CLARA
DOS ANJOS
Lima Barreto
CAPÍTULO I
O carteiro Joaquim
dos Anjos não era homem de serestas e serenatas; mas gostava de
violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que
já foi muito estimado em outras épocas, não o sendo
atualmente como outrora. Os velhos do Rio de Janeiro, ainda hoje, se lembram
do famoso Calado e das suas polcas, uma das quais - "Cruzes, minha
prima!" 3/4 é uma lembrança emocionante para os cariocas
que estão a roçar pelos setenta. De uns tempos a esta parte,
porém, a flauta caiu de importância, e só um único
flautista dos nossos dias conseguiu, por instantes, reabilitar o mavioso
instrumento - delícia, que foi, dos nossos pais e avós.
Quero falar do Patápio Silva. Com a morte dele a flauta voltou
a ocupar um lugar secundário como instrumento musical, a que os
doutores em música, quer executantes, quer os críticos eruditos,
não dão nenhuma importância. Voltou a ser novamente
plebeu.
Apesar disso, na sua simplicidade de nascimento, origem e condição,
Joaquim dos Anjos acreditava-se músico de certa ordem, pois, além
de tocar flauta, compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.
Uma polca sua - "Siri sem unha" - e uma valsa - "Mágoas
do coração"- tiveram algum sucesso, a ponto de vender
ele a propriedade de cada uma, por cinqüenta mil-réis, a uma
casa de músicas e pianos da Rua do Ouvidor.
O seu saber musical era fraco; adivinhava mais do que empregava noções
teóricas que tivesse estudado.
Aprendeu a "artinha" musical na terra do seu nascimento, nos
arredores de Diamantina, em cujas festas de igreja a sua flauta brilhara,
e era tido por muitos como o primeiro flautista do lugar. Embora gozando
desta fama animadora, nunca quis ampliar os seus conhecimentos musicais.
Ficara na "artinha" de Francisco Manuel, que sabia de cor; mas
não saíra dela, para ir além.
Pouco ambicioso em música, ele o era também nas demais manifestações
de sua vida. Desgostoso com a existência medíocre na sua
pequena cidade natal, um belo dia, aí pelos seus vinte e dois anos,
aceitara o convite de um engenheiro inglês que, por aquelas bandas,
andava a explorar terras e terrenos diamantíferos. Todos julgavam
que o "seu" mister andasse fazendo isso; a verdade, porém,
é que o sábio inglês fazia estudos desinteressados.
Fazia puras e platônicas pesquisas geológicas e mineralógicas.
O diamante não era o fim dos seus trabalhos; mas o povo, que teimava
em ver, pelos arredores da cidade, o ventre da terra cheio de diamantes,
não podia supor que um inglês que levava a catar pedras,
pela manhã e até à noite, tomando notas e com uns
instrumentos rebarbativos, não estivesse com tais gatimonhas a
caçar diamantes. Não havia meio do mister convencer à
simplória gente do lugar que ele não queria saber de diamantes;
e dia não havia em que o súdito de Sua Graciosa Majestade
não recebesse uma proposta de venda de terrenos, em que forçosamente
havia de existir a preciosa pedra abundantemente, por tais ou quais indícios,
seguros aos olhos de "garimpeiro" experimentado.
Logo ao chegar o geólogo, Joaquim empregou-se como seu pajem, guia,
encaixotador, servente, etc., e tanto foi obediente e serviu a contento
o sábio, que este, ao dar por terminadas as suas pesquisas, o convidou
a vir ao Rio de Janeiro, encarregando-se de movimentar a sua pedregulhenta
ou pedregosa bagagem, até que ela fosse posta a bordo. O sábio
comprometeu-se a pagar-lhe a estadia no Rio, o que fez, até embarcar-se
para a Europa.
