Contrastes
e Confrontos
Euclides da Cunha
TRANSPONDO O HIMALAIA
Um despacho para o
War Office transmitiu as informações do coronel Younghusband,
acerca da primeira vitória decisiva das tropas que constituem a
expedição do Tibete - e aquele telegrama mal desviou a atenção
geral, toda entregue à emocionante luta russo-japonesa.
Entretanto, ali estão as primeiras linhas de um drama menos teatral
e ruidoso, mas, talvez, mais profundo e de mais imprevistas conseqüências.
pratica, como sempre, a Inglaterra aproveitou as aberturas atuais da Rússia
e transpôs a muralha do Himalaia.
Que vai fazer? Adiante, deixada a orla formosíssima do vale de
Cachemira, desata-se-lhe o planalto, asperamente revolto, que recorda
uma dilatação lateral de enorme cordilheira. Os terrenos
ondulam, riçados de gargantas, dobrando-se em vales numerosos e
empinando-se em contrafortes crespos de fraguedos, formando-se os pamirs
desolados e ásperos, quase despidos, onde uma flora escassa, mal
abrolhando entre pedras, reflete todo o excessivo de um clima impiedoso:
de verão, calcinando no reverbero fulgurante das soalheiras; de
inverno, amortalhando a natureza toda no sudário branco das geadas.
Ali não ha firmar-se a mais indecisa continuidade de um esforço.
A vida deriva-se tolhida e incompleta, num permanente mal das montanhas.
Dada uma centena de passos, o forasteiro estaca, ofegante, no delíquio
de um repentino assalto de fadiga, sentindo que não lhe basta aos
pulmões afeiçoados aos ares nativos, toda a atmosfera rarefeita
que o envolve. Fala, e mal percebe a própria voz. Grita, e o grito
extingue-se logo, sem ecos, num abafamento de segredo. Depara os primeiros
habitantes e assombra-se. Está diante de uns originalíssimos
colossos-anões, que resumem na estatura meã todos os extremos
da plástica: amplos torsos de atletas sobre pernas bambeantes e
finas, de cretinos.
Compreende então, de pronto, as terríveis exigências
de aclimação deformadora, capaz daquela caricatura horripilante
de titãs.
O inglês, desempenado e rijo, tem naqueles lugares, na sua impecável
harmonia orgânica, uma condição desfavorável
e a fraqueza paradoxal da própria robustez, meio asfixiado num
ambiente que lhe não basta. suplanta-o o indígena desfibrado,
o chepang, ou o hayn, o monstrengo que vive à custa da redução
da vida e da miséria orgânica, largamente satisfeita com
uma hematose imperfeitissíma.
Este, sim, lá se equilibra. Não lhe pula o sangue, a escapar-se
no afogueado rubor das arteríolas refertas; não o estonteia
a vertigem: e o seu pulmão, amplificado à custa da atrofia
de todo o organismo, colhe bem, no espaço rarefeito, a exígua
meia ração de ar de que precisa.
Chegam-lhe, além disso, a fartar, os aleatórios recursos
do solo esterilizado e pobre. E quando não lhe bastassem, lá
está, para ampará-lo e transmudar-lhe em benefícios
as misérias, a sua religiosidade extraordinária, maior que
todas as outras, no sistematizar a renunciação e os sacrifícios.
Realmente, o Tibete - este "teto do mundo", consoante a hipérbole
oriental - tem, na sua maior cidade, Lassa, o Vaticano do budismo.
A filosofia, que é um prodígio de imaginação
e de incoerência - toda baseada na idéia essencial do nada,
ao mesmo passo que vê na natureza uma infinita série de decomposições
e recomposições sem princípio e sem fim - não
podia encontrar melhor cenário, nem mais apropriada gente.
O Tibete é uma vasta Tebaída misteriosa. Um terço
de sua população é de lamas - monges miseráveis
e repulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio idiotas e errantes
de mosteiro em mosteiro, de povoado em povoado, ou à toa, pelos
descampados, a pregarem, alucinadamente, a extinção da personalidade,
o dogma do desespero e o tédio universal da vida: enquanto os dois
terços restantes se abatem aniquilados, inteligências mortas
sob o fardo de deuses e de mundos e de kalpas seculares da mitologia formidável,
que as estonteia e que as esmaga...
