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Contrastes e Confrontos
Euclides da Cunha


TRANSPONDO O HIMALAIA

Um despacho para o War Office transmitiu as informações do coronel Younghusband, acerca da primeira vitória decisiva das tropas que constituem a expedição do Tibete - e aquele telegrama mal desviou a atenção geral, toda entregue à emocionante luta russo-japonesa.
Entretanto, ali estão as primeiras linhas de um drama menos teatral e ruidoso, mas, talvez, mais profundo e de mais imprevistas conseqüências.
pratica, como sempre, a Inglaterra aproveitou as aberturas atuais da Rússia e transpôs a muralha do Himalaia.
Que vai fazer? Adiante, deixada a orla formosíssima do vale de Cachemira, desata-se-lhe o planalto, asperamente revolto, que recorda uma dilatação lateral de enorme cordilheira. Os terrenos ondulam, riçados de gargantas, dobrando-se em vales numerosos e empinando-se em contrafortes crespos de fraguedos, formando-se os pamirs desolados e ásperos, quase despidos, onde uma flora escassa, mal abrolhando entre pedras, reflete todo o excessivo de um clima impiedoso: de verão, calcinando no reverbero fulgurante das soalheiras; de inverno, amortalhando a natureza toda no sudário branco das geadas.
Ali não ha firmar-se a mais indecisa continuidade de um esforço. A vida deriva-se tolhida e incompleta, num permanente mal das montanhas.
Dada uma centena de passos, o forasteiro estaca, ofegante, no delíquio de um repentino assalto de fadiga, sentindo que não lhe basta aos pulmões afeiçoados aos ares nativos, toda a atmosfera rarefeita que o envolve. Fala, e mal percebe a própria voz. Grita, e o grito extingue-se logo, sem ecos, num abafamento de segredo. Depara os primeiros habitantes e assombra-se. Está diante de uns originalíssimos colossos-anões, que resumem na estatura meã todos os extremos da plástica: amplos torsos de atletas sobre pernas bambeantes e finas, de cretinos.
Compreende então, de pronto, as terríveis exigências de aclimação deformadora, capaz daquela caricatura horripilante de titãs.
O inglês, desempenado e rijo, tem naqueles lugares, na sua impecável harmonia orgânica, uma condição desfavorável e a fraqueza paradoxal da própria robustez, meio asfixiado num ambiente que lhe não basta. suplanta-o o indígena desfibrado, o chepang, ou o hayn, o monstrengo que vive à custa da redução da vida e da miséria orgânica, largamente satisfeita com uma hematose imperfeitissíma.
Este, sim, lá se equilibra. Não lhe pula o sangue, a escapar-se no afogueado rubor das arteríolas refertas; não o estonteia a vertigem: e o seu pulmão, amplificado à custa da atrofia de todo o organismo, colhe bem, no espaço rarefeito, a exígua meia ração de ar de que precisa.
Chegam-lhe, além disso, a fartar, os aleatórios recursos do solo esterilizado e pobre. E quando não lhe bastassem, lá está, para ampará-lo e transmudar-lhe em benefícios as misérias, a sua religiosidade extraordinária, maior que todas as outras, no sistematizar a renunciação e os sacrifícios.
Realmente, o Tibete - este "teto do mundo", consoante a hipérbole oriental - tem, na sua maior cidade, Lassa, o Vaticano do budismo.
A filosofia, que é um prodígio de imaginação e de incoerência - toda baseada na idéia essencial do nada, ao mesmo passo que vê na natureza uma infinita série de decomposições e recomposições sem princípio e sem fim - não podia encontrar melhor cenário, nem mais apropriada gente.
O Tibete é uma vasta Tebaída misteriosa. Um terço de sua população é de lamas - monges miseráveis e repulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio idiotas e errantes de mosteiro em mosteiro, de povoado em povoado, ou à toa, pelos descampados, a pregarem, alucinadamente, a extinção da personalidade, o dogma do desespero e o tédio universal da vida: enquanto os dois terços restantes se abatem aniquilados, inteligências mortas sob o fardo de deuses e de mundos e de kalpas seculares da mitologia formidável, que as estonteia e que as esmaga...
Toda essa gente ali se agita, num meio sonambulismo. O viajante encontra, por vezes, em todos os cantos de ruas, à entrada das casas, ou dos templos, incontáveis moinhos, tocados pelos escravos, ou pelos ventos, ou pela água - e tem a ilusão do trabalho. Mas a ilusão apenas. A breve trecho, nota que os cilindros gigantes não esmoem o trigo, ou separam a lã; sacodem, esterilmente, as orações e as fórmulas consagradas que contêm.
As energias escassíssimas das gentes vão-se naquele industrialismo místico da reza.
Então, avalia bem a identidade admirável que no Tibete, associa, indissoluvelmente, o homem e a terra. Lança o olhar em volta. Contempla as paragens desoladas e abruptas, tumultuando em píncaros desnudos, perdidos no silêncio misterioso das alturas, e compreende que para aquele recanto do planeta, alternadamente trabalhado pelos maiores estios e pelos maiores invernos - só mesmo a quietude eterna e a imensidade vazia do Nirvana...

