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Contrastes e Confrontos
Euclides da Cunha


A VIDA DAS ESTÁTUAS

O artista de hoje é um vulgarizador das conquistas da inteligência e do sentimento. Extinguiu-se-lhe com a decadência das crenças religiosas a maior de suas fontes inspiradoras. Aparece num tempo em que as realidades demonstráveis dia a dia se avolumam, à medida em que se desfazem todas as aparências enganadoras, todas as quimeras e miragens das velhas e novas teogonias, de onde a inspiração lhe rompia, libérrima, a se desafogar num majestoso simbolismo. Resta-lhe, para não desaparecer, uma missão difícil: descobrir, sobre as relações positivas cada vez mais numerosas, outras relações mais altas em que as verdades desvendadas pela analise objetiva se concentrem, subjetivamente, numa impressão dominante. Aos fatos capazes das definições científicas ele tem de superpor a imagem e as sensações, e este impressionismo que não se define, ou que palidamente se define "como uma nova relação, passiva de bem estar moral, levando-nos a identificar a nossa sinergia própria com a harmonia natural".
E a "verdade extensa", de Diderot, ou o véu diáfano da fantasia, de Eça de Queiroz, distendido sobre todas as verdades sem as encobrir e sem as deformar, mas aformoseando-as e retificando-as, como a melodia musical se expande sobre as secas progressões harmônicas da acústica, e o arremessado maravilhoso das ogivas irrompe das linhas geométricas e das forças friamente calculadas da mecânica.
Daí as dificuldades crescentes para o artista moderno em ampliar e transmitir, ou reproduzir, a sua emoção pessoal. Entre ele e o espectador, ou leitor, estão os elos intangíveis de uma série cada vez maior de noções comuns - o perpetuum mobile dessa vasta legislação que resume tudo o que se agita e vive e brilha e canta na existência universal. Diminui-se-lhe a primitiva originalidade. Vinculado cada vez mais ao meio, este lhe impõe a passividade de um prisma: refrata os brilhos de um aspecto da natureza, ou da sociedade, ampliando-os apenas e mal emprestando-lhe os cambiantes de um temperamento. Já lhe não é indiferente, nestes dias, a idéia ou o assunto que tenha de concretizar no mármore ou no livro.
O seu trabalho é a homogenia da sua afetividade e da consciência coletiva. E a sua personalidade pode imprimir-se fundamente num assunto, mas lá permanecera inútil se destoar das idéias gerais e dos sentimentos da sua época...

