Contrastes
e Confrontos
Euclides da Cunha
CIVILIZAÇÃO
Convenha-se em que
Spencer - Spencer o da última hora, o Spencer valetudinário
e misantropo que chegou aos primeiros dias deste século para o
amaldiçoar e morrer - desgarrou da verdade ao afirmar que há
nestes tempos, um recuo para a barbaria. Viu a vida universal com a vista
cansada dos velhos. Não a compreendeu. Não lhe aprendeu
os aspectos variadíssimos e novos. Certo, faltou-lhe às
células cerebrais, exauridas pela idade, senão pelo mesmo
acúmulo das imagens que se refletiram, a primitiva receptividade
diante da época indescritível e bizarra em que as almas
se dobram à sobrecarga de maravilhas e vacilam, deslumbradas, ora
entre prodígios da indústria tão delicados, às
vezes, que recordam uma materialização do espírito
criador, ora entre as magias da ciência, tão poderosas que
espiritualizam a matéria dinamizando-a na idealização
tangível do rádio...
Ou, então, afligiu-o um duro ferrotoar da inveja. Ia-se-lhe a vida,
próxima a estagnar-se no emperramento das artérias - e ficavam-lhe
na frente, maior e crescente, prefigurando novos encantos, novas revelações
e novos ideais, o esplendor da civilização vitoriosa. Não
se conteve. Partiu-se-lhe o aprumo de filósofo. Vestiu desastradamente
a pele da raposa desapontada, e entrou na imortalidade através
de uma fábula de La Fontaine.
Que mais desejava o sábio?...
Maior amplitude na ciência?
Mas esta é, hoje, tal que obriga a inteligência a diferenciar-se
numa especialização indefinida. O mais desvalioso, o mais
tíbio aspecto particularíssimo de uma existência,
exige uma existência inteira. Em torno da criptogama mais rudimentar
arma-se uma biblioteca. A mais afanosa vida não basta a estudar
todas as algas.
Breve se organizarão academias para os zoóptos. O martelo
do geólogo bate, nesta hora, na última aresta rochosa do
último recanto perdido na anfratuosidade de um contraforte sem
nome de uma montanha da África central. Aos sismógrafos,
armados em toda a parte, não escapa o mínimo tremor, a mais
célere crispadura da terra. A ocultação da estrela
mais imperceptível, sem nome ou apequenada nas últimas letras
do alfabeto grego, não se opera sem que a acompanhe o olhar perspícuo
de um astrônomo - do astrônomo que não induz como Newton,
Kepler, nem calcula como Gauss, porque lhe é escassa a vida para
a infinitas minúcias que repontam e fulguram na poeirada cósmica
dos asteróides. Neste momento, um oceanógrafo, um NN imortal
qualquer, arranca o brilho de uma revelação da vasa secular
de um dos tenebrosos abismos do Atlântico; ou pompeia, vaidoso,
o fruto de vinte anos de análises, descrevendo rigorosamente o
movimento respiratório das nereidas.
E um anatomista, encanecido a estudar o grande zigomático, levanta-se
gravemente numa academia real austera ou num instituto sizudo, e, diante
da austera academia, que se edifica, ou do sizudo instituto, que se deslumbra,
faz a psicologia do riso e a dinâmica hilariante da alegria...
Maior idealização artística?
Mas Shakespeare imortalizou- se, universalizando-se: foi a grande voz
assombradora da natureza, ressoando com todas as tonalidades, da gagueira
terrível de Caliban ao correntio harmonioso do rouxinol do Capuleto
- ao passo que hoje os poemas irrompem, a granel, de um retalho qualquer
da vida mais prosaica - e um largo, irresistível misticismo baralha
na mesma ebriez espiritualista os cientistas e os poetas.
Os raios n fulminam a positividade das ciências. E a crítica
inexorável, que espantara os duendes e anulara o milagre, recua,
por sua vez, surpreendida ante a ciência imaginária, que
surge sobre os destroços da teoria atômica - e mostra-nos,
em destaque, num quase eclipse da lei suprema da conservação
da energia - o espiritista esmaniado ao lado do químico reportado,
e a física de Roentgen desfechando nos mistérios telepáticos.
Maior expansão industrial?