***

Que vai fazer, ali, o inglês?...
Vai defender a Índia. Lorde Curzon, o atual vice-rei, declara-o formalmente; a Índia é uma enorme fortaleza triangular, tendo o Índico como um fosso envolvendo-a por dois lados e, pelo outro, o muro do Himalaia.
Transposto este, está uma esplanada, o glacis, que deve jazer na mais absoluta neutralidade. E a região ao sul do Tibete. Este porém abandonando, nos últimos tempos, o seu isolamento milenário, mandou emissários ao tzar, abrindo espontaneamente à política asiática da Rússia um dilatado campo, que se expande, a partir das fronteiras orientais do Turquestão. Deste modo, a Rússia, sobre o glacis, irá ajustar-se, por terra, às lindes da mais imponente das possessões inglesas, bloqueando-lhe daquele lado trezentos milhões de súditos.
Daí, esse movimento de contrapolítica, que o Times resume limpidamente: "A resolução do governo inglês é clara. Para o russo dominante no Turquestão, o Tibete é um pais muito distante, que tem muito perto, a um passo, a Índia. E, embora este passo tenha de dar-se por cima do Himalaia, a grande cordilheira, de modo algum se compara ao imenso planalto enregelado, onde o caminhante opresso, numa altitude de 5.000 metros, calca, durante dois meses, a neve sem ver um homem, sem ver uma única árvore entre os piamos do Turquestão e as primeiras cabanas dos caçadores, a 200 quilômetros de Lassa. Este planalto, e não a cordilheira, é que forma a fronteira setentrional da Índia; e o governo inglês não permite que lha ocupem num movimento ameaçador e contorneante.
A Inglaterra não vai conquistar, povoar, ou colonizar aquele trato do território. O que a Inglaterra não quer, e tenazmente, é que lhe extingam aquele deserto - e que penetre no país, perpetuamente malignado pelo clima, pela imbecilidade dos lamas e pela vadiagem aventureira dos tchandalas, a alma forte e maravilhosa dos russos."
Ressalta, nesta circunstância, o significado interessantíssimo do caso.
A nação mais prática entre todas - onde a inteligência, conforme a frase de Emerson, está numa espécie de materialismo mental, porque nada produz sem se basear num fato positivo - coloca-se, inesperadamente, ao lado da infinita idealização estagnada do budismo...
Porque, afinal, o que convém à política inglesa na Índia é a permanência da sociedade decaída e apática, o vazio da célebre "esplanada" - com tanta seriedade e tão involuntário humorismo exposta pelo previdente Lorde Curzon.
E para isso, armou-se uma expedição, que lá está, há meses, assoberbada de dificuldades de toda a ordem, num solo onde as armas inglesas, encontrando nos tibetanos uma resistência inesperada, ainda não perderam o brilho, somente devido à bravura e à tenacidade inamolgável dos gurkas e siks do Nepal, os melhores soldados do velho mundo.
A tomada de Giantsé, efetuada pelo coronel Younghusband, depois de um rude canhoneio, deu-lhes um ponto estratégico de primeira ordem. Aquela cidade era o primeiro objetivo da campanha. Segundo se colhe de notícias anteriores, o governador da Índia pretendia, expugnando-a, transformá-la num centro de negociações diplomáticas com os grandes lamas e com o Dalai-Lama de Lassa, por maneira a firmar o prestígio britânico, sem maiores dispêndios de sacrifícios.
A este propósito, citou-se, mesmo, o grande lama de Tashe Lump, "o grande mestre", como o denominam, que assiste em Shigtsé, a poucas léguas de Giantsé.
Ao que se figura, porém, as tentativas neste sentido fracassaram.
Os últimos despachos noticiam que a expedição, agora sob o mando direto do general MacDonald, segue rumo decisivo para o seu objetivo lógico, para Lassa, para o âmago do país, para a Roma intangível do budismo...
Vai desenrolar-se um dos mais empolgantes episódios da história universal.
Realmente, devem aguardar-se todas as surpresas, e até as revelações mais imprevistas, deste recontro:
um conflito entre o povo que melhor equilibra as energias da civilização moderna e a velhíssima raça, onde melhor se conserva o desvairado misticismo das sociedades primitivas.