Deu-lhe dinheiro para voltar, um chapéu de cortiça, umas
perneiras, um cachimbo e uma lata de fumo Navy Cut; Joaquim já
se havia habituado ao Rio de Janeiro, no mês e pouco em que estivera
aqui, a serviço do Senhor John Herbert Brown, da Real Sociedade
de Londres; e resolveu não voltar para Diamantina. Vendeu as perneiras
num belchior e o chapéu de cortiça também; e pôs-se
a fumar o saboroso fumo inglês no cachimbo que lhe fora ofertado,
passeando pelo Rio, enquanto teve dinheiro. Quando acabou, procurou conhecidos
que já tinha; e, em breve, entrou para o serviço de empregado
de escritório de um grande advogado, seu patrício, isto
é, mineiro.
- Não te darei coisa que valha a pena - disse-lhe logo o doutor
- mas aqui irás travando conhecimentos e podes arranjar coisa melhor
mais tarde.
Viu bem que o "doutor" lhe falava a verdade, e toda sua ambição
se cifrou em obter um pequeno emprego público que lhe desse direito
a aposentadoria e a montepio, para a família que ia fundar. Conseguira,
ao fim de dois anos de trabalho, aquele de carteiro, havia bem quatro
lustros, com o qual estava muito contente e satisfeito da vida, tanto
mais que mere- cera sucessivas promoções.
Casara meses depois de nomeado; e, tendo morrido sua mãe, em Diamantina,
como filho único, herdara-lhe a casa e umas poucas terras em Inhaí,
uma freguesia daquela cidade mineira. Vendeu a modesta herança
e tratou de adquirir aquela casita nos subúrbios em que ainda morava
e era dele. O seu preço fora módico, mas, mesmo assim, o
dinheiro da herança não chegara, e pagou o resto em prestações.
Agora, porém, e mesmo há vários anos, estava em plena
posse do seu "buraco", como ele chamava a sua humilde casucha.
Era simples. Tinha dois quartos; um que dava para a sala de visitas e
outro para a sala de jantar, aquele ficava à direita e este à
esquerda de quem entrava nela. À de visitas, seguia-se imediatamente
a sala de jantar. Correspondendo a pouco mais de um terço da largura
total da casa, havia, nos fundos, um puxadito, onde estavam a cozinha
e uma despensa minúscula. Comunicava-se esse puxadito com a sala
de jantar por uma porta; e a despensa, à esquerda, apertava o puxado,
a jeito de um curto corredor, até à cozinha, que se alargava
em toda a largura dele. A porta que o ligava à sala de jantar ficava
bem junto daquela, por onde se ia dessa sala para o quintal. Era assim
o plano da propriedade de Joaquim dos Anjos.
Fora do corpo da casa, existia um barracão para banheiro, tanque,
etc., e o quintal era de superfície razoável, onde cresciam
goiabeiras, dois pés ou três de laranjeiras, um de limão-galego,
mamoeiros e um grande tamarineiro copado, bem aos fundos.
A rua em que estava situada a sua casa se desenvolvia no plano e, quando
chovia, encharcava e ficava que nem um pântano; entretanto, era
povoada e se fazia caminho obrigado das margens da Central para a longínqua
e habitada freguesia de Inhaúma. Carroções, carros,
autocaminhões que, quase diariamente, andam por aquelas bandas
a suprir os retalhistas de gêneros que os atacadistas lhes fornecem,
percorriam-na do começo ao fim, indicando que tal via pública
devia merecer mais atenção da edilidade.
Era uma rua sossegada e toda ela, ou quase toda, edificada ao gosto antigo
do subúrbio, ao gosto do chalet. Estava povoada e edificada quase
inteiramente, de um lado e de outro. Dela, descortinava-se um lindo panorama
de montanhas de cores cambiantes, conforme fosse a hora do dia e o estado
da atmosfera. Ficavam-lhe muito distantes, mas pareciam cercá-
la, e ela, a rua, ser o eixo daquele redondel de montes, em que, pelo
dia em fora, pareciam ser iluminados por projeções luminosas,
revestindo-se de toda a gama do verde, de tons azuis; e, pelo crepúsculo,
ficavam cobertos de ouro e púrpura.