Mas, posto de lado o indescritível das primorosas glorificações
do trabalho, devia bastar-lhe, para aquilatar o império do homem
sobre as coisas, este aproveitamento genial do solenóide terrestre
na telegrafia sem fios: a Terra inteira transmudada em serva submissa
do pensamento humano, e toda penetrada dele, e absorvendo-o, irradiando-o,
e expandindo-o no consórcio maravilhoso da sua força magnética
imensurável com as vibrações ideais da inteligência...
Maior alevantamento moral?
Aqui se nos emperra a pena, a ranger, trada e acobardada. O assunto é
complexo e pregueia-se de inumeráveis refolhos. Não há
abrangê-lo. O movimento industrial, ou científico, pode ao
menos ser imaginado. Pode condensar-se num "bloc" resplandecente
como essa Exposição de S. Luiz, que inscreve num quadrilátero
de palácios o melhor de toda a atividade humana. Mas o progresso
da moral...
***
Entre os atrativos
da Exposição de S. Luiz, um há, interessantíssimo.
Não se trata de algum novo motor, ou de uma nova aplicação
elétrica. Trata-se de uma pantomina heróica. Imagine-se
o drama esquiliano da guerra do Transvaal sobre o palco amplíssimo
de um vasto barracão de feira. A terra lendária, com o revesso
dos seus alcantis arremessados e a angustura de seus desfiladeiros longos,
aparece, à luz das gambiarras, na paisagem morta de lona chapada
de largos borrões de tinta variadas e cruas ajustadas sobre pernas
de serra e sarrafos.
Ali, desenrola-se a luta nos estouros dos cartuchos de festim, no coruscar
das espadas de papelão prateado, nos assaltos aos redutos de papier-maché,
e no estavanado, e no tropear tumultuário dos guerreiros de rostos
afogueados de vermelhão ou empalecidos de pós-de-arroz,
e ouvidos armados dos apitos do contra-regra...
O ianque aplaude. A ilusão é completa. Vê-se a celeridade
nervosa de De Wet, a calma patriarcal de Krueger, a tardeza ameaçadora
de Botha... E, vibrando na distensão repentina dos atiradores,
ou concentrando-se em cargas violentas e compactas, dispersas em escaramuças
ou fundidas, de golpe, no tumulto convulsivo da batalha, as brigadas impetuosíssimas
dos boers.
Depois Ladsmith, Kimberley, Magersfontain, todos os lugares refertos de
reminiscência gloriosa. - -
Por fim, o assalto de Paardeberg e a bravura espantosamente tranqüila
de Cronje.
Nesta ocasião a imagem real da campanha é absoluta e o protagonista
surge como o não representaria o Fregoli mais protéico e
plástico. Porque é o mesmo Cronje, o Cronje autêntico,
palpável - com a sua linha magnifica de herói de envergadura
atlética, aparecendo
aos clarões da ribalta, entre explosões de palmas e gritos
entusiásticos que lhe bisam as façanhas.
Um cronista do Figaro, comentando o caso do único modo por que
pode ele ser comentado - com um humorismo laivado de melancolia - declarou
"que é preciso viver e que desgraçadamente ainda não
há incompatibilidade entre a glória e a miséria"...
Não comentemos, nós. Admiremos, absortos, este traço
adorável e utilitário dos tempos.
Acabou-se o tipo tradicional do herói transfigurado pela desfortuna;
do herói importuno e triste; do herói que pede esmola ou
morre escaveirado e tiritante, passando das palhas de uma enxerga para
o mármore dos panteões. Não mais Camões e
Belisários...
Rompe o herói político, esplendidamente burguês; o
herói que faz o trust do ideal; o herói que aluga a glória
e que, antes de pedir um historiador, reclama um empresário.
Alevantamento moral...
Não prossigamos. Decididamente Spencer viu, pela última
vez, este mundo com o olhar bruxoleante de um velho.
O mestre errou; errou palmarmente, desastrosamente, escandalosamente.
Os tempos que vão passando são, na verdade, admiráveis.
Contrastes e Confrontos,
de Euclides da Cunha
Fonte:
CUNHA, Euclides da. Contrastes e Confrontos. Rio de Janeiro, Record, 1975.
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
Coletivo Euclidiano - http://pagina.de/euclides
Este material pode
ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado,
e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores
informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.
Estamos em busca
de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter
este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um
e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é
possível.
|