CONJECTURAS

Entre os enredos prováveis que em breve embaralharão a luta do Extremo Oriente avulta, a ressaltar em destaque sobre todas as conjecturas, uma ação interventiva da Inglaterra.
Tudo a sugere. A parte um sem número de outras circunstâncias, mostram-na, com toda a clareza de um traçado geométrico, os itinerários seguidos pelas duas grandes nacionalidades no velho mundo.
A princípio marcharam paralelamente: o inglês pelo Egito, pelo Afeganistão, pela Índia; o russo pelo norte do Turquestão e pela Sibéria em forma a defrontar o Pacífico; e, certo, teriam no Tibete e na China propriamente dita uma larga superfície isolante, que devia garantir a imiscibilidade de suas poderosas vagas invasoras, se uma delas, a russa, não houvesse de inflectir forçadamente para o sul, tendendo para um encontro, que será um conflito.
De feito, a rota do eslavo para o Oriente - a mais lenta e a maior de todas as invasões - não denuncia, como a do saxônio, um excesso de vida, porem a mesma necessidade inflexível de viver. Não obedece a um traçado sistemático e seco; não vai num percurso de gentes disciplinadas avançando adstritas à retitude de programas prefixos - e um espraiamento largo a assoberbar fronteiras, o refluxo desordenado e em massa de um povo rudemente repelido num final espantoso de batalhas.
Realmente, a guerra de Criméia fechou o ocidente da Europa à Rússia e despenhou-a sobre a Ásia. A típica bonomia política de Napoleão III, com servir tão complacentemente aos interesses da Inglaterra, em 1853, afigura-se hoje um lance aquilino de estadista maquiavélico, porque toda aquela campanha recorda um reconhecimento armado preparando meio século mais tarde uma luta titânica a' adversária secular da França.
Era fácil prevê-la. O colosso moscovita, vencido, ficara inteiramente bloqueado: o Bósforo interdito seqüestrava-o nos seus estepes, sem saída; e a indústria triunfante das raças vitoriosas malsinava-lhe, suplantando-lho, o desenvolvimento econômico incipiente. A Rússia, com a sua estrutura social variadíssima e imperfeita e a sua atividade ainda tateante entre a servidão e a liberdade, seria para sempre vencida pelo trabalho organizado e pelas riquezas estáveis de todo o resto da Europa.
Mas dominou a situação gravíssima. Contornou-a; transmudou todo aquele recuo num avançamento; e abalou para o levante num movimento de flanco admirável entre ameaçador e pacífico, porque não lho estimulava ou inspirava apenas o velho sonho guerreiro de Pedro, o Grande, a conquista do mar, senão também o anelo de deparar em outras terras novos centros produtivos, de cultura. Ao revés da expansão britânica na Índia, não buscava mercados para o desafogo de indústrias que não tinha, mas novas áreas de produção industrial e agrícola, onde as caravanas anuais dos mujiques das Terras Negras - dois milhões de homens periodicamente postos fora dos lares pela miséria - encontrassem o abrigo salvador dos territórios ferozes que demoram além dos plainos estéreis do Turquestão ou da Sibéria.