Além dos clássicos chalets suburbanos, encontravam-se outros
tipos de casas. Algumas relativamente recentes, uns certos requififes
e galanteios modernos, para lhes encobrir a estreiteza dos cômodos
e justificar o exagero dos aluguéis. Havia, porém, uma casa
digna de ser vista. Erguia-se quase ao centro de uma grande chácara
e era a característica das casas das velhas chácaras dos
outros tempos; longa fachada, pouco fundo, teto acaçapado, forrada
de azulejos até a metade do pé direito. Um tanto feia, é
verdade, que ela era, sem garridice; mas casando-se perfeitamente com
as mangueiras, com as robustas jaqueiras e os coqueiros petulantes e com
todas aquelas grandes e pequenas árvores avelhantadas, que, talvez,
os que as plantaram não as tivessem visto frutificar. Por entre
elas, onde se podiam ver vestígios do antigo jardim, havia estatuetas
de louça portuguesa, com letreiros azuis. Uma era a "Primavera";
outra era a "Aurora"; quase todas, porém, estavam mutiladas;
umas, num braço; outras não tinham cabeça, e ainda
outras jaziam no chão, derrubadas dos seus toscos suportes.
Os muros que cercavam a casa, a razoável distância, e mesmo
aquele em que se apoiava o gradil de ferro da frente do imóvel,
estavam cobertos de hera, que os envolvia em todo ou em parte, não
como um sudário, mas como um severo, cerimonioso e vivo manto de
outras épocas e de outras gentes, a provocar saudades e evocações,
animando a ruína. Hoje, é raro ver-se, no Rio de Janeiro,
um muro coberto de hera; entretanto, há trinta anos, nas Laranjeiras,
na Rua Conde de Bonfim, no Rio Comprido, no Andaraí, no Engenho
Novo, enfim, em todos os bairros que foram antigamente estações
de repouso e prazer, encontravam-se, a cada passo, longos muros cobertos
de hera, exalando melancolia e sugerindo recordações.
Joaquim dos Anjos ainda conhecera a "chácara" habitada
pelos proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham
retirado para fora e alugado aos "bíblias". Os seus cânticos,
aos sábados (era o seu dia da semana de descanso sagrado), entoados
quase de hora em hora, enchiam a redondeza e punham na sua audiência
uma soturna sombra de misticismo. O povo não os via com hostilidade,
mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freqüentavam-nos,
já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre
os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que
não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas,
além das dores que seguem toda e qualquer existência humana.
Alguns, entre os quais o João Pintor, justificavam freqüentar
os "bíblias", porque estes - dizia ele - não eram
como os padres, que, para tudo, querem dinheiro.
Esse João Pintor trabalhava nas oficinas do Engenho de Dentro,
no ofício de que proviera o seu apelido. Era um preto retinto,
grossos lábios, malares proeminentes, testa curta, dentes muito
bons e muito claros, longos braços, manoplas enormes, longas pernas
e uns tais pés, que não havia calçado, nas sapatarias,
que coubessem neles. Mandava-os fazer de encomenda; mas assim mesmo, mal
os punha hoje, no dia seguinte tinha que os retalhar à navalha,
se queria dar alguns passos e manquejar menos até o "Mafuá".
Dizia o "Turuna", adepto do Padre Sodré, capelão
do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, que João Pintor
se metera com os "bíblias", porque estes lhe haviam dado
um quarto, na chácara, para ele morar de graça, com certas
obrigações pequenas a cumprir. João Pintor contestava
com veemência; o certo, porém, é que ele morava na
"chácara".
Chefiava os protestantes um americano, Mr. Quick Shays, homem tenaz e
cheio de uma eloqüência bíblica, que devia ser magnífica
em inglês; mas que, no seu duvidoso português, se tornava
simplesmente pitoresca. Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça
curiosa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando
em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja
a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à
luz de uma sua interpretação de um ou mais versículos
da Bíblia, funda uma novíssima seita, põe-se a propagá-la
e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem
por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a
diferença que há entre esta e a de que vieram.
Lá, na sua terra, como aqui, esses pequenos luteros fazem prosélitos;
lá, mais do que aqui. Mr. Shays obtinha, nas vizinhanças
do carteiro Joaquim dos Anjos, não prosélitos, mas muitos
ouvintes, dos quais uma quinta parte afinal se convertia. Quando se tratava
de iniciar uma turma, os noviços dormiam em barracas de campanha,
erguidas ao redor da casa, nos vãos existentes entre as velhas
árvores da chácara, maltratada e desprezada.