***

Tomemos um exemplo.
Há uma estátua do marechal Ney, em que se têm partido todos os dentes da crítica acadêmica e reportada.
Dos múltiplos aspectos da vida dramática e tormentosa do valente, o escultor escolheu o mais fugitivo e revolto: o final de uma carga vitoriosa.
O general, cujo tronco se apruma num desgarre atrevido, mal equilibrado numa das pernas, enquanto a outra se alevanta em salto impetuoso, aparece no mais completo desmancho: a farda desabotoada, e a atitude arremetente num arranco terrível, que se denuncia menos na espada rijamente brandida que na face contorcida, onde os olhos se dilatam exageradamente e exageradissimamente a boca se abre num grito de triunfo.
E um instantâneo prodigioso. Uma vida que se funde no relance de um delírio e num bloco de metal. Um arremesso que se paralisa na imobilidade da matéria, mas para a animar, para a transfigurar e para a idealizar na ilusão extraordinária de uma vida subjetiva e eterna, perpetuamente a renascer das emoções e do entusiasmo admirativo dos que a contemplam.
Mas para muitos são perfeitamente ridículos aquela boca aberta e muda, aquele braço e aquela perna no ar. Em um quadro, sim, conclamam, à frente de um regimento, aquela atitude seria admirável. Ali, não; não se compreende aquela nevrose, aquela violência, aquela epilepsia heróica no isolamento de um pedestal.
Entretanto, o que a miopia da crítica até hoje ainda não distinguiu, adivinhou-o sempre a alma francesa; e o legitimista, o orleanista, o bonapartista e o republicano, divergentes, ali se irmanam, enleados pelos mesmos sentimentos, escutando a ressoar para sempre naquela boca metálica o brado triunfal que rolou dos Pireneus à Rússia, e vendo na imprimadura transparente e clara daqueles ares não o regimento tão complacentemente requisitado, mas todo o grande exército ...
E que a escultura, sobretudo a escultura heróica, tem por vezes a simultaneidade representativa da pintura, de par com a sucessão rítmica da poesia ou da música. Basta-lhe para isto que se não limite a destacar um caráter dominante e especial, senão que também o harmonize com um sentimento dominante e generalizado.
Neste caso, malgrado o restrito de seus recursos e as exigências máximas de uma síntese artística, capaz de reproduzir toda a amplitude e toda a agitação de uma vida num bloco limitado e imóvel este ideal é notavelmente favorecido pelo sentimento coletivo. A mais estática das artes, se permitem o dizer, vibra então na dinâmica poderosa das paixões e a estátua, um trabalho de colaboração em que entra mais o sentimento popular do que o gênio do artista, a estátua aparece-nos viva - positivamente viva, porque é toda a existência imortal de uma época, ou de um povo, numa fase qualquer de sua história que para perpetuar-se procura um organismo de bronze.
Porque há até uma gestação para estes entes privilegiados, que renascem maiores sobre os destroços da vida objetiva e transitória. Não bastam, às vezes, séculos. Durante séculos, gerações sucessivas os modelam e refazem e aprimoram, já exagerando-lhes os atributos superiores, já corrigindo-lhes os deslizes e vão transfigurando-os nas lendas que se transmitem de lar em lar e de época em época, até que se ultime a criação profundamente humana e vasta. De sorte que, não raro, a estátua virtual, a verdadeira estátua, esta feita, restando apenas ao artista o trabalho material de um molde.
A de Anchieta, em S. Paulo, é expressivo exemplo.
Tome-se o mais bisonho artista; e ele a modelara de um lance.
Tão empolgante, tão sugestiva é a tradição popular em torno da memória do evangelizador que o seu esforço se reduzira ao trabalho reflexo de uma cópia.
Não pode errar. As linhas ideais do predestinado corrigem-lhe os desvios do buril. O elemento passivo, ali, não é a pedra ou o bronze, é o seu gênio. A alma poderosa do herói, nascente do culto de todas as almas, absorve-lhe toda a personalidade, e transfigura-o e imortaliza-o com o mais apagado reflexo da sua mesma imortalidade.. -
Mas há ocasiões (e aqui se nos antolha uma contraprova desta psicologia transcendental e ao parecer singularmente imaginosa) em que a estátua nasce prematura.
Falta-lhe a longa elaboração do elemento popular. Possui talvez admiráveis elementos capazes de a tornarem grande ao cabo de um longo tempo - um longo tempo em que se amorteçam as paixões e se apaguem, pelo só efeito de uma dilatada perspectiva histórica, todas as linhas secundárias de uma certa fase da existência nacional...
Mas não se aguarda esse tempo; não se respeita esse interregno, ou essa quarentena ideal, que livra as grandes vidas dos contágios perniciosos das nossas pequenas vidas; e decreta-se uma estátua, como se fosse possível decretar-se um grande homem.
Então, neste vir fora de tempo, ela é historicamente inviável.
E não há golpes de gênio que a transfigurem.
E uma estátua morta.


