CLARA
DOS ANJOS
Lima Barreto
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CAPÍTULO V
Quem conhecesse intimamente Engrácia, havia de ficar espantado
com a atitude decisiva que tomou em relação à
visita de Cassi. O seu temperamento era completamente inerte, passivo.
Muito boa, muito honesta, ativa no desempenho dos trabalhos domésticos;
entretanto, era incapaz de tomar uma iniciativa em qualquer emergência.
Entregava tudo ao marido, que, a bem dizer, era quem dirigia a casa.
Rol de compras a fazer na venda do "Seu" Nascimento, diariamente,
e também o de legumes e verduras, quem os organizava era
o marido, especificando tudo por escrito e deixando o dinheiro para
o quitandeiro, todas as manhãs, quando ia para o trabalho.
De caminho, deixava a lista de gêneros no "Seu"
Nascimento, onde pagava tudo por mês.
Qualquer acontecimento inesperado que lhe surgisse no lar, punha-a
tonta e desvairada. Quando ainda tinham a velha preta Babá,
que a criara na casa dos seus protetores e antigos senhores de sua
avó, talvez um deles, pai dela, ficou Engrácia quase
doida, ao ser a velha Babá acometida de um ataque súbito.
Não sabia o que fazer. Foi preciso que Dona Margarida interviesse,
mandasse chamar o médico, fizesse aviar a receita, tomasse,
enfim, as providências que o caso exigia. A velha morreu daí
a pouco, de embolia cerebral. Muito Engrácia sofreu com essa
morte, pois, não tendo conhecido sua mãe, que lhe
morrera aos sete anos, fora Babá que a criara. Os seus protetores
tinham sido abastados; eram descendentes de um alferes de milícias,
que tinha terras, para as bandas de São Gonçalo, em
Cubandê. Pouco depois da Maioridade, com a morte do chefe
da casa, filhos e filhas se transportaram para a Corte, procurando
aqueles empregaram-se nas repartições do governo.
Um dos irmãos já habitava a capital do Império
e era cirurgião do Exército, tendo chegado a cirurgião-mor,
gozando de grande fama. Para a cidade não trouxeram nenhum
escravo. Venderam a maioria e os de estimação libertaram.
Com eles, só vieram os libertos que eram como da família.
Pelo tempo do nascimento de Engrácia, havia poucos deles
e delas em casa. Só a Babá, sua mãe e um preto
ainda estavam sob o teto patriarcal dos Teles de Carvalho.
Engrácia foi criada com mimo de filha, como os outros rapazes
e raparigas, filhos de antigos escravos, nascidos em casa dos Teles.
Por isso, corria, de boca em boca, serem filhos dos varões
da casa. O cochicho não era destituído de fundamento,
naquela família, composta de irmãs e irmãos,
ainda abastada, que se comprazia, tanto uns como as outras, em tratar
filialmente aquela espécie de ingênuos, que viam a
luz do dia, pela primeira vez, em sua casa. As senhoras, então,
eram de uma meiguice de verdadeiras mães.
Engrácia recebeu boa instrução, para a sua
condição e sexo; mas, logo que se casou - como em
geral acontece com as nossas moças -, tratou de esquecer
o que tinha estudado. O seu consórcio com Joaquim, ela o
efetuara na idade de dezoito anos.
Fosse a educação mimosa que recebera, fosse uma fatalidade
de sua compleição individual, o certo é que,
a não ser para os serviços domésticos, Engrácia
evitava todo o esforço de qualquer natureza.
Não saía quase. Era regra que só o fizesse
duas vezes por ano: no dia 15 de agosto, em que subia o outeiro
da Glória, a fim de deixar uma espórtula à
Nossa Senhora de sua íntima devoção; e, no
dia de Nossa Senhora da Conceição, em que se confessava.