As cerimônias preparatórias à iniciação,
na religião de Mr. Quick Shays, duravam uma semana, farta de jejuns
e cânticos religiosos, cheios de unção e apelos contritos
a Deus, Nosso Pai; e a velha propriedade de recreio, com as barracas militares
e salmodias contínuas, adquiria um aspecto esquisito e imprevisto,
o de convento ao ar livre, mascarado por uma rebarbativa carranca de acampamento
guerreiro. Dir-se-ia um destacamento de uma ordem de cavalaria monástico-guerreira,
que se preparava para combater o turco ou o mouro infiel, na Palestina
ou em Marrocos.
Da redondeza, não eram muitos os adeptos ortodoxos à doutrinação
religiosa de Mr. Shays; entretanto, além das espécies que
já foram aludidas, havia as daqueles que assistiam às suas
prédicas, por mera curiosidade ou para deliciar-se com a oratória
do pastor americano. O templo estava sempre cheio, nos seus dias solenes.
Os freqüentadores dessa ou daquela natureza lá iam sem nenhuma
repugnância, pois é próprio do nosso pequeno povo
fazer uma extravagante amálgama de religiões e crenças
de toda a sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e
momentâneas agruras de sua existência. Se se trata de afastar
atrasos de vida, apela para a feitiçaria; se se trata de curar
uma moléstia tenaz e renitente, procura o espírita; mas
não falem à nossa gente humilde em deixar de batizar o filho
pelo sacerdote católico, porque não há, dentre ela,
quem não se zangue: "Está doido! Meu filho ficar pagão!
Deus me defenda!
Joaquim dos Anjos não freqüentava Mr. Shays nem o reverendo
Padre Sodré, do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, pois,
apesar de ter nascido numa cidade embalsamada de incenso e plena de ecos
sonoros de litanias e o contínuo repicar de sinos festivos, não
era animado de grande fervor religioso. Sua mulher, Dona Engrácia,
porém, o era em extremo, embora fosse pouco à igreja, devido
às suas obrigações caseiras. Ambos, porém,
estavam de acordo num ponto religioso católico-romano: batizar
quanto antes os filhos, na Igreja Católica Apostólica Romana.
Foi assim que procederam, não só com a Clara, o único
filho sobrevivente, como com os demais, que haviam morrido.
Eram casados há quase vinte anos, e esta Clara, sua filha, sendo
o segundo filho do casal, orçava pelos seus dezessete anos.
Era tratada pelos pais com muito desvelo, recato e carinho; e, a não
ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida,
uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças
e ensinava a Clara bordados e costuras.
No mais, isto era raro e só acontecia aos domingos, Clara deixava,
às vezes, a casa paterna, para ir ao cinema do Méier ou
Engenho de Dentro, quando a sua professora de costuras se prestava a acompanhá-la,
porque Joaquim não se prestava, pois não gostava de sair
aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predileto
de jogar o solo com os companheiros habituais; e sua mulher não
só não gostava de sair aos domingos, como em outro dia da
semana qualquer. Era sedentária e caseira.
Os companheiros habituais do solo com Joaquim eram quase sempre estes
dois: o Senhor Antônio da Silva Marramaque, seu compadre, pois era
padrinho de sua filha única; e o Senhor Eduardo Lafões.
Não variavam. Todos os domingos, aí pelas nove horas, lá
batiam à porteira da casa do "postal"; não entravam
no corpo da habitação e, pelo corredor que mediava entre
ela e a vizinha, dirigiam-se ao grande tamarineiro, aos fundos do quintal,
debaixo do qual estava armada a mesa, com os seus tentos, vermelhos e
pupilas negras, de grão de aroeira, o seu baralho, os seus pires,
um cálice e um litro de parati, ao centro, muito pimpão
e arrogante, impondo um cínico desafio às conveniências
protocolares.