ANCHIETA

O grande missionário reconcilia-nos com a Companhia de Jesus.
É o seu maior milagre.
Votada em parte é antipatia de uma forte corrente de sábios e pensadores, como um elemento dispersivo na solidariedade moral dos povos, a instituição, para eles irrevogavelmente condenada, tem, na historia, na feição de José de Anchieta, talvez a sua feição mais atraente.
Combatente, na Europa, como centro de resistência do catolicismo ante a irrupção impetuosa da Reforma, combatente no Extremo Oriente ante as regiões seculares do paganismo, ela, ante as tribos ingênuas da América, foi humana, persuasiva, evangelizadora. Incoerente e sombria, pregando no século XVI, exageradamente, através da justificação singular da estranha teoria do regicídio de Mariana, a soberania do povo, e combatendo, aliada aos tronos, essa mesma soberania quando surgia triunfante no século XVIII; precipitando ora os reis sobre os povos, ora os povos sobre os reis; traçando, através da agitação de três longos séculos atumultuados, os meandros de espantosas intrigas - ela foi, na América, coerente na missão civilizadora e pacífica, seguindo a trajetória retilínea do bem, heróica e resignada, difundindo nas almas virgens dos selvagens os grandes ensinamentos do Evangelho. Não dispersou, uniu.
Ligou à humanidade, emergente da agitação fecunda da Idade Média, um povo inteiro - espíritos jungidos a um fetichismo deprimente, forças perdidas nas correrias guerreiras dos sertões...
E para esta empresa imensa teve entre nós uma alma simples, sem violentos ímpetos de heroicidade - amplíssima e casta - iluminada pela irradiação serena do ideal.
Daí todo o encanto que ressalta à simples contemplação da bela figura de Anchieta, entregue hoje à existência subjetiva da história, e cujo nome tem na nossa terra a propriedade de fundir todas as crenças e opiniões numa veneração comum.
E que em virtude de causas múltiplas, em que preponderam de um lado as condições do meio e de outro o próprio sentimento dos missionários, a Companhia de Jesus perdeu, no novo mundo, a feição batalhadora.
Longe das controvérsias irritantes que circulavam a dissolução do regime católico-feudal, os apóstolos que agiram fora da convulsão que abalava a Europa, com S. Francisco Xavier nas Índias e com Anchieta e Nóbrega no Ocidente, ao desdobrarem, diante do gentio deslumbrado, a significação divina da vida, num cândido misticismo, souberam fazer da humildade a forma mais nobre do heroísmo e venceram pelo incutir nas almas obscuras dos bárbaros todo o fulgor que lhes esclarecia as próprias almas.
E foram além na missão evangelizadora.
A nossa história o diz: depois do combate incruento à idolatria, depois da catequese das tribos, através de esforços que lembram os primeiros séculos da igreja, animou-os a preocupação capital de salvá-las da escravidão. A ambição extraordinária de audazes aventureiros exigia a força inconsciente do selvagem para as longas pesquisas nos sertões.
A história dolorosa das reduções jesuíticas terminada pelo sombrio epílogo de Guaíra, patenteia uma inversão singular de papéis: o missionário reagia à frente dos bárbaros arrancados às selvas, contra os bárbaros oriundos das terras civilizadas.
Desse conflito resulta, em muitos pontos, a feição verdadeiramente heróica do nosso passado.
Ora, os que arcavam, no Brasil, com esta missão múltipla e elevada, definem-se admiravelmente em Anchieta - um nome que é a síntese de uma época.
Grande homem, segundo a definição profunda de Carlyle, a sua história abrange um largo trecho da nossa própria história nacional.
Desde 1554, ao criar o terceiro colégio regular no Brasil, erigindo Piratininga, graças ao estabelecimento de um melhor sistema de proselitismo, esse centro diretor da larga movimentação das missões brasileiras, até 1597, ao expirar em Reritibá, rodeado pelos discípulos e pelas tribos catequizadas, a sua existência, dia por dia, hora por hora, constante no devotamento à mais sagrada das causas, irradia sobre uma época tumultuosa como uma apoteose luminosa e vasta.
Soberanamente tranqüilo sobre a revolta das paixões, nada o perturbou - nem mesmo quando, colaborando diretamente para a organização futura da nossa nacionalidade, ele ligou a palavra ardente de apóstolos ao cintilar da espada heróica de Estácio de Sá ou impelindo ao combate os guaianases leais, repelia as hordas ferozes dos tamoios que investiam contra S. Paulo.
Preso entre esses últimos, sob a ameaça persistente do martírio e da morte, a sua alma religiosa expande-se em poema belíssimo no qual a dicção aprimorada se alia à erudição notável. Seguindo ásperos itinerários nos sertões em busca do aimoré bravio, à amplitude do seu espírito não escapa a nossa natureza deslumbrante acerca da qual faz estudos, lidos mais tarde com surpresa por todos os naturalistas, que o proclamaram, pela pena de Aug. Saint-Hilaire, um dos homens mais extraordinários do século XVI. Por toda a parte, em todas as situações de uma carreira longa e brilhante, como simples irmão ou no fastígio do provincialado, enfeixando nas mãos poderes extraordinários, não há um salto, um hiato, um acidente ligeiro perturbando a continuidade da sua existência privilegiada de grande homem - útil, sincero e bom.
Fora longo e dificílimo traçá-la, palidamente embora.
Mais alto e com mais eloqüência do que nós, fala este sentimento sagrado de veneração que pressentimos em torno, amplo, forte e generoso, inacessível às diversidades de crenças e sob cujo influxo se opera em nosso tempo a ressurreição do grande morto de há três séculos.