Levava sempre a filha e não a largava de a vigiar. Tinha
um enorme temor que sua filha errasse, se perdesse... A não
ser com ela, Clara, muito a contragosto da mãe, saía
de casa para ir ao cinema, no Méier e Engenho de Dentro,
e outras vezes - poucas - para fazer compras nas lojas de fazendas,
de sapatos e outras congêneres, acreditadas nos subúrbios.
Essa reclusão e, mais do que isso, a constante vigilância
com que sua mãe seguia os seus passos, longe de fazê-la
fugir aos perigos a que estava exposta a sua honestidade de donzela,
já pela sua condição, já pela sua cor,
fustigava-lhe a curiosidade em descobrir a razão do procedimento
de sua mãe.
Clara via todas as moças saírem com seus pais, com
suas mães, com suas amigas, passearem e divertirem-se, por
que seria então que ela não o podia fazer?
A pergunta ficava sempre sem resposta, porque não havia meio,
naquele isolamento em que vivia, de tudo e de todos, de encontrar
a que cabia.
Engrácia, cujos cuidados maternos eram louváveis e
meritórios, era incapaz do que é verdadeiramente educação.
Ela não sabia apontar, comentar exemplos e fatos, que iluminassem
a consciência da filha e reforçassem-lhe o caráter,
de forma que ela mesma pudesse resistir aos perigos que corria.
A mulher de Joaquim dos Anjos tinha a superstição
dos processos mecânicos, daí o seu proceder monástico
em relação à Clara.
Enganava-se com a eficiência dela; porque, reclusa, sem convivência,
sem relações, a filha não podia adquirir uma
pequena experiência da vida e notícia das abjeções
de que está cheia, como também a sua pequenina alma
de mulher, por demais comprimida, havia de se extravasar em sonhos,
em sonhos de amor, de um amor extra-real, com estranhas reações
físicas e psíquicas.
Acresce, ainda, que era geral em sua casa o gosto de modinhas. Sua
mãe gostava, seu pai e seu padrinho também. Quase
sempre havia sessões de modinhas e violão na sua residência.
Esse gosto é contagioso e encontrava, no estado sentimental
e moral de Clara, terreno propício para propagar-se. As modinhas
falam muito de amor, algumas delas são lúbricas até;
e ela, aos poucos, foi organizando uma teoria do amor, com os descantes
do pai e de seus amigos. O amor tudo pode, para ele não há
obstáculos de raça, de fortuna, de condição;
ele vence, com ou sem pretor, zomba da Igreja e da Fortuna, e o
estado amoroso é a maior delícia da nossa existência,
que se deve procurar gozá-lo e sofrê-lo, seja como
for. O martírio até dá-lhe mais requinte...
As emolientes modinhas e as suas adequadas reações
mentais ao áspero proceder da mãe tiraram-lhe muito
da firmeza de caráter e de vontade que podia ter, tornando-a
uma alma amolecida, capaz de render-se às lábias de
um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante,
que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem
das raparigas de sua cor.
Cassi era dessa laia: entretanto, Clara, na sua justificável
ignorância do mecanismo da nossa vida social, julgava que
seus pais eram com ele injustos e grosseiros.
Depois do baile de seu aniversário, quinze ou vinte dias
depois, num domingo, Cassi bateu à porta da casa de seus
pais. Engrácia estava justamente arrumando a sala de visitas;
recebeu-o com visível desgosto e gritou para a cozinha, onde
estava Clara:
- Chama teu pai, que está aí "Seu" Cassi.
A moça ia aproximar-se para falar ao modinheiro, quando a
mãe lhe disse rapidamente:
- Vá chamar seu pai! Ande!
Joaquim não custou a vir; e, após os cumprimentos,
dirigiu-se ao rapaz:
- Que é que manda nesta casa, meu caro senhor?
- Nada. Fui visitar um amigo e, passando pela sua porta, resolvi
cumprimentá-lo.
- Muito obrigado. A partida de solo está fervendo e eu não
me posso demorar.