Joaquim dos Anjos já esperava, lendo o jornal de sua predileção.
Mal chegavam, trocavam algumas palavras, sentavam-se, "molhavam a
palavra", no litro de cachaça, e punham-se a jogar. Ficha
a vintém.
Horas e horas, esperando o "ajantarado", que quase sempre ia
para a mesa à hora do jantar habitual, deixavam-se ficar jogando,
bebericando aguardente, sem dar uma vista d'olhos sobre as montanhas circundantes,
nuas e pedroucentas, que recortavam o alto horizonte.
De quando em quando, mas sem grandes espaços, Joaquim gritava para
a cozinha:
- Clara! Engrácia! Café!
De lá, respondiam, com algum amuo na voz:
- Já vai!
É que as duas mulheres, para preparar o café, tinham que
retirar, de um dos dois fogareiros de carvão vegetal, uma panela
do "ajantarado" que aprontavam, a fim de aquecer o café
reclamado; e isto lhes atrasava o jantar.
Enquanto esperavam o café, os três suspendiam o jogo e conversavam
um pouco. Marramaque era e sempre havia sido mais ou menos político,
a seu modo.
Embora atualmente fosse um simples contínuo de ministério,
em que não fazia o serviço respectivo, nem outro qualquer,
devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparalítico
do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de
boêmios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas
de literatura, se discutia muita política, hábito que lhe
ficou. Quando veio a revolta de 93, a roda se dissolveu. Uns foram acompanhar
o Almirante Custódio; e outros, o Marechal Floriano. Marramaque
foi um destes e até obteve as honras de alferes do Exército.
Por aí é que teve a primeira congestão, isto é,
nos fins do governo do marechal, em 94.
A sua roda não tinha ninguém de destaque, mas alguns eram
estimáveis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.
Quando narrava episódios dessa parte de sua vida, tinha grande
garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Luís
Murat. Não mentia, enquanto não confessasse a todos em que
qualidade fizera parte do grupo literário. Os que o conheciam,
daquela época, não ocultavam o título com que partilhava
a honra de ser membro de um cenáculo poético. Tendo tentado
versejar, o seu bom senso e a integridade de seu caráter fizeram-lhe
ver logo que não dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas,
os logogrifos, etc. Ficou sendo um hábil charadista e, como tal,
figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os
seus companheiros e amigos de boêmia literária, poetas e
literatos, improvisavam do pé para a mão, quase sempre sem
dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado,
depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde
lugar de contínuo, para ter com que viver. Os seus méritos
e saber, porém, não estavam muito acima do cargo. Aprendera
muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. Tivera, em
moço, uma boa convivência. Estava aí o segredo de
sua ilustração. Marramaque, apesar de tudo, do seu estado
de saúde, da sua dificuldade de locomover-se, não deixava
a mania inócua da política e ia votar, com risco de se ver
envolvido num barulho de sufrágio universal, puxado a navalha,
rabo-de-arraia, cabeçadas, tiros de revólver e outras eloqüentes
manifestações eleitorais, das quais, em razão do
seu precário estado de pernas, não poderia fugir com segurança
e a necessária rapidez.
Tendo vivido em rodas de gente fina - como já vimos - não
pela fortuna, mas pela educação e instrução;
tendo sonhado outro destino que não o que tivera; acrescendo a
tudo isto o seu aleijamento - Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista.
Naquele domingo, ele o tirara para falar mal do doutor Saulo de Clapin.
- Vocês vão ver: o Clapin está aí, está
morto na política. Teve o topete de ir contra a corrente popular,
espetou-se. Quem ganhou foi o barbudo Melo Brandão, esse judeu
mestiçado. É um safadão, mas é mestre na política.
Joaquim se interessava mediocremente por essa história de política:
mas Lafões tinha as suas paixões no negócio e acudiu:
- Qual o quê! Então você pensa, Marramaque, que um
homem inteligente, tão superior, como o doutor Clapin, vai deixar-se
embrulhar por um trapaceiro de atas e coisas piores como o Melo Brandão!
Qual o quê! Demais, o operariado...