GARIMPEIROS

O forasteiro que rio último quartel do século XVIII demandasse os povoados de Minas Gerais, erecto da noite para o dia na extensa zona do distrito Diamantino, sentia a breve trecho o mais completo contraste entre a aparência singela daqueles modestos vilarejos e as gentes que neles assistiam.
Entrava pelas ruas tortuosas e estreitas, ora marginando as lezírias dos córregos em torcicolos, ora envesgando, clivosas, pelo viés dos pendores, ladeadas de casas deprimidas de beirais desgraciosos e saídos; percorria-as calcando um áspero calçamento de pedras malgradadas; desembocava num largo irregular onde avultava a picota do pelourinho, ameaçadora e solitária; deparava mais longe duas ou três pesadas igrejas de taipa; e, certo, sentiria crescer a desoladora saudade do torrão nativo se naquele curto trajeto não se lhe antolhassem singularíssimos quadros.
Surpreendiam-no, empolgantes, o excesso de vida daqueles recantos sertanejos e o espetáculo original da Fortuna domiciliada em pardieiros.
E se conseguisse abarcar de um lance a multidão doudejante e inquieta, que atestava as vielas e torvelinhava nas praças, teria a imagem estranha de uma sociedade artificial, feita de elementos díspares transplantados de outros climas e mal unidos sobre a base
instável, dia a dia destruída, ruindo solapada pela vertigem mineradora - da própria terra em que pisavam.
Acampado nos cerros, o povo errante levava para aqueles rincões - escalas transitórias ocupadas à ventura - todos os hábitos avoengos que não afeiçoavam ao novo meio. E estadeava todos os seus elementos incompatíveis fortuitamente reunidos, mas repelindo-se pelo contraste das punições e das raças: - dos congos tatuados que moirejavam nas lavras, com a rija envergadura mal velada pelas tangas estreitas ou rebrilhando, escura, entre os rasgos das roupas de algodão; aos contratadores ávidos e opulentos, passando por ali como se andassem nas cidades do reino, entrajando as casacas de veludo, de portinholas e canhões dobrados, abertas para que se visse o colete bordado de lantejoulas, descidas sobre os calções de seda de Macau atacados com fivelas de ouro. A grenha inestricável do africano chucro contrastava com a cabeleira de rabicho, empoada e em volta de um cadarço de gorgorão rematando numa laçada, do peralvilho rico; a alpercata de couro cru estalava rudemente junto do sapato fino, pontiagudo, cravejado de pérolas, do reinol casquilho, graciosamente bamboleante com o andar que ensinavam os "mestres de civilidade"; o cacete de guarda-costas vibrava próximo do bastão de biqueira de ouro, finamente encastoado; e o facão de cabo de chifre, do mateiro, fazia que ressaltassem, mais artísticos, os brincos de ourivesaria dos floretes de guarnições luxuosas dos fidalgos recém-vindos.
Ia-se de um salto de uma camada social a outra.
Parecia não haver intermédios àquela simbiose da Escravidão com o Ouro, porque não havia encontrá-los mesmo no agrupamento incaracterístico, e mais separador que unificador, dos solertes capitães-do-mato, dos meirinhos odientos, dos bravateadores oficiais de dragões, dos guarda-mores, dos escrivães, dos pedestres e dos exatores, açulados pelas ruas, farejando as estradas e as picadas, perquirindo os córregos e os desmontes, em busca do escravo; filando-se às pernas ágeis dos contrabandistas; colados no rastro dos contraventores; e espavorindo os faiscadores pobres, inquirindo, indagando, prendendo, intimando e, quase sempre, matando...
Sobre tudo isto dois tremendos fiscais que a Corte longínqua despachara apercebidos de faculdades discricionárias: o Ouvidor da comarca e o Intendente dos diamantes.
Tinham a tarefa fácil de uma justiça que por seu turno se exercitava entre extremos, monstruosa e simples, mal variando nos "termos de prisão, hábito e tonsura"; oscilando em mesmices torturantes, da devassa ao pelourinho, do confisco à morte, dos troncos das cadeias aos dez anos de degredo em Angola.
E que a terra farta, desentranhando-se nos minérios anelados, não era um lar, senão um campo de exploração predestinado a próximo abandono quando as grupiaras ricas se transmudassem nas restingas safaras, e fossem avultando, maiores, mais solenes e impressionadoras, sobre a pequenez dos povoados decaídos, as Catas silenciosas e grandes montões de argila revolvidos tumultuando nos ermos à maneira de ruínas babilônicas...