Cassi olhou um instante, com seu olhar mau, o velho mulato; mas
a nada se atreveu. Estiveram calados dois ou três minutos
um diante do outro, até que o famoso violeiro tomou o alvitre
de despedir-se. Clara veio saber da cena, pela narração
que seu pai fez à sua mãe, e ficou aborrecida, cheia
de desgostos com eles e com a situação em que estava,
imposta por eles, para o seu sofrimento.
Avaliou em algum ressaibo de revolta o procedimento dos pais. O
que queriam fazer dela? Deixá-la ficar para "tia"
ou fazê-la freira? E ela precisava casar-se? Era evidente;
sua mãe e seu pai tinham, pela força das coisas, que
morrer antes dela; e, então, ela ficaria pelo mundo desamparada?
Cochichavam que Cassi era isto e era aquilo. Dona Margarida e o
padrinho eram os que mais mal falavam dele: que era um devasso,
um malvado, um desencaminhador de donzelas e senhoras casadas. Como
ele poderia ser tanta coisa ruim, se freqüentava casas de doutores,
de coronéis, de políticos? Naturalmente havia nisso
muita inveja dos méritos do rapaz, em que ela não
via senão delicadeza e modéstia e, também,
os suspiros e os dengues de violeiro consumado.
Uma dúvida lhe veio; ele era branco; e ela, mulata. Mas que
tinha isso? Havia tantos casos... Lembra-se de alguns... E ela estava
tão convencida de haver uma paixão sincera no valdevinos,
que, ao fazer esse inquérito, já recolhida, ofegava,
suspirava, chorava; e os seus seios duros quase estouravam de virgindade
e ansiedade de amar.
De resto, era preciso libertar-se, passear, conhecer a cidade, teatros,
cinemas... Ela não conhecia nada disso. Até ir de
um pulo à venda do "Seu" Nascimento não
tinha licença. Um dia, por inadvertência, faltou sal
para preparar o jantar; pois, nem mesmo assim, teve licença
de ir à venda, e sua mãe não foi, para não
deixá-la só. Tiveram que esperar uma hora, até
que o caixeiro passasse. Entretanto, o armazém do "Seu"
Nascimento não era mal freqüentado, e todos que lá
paravam eram pessoas de certa consideração e sem pecha
alguma. Esta última observação de Clara era
inteiramente verdadeira.
Mesmo a Rosalina, mais conhecida pelo apelido pejorativo de Mme.
Bacamarte, apesar da vida má e desgraçada que levava,
no armazém se portava com todo o rigor. Era verdadeiramente
infeliz, essa rapariga. Seduzida em tenra idade, a polícia
obrigou o sedutor a casar-se com ela. Nos três primeiros anos,
as coisas correram mais ou menos naturalmente. Ao fim deles, devido
a reveses, o marido começou a embirrar com ela, a atribuir-lhe
toda a sua desgraça, a espancá-la, mas dando alguma
coisa com que ela se sustentasse e aos filhos. Já bebia,
o marido dela; e, por esse tempo, fazia-o sem método nem
medida. Bebia a mais não poder, em casa, nos botequins, em
toda a parte. Faltava à oficina para beber. Rosalina "pegou"
o vício do marido e, do pouco dinheiro que ele lhe dava ou
com o seu trabalho obtinha, comprava parati. O marido devia seis
meses de casa - um modesto barracão de madeira, com uma sala,
um quarto e um pequeno adendo para a cozinha. O senhorio perseguia-o;
ele fugia e deixava com a mulher o encargo de explicar os atrasos.
Um belo dia, ela vê entrar o proprietário com dois
homens. Nada dizem. Encostam sua escada no telhado e destelham a
choupana. Deixou tudo o que tinha na mão dos desalmados.