Para a sua grande vida vacilante e distensa procurou a base econômica da China - uma Canaã vastíssima...
E assim se traçou a "estrada do império" o transiberiano, menos um caminho comercial do que um dreno desmedido canalizando para a Rússia européia toda a força vital da Ásia conquistada.
Para isso se demasiou em esforços em que as empresas militares mal se destacam entre os prodígios de uma diplomacia incomparável.
Não há resumi-los. Diante dos hábeis diplomatas, de Mouravieff a Cassini, abria-se o desconhecido: o Império do Meio, com a sua contextura política indecifrável, onde a autoridade periclitante de uma dinastia intrusa mal se equilibra entre os Kanatos anárquicos da Mongólia - e a força religiosa dos lamas do Tibete. Neste sistema desfalecido, em que divergem os poderes mal unidos pela identidade das crenças difundidas na amplitude do budismo, penetrou a componente dominante da política russa, que os equilibrou ou os dirigiu, ou os anulou pelo contraste dos interesses em jogo; de sorte que a breve trecho a nacionalidade, que se perdia na grandeza inútil da Sibéria, tendo no Pacifico, em Petropavlosky, uma saída única obstruída pelos gelos, se dilatou para o sul até Vladivostock; firmou-se depois, mais avantajada, em Porto Arthur - de onde assoberbando todo o vale do Amur, abrangeu a Manchúria, e conquistou o protetorado franco da Mongólia, onde se estréia a suserania do Tibete...
Em cinqüenta anos expandiu-se em superfície capaz de cobrir a de toda a Europa ocidental de onde refluíra em 1853.
Foi um triunfo e um revide.
Completa-os - fato sugestivo, ainda que desvalioso - uma destas minúcias pinturescas tão em destaque as vezes entre os maiores acontecimentos.
De fato, o último aspecto desta estupenda hipertrofia territorial recorda-lhe o ponto de partida. A extremidade peninsular de Liao-Tong - neste momento o mais ruidoso palco do drama russo-japonês é a miniatura da Criméia. Ali ainda se retrata, estereotipado no desmantelamento da terra, o cataclismo geológico que destacou o Japão da Coréia, deixando-lhes de permeio a rumaria esparsa das "Dez mil ilhas", que fervilham entre Fuzan e Nangasaki. A ponte extrema da peninsular Kuang-Tong, a "espada do regente", embebida no mar à feição de gládio desmedido, denteia-se de numerosas enseadas ou reentrâncias nos ásperos costões de micaxisto... Numa delas o acesso se faz por uma passagem estreita, breve angustura de taludes a pique à maneira de brecha de muralha.
E lá dentro, no encerro da baía, as falésias a prumo desatam-se em cortinas unidas, encimadas de baluartes, desenrolam-se ou entrelaçam-se entrincheiramentos, acompanhando os sulcos das ravinas, e os cerros torreados crivam de fortalezas as alturas ...
É Porto Arthur - a Sebastopol ameaçadora do Pacífico.