***

Mas fora da mineração legal adscrita na impertinência bárbara dos alvarás e cartas régias; trabalhada de fintas, alternativamente agravada pelo quinto e pela captação exaurida a princípio pelos contratadores e depois pela extração real, estendera-se intangível, e livre, e criminosa, irradiante pelos mil tentáculos dos ribeirões e dos rios, desdobrando-se pelos tabuleiros, ou remontando às serras, a faina revolucionária e atrevida dos garimpos.
Despejados dos arraiais; esquivos pelas matas que varavam premunidos de cautelas porque não raro no glauco das paisagens coruscavam, de golpe, os talins dourados e os terçados dos dragões girando em sobre-rondas céleres; caçados como feras - os garimpeiros, incorrigíveis devassadores das demarcações interditas, davam o único traço varonil que enobrece aquela quadra.
Vinham de um tirocínio bruto de perigos e trabalhos, nas velhas minerações; e, únicos elementos fixos numa sociedade móvel, de imigrantes, iam capitalizando as energias despendidas naqueles assaltos ferocíssimos contra a terra.
Desde as primitivas buscas pelos leitos dos córregos, dos caldeirões e das itaipavas, com o almocrafe curvo ou a bateia africana, na atividade errante das faisqueiras; aos trabalhos nos tabuleiros, arcando sob os carumbés refertos ou vibrando as cavadeiras chatas até aos lastros ásperos dos nódulos de hematita das tapanhuacangas; às catas mais sérias, às explorações intensas das grupiaras pelos recostos dos morros que broqueados de cavas circulares e sarjados pelas linhas retilíneas e paralelas das levadas, desmantelados e desnudos, tornavam maiores as tristezas do ermo; e, por fim, à abertura das primeiras galerias acompanhando os veios quartzosos, mas sem os resguardos atuais, tendo sobre as cabeças o peso ameaçador de toda a massa das montanhas - eles percorreram todas as escalas da escola formidável da força e da coragem.
Vibraram contra a natureza recursos estupendos.
Abriram canais de léguas ajustados às linhas das cumiadas altas; e adunando a centenas de metros de altura, em vastos reservatórios, as águas captadas, rompiam-nos. Ouviam-se sons das trompas e buzinas prevenindo os eitos de escravos derramados nas encostas, para se desviarem; e logo após uma vibração de terremoto, um como desabamento da montanha, a avalancha artificial desencadeada pelos pendores, tempesteando e rolando - troncos e galhadas, fraguedos e graieiros, confundidos, embaralhados, remoendo-se, triturando-se, descendo vertiginosamente e batendo embaixo dentro dos amplos mundéus onde acachoava o fervor da vasa avermelhada lampejante das palhetas apetecidas...
Desviavam os rios; invertiam-lhes as nascentes, ou torciam-nos cercando-os; e, por vezes, alevantavam-nos, inteiros, sobre os mesmos leitos. Todo o Jequitinhonha, adrede contido e alteado por uma barragem, derivou certa vez por um bicame colossal, de grossas pranchas presas de gastalhos, deixando em seco, poucos metros abaixo, o cascalho sobre que fluia há milênios...