Pede a uma vizinha que fique com um filho; e uma outra, que fique
com o mais moço, e correu a atirar-se debaixo do primeiro
trem que passou. Sofreu escoriações e fraturas em
um braço e uma perna; mas os médicos da Santa Casa
conseguiram salvá-la. Saiu renovada, e o seu rostinho de
mulatinha sapeca tinha recuperado um pouco o viço e a petulância
que devia ter pela puberdade.
Os filhos, a mãe - uma pobre lavadeira - os tinha recolhido;
e o marido nunca mais o vira. Em começo, portou-se bem; mas
bem depressa foi correndo de mão em mão, até
que as moléstias venéreas a tomaram de todo, obrigando-a
a visitas constantes à Santa Casa, para levar injeções
e sofrer operações. Proibida de beber, não
obedecia à prescrição médica. Quando
não tinha dinheiro, obtido de que maneira fosse, esperava
pacientemente que as suas galinhas ou as de sua mãe, com
quem morava, "pusessem", e logo corria à venda
a trocá-los, por duzentos ou trezentos réis de parati.
Ela, porém, não fazia "ponto" no armazém
do "Seu" Nascimento. Educado e criado na roça,
tendo negociado no interior do Estado do Rio, onde ainda tinha fazenda,
ele gostava que pessoas de certa ordem fossem ao seu negócio
ler os jornais e conversar - hábito do interior, como todos
sabemos. A sua venda tinha até aqueles tradicionais tamboretes
de abrir e fechar das antigas vendas e ainda são conservados
nos armazéns roceiros. Demais, a sua casa de negócio
ficava num lugar pitoresco, calmo, pouco transitado, diante das
velhas árvores da chácara de Mr. Quick Shays e olhando
para uns cumes caprichosos de montanhas distantes. Compravam muitas
pessoas, para as quais tinha freguesia certa.
Um deles era o Alípio, um tipo curioso de rapaz que, conquanto
pobre e ter amor à cachaça, não deixava de
ser delicado e conveniente de maneiras, gestos e palavras. Tinha
um aspecto de galo de briga; entretanto, estava longe de possuir
a ferocidade repugnante desses galos malaios de rinhadeiro, não
possuindo - convém saber-se - nenhuma. Sem ser instruído,
não era ignorante; mas era inteligente e curioso de invenções
e aperfeiçoamentos mecânicos.
O velho Valentim era um outro freqüentador da venda, muito
curioso e pitoresco. Português, com muito mais de sessenta
anos, não deixava de trabalhar, chovesse ou fizesse sol.
Era chacareiro e, devido talvez ao ofício, que ele o devia
exercer há bem perto de quarenta anos, tinha o corpo curvado
de modo interessante. Não se sabia se era para trás
ou para diante; fazia uma espécie de S, em que faltassem
as extremidades.
Contava longos "casos" que não se acabam mais,
especialmente o João de Calais - como ele pronunciava -,
pontilhando a sua longa e enfadonha narração, com
rifões portugueses de uma graça saborosa e uma filosofia
saloia. Era o que se aproveitava da sua conversa.
Aparecia, também, em certas ocasiões, o Leonardo Flores,
poeta, um verdadeiro poeta, que tivera o seu momento de celebridade
no Brasil inteiro e cuja influência havia sido grande na geração
de poetas que se lhe seguiram. Naquela época, porém,
devido ao álcool e desgostos íntimos, nos quais predominava
a loucura irremediável de um irmão, não era
mais que uma triste ruína de homem, amnésico, semi-imbecilizado,
a ponto de não poder seguir o fio da mais simples conversa.
Havia publicado cerca de dez volumes, dez sucessos, com os quais
todos ganharam dinheiro, menos ele, tanto assim que, muito pobremente,
ele, mulher e filhos agora viviam com o produto de uma mesquinha
aposentadoria sua, do governo federal.