Toda essa gente ali se agita, num meio sonambulismo. O viajante encontra,
por vezes, em todos os cantos de ruas, à entrada das casas, ou
dos templos, incontáveis moinhos, tocados pelos escravos, ou pelos
ventos, ou pela água - e tem a ilusão do trabalho. Mas a
ilusão apenas. A breve trecho, nota que os cilindros gigantes não
esmoem o trigo, ou separam a lã; sacodem, esterilmente, as orações
e as fórmulas consagradas que contêm.
As energias escassíssimas das gentes vão-se naquele industrialismo
místico da reza.
Então, avalia bem a identidade admirável que no Tibete,
associa, indissoluvelmente, o homem e a terra. Lança o olhar em
volta. Contempla as paragens desoladas e abruptas, tumultuando em píncaros
desnudos, perdidos no silêncio misterioso das alturas, e compreende
que para aquele recanto do planeta, alternadamente trabalhado pelos maiores
estios e pelos maiores invernos - só mesmo a quietude eterna e
a imensidade vazia do Nirvana...
***
Que vai fazer, ali,
o inglês?...
Vai defender a Índia. Lorde Curzon, o atual vice-rei, declara-o
formalmente; a Índia é uma enorme fortaleza triangular,
tendo o Índico como um fosso envolvendo-a por dois lados e, pelo
outro, o muro do Himalaia.
Transposto este, está uma esplanada, o glacis, que deve jazer na
mais absoluta neutralidade. E a região ao sul do Tibete. Este porém
abandonando, nos últimos tempos, o seu isolamento milenário,
mandou emissários ao tzar, abrindo espontaneamente à política
asiática da Rússia um dilatado campo, que se expande, a
partir das fronteiras orientais do Turquestão. Deste modo, a Rússia,
sobre o glacis, irá ajustar-se, por terra, às lindes da
mais imponente das possessões inglesas, bloqueando-lhe daquele
lado trezentos milhões de súditos.
Daí, esse movimento de contrapolítica, que o Times resume
limpidamente: "A resolução do governo inglês
é clara. Para o russo dominante no Turquestão, o Tibete
é um pais muito distante, que tem muito perto, a um passo, a Índia.
E, embora este passo tenha de dar-se por cima do Himalaia, a grande cordilheira,
de modo algum se compara ao imenso planalto enregelado, onde o caminhante
opresso, numa altitude de 5.000 metros, calca, durante dois meses, a neve
sem ver um homem, sem ver uma única árvore entre os piamos
do Turquestão e as primeiras cabanas dos caçadores, a 200
quilômetros de Lassa. Este planalto, e não a cordilheira,
é que forma a fronteira setentrional da Índia; e o governo
inglês não permite que lha ocupem num movimento ameaçador
e contorneante.
A Inglaterra não vai conquistar, povoar, ou colonizar aquele trato
do território. O que a Inglaterra não quer, e tenazmente,
é que lhe extingam aquele deserto - e que penetre no país,
perpetuamente malignado pelo clima, pela imbecilidade dos lamas e pela
vadiagem aventureira dos tchandalas, a alma forte e maravilhosa dos russos."
Ressalta, nesta circunstância, o significado interessantíssimo
do caso.
A nação mais prática entre todas - onde a inteligência,
conforme a frase de Emerson, está numa espécie de materialismo
mental, porque nada produz sem se basear num fato positivo - coloca-se,
inesperadamente, ao lado da infinita idealização estagnada
do budismo...
Porque, afinal, o que convém à política inglesa na
Índia é a permanência da sociedade decaída
e apática, o vazio da célebre "esplanada" - com
tanta seriedade e tão involuntário humorismo exposta pelo
previdente Lorde Curzon.
E para isso, armou-se uma expedição, que lá está,
há meses, assoberbada de dificuldades de toda a ordem, num solo
onde as armas inglesas, encontrando nos tibetanos uma resistência
inesperada, ainda não perderam o brilho, somente devido à
bravura e à tenacidade inamolgável dos gurkas e siks do
Nepal, os melhores soldados do velho mundo.
