Contos
Gauchescos
João Simões Lopes Neto
CORRER EGUADA
Se vancê fosse daquele tempo, eu calava-me, porque não
lhe contaria novidade, mas vancê é um guri, perto de
mim, que podia ser seu avô... Pois escuite.
Tudo era aberto; as estâncias pegavam umas nas outras sem
cerca nem tapumes; as divisas de cada uma estavam escritas nos papéis
das sesmarias; e lá um que outro estancieiro é que
metia marcos de pedra nas linhas, e isso mesmo quando aparecia algum
piloto que fosse entendido do ofício e viesse bem apadrinhado.
Vancê vê que desse jeito ninguém sabia bem o
que era seu, de animalada. Marcava-se, assinalava-se o que se podia,
de gado, mas mesmo assim, pouco; agora, o que tocava à bagualada,
isso era quase reiúno... pertencia ao campo onde estava pastando.
E mesmo nem tinha valor nenhum: égua baguala era só
para tirar-se as loncas, alguma bota.
Depois é que apareceram uns lamões e uns ingleses,
melados, que compravam o cabelo: por isso às vezes se cerdeava;
mas eles pagavam uma tuta e meia.
Veja vancê: sempre a estrangeirada especulando cousas de que
a gente nem fazia caso...
Eguada xucra, potrada orelhana, isso, era imundície, por
esses campos de Deus; miles e milesl...
E bicho brabo pra se tropear, esse!... Barulhento, espantadiço,
disparador e ligeiro, como trezentos diabos!
Mas, como quera, era sempre um divertimento macanudo, uma volteada
de baguais!
Ah!...
Não há nada como tomar mate e correr eguada!
Aí para os meios de Quaraim, nos campos do major Jordão,
entrei uma vez numa correria macota.
Foi logo depois da guerra do Oribe. Havia como dez mil baguais entre
éguas e potros orelhanos, cavalhada largada, reiúna
e marcada, que toda virou haragana, nos pajonais.
Os gados, que já eram mui ariscos, viviam numa bolandina
com as disparadas da bagualada.
Pro caso, diz que é o Negrinho do Pastoreio que faz as disparadas
dos cavalares... Isso é uma história comprida...
Um belo dia o major resolveu fazer uma limpa naquele bicharedo alçado.
E preparou-se, com tempo.
Desfrutou a novilhada que pode, no verão, arreglou as suas
contas e mandou avisar e convidar o vizindário para correr
a bagualada no veranico de maio, que era para agarrar o bicharedo
rachando de gordo e aguaxado, pesadão e o tempo mais fresco
para a cavalhada do serviço.
Amigo! Quando foi aos três dias da lua nova a estância
estava apinhada de gauchada. Como uns oitenta e tantos torenas,
campeiraços destorcidos, domadores e boleadores de fama.
Adelgaçava-se os fletes com água a meia costela, em
qualquer lagoão, e à soga; cascos bem aparados, agarradeiras
bem cavadas, endurecidas com uma untura de sebo de rim e carvão,
aquentada com a ponta em brasa de um tição de goiabeira;
cola curta, toso baixo.
E a gauchada quase toda de em pêlo. Uns de bombacha, outros
de chiripá; muitos sem chapéu, muitos de lenço
na cabeça; tudo em mangas de camisa e faca atravessada.
O mais maula levava pelo menos dois pares de bolas; três pares,
isso era a rodo, e havia torena que chegava a levar cinco: um na
mão, os outros na cintura.
E tudo boleadeiras mui bem feitas, de pedra pequena; porque vancê
sabe que o cavalar tem o osso mais quebradiço que a rês
- e vai, se toma de mau jeito um bolaço pesado, aí
no mais já temos um avariado.
Pois é: as três-marias retovadas a preceito; e as sogas
macias, pra não cortar; e levava-se também uns quantos
ligares.
- Vancê não sabe o que é um ligar? Não
é só, não sr., o couro de terneirote pra fazer
carona; é também uma tira de guasca, chata, assim
duma meia braça, com um furo dum lado e uma meia ponta do
outro. Conforme boleava um animal e ele caia, o campeiro chegava-se
e passava-lhe o ligar em cima do garrão e apertava, acochava,
à moda velha; hom!... era mesmo como botar uma liga de mulher,
com perdão da comparação!
