão da Rússia

Transpondo o Himalaia
Conjecturas
Contrastes e Confrontos

Conflito Inevitável
Contra os Caucheiros
Entre o Madeira e o Javari

Solidariedade Sul-Americano
O Ideal Americano
Temores Vãos

A Esfinge
Fazedores de Desertos

Entre as Ruínas
Nativismo Provisório

Um Velho Problema
Ao Longo da Estrada
Civilização