A tomada de Giantsé, efetuada pelo coronel Younghusband, depois
de um rude canhoneio, deu-lhes um ponto estratégico de primeira
ordem. Aquela cidade era o primeiro objetivo da campanha. Segundo se colhe
de notícias anteriores, o governador da Índia pretendia,
expugnando-a, transformá-la num centro de negociações
diplomáticas com os grandes lamas e com o Dalai-Lama de Lassa,
por maneira a firmar o prestígio britânico, sem maiores dispêndios
de sacrifícios.
A este propósito, citou-se, mesmo, o grande lama de Tashe Lump,
"o grande mestre", como o denominam, que assiste em Shigtsé,
a poucas léguas de Giantsé.
Ao que se figura, porém, as tentativas neste sentido fracassaram.
Os últimos despachos noticiam que a expedição, agora
sob o mando direto do general MacDonald, segue rumo decisivo para o seu
objetivo lógico, para Lassa, para o âmago do país,
para a Roma intangível do budismo...
Vai desenrolar-se um dos mais empolgantes episódios da história
universal.
Realmente, devem aguardar-se todas as surpresas, e até as revelações
mais imprevistas, deste recontro:
um conflito entre o povo que melhor equilibra as energias da civilização
moderna e a velhíssima raça, onde melhor se conserva o desvairado
misticismo das sociedades primitivas.
CONJECTURAS
Entre os enredos prováveis
que em breve embaralharão a luta do Extremo Oriente avulta, a ressaltar
em destaque sobre todas as conjecturas, uma ação interventiva
da Inglaterra.
Tudo a sugere. A parte um sem número de outras circunstâncias,
mostram-na, com toda a clareza de um traçado geométrico,
os itinerários seguidos pelas duas grandes nacionalidades no velho
mundo.
A princípio marcharam paralelamente: o inglês pelo Egito,
pelo Afeganistão, pela Índia; o russo pelo norte do Turquestão
e pela Sibéria em forma a defrontar o Pacífico; e, certo,
teriam no Tibete e na China propriamente dita uma larga superfície
isolante, que devia garantir a imiscibilidade de suas poderosas vagas
invasoras, se uma delas, a russa, não houvesse de inflectir forçadamente
para o sul, tendendo para um encontro, que será um conflito.
De feito, a rota do eslavo para o Oriente - a mais lenta e a maior de
todas as invasões - não denuncia, como a do saxônio,
um excesso de vida, porem a mesma necessidade inflexível de viver.
Não obedece a um traçado sistemático e seco; não
vai num percurso de gentes disciplinadas avançando adstritas à
retitude de programas prefixos - e um espraiamento largo a assoberbar
fronteiras, o refluxo desordenado e em massa de um povo rudemente repelido
num final espantoso de batalhas.
Realmente, a guerra de Criméia fechou o ocidente da Europa à
Rússia e despenhou-a sobre a Ásia. A típica bonomia
política de Napoleão III, com servir tão complacentemente
aos interesses da Inglaterra, em 1853, afigura-se hoje um lance aquilino
de estadista maquiavélico, porque toda aquela campanha recorda
um reconhecimento armado preparando meio século mais tarde uma
luta titânica a' adversária secular da França.
Era fácil prevê-la. O colosso moscovita, vencido, ficara
inteiramente bloqueado: o Bósforo interdito seqüestrava-o
nos seus estepes, sem saída; e a indústria triunfante das
raças vitoriosas malsinava-lhe, suplantando-lho, o desenvolvimento
econômico incipiente. A Rússia, com a sua estrutura social
variadíssima e imperfeita e a sua atividade ainda tateante entre
a servidão e a liberdade, seria para sempre vencida pelo trabalho
organizado e pelas riquezas estáveis de todo o resto da Europa.