Vancê compr'ende, não!
Ficava o nervo do garrão, arrochado pelo ligar; então
o gaúcho desenredava as boleadeiras e assinalava e mal isto,
já o bagual se aprumava e levantava-se, bufando, puava, pra
rufar..., mas qual! saía em três pernas!... E assim
de seguida, em dois, três, oito ou mais, que cada corredor
boleasse; esses não podiam mais disparar, ficavam perneteando
no meio do campo!
Então a gurizada, os piás, a relho, iam entropilhando
os ligados, que depois cada dono separava pelo sinal feito.
Era assim, que, conforme ia correndo a eguada, cada gaúcho
ia boleando o bagual que mais lhe agradava; às vezes saíam
dois a um mesmo animal: aí, o que primeiro lhe sentava as
pedras, era o dono.
Mas também, quanto porongo!... Quantas vezes, depois duma
canseira, boleava-se e caía um potro lindaço, cogotudo
e bem lançado, e ia-se ver, era um colmilhudo, com cada dente
como uma estaca... velho como o cerro do Batovi; ou era um mancarrão
de montaria, aporreado e cuerudo... outras vezes ainda... enfim,
havia sempre embaçadelas!
Mas, como ia dizendo: quando a gente estava toda a cavalo e pronta,
o estancieiro ou o encarregado distribuía os ternos, que
espalhavam-se a todos os rumos, sobre as costas e rinconadas, para
fazer a tocada de lá desses fundos.
E daí a pouco já se levantavam os primeiros rumores...
A bagualada estranhava aqueles movimentos; os colhudos começavam
a relinchar, ajuntando, pastorejando as manadas; os entropilhados,
farejando, entreparavam-se, arpistas; outras pandilhas, de cola
alçada, iam num trotão dançado, bufando...
e já cerravam numa correria em redondo e depois riscavam,
campo fora...
Lá adiante, o mesmo barulho; noutro ponto, igual; dum rindo,
numa trepada de coxilha, numa descida de canhada, rufando duma restinga,
os lotes de eguariços iam se encontrando, entreverando-se;
os campeiros vinham chegando e a gritos, a cachorro, a tiro, ia-se
tocando a bagualada de cada querência; de todos os lados cruzava-se
a contradança, que se encaminhava sobre uma linha já
combinada; e aos poucos ia crescendo o rodeio movediço, que
engrossava, redemoinhava, espirrava, tornava a embolar-se... e de
repente fazia cabeça, fazia ponta, e todo disparava, fazendo
tremer a terra, roncando no ar, como uma trovoada.
Aí a gente entrava a manguear, aos dois lados, e então
é que começava, de verdade, o divertimento! Arrematava-se
três, quatro, cinco fletes; corria-se sem parar, seis, dez,
doze léguas... e no fim estava-se folheiro!...
Barbaridade! Nem há nada como tomar mate e correr eguada!
Amigo! Aquele novelo não se desmanchava mais; ao contrário,
o que ia topando pela frente ou aos lados, de eguada, também
corria e atirava-se, incorporando-se; na culatra ia ficando uma
estiva de potrilhos, de flacos, de aplastados, dos que rodavam,
dos que se quebravam e até dos que morriam pisoteados por
aquela massa cerrada de cascos.
E em cancha direita ou fazendo voltas largas, não se respeitava
sanga, banhado, tacuru, panela de caranguejo, nem buraco de tuco-tuco;
ia-se acamando as macegas, pisoteando cardais, esmigalhando as manchas
de trevo, e ia-se sempre a meia rédea.
Aí é que era o lindo!
Os fletes montados, alevianados, corriam, alçados no freio;
os tiros de bolas cruzavam-se nos ares... e aquilo era largar as
três-marias sobre a paleta do escolhido e o bagual logo rodava,
no enleio das sogas.
O gaúcho, apeava, ligava, tirava as boleadeiras e já
se bancava de novo pra nova nombrada,
Isto quando era por divertir.