Raro era sair, porque a mulher punha todo o esforço em que
ele o não fizesse. Mandava buscar parati, comprava-lhe os
jornais de sua estimação, a fim de que ele permanecesse
em casa. Às mais das vezes, ele obedecia; mas, em algumas
raras, recalcitrava, saía, com quinhentos réis em
cobre, na algibeira, bebia aqui, ali, dormia debaixo das árvores
das estradas e ruas pouco freqüentadas, e, mesmo, quando o
delírio alcoólico o tornava forte, despia-se todo
e gritava heroicamente numa doentia e vaidosa manifestação
de personalidade:
- Eu sou Leonardo Flores.
O povo sabia vagamente que ele tinha celebridade. Chamava-o - o
poeta. No começo, caçoava com ele, mas ao saber de
sua reputação, deram em cercá-lo de uma piedosa
curiosidade.
- Um homem desses acabar assim - que castigo! - dizia um.
- É "cosa" feita! Foi inveja da "inteligença"
dele! - dizia uma preta velha -. Gentes da nossa "cô"
não pode "tê inteligença"! Chega logo
os "marvado" e lá vai reza e "fêtiço",
"pa perdê" o homem - rematava a preta velha.
Aparecia um circunstante mais prático na sua piedade, vestia
novamente o poeta e levava-o para a casa.
Era justamente a ele, Leonardo Flores, que o doutor Meneses procurava,
quando, naquela manhã de dia santo e não feriado,
entrou na venda de "Seu" Nascimento, mancando, devido
à inchação das pernas, e com as suas barbas
brancas, abundantes, mas não cerradas, aparadas e tratadas
à imitação do nosso último Imperador.
O doutor Meneses galgou a soleira da porta com esforço; parou
um instante, logo que se viu no interior da venda, pôs as
mãos nas cadeiras e respirou com força.
Após os cumprimentos, perguntou:
- O Flores não tem aparecido?
- Há muito tempo que não vem aqui - fez o "Seu"
Nascimento do interior do balcão.
- Fui à casa dele, e disse-me a mulher que havia saído...
Preciso tanto dele...
Ao dizer isto, sentava-se no tamborete que o caixeiro lhe abrira
e o pusera onde ele estava, o dentista.
Descansou mais um pouco, sorveu mais uma forte dose de ar e, dirigindo-se
ao Alípio, perguntou:
- Como vai você, Alípio?
Só estavam na venda Alípio e o velho Valentim, este
em pé, encostado ao umbral de uma porta lateral; e aquele,
sentado, lendo um jornal.
Alípio respondeu:
- Vou bem; não tão bem como o senhor, que anda agora
em companhia de "almofadinhas" artistas.
- Como? - fez espantado o dentista particular.
- É o que dizem. Corre aqui que o senhor está toda
a noite com o mestre-violeiro Cassi e vários companheiros,
num botequim do Engenho Novo.
- É verdade. São todos rapazes decentes, que...
- Então, o Cassi, este é de colete?
- Dizem - interveio "Seu" Nascimento - que esse rapaz...
- É um bandido - acudiu Alípio. - Ele merecia mais
do que cadeia; merecia ser queimado vivo. Tem desgraçado
mais de dez moças e não sei quantas senhoras casadas.
- Isto é calúnia! - protestou Meneses. - Fala-se muito
por aí...
- Que o quê! Os processos têm corrido, os jornais têm
publicado, e ele arranja meios e modos para livrar-se das penalidades
e lançar na desgraça moças e senhoras - confirmou
Alípio.
- Como ele consegue isso? - indagou "Seu" Nascimento.
- No começo, com a proteção do pai. Ao fim
do segundo ou terceiro caso que veio a público, o pai não
lhe falou mais e nunca mais se interessou pela sua liberdade. Sucederam-se
outros, e, graças à intervenção da mãe
junto a um irmão, médico do Exército, ele pôde
arranjar rábulas sem escrúpulos, que, pelos meios
mais nojentos, conseguiram retirá-lo das grades da detenção.
Caluniava as vítimas com justificações em que
eram testemunhas Timbó, Arnaldo e outros tais. Contou-me
a Vicência - o senhor não a conhece, "Seu"
Nascimento? - perguntou Alípio.