Mas dominou a situação gravíssima. Contornou-a; transmudou
todo aquele recuo num avançamento; e abalou para o levante num
movimento de flanco admirável entre ameaçador e pacífico,
porque não lho estimulava ou inspirava apenas o velho sonho guerreiro
de Pedro, o Grande, a conquista do mar, senão também o anelo
de deparar em outras terras novos centros produtivos, de cultura. Ao revés
da expansão britânica na Índia, não buscava
mercados para o desafogo de indústrias que não tinha, mas
novas áreas de produção industrial e agrícola,
onde as caravanas anuais dos mujiques das Terras Negras - dois milhões
de homens periodicamente postos fora dos lares pela miséria - encontrassem
o abrigo salvador dos territórios ferozes que demoram além
dos plainos estéreis do Turquestão ou da Sibéria.
Para a sua grande vida vacilante e distensa procurou a base econômica
da China - uma Canaã vastíssima...
E assim se traçou a "estrada do império" o transiberiano,
menos um caminho comercial do que um dreno desmedido canalizando para
a Rússia européia toda a força vital da Ásia
conquistada.
Para isso se demasiou em esforços em que as empresas militares
mal se destacam entre os prodígios de uma diplomacia incomparável.
Não há resumi-los. Diante dos hábeis diplomatas,
de Mouravieff a Cassini, abria-se o desconhecido: o Império do
Meio, com a sua contextura política indecifrável, onde a
autoridade periclitante de uma dinastia intrusa mal se equilibra entre
os Kanatos anárquicos da Mongólia - e a força religiosa
dos lamas do Tibete. Neste sistema desfalecido, em que divergem os poderes
mal unidos pela identidade das crenças difundidas na amplitude
do budismo, penetrou a componente dominante da política russa,
que os equilibrou ou os dirigiu, ou os anulou pelo contraste dos interesses
em jogo; de sorte que a breve trecho a nacionalidade, que se perdia na
grandeza inútil da Sibéria, tendo no Pacifico, em Petropavlosky,
uma saída única obstruída pelos gelos, se dilatou
para o sul até Vladivostock; firmou-se depois, mais avantajada,
em Porto Arthur - de onde assoberbando todo o vale do Amur, abrangeu a
Manchúria, e conquistou o protetorado franco da Mongólia,
onde se estréia a suserania do Tibete...
Em cinqüenta anos expandiu-se em superfície capaz de cobrir
a de toda a Europa ocidental de onde refluíra em 1853.
Foi um triunfo e um revide.
Completa-os - fato sugestivo, ainda que desvalioso - uma destas minúcias
pinturescas tão em destaque as vezes entre os maiores acontecimentos.
De fato, o último aspecto desta estupenda hipertrofia territorial
recorda-lhe o ponto de partida. A extremidade peninsular de Liao-Tong
- neste momento o mais ruidoso palco do drama russo-japonês é
a miniatura da Criméia. Ali ainda se retrata, estereotipado no
desmantelamento da terra, o cataclismo geológico que destacou o
Japão da Coréia, deixando-lhes de permeio a rumaria esparsa
das "Dez mil ilhas", que fervilham entre Fuzan e Nangasaki.
A ponte extrema da peninsular Kuang-Tong, a "espada do regente",
embebida no mar à feição de gládio desmedido,
denteia-se de numerosas enseadas ou reentrâncias nos ásperos
costões de micaxisto... Numa delas o acesso se faz por uma passagem
estreita, breve angustura de taludes a pique à maneira de brecha
de muralha.
E lá dentro, no encerro da baía, as falésias a prumo
desatam-se em cortinas unidas, encimadas de baluartes, desenrolam-se ou
entrelaçam-se entrincheiramentos, acompanhando os sulcos das ravinas,
e os cerros torreados crivam de fortalezas as alturas ...
É Porto Arthur - a Sebastopol ameaçadora do Pacífico.
***
Ora, esta expansão
vitoriosa contrabate, de um lado, os interesses imediatos do Japão
transfigurado nos últimos trinta anos, com uma vida intensíssima
a desbordar no âmbito de suas ilhas para o cenário maior
do continente fronteiro - e de outro aos interesses futuros da Inglaterra
na Índia, sobre a qual descerá direta e esmagadoramente
o peso morto formidável deste antigo mundo restituído à
história.
Daí a luta - a luta às claras do Japão, arrojando
na Manchúria todo o seu exército, e a luta surda da Inglaterra,
mal disfarçada sob a forma meio diplomática, meio militar,
da missão do Tibete, que neste momento chega aos muros de Lassa,
a "impenetrável".