Quando era para
tropa, o melhor era reiunar os boleados; isso era ligeiro: com um
talho de faca, por detrás, na raiz da orelha, esta caía
pra diante, sobre o olho; o sangue também ajudava, porque
escorria e se empastava nas clinas; e podia ser potro cru e malevaço,
que ali no mais dava o cacho; podia fazer-se dele sinuelo.
Quando era para
limpeza, então tocava-se a eguada sobre um apertado qualquer,
sobre uma sanga bem funda, grota, manantial, sumidouro, e atirava-se
aí pra dentro, para destroçar, para acabar, atirava-se
aí para dentro toda a bagualada, que, do lance em que vinha,
toda se afundava, amontoava, esmagava e morria, sem poder recuar,
perdida pela sua própria brabeza, empurrada pelas pechadas
dos que vinham, sarapantados, tocados de trás!...
E o resto que se desguaritava e que se podia ainda apanhar a laço
e bolas, esse, degolava-se.
Dessa feita, nos campos do major Jordão matamos pra mais
de seis mil baguais. E cada gaúcho, na despedida, foi tocando
por diante a sua tropilhita nova.
Hoje... onde
é que se faz disso?
É verdade que há muita cousa boa, isso é verdade...
mas ainda não há nada, como antigamente, tomar mate
e correr eguada...
Xô-mico!... Vancê veja... eu até choro!...
Ah! tempo!...
CHASQUE DO
IMPERADOR
- Quando foi do cerco de Uruguaiana pelos paraguaios em 65 e o imperador
Pedro 2( veio cá, com toda a frota da sua comitiva, andei
muito por esses meios, como vaqueano, como chasque, como confiança
dele; era eu que encilhava-lhe o cavalo, que dormia atravessado
na porta do quarto dele, que carregava os papéis dele e as
armas dele.
Começou assim: fui escalado para o esquadrão que devia
escoltar aquele estadão todo.
Quando a força apresentou-se ao seu general Caxias, o velho
olhou... olhou... e não disse nada.
Cada um, firme como um tarumã; as guascas, das melhores,
as garras, bem postas, os metais, reluzindo; os fletes tosados a
preceito, a cascaria aparada... e em cima de tudo, - tirante eu
- uma indiada macanuda, capaz de bolear a perna e descascar o facão
até pra Cristo, salvo seja!...
Pois o velho olhou..., olhou..., e ficou calado. E calado saiu.
O tenente que nos comandava, relanceou os olhos como numa sufocação
e berrou:
- Firme! E dando um torcicão forte na banda, começou
a mascar a pêra, furioso.
E ali ficamos; de vez em quando um bagual escarceando, refolhando,
escarvando...
Daí a pouco, de em frente, das casas, veio saindo unia gentama,
muito em ordem, de a dois, de a três.
Na testa vinha um homem alto, barbudo, ruivo, de olhos azuis, pequenos,
mas mui macios. A esquerda dele, dois passos menos, como na ordenança,
o velho Caxias, fardado e firme, como sempre.
O outro, o ruivo, assim a modo um gringo, vinha todo de preto, com
um gabão de pano piloto, com veludo na gola e de botas russilhonas,
sem esporas.
Pela pinta devia ser mui maturrango.
Não trazia espada nem nada, mas devia ser um maioral porque
todos os outros se apequenavam pra ele. Quem seria?...
O tenente descarregou umas quantas vozes; e nós estávamos
como corda de viola!...
O ruivo passou pela nossa frente, devagar; mirou um flanco e outro,
e falou com o velho, mostrando um ar risonho no rosto sério.
O velho acenou ao tenente, que tocou o cavalo e firmou a espada
em continência.
Então o ruivo disse:
- 'Stá bem, sr. tenente; estou satisfeito! Mande-me aqui
um dos seus homens, qualquer...
- O tenente bateu a espada e deu de rédea, e parou mesmo
na minha frente... eu era guia da fila testa.
- Cabo Blau Nunes! Pé em terra! Um!... Dois!...
Estava apeado e perfilado, com a mão batendo na aba levantada
do meu chapéu de voluntário.
- Apresente-se!
E baixinho, fuzilando nos olhos, boquejou-me: - aquele é
o imperador; se te enredas nas quartas, defumo-te!