E ali embaixo, centenares de titães tranqüilos, compassando as modinhas dolentes com o soar dos almocrafes e alavancas, labutavam, cantando descuidados, tendo por cima o dilúvio canalizado...
Assim foram crescendo...
De sorte que quando a metrópole, exagerando a antiga avidez ante a fama dos novos "descobertos", se demasiou em rigores e prepotências para tornar efetivo o monopólio da extração, isolando aquela zona de todo o resto do mundo, dificultando as licenças de entrada e os passaportes, multiplicando registos e barreiras, extinguindo os correios, e tentando mesmo circunvalar as demarcações, não lhe bastando o permanente giro das esquadras de pedestres, baldaram-se-lhe em parte os esforços ante os rudes caçadores furtivos da fortuna, inatingíveis às fintas, às multas, às tomadias, aos confiscos, às denúncias, às derramas; e que aliados aos pechilingueiros vivos, aos tropeiros ardilosos passando entre as patrulhas com o contrabando precioso metido entre os forros das cangalhas, aos comboieiros que enchiam os cabos ocos das facas com as pedras inconcessas, ou aos mascates aventureiros intercalando-as nos remontes dos coturnos grosseiros - estendiam por toda a banda, até ao litoral, a agitação clandestina, heróica e formidável.
"Desaforados escaladores da terra!..." invectivavam as ríspidas cartas régias, delatando o desapontamento da Corte remota ao pressentir escoarem-se-lhe as riquezas pelos infinitos golpes que lhe davam nos regimentos aqueles adversários.
E armou contra eles exércitos.
Bateram longamente os caminhos as patas entaloadas dos corpos de dragões.
Adensaram-se em batalhões as patrulhas errantes e dispersas dos pedestres; e avançaram ao acaso pelas matas em busca dos adversários invisíveis.
Os garimpeiros remontavam às serras: espalhavam-se em atalaias; grupavam-se em guerrilhas diminutas; e por vezes os graves intendentes confessavam aos conselhos de ultramar a "vitória de uma emboscada de salteadores".
Finalmente se planearam batalhas.
Rijos capitães-generais, endurados nas refregas da Índia, largaram dos povoados ao ressoar das preces propiciatórias e sermões, chefiando os terços aguerridos, e arrastando penosamente pelos desfreqüentados desvios as colubrinas longas e os pedreiros brutos.
Mas roncearam, inutilmente, pelos ermos.
Enquanto à roda, desafiando-os, alcandorados nos itambés a prumo; relampeando no súbito fulgir das descargas, das tocaias; derivando em escaramuças pelos telhados dos montes; arrebentando à boca das velhas minas em abandono, de repente escancaradas numa explosão de tiros - os "desaforados escaladores da terra", os anônimos conquistadores de uma pátria, zombavam triunfalmente daqueles aparatos guerreiros, espetaculosos e inofensivos.