Mas neste investir com a capital interdita do budismo, as armas inglesas
vão bater precisamente no centro irradiante das inspirações
superiores da diplomacia moscovita. De fato, toda ela, a despeito da sua
complexidade e das infinitas muralhas em que enleou a metade da Ásia,
tem consistido em destacar o prestígio eslavo entre a fidelidade
precária dos chineses à dinastia reinante e a aversão
nacional à expansão econômica do Ocidente. Teve que
harmonizar coisas opostas: captar a confiança da primeira, protegendo-a
ou dirigindo-a, e ao mesmo tempo o apoio da grande maioria do povo, em
quem o nacionalismo antidinástico é um caso particular de
xenofobia, o ódio ao estrangeiro, que o caracteriza.
Ora, o instrumento desta maquinação - a maior e mais vasta
de quantas intrigas rememora a história foi o mais alto fator da
vida oriental, o clero búdico, a oligarquia teocrática de
Lassa, o árbitro pré-excelente de todas as questões
asiáticas.
Tudo mais está num plano subordinado; os nove mil quilômetros
de rails que prendem Porto Arthur a Petersburgo; os possantes locomóveis
que correm hoje pelos plainos da Mongólia, arrastando pesadíssimos
trens e resolvendo o problema da rápida viação sem
trilhos; as cidades russas emergentes com os seus nomes caracteristicamente
russos por toda a Manchúria; as operações em vasta
escala do Banco Russo-Chinês, açambarcando todas as finanças
do Oriente; e todo o vasto acampamento que perlonga as vias férreas,
onde em cada estação se abarraca uma sotnia de cossacos;
todas estas formas materiais e imponentes do domínio têm
a garantia maior da aliança habilmente estabelecida, desde 1901,
entre o papa ortodoxo do Neva e o imperador teocrático de Lassa.
Graças a ela, desenvolveu-se o protetorado russo na Mongólia
e a suserania virtual do czar sobre toda a China. E quando a corte mandchu,
rudemente molestada pela última intervenção européia,
se acolheu sob o amparo da Rússia, desvendou-se inteiramente>
diante da Europa surpreendida, a aliança singularíssima
entreabrindo uma nova fase na história do Oriente.
Delatou-a incidente expressivo. O chefe do budismo, o super-homem tibetano,
modificou a cerimônia tradicional com que através dos séculos
ele consagra os poderes supremos da Ásia: o chanceler de Lassa,
conduzindo os presentes simbólicos do domínio, não
se dirigiu mais a Pequim. Dirigiu-se para a Livadia.
Era a sagração do czar - logo depois sancionada pela própria
dinastia mandchu com o tratado confidencial de julho de 1902. E o enorme
bloc russo-búdico, descendo esmagadoramente sobre a Ásia
meridional, cerrou todas as passagens à expansão inglesa.
Compreende-se, então, a última entente cordialíssima
entre a Inglaterra e a França, rematando tão de improviso
uma rivalidade secular. Não no-la explicam as simples tendências
galófilas do antigo príncipe de Gales. A política
inglesa é a menos sentimental das políticas, e embora a
inquinassem os nossos belos defeitos latinos, o seu aparelho complexo
repele todos os influxos pessoais. A explicação reponta
das linhas anteriores. A arrogância britânica, tão
desafiadora ainda há pouco em Fashoda, transmudou-se em dócil
cortesia, porque se lhe antolhava, depois do problema africano resolvido
no Transvaal, o problema asiático, mais sério e quase misterioso
no intricado de infinitas incógnitas.
Previu próxima e inevitável deslocação da
sua força para a Ásia, a enterreirar um antagonista que
além da própria robustez lhe tem às portas, separado
pelas seis horas de travessia da Mancha, um aliado respeitável.
Era-lhe preciso remover todas as interpretações inconvenientes
da aliança franco-russa. Daí as suas transigências
quanto aos pontos controvertidos em Sião, o abandono dos projetos
de linhas férreas contrapostos aos interesses franceses no sudoeste
chinês, assim como as suas imprevistas concessões do norte
da África e na Terra Nova - e sobretudo o afogo, a ânsia,
a vibratibilidade perfeitamente latina com que se precipitam os debates
do acordo anglo-francês, na Câmara dos Comuns. De qualquer
modo, deixando o seu esplêndido isolamento, o Reino Unido enfraquecerá
os compromissos franceses na dupla aliança e poderá abalançar-se
à maior das guerras.