***

Ora, esta expansão vitoriosa contrabate, de um lado, os interesses imediatos do Japão transfigurado nos últimos trinta anos, com uma vida intensíssima a desbordar no âmbito de suas ilhas para o cenário maior do continente fronteiro - e de outro aos interesses futuros da Inglaterra na Índia, sobre a qual descerá direta e esmagadoramente o peso morto formidável deste antigo mundo restituído à história.
Daí a luta - a luta às claras do Japão, arrojando na Manchúria todo o seu exército, e a luta surda da Inglaterra, mal disfarçada sob a forma meio diplomática, meio militar, da missão do Tibete, que neste momento chega aos muros de Lassa, a "impenetrável".
Mas neste investir com a capital interdita do budismo, as armas inglesas vão bater precisamente no centro irradiante das inspirações superiores da diplomacia moscovita. De fato, toda ela, a despeito da sua complexidade e das infinitas muralhas em que enleou a metade da Ásia, tem consistido em destacar o prestígio eslavo entre a fidelidade precária dos chineses à dinastia reinante e a aversão nacional à expansão econômica do Ocidente. Teve que harmonizar coisas opostas: captar a confiança da primeira, protegendo-a ou dirigindo-a, e ao mesmo tempo o apoio da grande maioria do povo, em quem o nacionalismo antidinástico é um caso particular de xenofobia, o ódio ao estrangeiro, que o caracteriza.
Ora, o instrumento desta maquinação - a maior e mais vasta de quantas intrigas rememora a história foi o mais alto fator da vida oriental, o clero búdico, a oligarquia teocrática de Lassa, o árbitro pré-excelente de todas as questões asiáticas.
Tudo mais está num plano subordinado; os nove mil quilômetros de rails que prendem Porto Arthur a Petersburgo; os possantes locomóveis que correm hoje pelos plainos da Mongólia, arrastando pesadíssimos trens e resolvendo o problema da rápida viação sem trilhos; as cidades russas emergentes com os seus nomes caracteristicamente russos por toda a Manchúria; as operações em vasta escala do Banco Russo-Chinês, açambarcando todas as finanças do Oriente; e todo o vasto acampamento que perlonga as vias férreas, onde em cada estação se abarraca uma sotnia de cossacos; todas estas formas materiais e imponentes do domínio têm a garantia maior da aliança habilmente estabelecida, desde 1901, entre o papa ortodoxo do Neva e o imperador teocrático de Lassa.
Graças a ela, desenvolveu-se o protetorado russo na Mongólia e a suserania virtual do czar sobre toda a China. E quando a corte mandchu, rudemente molestada pela última intervenção européia, se acolheu sob o amparo da Rússia, desvendou-se inteiramente> diante da Europa surpreendida, a aliança singularíssima entreabrindo uma nova fase na história do Oriente.
Delatou-a incidente expressivo. O chefe do budismo, o super-homem tibetano, modificou a cerimônia tradicional com que através dos séculos ele consagra os poderes supremos da Ásia: o chanceler de Lassa, conduzindo os presentes simbólicos do domínio, não se dirigiu mais a Pequim. Dirigiu-se para a Livadia.
Era a sagração do czar - logo depois sancionada pela própria dinastia mandchu com o tratado confidencial de julho de 1902. E o enorme bloc russo-búdico, descendo esmagadoramente sobre a Ásia meridional, cerrou todas as passagens à expansão inglesa.
Compreende-se, então, a última entente cordialíssima entre a Inglaterra e a França, rematando tão de improviso uma rivalidade secular. Não no-la explicam as simples tendências galófilas do antigo príncipe de Gales. A política inglesa é a menos sentimental das políticas, e embora a inquinassem os nossos belos defeitos latinos, o seu aparelho complexo repele todos os influxos pessoais. A explicação reponta das linhas anteriores. A arrogância britânica, tão desafiadora ainda há pouco em Fashoda, transmudou-se em dócil cortesia, porque se lhe antolhava, depois do problema africano resolvido no Transvaal, o problema asiático, mais sério e quase misterioso no intricado de infinitas incógnitas.
Previu próxima e inevitável deslocação da sua força para a Ásia, a enterreirar um antagonista que além da própria robustez lhe tem às portas, separado pelas seis horas de travessia da Mancha, um aliado respeitável. Era-lhe preciso remover todas as interpretações inconvenientes da aliança franco-russa. Daí as suas transigências quanto aos pontos controvertidos em Sião, o abandono dos projetos de linhas férreas contrapostos aos interesses franceses no sudoeste chinês, assim como as suas imprevistas concessões do norte da África e na Terra Nova - e sobretudo o afogo, a ânsia, a vibratibilidade perfeitamente latina com que se precipitam os debates do acordo anglo-francês, na Câmara dos Comuns. De qualquer modo, deixando o seu esplêndido isolamento, o Reino Unido enfraquecerá os compromissos franceses na dupla aliança e poderá abalançar-se à maior das guerras.
A situação é clara.
Se a Rússia for vencida, não terá o apoio do Ocidente num trabalho de paz que lhe salve ao menos uns restos de domínio. A convenção anglo-japonesa de julho de 1902, tão denunciativa do largo descortínio de Chamberlain, e destinada sobretudo a fechar as estradas da Índia e do Pacífico à Rússia, terá todos os seus efeitos, e o governo de Mikado ficará largamente compensado do amargo desapontamento daquele ilógico tratado de Simonosaki, em que as nações interventoras, entoando um vae victoribus! extravagante, lhe remataram as vitórias sobre a China, obrigando-o a respeitar a integridade territorial do vencido. A Coréia, o Império da Manhã Serena, cairá inteiramente na órbita do Sol Levante...
E se a Rússia triunfar - o historiador futuro terá de narrar uma campanha tão anormal, tão vasta e cheia de titânicas batalhas, que todos os recontros e assaltos desta rude refrega, desencadeada agora no Oriente, surgirão apequenados, feitos simples combates de vanguardas.