- Quem é? - perguntou por sua vez o taberneiro.
- É aquela crioula velha que vem aqui, às vezes, fazer
compras, para a casa do Major Carvalho. Ela foi empregada na casa
do pai de Cassi muito tempo. Um dia - ela não sabe bem por
quê - o pai expulsou-o de casa. A mãe mandou-o para
a casa do irmão em Guaratiba. Lá, ele fez ou pretendeu
fazer uma das suas, mas o tio não esteve pelos autos; despachou-o
para a irmã. A muito custo, a mãe conseguiu que ficasse
num porão dos fundos, que mal tem a altura dele. Nesse "socavão"
é que ele mora e come. Nunca sobe nas dependências
superiores da casa, com medo do pai. Se, por acaso, este tiver notícia
dessa sua ousadia, põe-no definitivamente na rua.
- Que diz a isso, doutor Meneses? - chasqueou Nascimento.
- Não sei, porque pouco me preocupo com a vida dos outros
- tergiversou Meneses.
- Não é da vida dos outros - fez impetuosamente Alípio;
- é com a vida de um pirata como Cassi, que não respeita
família, nem amizades, nem a miséria, nem a pobreza,
para fazer das suas porcarias. É por isso que eu...
"Seu" Nascimento interveio suasoriamente e pediu calma.
Era um homem alto, claro, um tanto obeso, tipo do antigo agricultor
patriarcal, das nossas velhas fazendas. Ele assim disse:
- Não é necessário indignar-se, Alípio,
fique calmo. O monstro não tem mais protetores, como você
já disse.
- Tem, "Seu" Nascimento - afirmou Alípio. - Ele
é esperto, "é manata escovado".
- Quem é, Alípio? - perguntou Nascimento, indo servir
de açúcar a um pequeno.
Os fregueses continuavam a chegar; em geral, eram crianças
e mulheres. As suas compras eram pobres: dois tostões disso,
quatrocentos réis daquilo - compras de gente pobre, em que
raramente se via nelas incluído meio quilo de carne-seca
ou um de feijão. Tudo não excedia a tostões.
Mesmo atendendo aos fregueses, sozinho, pois os caixeiros tinham
ido correr a clientela fixa do armazém, "Seu" Nascimento
não perdia o fio da conversa, e ela continuava naturalmente.
Alípio, habituado a isso, não suspendeu a narração
e deu a resposta pedida.
- O protetor dele, agora, é um tal Capitão Barcelos,
chefe político na estação de***. Tem influência
e foi por saber disso que Cassi aderiu a ele. Já nessa última
eleição para uma vaga de intendente, ele funcionou
com o seu rancho ao lado de Barcelos. Não houve desordens,
porque não apareceu outro candidato; mas ele queria fazer
uma para ganhar prestígio. Assim e aos poucos, vai ganhando
a confiança de Barcelos, a ponto do Freitas, que é
o subcabo deste, sentir-se magoado e preterido.
- Quem é esse Barcelos? - fez Nascimento.
- É um português, já com os seus cinqüenta
anos, bom, bom mesmo; mas, tendo ido para a detenção,
pronunciado que estava devido a uns tiros que dera em um sujeito,
por lhe ter insultado a mulher, produzindo no meliante ferimentos
graves, isto há vinte anos, ganhou lá o gosto pela
política e lá aprendeu as primeiras noções
dessa difícil ciência. Foi na detenção
que...
- Ué! - exclamou Nascimento.
- Também você, Alípio... - fez duvidoso Meneses.
Alípio continuou:
- Lá, ele encontrou um político daqui da Capital,
que estava na chácara, a responder processo, como mandante
de um assassínio. O homem aproximou-se de Barcelos, e puseram-se
a conversar. Não estavam no cubículo; estavam na enfermaria,
ou na sala livre, ou em outro compartimento especial. Barcelos narrou
sua vida, que, apesar daquele transtorno, não corria mal.