A situação é clara.
Se a Rússia for vencida, não terá o apoio do Ocidente
num trabalho de paz que lhe salve ao menos uns restos de domínio.
A convenção anglo-japonesa de julho de 1902, tão
denunciativa do largo descortínio de Chamberlain, e destinada sobretudo
a fechar as estradas da Índia e do Pacífico à Rússia,
terá todos os seus efeitos, e o governo de Mikado ficará
largamente compensado do amargo desapontamento daquele ilógico
tratado de Simonosaki, em que as nações interventoras, entoando
um vae victoribus! extravagante, lhe remataram as vitórias sobre
a China, obrigando-o a respeitar a integridade territorial do vencido.
A Coréia, o Império da Manhã Serena, cairá
inteiramente na órbita do Sol Levante...
E se a Rússia triunfar - o historiador futuro terá de narrar
uma campanha tão anormal, tão vasta e cheia de titânicas
batalhas, que todos os recontros e assaltos desta rude refrega, desencadeada
agora no Oriente, surgirão apequenados, feitos simples combates
de vanguardas.
CONTRASTES E CONFRONTOS
Quem vai com Humboldt
através das serras e das gentes do Peru, observa um paralelismo
interessante.
Copiam-se, refletem-se. A história, ali, parece um escandaloso
plágio da natureza física. Busquemo-la em todos os tempos
e em todas as datas - com o arqueólogo nos baixos relevos dos templos
desabados, com o geólogo nas páginas unidas dos extratos
que se dobram nas vertentes abruptas, ou com os cronistas coloniais nas
emocionantes narrativas dos "conquistadores" e veremos um baralhamento
de contrastes em que os fatos sociais recordam um decalque dos fatos inorgânicos,
repontando, reproduzindo-se e traduzindo-se entre dois extremos: os Andes
e a civilização dos incas, os terremotos e o Peru dos "pronunciamentos".
Vai-se da terra que se retalha e se esboroa presa nas redes vibrantes
das curvas sismais que rudemente a sacodem, à impotência
imóvel da cordilheira equilibrada numa ossatura rígida de
dolerito; do império patriarcal, e esteado numa teocracia inflexível
e do regime das castas, à república revolta e doidejante,
intermitentemente abalada pela fraqueza irritável dos caudilhos.
Não se disfarçam estes contrastes e estas identidades. Eles
lá estão na faixa litorânea amaninhada pelas dunas
e na montana feracíssima, que as matas ajardinam. Numa e noutra
se fronteiam um passado imemorial quase maravilhoso e um presente indefinido
e deplorável. Fronteiam-se e repelem-se. Destacam-se tão
incompatíveis que o viajante, sem que o perturbem os agrupamentos
incaracterísticos que hoje ali se agitam, pode reconstruir nos
seus aspectos dominantes toda a idade de ouro dos aimaras.
Segue a princípio pelo deserto salpintado de oásis, que
se desata de Arica e Tumbez, e encontra para logo, nas huacas subterrâneas,
a própria sociedade antiga: múmias ressequidas, abertos
no escuro das colônias tumulares os olhos de esmalte, num protesto
eloqüentíssimo contra a destruição.
Mais longe, nas cercanias de Pachacamac, as ruínas dos primeiros
santuários do Sol: longas galerias de muros derruídos culminando
as serranias, e os primeiros baluartes arremessados na altura nos cimos
que sobranceiam o Pacifico, denunciando um tino incomparável nos
dispositivos para a defesa do território.
Prossegue até Trujillo e desponta-lhe um traço superior
de caráter utilitário da administração incaica;
as acéquias e os diques que canalizavam ou abarreiravam os rios,
alastrando em largas superfícies as redes irrigadoras, permitindo
culturas opulentas em lugares onde jamais chove, ou um trecho muitas vezes
secular, de estrada incomparável, investindo com os primeiros esporões
da cordilheira... Subindo-a, vai num crescendo a imagem retrospectiva
do passado.