CONTRASTES E CONFRONTOS

Quem vai com Humboldt através das serras e das gentes do Peru, observa um paralelismo interessante.
Copiam-se, refletem-se. A história, ali, parece um escandaloso plágio da natureza física. Busquemo-la em todos os tempos e em todas as datas - com o arqueólogo nos baixos relevos dos templos desabados, com o geólogo nas páginas unidas dos extratos que se dobram nas vertentes abruptas, ou com os cronistas coloniais nas emocionantes narrativas dos "conquistadores" e veremos um baralhamento de contrastes em que os fatos sociais recordam um decalque dos fatos inorgânicos, repontando, reproduzindo-se e traduzindo-se entre dois extremos: os Andes e a civilização dos incas, os terremotos e o Peru dos "pronunciamentos".
Vai-se da terra que se retalha e se esboroa presa nas redes vibrantes das curvas sismais que rudemente a sacodem, à impotência imóvel da cordilheira equilibrada numa ossatura rígida de dolerito; do império patriarcal, e esteado numa teocracia inflexível e do regime das castas, à república revolta e doidejante, intermitentemente abalada pela fraqueza irritável dos caudilhos.
Não se disfarçam estes contrastes e estas identidades. Eles lá estão na faixa litorânea amaninhada pelas dunas e na montana feracíssima, que as matas ajardinam. Numa e noutra se fronteiam um passado imemorial quase maravilhoso e um presente indefinido e deplorável. Fronteiam-se e repelem-se. Destacam-se tão incompatíveis que o viajante, sem que o perturbem os agrupamentos incaracterísticos que hoje ali se agitam, pode reconstruir nos seus aspectos dominantes toda a idade de ouro dos aimaras.
Segue a princípio pelo deserto salpintado de oásis, que se desata de Arica e Tumbez, e encontra para logo, nas huacas subterrâneas, a própria sociedade antiga: múmias ressequidas, abertos no escuro das colônias tumulares os olhos de esmalte, num protesto eloqüentíssimo contra a destruição.
Mais longe, nas cercanias de Pachacamac, as ruínas dos primeiros santuários do Sol: longas galerias de muros derruídos culminando as serranias, e os primeiros baluartes arremessados na altura nos cimos que sobranceiam o Pacifico, denunciando um tino incomparável nos dispositivos para a defesa do território.
Prossegue até Trujillo e desponta-lhe um traço superior de caráter utilitário da administração incaica; as acéquias e os diques que canalizavam ou abarreiravam os rios, alastrando em largas superfícies as redes irrigadoras, permitindo culturas opulentas em lugares onde jamais chove, ou um trecho muitas vezes secular, de estrada incomparável, investindo com os primeiros esporões da cordilheira... Subindo-a, vai num crescendo a imagem retrospectiva do passado.
A paisagem torturada da serra, em que a luz crua do trópico não anima as cores apagadas da flora rarefeita, e os horizontes se abreviam no escarpado dos pendores, não impressiona. Suplanta-a a ruinaria da civilização lendária: É a princípio a mesma estrada que se pisa: uma avenida do Equador ao Chile, torneando as encostas em cortes na rocha viva, transpondo despenhadeiros em pontes suspensas que precederam de séculos às da nossa engenharia pretensiosa, e evocando nos traços remanescentes dos postos militares, nas estações intervaladas, nos parques escalonados em que se encerravam os lamas velocíssimos, os tempos gloriosos em que lhe batiam no calçamento de silhares o tropear dos exércitos, o galope dos correios céleres e a marcha das longas caravanas dos mercados tranqüilos.
Ladeiam-na fortalezas e templos.
De Cajamarca a Cuzco não há talvez um quilômetro onde uma pirâmide truncada, um obelisco, um pilar, um pedaço de muro, um pórtico desabado, um bloco de granito polido com desenhos em relevo, e um renque de monólitos, e uma cariátide monstruosa de porfiro azulado - não recordem a raça extraordinária que, sem conhecer o ferro, se afoitou a cinzelar a pedra, e com uma frágil ferramenta de bronze criou uma escultura monumental em blocos de montanhas.
Em Olaitaitambo os santuários talharam-se na rocha viva.
Pisace é um contraforte de cordilheira e uma fortaleza; coroam-na sete píncaros, sete baluartes; ninguém lhe marca o ponto em que as ousadias do homem cederam às grandezas naturais, porque com lhe derivarem as encostas em taludes fortes, as plataformas circulantes que lhas dominam em sucessivos patamares multiplicaram-se, cobrindo-as inteiramente com a imagem exata de uma assombrosa escadaria de gigantes.
A estas brutalidades da força aliaram-se, maiores, os prodígios da inteligência. A natureza que lhe negava as chuvas, o inca contrapôs a preocupação científica do estudo persistente do clima, ainda hoje tão bem denunciado no aquário de pedra do observatório higrométrico de Quenco.
Foi buscar os mananciais eternos dos nevados; captou-os; dirigiu-os em aquedutos, ora ajustados às vertentes, ora, subterraneamente, varando serranias; ou então - pormenor que é um recuo considerável das origens da hidráulica moderna - lançados de uma a outra serra em vasos comunicantes desmedidos. Por fim, nos lugares onde não encontrou o cerne rijo da terra para erigir os seus monumentos, inventou os aparelhos poligonais ciclópicos: uma arquitetura para desafiar o cataclismo...