Ora!... Caminhei firme e quando cheguei a cinco passos do ruivo,
tornei a quadrar o corpo, na postura dos mandamentos.
Aí o velho Caxias perguntou:
- Sabes a quem falas?
- Diz que ao senhor imperador!
- Sua majestade o imperador, é que se diz.
- A sua majestade o imperador!
Vai então, o tal, que pelo visto, era mesmo o tão
falado imperador, disse, numa vozinha fina:
- Bem; cabo, você vai ficar na minha companhia; há
de ser o meu ordenança de confiança. Quer?...
- O senhor imperador vai ficar mal servido: sou um gaúcho
mui cru; mas para cumprir ordens e dar o pelego, tão bom
haverá, melhor que eu, não!
Aí o homem riu-se e o velho também. E vai este indagou:
- Conheces-me?
- Como não?!... Desde 45, no Ponche Verde; fui eu que uma
madrugada levei a vossa excelência um ofício reservado,
pra sua mão própria... e tive que lanhar uns quantos
baianos abelhudos que entenderam de me tomar o papel... Vossa excelência
mandou-me dormir e comer na sua barraca, e no outro dia me regalou
um picaço grande, mui lindo, que...
- Bem me parecia, sim... E ainda és o mesmo homem?
- Sim, sr., com algum osso mais duro e o juízo mais tironeado!
- É que sua majestade vai precisar de um chasque provado,
seguro... há perigo, na missão...
- Uê! seu general!... Meu pai e minha mãe hoje, é
esta!
E beijei a minha divisa de cabo.
O imperador pôs a mão no meu ombro e disse:
- Estimo-te. Podes ir... e cala-te.
E vancê creia... - que diabo! - tive um estremeção
por dentro!...
Eu pensava que o imperador era um homem diferente dos outros...
assim todo de ouro, todo de brilhantes, com olhos de pedras finas...
Mas, não senhor, era um homem de carne e osso, igual aos
outros... mas como quera... uma cara tão séria...
e um jeito ao mesmo tempo tão sereno e tão mandador,
que deixava um qualquer de rédea no chão!...
Isso é que era!...
Fiz meia-volta e fui tomar o meu lugar; o esquadrão desfilou,
apresentando armas e fomos acampar. Logo a rapaziada crivou-me de
perguntas... mas eu, soldado velho, contei um par de rodelas, queimei
campo a boche, mas não afrouxei nada da conversa; não
vê!...
De tardezita já entrava de serviço.
A não ser nas conversas particulares daqueles graúdos
- pois tudo era só seu barão, seu conselheiro, seu
visconde, seu ministro -, eu sempre via e ouvia o que se passava.
E a bem boas assisti.
Um dia apresentaram
ao imperador um topetudo não sei donde, que perguntou, mui
concho:
- Então vossa majestade tem gostado disto por aqui?
- Sim, sim, muito!
- Então por que não se muda pra cá, com a família?...
Outro, no meio
da roda, puxou da traíra, sovou uma palha de palmo, e começou
a picar um naco; esfregou o fumo na cova da mão, enrolou,
fechou o baio e mui senhor de si ofereceu-o ao imperador.
- É servido?
- Não, obrigado; parece-me forte o seu fumo...
- Não sabe o que perde!... Então, com sua licença!...
E bateu o isqueiro e começou a pitar, tirando cada tragada
que nuveava o ar!
Havia um que
era barão e comandava um regimento, que era mesmo uma flor;
tudo moçada parelha e guapa.
O imperador gabou muito a força, e aí no mais o barão
já lhe largou esta agachada:
- Que vossa majestade está pensando?... Tudo isto é
indiada coronilha, criada a apojo, churrasco e mate amargo... Não
é como essa cuscada lá da Corte, que só bebe
água e lambe a... barriga!...
Este mesmo barão, duma feita que o d. Pedro procurou no bolso
umas balastracas para dar uma esmola e não achou mais nada,
desafivelou a guaiaca e entregando-a disse:
- Tome, senhor! Cruzes! Nunca vi homem mais mão-aberta do
que vossa majestade..., olhe que quem dá o que tem, a pedir
vem... mas... quando quiser os meus arreios prateados... e até
a minha tropilha é só mandar... só reservo
o tostado crespo e um qualquer pelego...