A paisagem torturada da serra, em que a luz crua do trópico não
anima as cores apagadas da flora rarefeita, e os horizontes se abreviam
no escarpado dos pendores, não impressiona. Suplanta-a a ruinaria
da civilização lendária: É a princípio
a mesma estrada que se pisa: uma avenida do Equador ao Chile, torneando
as encostas em cortes na rocha viva, transpondo despenhadeiros em pontes
suspensas que precederam de séculos às da nossa engenharia
pretensiosa, e evocando nos traços remanescentes dos postos militares,
nas estações intervaladas, nos parques escalonados em que
se encerravam os lamas velocíssimos, os tempos gloriosos em que
lhe batiam no calçamento de silhares o tropear dos exércitos,
o galope dos correios céleres e a marcha das longas caravanas dos
mercados tranqüilos.
Ladeiam-na fortalezas e templos.
De Cajamarca a Cuzco não há talvez um quilômetro onde
uma pirâmide truncada, um obelisco, um pilar, um pedaço de
muro, um pórtico desabado, um bloco de granito polido com desenhos
em relevo, e um renque de monólitos, e uma cariátide monstruosa
de porfiro azulado - não recordem a raça extraordinária
que, sem conhecer o ferro, se afoitou a cinzelar a pedra, e com uma frágil
ferramenta de bronze criou uma escultura monumental em blocos de montanhas.
Em Olaitaitambo os santuários talharam-se na rocha viva.
Pisace é um contraforte de cordilheira e uma fortaleza; coroam-na
sete píncaros, sete baluartes; ninguém lhe marca o ponto
em que as ousadias do homem cederam às grandezas naturais, porque
com lhe derivarem as encostas em taludes fortes, as plataformas circulantes
que lhas dominam em sucessivos patamares multiplicaram-se, cobrindo-as
inteiramente com a imagem exata de uma assombrosa escadaria de gigantes.
A estas brutalidades da força aliaram-se, maiores, os prodígios
da inteligência. A natureza que lhe negava as chuvas, o inca contrapôs
a preocupação científica do estudo persistente do
clima, ainda hoje tão bem denunciado no aquário de pedra
do observatório higrométrico de Quenco.
Foi buscar os mananciais eternos dos nevados; captou-os; dirigiu-os em
aquedutos, ora ajustados às vertentes, ora, subterraneamente, varando
serranias; ou então - pormenor que é um recuo considerável
das origens da hidráulica moderna - lançados de uma a outra
serra em vasos comunicantes desmedidos. Por fim, nos lugares onde não
encontrou o cerne rijo da terra para erigir os seus monumentos, inventou
os aparelhos poligonais ciclópicos: uma arquitetura para desafiar
o cataclismo...
***
Mas não previu
o espanhol do século XVI.
A raça forte e pacífica, que dava os primeiros lugares aos
inspetores agrícolas, aos engenheiros, que lhe abriam as estradas
e os canais, e aos arquitetos que lhe alteavam os templos, foi colhida
à traição pela brutalidade militar da Espanha.
Fez-se na história a cópia servil de um daqueles terremotos
que no Peru subvertem cidades em minutos.
A unidade da raça autóctone, disciplinada e integra, marchando
com um método tão seguro que lhe permitiu tão altos
cometimentos, contrapôs-se a desordem de uma exploração
em larga escala e o dispersivo dos caracteres de imigrantes atraídos
de todos os países.
Porque o peruano é, ainda mais do que nós, uma ficção
etnográfica.
Em 1873 Charles Wiener contemplou, numa das ruas de Lima, uma galeria
de quase todas as raças - o branco, o negro, o amarelo e o bronzeado
e todos os cambiantes destas cores do bambo ao cholo, do mulato ao chino-cholo
- completada por uma separação absoluta de classes, do cooli,
que aluga a liberdade, substituindo o negro, ao estrangeiro que ali chega,
explora adoidamente a terra e vai-se embora, ao quíchua, espalhando
na tristeza incurável a doença de sua gens que está
morrendo... No alto o neto dos conquistadores, o quase hidalgo, em que
pese a mestiçagem, o condutício dos caudilhos, o irrequieto
industrial das revoluções, o que se diz peruano, guardando,
intacta, a velha altivez espanhola, quer a estadeie entre as opulências
das haciendas, ou a levante, mais impressionadora, revestido de andrajos,
e mendigando intimamente como se fosse um gentil-homem da miséria...