Tinha uma venda em ***; vendia a dinheiro e a crédito, para
o operariado das fábricas lá existentes; mas era feliz,
pois, apesar de fazer muitos fiados, quase não os perdia.
Era até estimado, pelo seu gênio folgazão e
prestativo. O político, que tinha um chefete adversário,
naquela estação, viu bem como, para desbancá-lo,
podia aproveitar os serviços de Barcelos. "Você
por que não se mete na política?", disse ele
um dia. O vendeiro de *** respondeu: "Mas não sou brasileiro,
doutor." O seu alto companheiro de cárcere retrucou-lhe:
"Eu faço você brasileiro naturalizado, capitão
da Guarda Nacional, e você, nas eleições, trabalha
para mim e os meus. Trate logo de alistar o maior número
de fregueses que você puder." Barcelos assentiu, trabalhou
sempre para o tal político, por intermédio do qual
arranjou melhoramentos para o lugarejo, valorizando as suas terras
e prédios.
- Valeu a pena ir para a detenção!
- É verdade, "Seu" Nascimento. Daí, data
a pouca prosperidade de Barcelos, que possui perto de duzentos contos,
em casas, terrenos e apólices, afora o giro do negócio.
- Você, Alípio, se diz anarquista; mas o que você
é, é romancista. Isto é um romance - comentou
Meneses.
- Qual, doutor! O senhor é que não sabe como as coisas
se fazem. Eu sei. O senhor, por exemplo, não sabe que Timbó
levou uma surra de uma senhora que mora aqui perto? - Não
sei - respondeu Meneses.
Quase ao mesmo tempo, Nascimento perguntava:
- Quem é Timbó?
- É um mulatinho faceiro, jogador de football e companheiro
de Cassi, testemunha sempre escolhida para depor em seu favor, caluniando
as vítimas, nos seus imundos processos.
- Foi ele quem levou a surra? - indagou Nascimento.
- Sim; ele, na estação de Todos os Santos, após
uma perseguição ignóbil a Dona Margarida ...
- Que Dona Margarida? A do 74? - falou com surpresa Nascimento.
- Essa mesma. Deu-lhe de rijo com o guarda-chuva; e, quando ele
a quis desarmar, apareceu um cabra morrudo, que o pôs, pelas
orelhas, para fora da plataforma, donde saiu debaixo de vaia. Dos
companheiros de Cassi, o único perdoável é
o Zezé Mateus. Este não mexe com moça alguma,
com família de ninguém, não joga, não
faz desordem. Quer beber e bebe à sua custa, porque, quando
quer trabalhar, abandona a tudo e salda as suas dívidas.
Os mais são uns piratas!
Alípio calou-se, e os seus interlocutores não aventaram
nenhuma observação, a não ser o velho Valetim,
que havia ouvido toda a conversa, encostado ao portal de pedra,
fumando displicentemente o seu cigarro São Lourenço.
Ele perguntou, cheio da ingenuidade do campônio que fica sempre
na primeira aventura, das preferidas por Cassi:
- Mas, "Seu" Alípio, o senhor acredita que haja
gente tão malvada, como esse Cassi?
- Há, e não pouca. Sei de tudo que contei de fonte
limpa. É a pura verdade.
O doutor Meneses tinha ficado aborrecido com o tom da conversa.
Tinha ido à venda, procurar Leonardo Flores, para um negócio
particular; e encontrara o Alípio a par das suas relações
com Cassi e inteirado da vida deste. Diabo! Estaria se comprometendo?
Havia já tomado quatro copitos de parati; mas, quando se
despediu, tomou um grande. Caminhando pôs- se a pensar:
- Que devia fazer?
Pegou diversas hipóteses e concluiu:
- Ir até ao fim.
A coisa não oferecia nenhum perigo para ele...
Isso não o contentou de todo. Procurou distrair-se.
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