***

Mas não previu o espanhol do século XVI.
A raça forte e pacífica, que dava os primeiros lugares aos inspetores agrícolas, aos engenheiros, que lhe abriam as estradas e os canais, e aos arquitetos que lhe alteavam os templos, foi colhida à traição pela brutalidade militar da Espanha.
Fez-se na história a cópia servil de um daqueles terremotos que no Peru subvertem cidades em minutos.
A unidade da raça autóctone, disciplinada e integra, marchando com um método tão seguro que lhe permitiu tão altos cometimentos, contrapôs-se a desordem de uma exploração em larga escala e o dispersivo dos caracteres de imigrantes atraídos de todos os países.
Porque o peruano é, ainda mais do que nós, uma ficção etnográfica.
Em 1873 Charles Wiener contemplou, numa das ruas de Lima, uma galeria de quase todas as raças - o branco, o negro, o amarelo e o bronzeado e todos os cambiantes destas cores do bambo ao cholo, do mulato ao chino-cholo - completada por uma separação absoluta de classes, do cooli, que aluga a liberdade, substituindo o negro, ao estrangeiro que ali chega, explora adoidamente a terra e vai-se embora, ao quíchua, espalhando na tristeza incurável a doença de sua gens que está morrendo... No alto o neto dos conquistadores, o quase hidalgo, em que pese a mestiçagem, o condutício dos caudilhos, o irrequieto industrial das revoluções, o que se diz peruano, guardando, intacta, a velha altivez espanhola, quer a estadeie entre as opulências das haciendas, ou a levante, mais impressionadora, revestido de andrajos, e mendigando intimamente como se fosse um gentil-homem da miséria...
Ora, toda essa gente - à parte as culturas nos pontos em que se desenterram as acéquias dos antigos - de um modo geral se aplica aferradamente, numa agitação ansiosa, aos únicos trabalhos que lhe não implicam as disparidades de um temperamento e as divergências de esforços: saqueia a terra e o passado. Arrebata-lhes o ouro, e a prata, e os nitratos, e o guano, e as múmias, e as pedras dos templos.
Desbastam-se as costas e as ilhas, degradam-se os flancos das serranias, profanam-se as pirâmides funerárias, e revolvem-se as huacas, que, às vezes, valem pelas melhores minas, bastando notar-se que com um quinto de ouro de uma delas se construiu Trujillo...
Não se define o repulsivo dessas pesquisas lúgubres e dessa indústria macabra, que tem como matéria-prima arcabouços disjungidos e profanados, ou velhos sudários em pedaços.
Nada caracteriza melhor o parasitismo, o apego as tradições, a falta de solidariedade e o desequilíbrio da energia das gentes que abarracaram por aquelas bandas.
O passado é um despojo.
Aproveitam-no na sua forma estreitamente utilitária. E neste apropriar-se a esmo, a sociedade revolucionária e frágil vai dando uma expressão tangível ao contraste que a apequena ante a sociedade morta: vêem-se então mesquinhos pardieiros desequilibradamente erectos sobre embasamentos ciclópicos; ou cidades, e citemos apenas o Huamachuco, construídas com os blocos arrancados dos templos: uma triste projeção horizontal de velhas fachadas, um acaçapado estiramento de grandezas repartidas em casas de tetos deprimidos e paredes espessas, e uma melancólica arquitetura de ruínas...