UMA COMÉDIA HISTÓRICA

Na Europa diplomática do século XVIII o Portugal de D. João V era urna exceção desanimadora. Despeara-se no progresso geral e ia atingir a quadra revolucionária, mal disfarçando, com a exterioridade deslumbrante das minas do Brasil, os máximos desfalecimentos da originalidade e da vida.
Há um atestado expressivo desse fato: a feição literária do tempo, incolor e exótica, laivada de perífrases e trocadilhos, ou sulcada de metáforas extravagantes, reveladoras dos resaibos corruptores das canzoni alambicadas de Mazini ou das agudezas e hipérboles assombrosas de Gongora.
Era um recuo deplorável. O italianismo e o espanholismo, que haviam sido um característico geral da literatura européia, em passado recente, desapareciam em toda a banda. Na Inglaterra, o excêntrico eufuísmo, que lembra um assalto de cansaço depois da formidável elaboração shakespeariana, alastrando-se da fantasia maravilhosa de Milton, as rimas infamíssimas de Wicherley - desaparecia ante a frase lapidaria de Burton; na França, o preciosismo acabava pelo próprio exagero, embora se abrisse no salão de Luiz XIV o grande molde dourado do classicismo, com o recato do pensar e o requintado polido das maneiras e do dizer; e na mesma Itália, de onde surgira o primado efêmero dos pensieri o lirismo vigoroso de Metastasio iniciava triunfalmente uma era nova. É que nestes países se formara a energia de uma renovação científica e filosófica que, com F. Bacon, Descartes e Galileu, alevantara sobre a rumaria da escolástica os elementos do espírito moderno. Em todos a arte de escrever era apenas um aspecto, o mais sedutor talvez, e nada mais, das inteligências que, em breve, encontrariam no maior operário da Enciclopédia - a um tempo romancista, dramaturgo, crítico, cientista e filósofo - em Diderot, o exemplo vivo do quanto importam ao mais ousado idealizar estético os mais aparentemente frios recursos positivos.
~m Portugal, não. A língua forte dos quinhentistas gaguejava nas silvas e acrósticos alambicados, nas maravilhas do falar e no requinte estéril de um culteranismo, onde a fragilidade das idéias facultava aos períodos vazios o caprichoso das formas mais bizarras. A terra de Bieira dava quase o espetáculo da desordem da palavra numa espécie de afasia literária.
O século XVIII teve o seu aspecto filosófico e o seu aspecto mundano. Teve Voltaire e teve Crebillon. Portugal copiava o último, ao mesmo tempo que D. João V imitava a frivolidade resplandecente do rei Sol dos minuetes e das etiquetas, olvidando o Luiz XIV dos tratados.
Daí o burlesco daquela tentativa de transferir para Lisboa um lampejo de Versalhes, numa grandeza achamboada e informe que era, como todas as paródias, um contraste. E o contraposto entre o medido das frases e das idéias, que na corte parisiense transmudavam o classicismo numa sistematização da vulgaridade, e o retumbante e amaneirado das glosas e madrigais dos versejadores portugueses. Comparem-se o Camões do Rocio e Boileau; ou então a pragmática dos saraus de Rambouillet aos festejos ruidosos de Lisboa onde se viam, sem escândalo à fradaria inumerável, rompentes nas procissões ou saracoteando nos salões, ao toar dos alaúdes e guitarras, a Poesia, a Gramática (a gramática!) e a Retórica com a sua ninhada de Tropos espalhafatosos, de Metáforas nervosas, de Gerúndios rotundos e de supinos desfibrados, materializados todos num grande excesso de objetivismo.
Esta literatura refletia uma época.
A terra forte que se sacrificara ao progresso geral, repontando à tona da Renascença para mergulhar numa outra Idade Média e reconstituir no novo mundo o mundo antigo que acabara - chegava, surpreendida e deslumbrada, à quadra maravilhosa. Quis encalçá-la e só lhe absorveu os estigmas remanescentes.
A própria galanteria, que encontrara no abade Prevost - e na maioria dos padres voltairianos, que embarcavam galantemente para Cítera - intérpretes inimitáveis, ali se derrancara nas requestas perigosas. O amor era brutal, liricamente brutal se o quiserem, armado de capa e espada, de botas e esporas, marchando para as entrevistas como para os fossados arriscados. Ao cair da noite, espessa e impenetrável, sem a fresta única de um lampião mortiço, as ruas de Lisboa tinham os pavores das azinhagas solitárias.
Eram o paraíso tenebroso dos chichibéus errantes, e mascarados num requinte de resguardos, porque as formas se lhes diluíam no escuro, apagadas e imperceptíveis, num deslizamento silencioso de lemures cautelosos. E o estrangeiro curioso que os acompanhasse, ou que os apartasse nos duelos subitamente travados ao acaso, no volver das esquinas, podia encontrar o faquista desclassificado, o pródigo doudivanas, o frade corrompido, o fidalgo marialva, ou o rei...
A aventura noturna de D. João IV e D. Francisco Manoel não fora deslembrada. E embora D. João V, mais precavido e prático, preferisse, ao arriscado destes encontros, os recatados cômodos do harém seráfico de Mafra, tinha no irmão, o infante D. Francisco, e no Duque de Cadaval, uns dignos continuadores das mesmas tropelias romanescas.
Felizmente entre estes nobres gandaieiros, um espadachim atrevido, um mestiço à volta dos vinte anos, um tal Sebastião José de Carvalho, aparecia às vezes, compartindo as desordens que ele mais tarde extinguiria, porque lhes aquilatara, experimentalmente, os inconvenientes e as torpezas.