- Mas, sr. barão, nem por isso eu dou o que desejara...
- Ora qual!... Vossa majestade não dá a camisa...
porque não tem tempo de tirá-la!...
Numa das marchas
paramos num campestre, na beira dum passo, perto dum ranchito.
Daí a pouco, com uma trouxinha na mão apareceu no
acampamento uma velha, que já tinha os olhos como retovo
de bola. Por ali andou mirando, e depois entrando mesmo no grupo
onde ele estava, disse:
- Bom dia, moços! Qual de vocês é o imperador?
- Sou eu, dona! Assente-se.
A velha olhou-o de alto a baixo, calada, e depois rindo nos olhos:
- Deus te abençoe! Nossa Senhora te acompanhe, meu filho!
Eu trago-te este bocadinho de fiambre!
E abrindo o pano, mui limpinho, mostrou um requeijão, que
pela cor devia de estar um gambelo, de gordo e macio. D. Pedro agradeceu
e quis dar uma nota à velha, que parou patrulha.
- Não! não!... Tu vais pra guerra... Os meus filhos
e netos já lá andam... Eu só quero que vocês
não se deixem tundar!...
Houve uma risada grande, da comitiva. A velhota ainda correu os
olhos em roda e indagou:
- Diz que o seu Caxias também vem aqui... quem é?
- Sou eu, patrícia!... Conhece-me?
- De nome, sim, senhor. O meu defunto, em vida dele, sempre falava
em vancê... Pois os caramurus iam fuzilar o coitado, quando
vancê apareceu... Lembra-se?... E vai, quando o seu general
Canabarro fez a paz entre os farrapos e os legais, o meu defunto
jurou que onde estivesse o seu Caxias, ele havia de ir... mas morreu,
pro via dum inchume, que apareceu, aqui, lá nele. Mas, como
por aqui, correu que vancê ia pra guerra dos paraguaios, o
meu filho mais velho, em memória do pai, ajuntou os irmãos
e os sobrinhos e uns quantos vizinhos e se tocaram todos, pra se
apresentarem de voluntários, a vancê!... Vancê
dê notícias minhas e bote a benção neles;
e diga a eles que não deixem o imperador perder a guerra...
ainda que nenhum deles nunca mais me apareça!... Bem! com
sua licença... Seu imperador, na volta, venha pousar no rancho
da nhã Tuca; é de gente pobre, mas tudo é limpo
com a graça de Deus... e sempre há de haver uma terneira
gorda pra um costilharl... Passar bem! Boa viagem... Deus os leve,
Deus os traga!...
O imperador - esse era meio maricas, era! - abraçou a velha,
prometendo voltar, por ali, e quando ela saiu, disse:
- Como é agradável esta rudeza tão franca!
Numa cidade
onde pousamos, o imperador foi hospedado em casa dum fulano, sujeito
pesado, porém mui gauchão.
Quando foi hora do almoço, na mesa só havia doces
e doces... e nada mais. O imperador, por cerimônia provou
alguns; a comitiva arriou aqueles cerros açucarados. Quando
foi o jantar, a mesma cousa: doces e mais doces!... Para não
desgostar o homem, o imperador ainda serviu-se, mas pouco; e de
noite, outra vez, chá e doces!
O imperador, com toda a sua imperadorice, gurniu fome!
No outro dia, de manhã, o fulano foi saber como o hóspede
havia passado a noite e ao mesmo tempo acompanhava uma rica bandeja
com chá e... doces...
Aí o imperador não pôde mais... estava enfarado!...
- Meu amigo, os doces são magníficos... mas eu agradecia-lhe
muito se me arranjasse antes um feijãozinho... uma lasca
de carne...
O homem ficou sério... e depois largou uma risada:
- Quê! Pois vossa majestade come carne?! Disseram-me que as
pessoas reais só se tratavam a bicos de rouxinóis
e doces e pasteizinhos!... Por que não disse antes, senhor?
Com trezentos diabos!... Ora esta!... Vamos já a um churrasco...
que eu, também, não agüento estas porquerias!...
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