***

Ora, esta atividade, que um sem-número de causas físicas e sociais tornaram impulsiva, agitadíssima e estéril, derivando em desfalecimentos e arrancos, rebate-se na existência política do Peru. Daí a monotonia irritante dos pronunciamentos, os desastres das guerras infelizes e o tumultuário das perigosas sucessões presidenciais, que ora se fazem, progressivamente, à americana, a revólver, ora com o requinte feroz daquele suplício dos dois usurpadores Gutierres - expostos, oscilantes, nas torres da Catedral de Lima, e despenhados depois, do alto daquelas duas Trapeas barrocas para as fogueiras vingadoras acesas na Plaza de Armas...

***

Confrontados estes contrastes, acredita-se quase que as incursões peruanas, neste momento exercitadas nas fronteiras remotas do Alto Juruá, se traduzam como uma retirada, uma tendência para abandonar a estreita e alongada região onde uma nacionalidade, cujos antecedentes étnicos prefiguram mais elevados destinos, jaz bloqueada entre o maior dos mares e a maior das cordilheiras, sobre um solo batido pelo desequilíbrio dos agentes físicos e em contacto com um passado que tanto tem influído na sua desfortuna.
Realmente, no levante, transmontada a segunda cadeia dos Andes, desdobra-se a natureza estável - sem catástrofes e sem ruínas - guardando intactas as forças criadoras, à espera da componente prodigiosa do trabalho, e oferecendo, no remanso das culturas, na disciplina da atividade adstrita a longos esforços consistentes, e na sugestão permanente da própria harmonia natural, a situação de parada que sempre faltou aos peruanos para que se lhes despertassem os notáveis atributos, até hoje suplantados por uma combatividade, que é uma fraqueza e é um anacronismo. Mas esta só poderá engravecer, criando-lhes maiores desditas, se, ressurgindo sob um novo aspecto, for encontrar novos alentos nas arrancadas dos caucheiros que estão prolongando na devastação das grandes matas, um longo, um antiquíssimo tirocínio de tropelias.

Heróis e Bandidos
O Marechal de Ferro

O Kaiser
A Ascádia da Alemanha

A Vida das Estátuas
Anchieta
Garimpeiros
A Comédia Histórica

Plano de Uma Cruzada
A Missão da Rússia

Transpondo o Himalaia
Conjecturas
Contrastes e Confrontos

Conflito Inevitável
Contra os Caucheiros
Entre o Madeira e o Javari

Solidariedade Sul-Americano
O Ideal Americano
Temores Vãos

A Esfinge
Fazedores de Desertos

Entre as Ruínas
Nativismo Provisório

Um Velho Problema
Ao Longo da Estrada
Civilização