***

Mas havia também um homem, o mesmo homem que Oliveira Lima, no Secretário d'El-Rei nos apresenta sob uma de suas mais interessantes modalidades - Alexandre de Gusmão.
Era brasileiro; mas nesta circunstância fortuita não está o interesse que ele nos desperta. O que dele nos impressiona é o contraste de uma individualidade original e forte e a decrepitude do meio em que ela agiu. Aquele escrivão da puridade preso pelo contato diário à corte e pelo cargo obrigado a submeter-se a todas as exigências da época e a tacanhear o talento nos escaninhos e nas estreitezas dos relatórios enfadonhos - reponta-nos nas suas admiráveis cartas a D. Luiz da Cunha, com a atitude inesperada de um fiscal incorruptível, irônico e formidável. Nele, sim, enfaixavam-se todos os estímulos céticos, agressivos e assombrosamente demolidores que se esboçavam na França.
A sociedade pecaminosa de D. João V, onde o monstruoso substituía a grandeza, com as suas antíteses clamorosas, com os seus lausperenes e as suas devassidões, com o trágico da inquisição e a glorificação de todos os ridículos, com o idiota cardeal Mota que acabou com as trovoadas riscando-as da folhinha do ano, com o seu místico tenente Santo Antonio, jogralescamente promovido por atos de bravura, e com o cínico Encerrabodes tolerado em todas as salas - o Portugal paraguaio dos Jesuítas com os seus monges, os seus padres, os seus rufiões, a sua patriarcal, a sua escolástica garbosamente fútil e a sua literatura desfalecida, teve no seu primeiro ministro o seu mais implacável juiz.
Sob este aspecto, a figura ainda não bem estudada de Alexandre de Gusmão é impressionadora.
Foi um voltairiano antes de Voltaire: a mesma espiritualidade expansiva, em que pese uma cultura menor, a mesma mobilidade, os mesmos arrebatamentos, o mesmo sarcasmo diabólico e a mesma emancipação intelectual, revolucionária e brilhante.
Não o considerou sob essa feição complexa Oliveira Lima, que dificílimo fora constrigi-lo nos três atos de uma comédia.
Fixou-o, porém, por uma de suas faces encantadoras: a adorável complecência de uma alma sobranceira às ruínas de um amor não correspondido e verdadeiramente heróica no amparar o rival feliz que o compartia.
O assunto, como se vê, é profundamente dramático. A índole do protagonista, entretanto, transmudou-o numa comédia.
O grande homem pareceu-nos talvez apequenado no tortuoso de uma intriga vulgar, mas traça, cortando uma situação trivialíssima, a linha impressionadora de uma individualidade nova no meio de uma sociedade envelhecida. Realmente, o que hoje para nós é uma vulgaridade - este triste humorismo com que na pressão atual da vida moderna disfarçamos cautelosamente as maiores desventuras e este "levar as coisas a rir mesmo quando elas são de fazer-nos chorar" - eram uma novidade na época brutal em que a fraqueza irritável das gentes supersticiosas e incultas predispunha ao impulsivo e ao desafogo máximo das paixões.
Assim considerado, o Secretário d'El-Rei é um livro belíssimo.
Que outros, mais vezados à técnica teatral, lhe apontem todos os defeitos. Nós, não. Satisfez-nos o aprumo impecável, a fidalguia espirituosa com que Alexandre de Gusmão, sem destoar da nota superior de seu caráter, destramou o intrincado de um incidente passional que o colhera de improviso no meio dos seus relatórios e dos seus livros - sem criar uma situação de fraqueza às suas magníficas rebeldias do pensar e do sentir.

Heróis e Bandidos
O Marechal de Ferro

O Kaiser
A Ascádia da Alemanha

A Vida das Estátuas
Anchieta
Garimpeiros
A Comédia Histórica

Plano de Uma Cruzada
A Missão da Rússia

Transpondo o Himalaia
Conjecturas
Contrastes e Confrontos

Conflito Inevitável
Contra os Caucheiros
Entre o Madeira e o Javari

Solidariedade Sul-Americano
O Ideal Americano
Temores Vãos

A Esfinge
Fazedores de Desertos

Entre as Ruínas
Nativismo Provisório

Um Velho Problema
Ao Longo da Estrada
Civilização