Ora, toda essa gente - à parte as culturas nos pontos em que se
desenterram as acéquias dos antigos - de um modo geral se aplica
aferradamente, numa agitação ansiosa, aos únicos
trabalhos que lhe não implicam as disparidades de um temperamento
e as divergências de esforços: saqueia a terra e o passado.
Arrebata-lhes o ouro, e a prata, e os nitratos, e o guano, e as múmias,
e as pedras dos templos.
Desbastam-se as costas e as ilhas, degradam-se os flancos das serranias,
profanam-se as pirâmides funerárias, e revolvem-se as huacas,
que, às vezes, valem pelas melhores minas, bastando notar-se que
com um quinto de ouro de uma delas se construiu Trujillo...
Não se define o repulsivo dessas pesquisas lúgubres e dessa
indústria macabra, que tem como matéria-prima arcabouços
disjungidos e profanados, ou velhos sudários em pedaços.
Nada caracteriza melhor o parasitismo, o apego as tradições,
a falta de solidariedade e o desequilíbrio da energia das gentes
que abarracaram por aquelas bandas.
O passado é um despojo.
Aproveitam-no na sua forma estreitamente utilitária. E neste apropriar-se
a esmo, a sociedade revolucionária e frágil vai dando uma
expressão tangível ao contraste que a apequena ante a sociedade
morta: vêem-se então mesquinhos pardieiros desequilibradamente
erectos sobre embasamentos ciclópicos; ou cidades, e citemos apenas
o Huamachuco, construídas com os blocos arrancados dos templos:
uma triste projeção horizontal de velhas fachadas, um acaçapado
estiramento de grandezas repartidas em casas de tetos deprimidos e paredes
espessas, e uma melancólica arquitetura de ruínas...
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Ora, esta atividade,
que um sem-número de causas físicas e sociais tornaram impulsiva,
agitadíssima e estéril, derivando em desfalecimentos e arrancos,
rebate-se na existência política do Peru. Daí a monotonia
irritante dos pronunciamentos, os desastres das guerras infelizes e o
tumultuário das perigosas sucessões presidenciais, que ora
se fazem, progressivamente, à americana, a revólver, ora
com o requinte feroz daquele suplício dos dois usurpadores Gutierres
- expostos, oscilantes, nas torres da Catedral de Lima, e despenhados
depois, do alto daquelas duas Trapeas barrocas para as fogueiras vingadoras
acesas na Plaza de Armas...
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Confrontados estes
contrastes, acredita-se quase que as incursões peruanas, neste
momento exercitadas nas fronteiras remotas do Alto Juruá, se traduzam
como uma retirada, uma tendência para abandonar a estreita e alongada
região onde uma nacionalidade, cujos antecedentes étnicos
prefiguram mais elevados destinos, jaz bloqueada entre o maior dos mares
e a maior das cordilheiras, sobre um solo batido pelo desequilíbrio
dos agentes físicos e em contacto com um passado que tanto tem
influído na sua desfortuna.
Realmente, no levante, transmontada a segunda cadeia dos Andes, desdobra-se
a natureza estável - sem catástrofes e sem ruínas
- guardando intactas as forças criadoras, à espera da componente
prodigiosa do trabalho, e oferecendo, no remanso das culturas, na disciplina
da atividade adstrita a longos esforços consistentes, e na sugestão
permanente da própria harmonia natural, a situação
de parada que sempre faltou aos peruanos para que se lhes despertassem
os notáveis atributos, até hoje suplantados por uma combatividade,
que é uma fraqueza e é um anacronismo. Mas esta só
poderá engravecer, criando-lhes maiores desditas, se, ressurgindo
sob um novo aspecto, for encontrar novos alentos nas arrancadas dos caucheiros
que estão prolongando na devastação das grandes matas,
um longo, um antiquíssimo tirocínio de tropelias.
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