- O que é que ele tem feito pelo operariado? - pergunta Marramaque.
- Muito.
Lafões não era operário, como se poderia pensar.
Era guarda das obras públicas. Português de nascimento, viera
menino para o Brasil, isto há mais de quarenta anos; entrara muito
cedo para a repartição de águas da cidade, chamara
a atenção dos seus superiores pelo rigor de sua conduta;
e, aos poucos, fizeram-no chegar a seu generalato de guarda de enca- namentos
e de torneiras que vazassem nos tanques de lavagem das casas particulares.
Vivia muito contente com a sua posição, a sua portaria de
nomeação, a sua carta de naturalização, e,
talvez, não estivesse tanto, se tivesse enriquecido de centenas
de contos de réis. Assim tudo fazia crer, pois era de ver a importância
ingênua do campônio que se faz qualquer coisa do Estado, e
a solenidade de maneiras com que ele atravessava aquelas virtuais ruas
dos subúrbios.
Trazia sempre a farda de cáqui e o boné com as iniciais
da repartição; um chapéu-de-sol de cabo, que, quando
não o trazia aberto, a protegê-lo contra os raios do sol,
manejava como a bengala de um vigário de aldeia portuguesa, furando
o chão e levantando-o, para pousá-lo de novo, à medida
que executava as suas longas passadas.
Lafões respondeu assim a Marramaque:
- Muito. Em todas as comissões por que o doutor Clapin tem passado,
sempre procura dar trabalho ao maior número de operários.
- Grande serviço! Arrebenta as verbas; no fim de dois ou três
meses, despede mais da metade... Isto não se chama proteger; chama-se
engazopar.
- Seja, mas ele ainda faz isso, e os outros? Não fazem nada. De
resto, é um homem democrata. Desde muito que se bate pela igualdade
entre os servidores da nação. Não quer distinção
entre funcionários públicos e jornaleiros. Quem serve à
nação, seja em que serviço for, é funcionário
público.
- Honrarias! Isto não enche barriga! Por que ele não trabalha
para diminuir a carestia da vida e dos aluguéis de casa?
- Homessa, Marramaque! Você não leu o projeto dele sobre
construção de casas para famílias pobres e modestas?
Você não leu, Joaquim?
O carteiro, que vinha ouvindo a conversa sem dar opinião, à
interpelação de Lafões, interveio:
- Li, de fato; mas li também que ele havia aumentado os aluguéis
de suas casas, que são inúmeras, de quarenta por cento.
- É isto! - acudiu com pressa Marramaque. - Clapin é muito
generoso com o dinheiro dos outros, do Estado. Com o dele, é de
uma sovinice de judeu e de uma ganância de agiota. Jesuíta!
Felizmente Clara chegava com o café. A conversa apaixonada cessava,
e os dois convivas de Joaquim recebiam os cumprimentos da menina:
- A bênção, meu padrinho; bom-dia, Seu Lafões.
Eles respondiam e punham-se a pilheriar com Clara.
Dizia Marramaque:
- Então, minha afilhada, quando se casa?
- Nem penso nisso - respondia ela, fazendo um trejeito faceiro.
- Qual! - observa Lafões. - A menina já tem algum de olho.
Olhe, no dia dos seus anos... É verdade, Joaquim: uma coisa.
O carteiro descansou a xícara e perguntou:
- O que é?
- Queria pedir a você autorização para cá trazer,
no dia dos anos, aqui da menina, um mestre do violão e da modinha.
Clara não se conteve e perguntou apressada:
- Quem é?
Lafões respondeu:
- É o Cassi. A menina...
O guarda das obras públicas não pôde acabar a frase.
Marramaque interrompeu-o furioso:
- Você dá-se com semelhante pústula? É um sujeito
que não pode entrar em casa de família. Na minha, pelo menos...
- Por quê? - indagou o dono da casa.
- Eu direi, daqui a pouco; eu direi por quê - fez Marramaque transtornado.
Acabaram de tomar café. Clara afastou-se com a bandeja e as xícaras,
cheia de uma forte, tenaz e malsã curiosidade:
- Quem seria esse Cassi?
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